segunda-feira, 13 de abril de 2015

João Dias, em Santo Amaro e o Bairro Jardim São Luiz /SP

Do Velho Caminho de Bois à Ligação com a Malha Viária da Cidade de São Paulo

Anteriormente ao grande fluxo de veículos da atualidade pela Avenida João Dias, transitavam apenas carroças atreladas a cavalos, onde seus donos mantinham toda relação comercial entre o interior e a cidade de São Paulo. 
"AVENIDA JOÃO DIAS" -DÉCADA DE 1930

Na década de 1950, fixaram-se muitos operários bairros em formação na localidade, tais como Capão Redondo, Vila das Belezas, Jardim São Luiz e outros tímidos núcleos habitacionais de onde a maioria se locomovia para o trabalho de bicicleta, meio de transporte muito usual à época, pela mesma pista da atual ciclovia do Rio Pinheiros, pois não havia as Marginais do rio, as Avenidas Nações Unidas, ou caminhando pela madrugada, onde a maioria da população colocava literalmente o pé na estrada, uma verdadeira legião em direção às várias indústrias localizadas em Santo Amaro e que se fixaram no pólo industrial da antiga “Villa” que possuía autonomia de município.
PONTE JOÃO DIAS -1960

O loteamento do Jardim São Luiz, entrada do primeiro bairro após a ponte do Rio Pinheiros vindo de Santo Amaro, foi inscrito sob o nº 36, no Registro de Imóveis da 11ª Circunscrição, conforme Decreto-Lei nº58, de 10 de dezembro de 1937, e Decreto n º 3079 de 15 de setembro 1938.

 Os ônibus coletivos eram raros, e a primeira empresa de ônibus a adentrar no Bairro do Jardim São Luiz no final da década de 1950 foi a "Viação Columbia", que fixou primeiramente seu “ponto final” próximo à "Capelinha Penhinha", no entroncamento da Avenida João Dias, antes uma trilha empoeirada que ligava o município de Itapecerica da Serra a Santo Amaro. Do lado oposto da Capelinha havia pequeno comércio local que abastecia a região, sendo o mais conhecido o Armazém do senhor Pedro Ferreira, onde se podia encontrar de gêneros alimentícios vendidos a granel à ferramentas agrícolas, onde atualmente se situa um posto de gasolina em frente ao supermercado Extra e a atacadista Assaí.

Do lado oposto havia poucas casas, simples, muitas delas feitas a sopapo, barro batido entre paus retorcidos entrelaçados de construção rudimentar. Neste local situava-se também a residência de Maria Coelho Aguiar, uma senhora que, pelos relatos perdeu a visão, e que depois de seu “passamento” seu nome tornou-se a denominação da antiga Avenida São Luiz, evitando assim confusões advindas da avenida de mesmo nome existente no centro de São Paulo e era "porta de entrada" do bairro Jardim São Luiz. Consta desta oralidade que ela ficava ao portão de sua casa cumprimentando os transeuntes que aguardavam transporte coletivo dos ônibus "esverdeados" da Empresa Emílio Guerra[1], que ligava Santo Amaro a Itapecerica da Serra e Cotia. A Avenida João Dias também foi palco do caminho das boiadas vindas da Fazenda Santa Gertrudes, do Frigorifico Santo Amaro, da família Eder.

CASA DA FAMÍLIA DIAS-CASTELINHO


Neste local na parte do morro, oposto à Capelinha, estava o "Cortume Dias" de família empreendedora que tratava couros de animais, curtindo-os em tambores giratórios em solução de água e ácidos, além de camurçados e pelegos que cobriam o lombo de equinos e muares. Mais tarde intensificaram a produção e começaram a fabricar tecidos oleados, precursora das lonas plásticas que na atualidade cobrem cargas de caminhões pelo Brasil afora. Esta empresa produzia ainda “percalinas”, tecido de algodão, leve e forte, usualmente de uma única cor e de superfície oleada e lustrosa. Eram as primeiras imitações de "pano couro", empregado, sobretudo em encadernações e estofamentos, o mais moderno de então para coberturas gerais. A fábrica foi gerenciada também por Plínio Rodrigues Dias, conhecido como Plininho, e seu irmão João Rodrigues Dias dando continuidade ao empreendedorismo dos percussores Antonio Dias da Silva, pai de Plínio e João Rodrigues Dias e de João Dias de Oliveira, avô, nome este que ficou registrado em homenagem aos préstimos de desenvolvimento na atual Avenida João Dias, em Santo Amaro.

* Vide breve relato sobre João Dias de Oliveira extraído do Dicionário de Ruas abaixo:

João Dias de Oliveira nasceu em Itapetininga, Estado de São Paulo, em 12 de julho de 1842. No Império foi agraciado por merecimentos civis, com carta patente de Alferes da 1ª Cia do batalhão de infantaria de Itapetininga. Na República foi nomeado por Floriano Peixoto, em 8 de março de 1893, Tenente Quartel Mestre do 112º batalhão de infantaria da guarda nacional do Estado de São Paulo. Em Santo Amaro onde se radicou em 1887, trouxe a primeira indústria de pólvora, foi várias vezes vereador Municipal, exerceu as funções de Inspetor Escolar. Foi o primeiro tesoureiro da primeira Diretoria da Santa Casa local, sucedeu o fundador da Santa Casa, Coronel Carlos da Silva Araujo, na provedoria. Faleceu em São Paulo, em 2 de maio de 1926.

GENEALOGIA DA FAMÍLIA DIAS

 As pioneiras do setor plástico pertenciam também aos santamarenses de costado da família Dias, com o nome de Plásticos York S/A, prédio que ainda resiste ao tempo entre as Avenidas Rio Branco e Rua Tenente Coronel Carlos Silva Araújo, ambas convergidas da Avenida João Dias. A empresa Dias & Cia Ltda formada pela  Estrella e Cortume (com grafia da época) era uma sociedade de João Dias de Oliveira com seu irmão Gabriel Dias de Oliveira, que em 1900 retornou a Sorocaba para tratamento de tuberculose, vindo  a falecer em 1902. Com o seu falecimento a sociedade foi desfeita, ficando a viúva de Gabriel, Raphaela Marciano da Silva Dias, com a fábrica situada na rua lateral do mercado velho, administrada pelo seu sobrinho e genro José Dias da Silva, irmão de Antonio Dias da Silva.

A empresa Plásticos York S/A foi sucessora da Dias & Cia. Ltda., que foi, mais tarde, adquirida pela família Cury. A empresa Dias & Cia Ltda., que possuía a unidade comercial na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo, foi vendida em maio de 1958, pelos filhos de José Dias da Silva(Juca), José Júnior, Gabriel, Ary, Paulo, Ana Cândida e Fernando Dias.

Plásticos York S/A - Rua Tenente Coronel Carlos Silva Araújo

O córrego estreito que corta o bairro do Jardim São Luiz e flui em direção ao Rio Pinheiros, pelo motivo citado tem a denominação de “Córrego do Cortume”.
FABRICAÇÃO DE PÓLVORA
TAMBORES DO "CORTUME"

Do lado do atual bairro Jardim São Francisco, existia também um paiol de pólvora da família Dias, com a produção voltada para a produção industrial de cartuchos variados, mas também fazia a alegria das festas religiosas com os fogueteiros da época disputando como especialistas de fogos de artifícios que rasgavam os céus noturnos, límpidos, com a criançada competindo quem mais recuperava as varetas que cortavam o “espaço estrelado” varando a noite festiva. Este local era um grande descampado ou de densa mata nativa, e as festas de outrora seriam coisas inimagináveis na atualidade.


Penhinha
A Capelinha da Penhinha foi assim denominada em alusão a Nossa Senhora da Penha, padroeira da cidade de São Paulo. Era ponto de peregrinação de muitos que vinham das cidades avizinhadas de Santo Amaro, e de muitos romeiros em direção a Pirapora do Bom Jesus que paravam da Capelinha da Penhinha, com suas charretes, aranhas, mulas e cavalos para uma oração de proteção a romaria.  Foi demolida em maio de 1973, dando lugar a ENPAVI, Engenharia de Pavimentação. Em seguida fixou-se no local o empreendimento náutico THE WAVES, mas teve pouca duração no local. Atualmente está edificado no terreno da antiga capela o supermercado Extra, pertencente atualmente ao grupo francês Casino.


Um dos sinos que integrava o campanário da Capelinha Penhinha, quando de sua demolição, foi enviado para a Paróquia São Luiz Gonzaga, localizada no bairro Jardim São Luiz, na Rua Antonio da Mata Junior, nº 80, onde faz parte do acervo religioso, podendo se ler na lateral do sino o nome do doador: “Fábrica Estrella”, referência industrial da família Dias, assim como a imagem de Nossa Senhora da Penha e que deu nome a localidade. 

Cada indústria localizada na região tinha a sua sirene de sonoridade característica diferenciada em cada uma delas, tocando em horários determinados, como que a chamar toda aquela massa do proletariado. Na Avenida João Dias havia a empresa Hoover, onde depois se fixou a Pial Legrand, de material elétrico. Do lado oposto situava-se a empresa Semp que hoje faz parte da estrutura japonesa Toshiba; e que teve parte de sua construção de alvenaria com tijolos fabricados nas olarias da família Grassmann, família tradicional e que por muito tempo residiu próximo ao atual terminal de ônibus João Dias. Na Avenida João Dias a referida família instalou também um posto de gasolina e mais ao centro da referida avenida existia a empresa “Requipe” de transporte e guindastes para cargas pesadas, próximo da atual faculdade Ítalo Brasileiro, onde do lado oposto ficava a garagem dos ônibus da Viação São Luiz, onde hoje está o depósito de matérias de construção Di Cicco S/A. 

Por algum tempo próximo a Bril Loid, ficava o 5º Tabelião e Cartório de Notas, no nº 2320, e no mesmo da avenida lado havia o clube da indústria Pirâmides Brasília S/A ou simplesmente Piraspuma nas imediações da Avenida João Dias, com sua produção fabril no bairro do Jardim São Luiz. Na atualidade situa-se a escola infanto-juvenil do Corinthians, onde há grande interesse imobiliário pela área.
O Esporte Clube Benfica, fundado em 1934, ficava também na Avenida João Dias, dando lugar mais tarde a empresa Filtrona. Campeonatos por toda a região não faltavam e aos domingos afluíam pessoas a assistirem os festivais promovidos entre grandes equipes, localizadas antes ou depois do Rio Pinheiros onde estava o campo do Continental que na atualidade são os barracões do departamento de trânsito de região sul, onde era o início da Estrada (velha) do Morumbi, início da Rua Itapaiúna, no costado da Chácara Tangará, do industrial Baby Pignatari.

O laboratório Squibb por várias décadas fez parte do cenário da Avenida João Dias e era orgulho pertencer ao quadro de funcionários de tão conceituada empresa. Posteriormente abrigou atividades da empresa Prodotti Laboratório Farmacêutico, depois foi totalmente demolida para futuramente serem implantados neste local conjuntos imobiliários, aguardando a descontaminação química total do terreno.

Próximo ao Clube Hípico de Santo Amaro, uma referência importante de Santo Amaro, separados pela Rua Visconde de Taunay fica a Biblioteca Municipal Prestes Maia, que já foi denominada de Presidente Kennedy, (decreto de alteração nº 46. 434, de outubro de 2005) que financiou parte dos recursos para sua instalação ocorrida em 1965, em uma aproximação com as relações internacionais do programa Aliança para o Progresso, sendo prefeito de Santo Amaro, Fernando Scalamandré Junior. Do lado oposto á biblioteca, na Praça Dr. Francisco Ferreira Lopes encontra-se a antigo Mercado Municipal de Santo Amaro.

No início da década de 1960 chegaram os primeiros ônibus da Viação São Luiz, que montou o galpão da garagem na esquina da Avenida João Dias, número 1713, galpão este ainda em atividade como depósito de materiais de construção da família Di Cicco. Suas atividades abrangiam os bairros do Capão Redondo, Jardim São Luiz, Vila das Belezas, Valo Velho até Santo Amaro e depois com o Centro da Cidade. Esta empresa de ônibus se transferiu depois para o início da Avenida Giovanni Gronchi, mudando a razão social para Viação Campo Belo, fazendo parte do Consórcio Sete, idealizado pelo sistema de Transporte Metropolitano de São Paulo, SPTrans. Na atualidade o Grupo Ruas, detentora do consórcio 7, mantém boa parte da frota que liga o extremo sul ao centro da cidade de São Paulo em sua atual garagem situada na Avenida Carlos Lacerda, nº 2551.

A Kodak adquiriu na Rua Cel. Luís Barroso, frontal a Praça Adão Helfenstein, na Avenida João Dias, a empresa fabricante de material fotográfico de Conrado Wessel, a única na América Latina a fabricar papel especial para o ramo de fotografia no período da segunda guerra por um bom tempo se tornou a Faculdade Radial, na atualidade Faculdade Sumaré.

Muitos outros empreendimentos ocorreram ao longo da história da referida avenida, no tempo e espaço do foi parte da trilha do Caminho de Carros de Boi, ligando Santo Amaro à capital paulista, para abastecimento de produtos agrícolas locais, na atualidade possui novos trilhos no caminho, pelo prolongamento da linha 5 do metrô, saindo do Capão Redondo atravessando a Avenida João Dias em direção ao Largo Treze de Maio e que breve terá prolongamento até a Chácara Klabin.


Considerações:

Se escrito foi, relatado está por várias vozes que ecoaram e foram confrontadas para extração daquilo que eram relatos assemelhados! Há muita coisa ainda a ser relatada e isto é apenas fração sem dúvida incompleta, pois não há como recuperar o conjunto integral da história, mas somente alguma parte de um todo, e que outras pessoas possam abrilhantar ainda mais com novos depoimentos, aguardando sempre a crítica da crônica.





Vide:

SEMP Rádio e Televisão: FINAL DE UM MARCO INDUSTRIAL EM SANTO AMARO/SÃO PAULO

AS INDÚSTRIAS E A DESINDUSTRIALIZAÇÃO EM SANTO AMARO


O Espólio de Pignatari: Chácara Tangará


Baby Pignatari e Nelita Alves de Lima: Fundação Julita(Jardim São Luiz)


Referências:

Compromisso de Compra e Venda da Sociedade Paulistana de Terrenos, do lote 11, da quadra 44, da Rua Octacílio de Carvalho Lopes, Jardim São Luiz.

Contribuição da genealogia familiar e informações sobre João Dias: JOSE LUIZ MORAES DIAS.

CALDEIRA, João Netto. Álbum de Santo Amaro. São Paulo: Org. Cruzeiro do Sul, Bentivegna & Netto, 1935. p. 188 a 191; 200, 201




[1] *Emílio Guerra foi pioneiro do transporte coletivo ligando a região Itapecerica da Serra a Santo Amaro. Tornou-se intendente da cidade de Cotia de 1964 a 1969.

3 comentários:

Rosangela moraes disse...

Parabéns por descrever detalhatamente algumas das histórias dessa região de São Paulo. Sou morador e gosto do local. Ao saber sobre algumas postagens fotográficas, fiquei supreso ao ver o acervo raro que se tem. Assim, o contexto exclusivo da história local poderá ser contada àqueles que se interessarem.

Crisogono Martins disse...

Parabéns pela descrição, trabalhei quando menino na Ind. de Oleados Plínio Rodrigues Dias por dois anos e conformo seus escritos, pois ouvia os mais idosos comentarem. Vi ainda em vida a D. Maria Coelho que era deficiente visual, vi muitas vezes o sr Emílio Guerra e, não me lembro o nome, daquela que linda moça, que foi a musa inspiradoura do nome da Vila das Belezas que, embora já idosa, ainda conservava toda formosura, veio a falecer em 1970.

Marco Soares disse...

Temos nossa família Dias em Casa Branca interior do Estado de São Paulo.
Marco Silvério Soares.