quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A PENHA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

O CAMINHO REAL DE SÃO PAULO

São Paulo, uma Província emergente, era marcada nas estradas por pequenas capelas e cruzes, lembranças dos viajantes que eram agradecidos por algum milagre de familiares que haviam sido beneficiado pelas graças dos céus e queria demonstrar todo o sentimento. Estes locais tornaram-se pontos de peregrinação onde louvores a Deus eram proclamados além do oferecimento de uma oração em louvor da alma que ali repousasse o corpo ao longo da estrada.
No século 16 já se conhecia o “Caminho da Penha” onde findava o Caminho Real que se iniciava a partir do Rio de Janeiro, sede de Capitânia do governo de Portugal. Todo viajante que se propunha em empreitada pela estrada pedia proteção divina, empunhando em sua comitiva uma imagem religiosa, sinônimo de proteção para a viagem.

BASÍLICA NOSSA SENHORA PENHA DE FRANÇA

Conta-se em oralidade transmitida em gerações, que um desses viajantes, nome perdido no tempo e espaço histórico, a caminho da longa jornada, viu-se muito cansado, armando sua tenda de descanso e depositando a imagem que levava consigo ao seu lado. Reza a oralidade que ao acordar sentiu falta da imagem e então começou a procurá-la voltando para o caminho anteriormente já percorrido, encontrando-a alojada em uma gruta, recolheu-a e assim continuou a jornada. Novamente necessitando pernoitar, após estafado dia, seguiu o ritual costumeiro, posando a imagem que o acompanhava a seu lado. Quando amanheceu o dia, repetiu-se o fato do dia anterior e ele assume a mesma postura retrocedendo no trajeto e eis que a imagem é encontrada no mesmo local anterior. Aquilo foi tomado pelo viajante como um fato semelhante a um aviso, algo que precisasse ser cumprido no local da gruta, assim o homem cumprindo os desígnios repousa sua acompanhante de jornada na gruta deste acontecimento, numa fenda aberta no “penhasco”, o que originou na localidade o termo Penha, e que por obra da imagem que portava ser a Senhora de França, pois a mesma santa já fazia parte do contexto religioso desde o século 15 e bem conhecido na Península Ibérica, pelos fatos ocorridos através do monge Frances Simão Vela, que originou a peregrinação para então “velar no rochedo”. Assim como fez o monge, fez o viajante tornando-se o local Nossa Senhora da Penha de França, e nela há uma simbologia da proteção da mãe com seu filho, para o livramento dos males que possam, por ventura, acontecer ao longo da empreitada que tenha que ser feita sem adiamento e a seus pés um réptil representa essa condição do perigo, e que esta aos pés da Santa que nos braços segura o filho. (por vezes um lagarto, outras um jacaré ou até uma serpente).

Existem referências na historiografia de penetração pela “Boca do Sertão” que remonta aos jesuítas que ousaram a formar núcleos de povoamento desde a subida triunfal da Serra do Mar, que culminou em formar as bases do que seria a se conformar com o Estado de São Paulo, que, aliás, possui uma infinidade de termos indígenas em suas determinações geográficas. Assim forma-se o povoamento dos Campos do Ururaí, proximidades do que hoje é o Tatuapé, que por sugestão do espanhol de Tenerife, padre José de Anchieta, passou a ser São Miguel de Ururaí, que aos poucos foi se tornado uma aldeia de índios catequizados que fazia parte de uma sesmaria cedida aos jesuítas e que se estendia numa grande gleba ate o Ribeirão de Ari-Candivai(Aricanduva[1])

MATRIZ:1682
Os bandeirantes seiscentistas se aproximavam destas aldeias da região para capturar mão de obra sem custo algum, na condição de preação e que por possuírem sesmarias nestas localidades como domingos leme e que fora recebida do capitão-mor (ou do mato!)Francisco da Fonseca Falcão em 1643, e que por tal motivo achava-se proprietário de tudo quanto havia no interior da sesmaria. Outro proprietário era Amador Bueno da Veiga que possuía gleba estendida de Guarulhos até a Penha, margeando sempre o rio Tietê. Havia conflitos inerentes aos interesses dos jesuítas E àqueles em relação aos bandeirantes quanto ao modelo de servir dos nativos, e vez ou outra se deflagravam guerras consideradas justas, para aprisionar os autóctones.
Assim a história da Cidade de São Paulo caminhava entre os limites das necessidades locais e do amparo religioso promovido pelos jesuítas que tentavam evitar a escravidão indígena traves da pregação. A imagem da Penha tornou-se referência de devoção da Província de São Paulo, tanto que em 1864 o governo provincial iniciou a construção da matriz no alto do cume do caminho da penha. Em fevereiro de 1667[2] por devoção no local foi edificada a Igreja Nossa Senhora da Penha (de França).

Em 15 de setembro de 1796 A Penha é elevada a Freguesia, numa área bem maior aos atuais domínios fazia parte dela os bairros atuais de Guaianases, São Miguel, Ermelino Matarazzo e Vila Matilde.
IRMANDADE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS DA FREGUESIA DA PENHA -16/06/1802

Em 1768 houve grande surto de varíola que assolou a Província de São Paulo. Por determinação da Câmara Municipal da Cidade, a edilidade enviou as autoridades eclesiásticas de então, requerimento formalizado requisitando que houvesse por bem decretar Nossa Senhora da Penha Padroeira da Cidade de São Paulo. Assim da data referida ate o ano de 1876 houve peregrinação da Igreja da Penha para a Catedral de São Paulo, sempre com cortejo festivo na data comemorativa da natividade da santa, ou seja, 8 de setembro.

Em 1822 o imperador do Brasil dom Pedro I, fixa toda sua comitiva vinda do Rio de Janeiro pela Estrada Real, nesta topografia de 800 metros acima do nível do mar, onde partiu a 14 de agosto chegando às imediações em 24 de agosto, em longa jornada exaustiva de 10 dias. A partir desse “ponto alto” os acontecimentos vão se desenrolar de tal maneira que duas semanas após a chegada a São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822, nas proximidades do riacho Ipiranga, distante uma légua a frente da Penha, é alterado o rumo da história da parte mais Atlântica do continente sul americano, e assim é proclamada a independência do Brasil, protegido pela Senhora da Gruta dos Viajantes, Penha.

A COLUNA SUSTENTÁVEL DA INDEPENDÊNCIA

A importância do local determinou que em 1909 a Matriz tornasse Santuário Mariano, com a denominação de Nossa Senhora da Penha de França. A antiga matriz datada como construção de 1682, passa a ser patrimônio de todo este contexto histórico, e a Basílica atual Nossa Senhora da Penha de França edificada como pedra fundamental em 1957, passa a condição de Basílica em 1982.

[1] Aricanduva: lugar onde há muitas palmeiras da espécie airi -ou brejaúva- (Ponciano, Levino. Bairros Paulistanos de A a Z. Editora Senac. São Paulo)
[2] Fontes citam também duas datas prováveis do fato: 1630 ou 1650

1 comentário:

Voz da Igreja disse...

Parabéns pela pesquisa! A História é sempre apaixonante. Como é bela nossa Penha, tão católica Penha...