segunda-feira, 26 de julho de 2010

RELEVÂNCIA HISTÓRICA DA REPRESA E DO MONUMENTO DE GUARAPIRANGA

Oralidade dos Fatos: SUJEITO E OBJETO

Numa linha de investigação cientifica debatemos com obstáculos que escondem reais momentos históricos. A oralidade permanente transmitida por gerações, sendo o primeiro modelo de conservação da história, evidentemente anterior a escrita, passando através de gerações, recolhida do fato pela tradição no tempo e no espaço. Muito hoje é refletido como fonte de pesquisa acadêmica entre povos autóctones que não conheceram a escrita, mas mantiveram vivas suas raízes originais.

Quando buscamos o saber deste conhecimento histórico, e somente o homem detém este legado, recolhem-se fragmentos dos fatos úteis da existência humana. Há em tudo isto o sujeito e o objeto a ser estudado que compete ao agente investigador recolher as “tragédias ou farsas” que culminaram com o processo. Este agente não tem a competência do julgamento, mas sim recolher o maior número de sucedâneos que originou uma transformação; não se reserva na busca do furo jornalístico, formalismo momentâneo e impactante, da ansiedade dos bastidores do imediatismo, mas um incessante compromisso que denota algo duradouro perpetuado na história humana.

Há nisto um comprometimento de ações, por vezes, não verdades absolutas onde o sujeito e o objeto se confundem, e requer pesquisa metodológica, buscando considerações do porquê de determinado momento histórico. Um critério é se aproximar das raízes da oralidade e de seus conhecedores. Evidente que a ação do tempo pode deixar vestígios mínimos que uma “arqueologia” histórica deve delinear os fatos por suas camadas existentes.
No hodierno estamos diante de recolhimento da oralidade da Capela do Socorro, parte da estrutura geográfica de um antigo município de São Paulo, hoje um distrito populoso, Santo Amaro[1]. Na década de 20, do século 20, ainda era um local insipiente, mas que foi aos poucos cativando pelas suas belezas naturais de verdadeiras “praias” costeiras e turísticas, a Riviera Paulista, onde se construiu as represas Billings e Guarapiranga, esta última antes denominada Represa Velha ou Represa de Santo Amaro. Um local pontuado no mapa de São Paulo de relevância geradora de energia elétrica e depois, a partir de 1928, servindo de abastecimento hídrico para a cidade. Evidentemente que com a expansão da cidade abriu suas margens a ocupação sem um plano diretor distinto as importância requerida de preservação e a ocupação territorial que não respeitou critérios por muito tempo denunciados. Muitos depoentes são críticos quanto a fato, e parece existir unanimidade em demonstrar a falta de saneamento básico para conservação local.

A represa de Guarapiranga dividida por lagos originado pelo represamento do rio que lhe originou o nome, foi elaborado pela empresa canadense Light de 1906 a 1909. Possui(a) uma área de 34 mil quilômetros quadrados e um perímetro de 85 quilômetros com variações de profundidades chegando próximo dos 15 metros, que devido ao assoreamento constante de suas margens, por perda de matas nativas, estão diluindo esta margem às condições gritantes quanto a sua capacidade de reservatório. Muitas veias de irrigação deste local são abastecidos por mais de 30 pequenos e médios córregos como o Guavirutuba, M’Boi Mirim e Guaçu, Rio Bonito, Rio das Pedras, Tanquinho, Itupu, Parelheiros, enfim tantos quanto fazem parte constante da manutenção da beleza natural e artificial do lugar, que também atraíram praticantes esportistas e um laser que refletiu no cotidiano local, uma “praia” de encantos. Já em sua conclusão aficionados a náutica deslocavam-se para a prática de vela, como BERT GREENWOOD, superindendente da Mappin Stores, depois comodoro do Sailing Club, clube da comunidade britânica fundado em 1917, que com barco artesanal das estruturados encaixotamentos de madeira de mercadorias importadas fabricou seu barco com dois mastros e seis metros de comprimento e iniciava desta modo o velejar no São Paulo Yacht Club, tornou-se, mais tarde, primeiro presidente da Federação de Vela do Estado de São Paulo. Grandes campeões do iatismo se serviram do local para treinamentos e ganharam projeção internacional como JOERG BRUDER, muitas vezes campeão brasileiro e sul-americano pelo Yatch Club Paulista, velejador da Represa de Guarapiranga, sendo perpetuado seu nome no Centro esportivo Municipal de Santo Amaro e ROBERT SCHEIDT, que pelo Yacht Club Santo Amaro tornou-se campeão olímpico a partir de 1968.

Outros se serviram da represa para modalidades aéreas como BABY PIGNATARI, da família Matarazzo, proprietário da Chácara Tangará, hoje parque municipal Burle Marx, com administração privada, aproveitava-se do espaço aéreo da década de 40 para os seus aviões Paulistinhas, um sucesso comercial de então. As atrações sucedâneas atraíram adeptos que se serviam da represa com hidroaviões para pouso e decolagem. Assim em 1927 dois aviadores amerissaram na represa de Guarapiranga, o tenente-coronel e chefe do Estado Maior do Comando Geral da Aeronáutica da Itália, Francesco De Pinedo com seu hidroavião “Santa Maria”, e o comandante aviador brasileiro João Ribeiro de Barros, com o antigo “Alcione”, rebatizado JAHÚ, homenageando sua terra natal, independentes com tripulação de navegação aérea, completavam o sonho de muitos outros renomados aviadores (Gago Coutinho e Sacadura Cabral, lograram êxito parcial em 1922 com suporte naval de apoio) e aportaram deste modo na represa de Guarapiranga.
Há nesta citação o fato histórico incontestável e expressivo que foi considerado o marco da aviação comercial entre dois continentes separados pelo Mar Tenebroso, o Oceano Atlântico e esta as urdiduras do tecido histórico na Represa de Santo Amaro.


(Na foto o comandante Joaõ Ribeiro de Barros é o 6º da esquerda para a direita e logo em seguida o prefeito anfitrião Isaías Branco de Araujo)

Em depoimento ao jornal Gazeta de Santo Amaro, de 10 de novembro de 1960, Isaias Branco de Araujo, prefeito de Santo Amaro de 1917 a 1928, na época município do estado de São Paulo declarava no subtítulo “De Pinedo e Conde Matarazzo”:

“Recepcionei De Pinedo quando desceu com o Jaú na represa. Em homenagem ao grande aviador, dei o nome à avenida do bairro do Socorro. Quando o Conde Matarazzo, em nome da colônia italiana, veio a esta cidade tratar do monumento na represa em honra ao aviador, foi por mim recebido. Inicialmente a Light deu contra; a meu pedido consentiu que a estátua fosse colocada onde está, até hoje”


Faz-se jus louvores ao digníssimo homem público de realizações inestimáveis a Santo Amaro, mas quando do depoimento jornalístico, ele já estava afastado da vida pública e cometeu-se neste fragmento jornalístico alguns deslizes que parecem necessários citar:

Os dois aviões semelhantes na forma pertenciam a mesma empresa construtora da aeronave e era ambos Savoia Marchetti, com algumas ressalvas de potência nos motores duplos, em V, de 12 cilindros, Isotta Fraschini, ambos eram, pela óptica do leigo, o mesmo hidroavião, logo foi recepcionado o comandante João Ribeiro de Barros, proprietário do hidroavião Jahú e não (Francesco) De Pinedo.

O fato tem sua relevância quanto às questões da vinda do ilustre industrial Francesco Matarazzo a Santo Amaro conversar sobre o monumento aos aviadores da travessia do Atlântico, e a surpresa da negação, a principio, da empresa canadense “Light & Power”, que o vulto do maior empresário de então reforçado com o pedido do prefeito Isaias Branco de Araujo, convenceu-se da importância histórica do Monumento.

Logicamente, quando do depoimento, o "Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico" ainda não havia sofrido o esbulho[2] de 1987, por parte do governo municipal, que em 2010 recupera-se ao local da Represa de Guarapiranga, através de reintegração de posse, o que sempre foi por direito objeto do litígio e indignação popular antiga, agora reparado.

[1] SUPERFÍCIES COMPARATIVAS:
*MUNICIPIO DE SÃO PAULO SEC.21: 1523 QUILOMETROS QUADRADOS
*MUNICIPIO DE SANTO AMARO ATÉ 1935: 640 QUILOMETROS QUADRADOS COM ABRANGÊNCIA DESDE O CORREGO DA TRAIÇÃO (HOJE APROX. RUA TEXAS, BROOKLIN) ATÉ DIVISA COM ITANHAÉM, MONGANGUÁ E SÃO VICENTE (Serra do Mar)*DISTRITO DE SANTO AMARO SEC.21: 15,60 QUILOMETROS QUADRADOS

[2] Esbulho: Retirada forçada do bem de seu legítimo possuidor, que pode se dar violenta ou clandestinamente. O possuidor esbulhado tem o direito de ter a posse de seu bem restituída utilizando-se, de atos de defesa que não transcendam o indispensável à restituição. O possuidor também poderá valer-se da ação de reintegração de posse para ter seu bem restituído.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Monumento aos Aviadores foi passear e não voltou: Furto, Roubo ou Seqüestro em 1987?

Furto, Roubo ou Seqüestro do Monumento aos Aviadores da Represa de Guarapiranga em 1987.
Quais das três transgressões ocorreram à época?

1) Furtar: Ato de ocultar dissimuladamente.

2) Roubar: Apropriar-se de algo, de modo enganoso. Agir desonestamente, ou de modo a prejudicar alguém.

3) Seqüestrar: Desviar da rota mediante violência.
 
Algumas considerações se fazem necessário quanto ao momento histórico, e algumas citações em “De Pinedo foi passear e não voltou” de 1987, se trata de matéria jornalística e não um documento histórico, logicamente respeitando-se reportagem como fonte do fato midiático de então.

Antes se deve colocar uma posição quanto a monumento e estátua que pode ser revisto em:




Não nos esqueçamos também de João Ribeiro de Barros!
 
Faz-se necessário também citar o comandante brasileiro João Ribeiro de Barros, natural da cidade de Jaú, São Paulo, que ousou tanto quanto De Pinedo para completar o reide em 1927, e deve ser sempre lembrado, com as honras merecidas tanto quanto a tripulação, tenente aviador da Força Pública do Estado de São Paulo, João Negrão, pelo navegador capitão da Aviação Militar Newton Braga e pelo mecânico Vasco Cinquini que completou a heróica trajetória, culminado na Represa de Santo Amaro, Guarapiranga.

Os conflitos para que os brasileiros não completassem o feito eram constantes indo ao exagero de interferências diplomáticas por declarações co-piloto do avião, Arthur Cunha, (depois substituido por João Negrão) que chegando a Lisboa, critica os seus companheiros e os desacredita, o que provoca reação imediata de Washington Luis, então Presidente do Brasil, envia um telegrama ao Comandante Barros solicitando-lhe que desistisse de tão arriscado vôo, inclusive para reduzir o impacto causado pelas declarações de Artur Cunha, evitando assim incidências de problemas diplomáticos com a Europa.

Indignado, e não tendo recebido qualquer ajuda do governo, o Comandante sente-se insultado e responde ao Presidente: "Cuide das obrigações de seu cargo, e não se meta em assuntos que não entende e onde não foi chamado"
Início da epopéia do JAHÚ: Lago Maggiore, também chamado de Lago de Locarno ou Verbano, o segundo da Itália em superfície.

Travessia do Atlântico: O ESTADO DE SÃO PAULO 29/4/1927
Na madrugada de 28 de abril de 1927, voando a uma velocidade de 190 km/h, um recorde absoluto, o hidroavião Jahú, depois de 12 horas no ar, pousou no mar, próximo a Fernando de Noronha. Estava concluída a primeira travessia aérea do Atlântico sem esquadra de apoio, feita pelo comandante João Ribeiro de Barros e sua tripulação.
A equipe do Jahú levou a cabo o raide, maratona entre Gênova e São Paulo, com escalas em Gibraltar, Las Palmas, Cabo Verde, Porto Praia, Fernando de Noronha, Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos, alcançando finalmente a represa de Santo Amaro (Guarapiranga) no dia 2 de agosto de 1927, concretizando assim a sua árdua missão após ter coberto um percurso de 9.795 quilômetros em 57 horas e 3 minutos de vôo, completando a epopéia do Atlântico.

Reportagem jornalística "GAZETA DE SANTO AMARO de 05 de setembro de 1987:
De Pinedo foi passear e não voltou

 "Recentemente, a estátua de Pinedo, foi retirada de seu local original, próximo a represa de Guarapiranga para ser restaurada. No entanto, na verdade, foi transferida para outro local. Esta sendo instalada em frente à Igreja Nossa Senhora do Brasil, na praça do mesmo nome, no Jardim Europa.
A retirada da estátua da av. De Pinedo causou grande insatisfação nos moradores da região. O monumento, além de evocar um acontecimento histórico, tinha um significado especial para o povo santamarense. Tradicionalmente, fazia parte da imagem do principal ponto turístico da zona sul, compondo com ele um quadro de perfeito equilíbrio.
Os jornais diários desta semana aventaram as conotações fascistas dos símbolos contidos na estátua. Sem dúvida a política de Mussolini na Itália, durante a segunda guerra, é uma página virada da história que todos querem esquecer. Entretanto existe um componente muito mais importante que a simbologia existente nos elementos contidos na estátua. Afinal, o Brasil da época, politicamente não ficava muito longe das ideologias totalitárias e nacionalistas. Nacionalismo exagerado era próprio desse período em boa parte do mundo.

O componente é o símbolo gerado pelo fato histórico em si. Símbolo da força do homem vencendo desafios. Independente de ideologias. Pura e simplesmente o fato. Lugar nenhum é melhor do que a represa de Guarapiranga. Foi lá que Francesco De Pinedo, general, pura contingência da época, acompanhado de Carlo Del Prete e o mecânico Vitale Zachetti, desceu a bordo de um hidroavião após atravessar o Atlântico.

O ato heróico, fato histórico, no local de sua ocorrência. E se um dia resolverem mudar o monumento do Ipiranga para a praça da Sé? A comparação é apropriada. Com as devidas proporções foi o que aconteceu".

Diante disto cuida-se que haja o restauro por completo, não apenas transportar o “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico” como simples artefato de montagem. Trata-se de memória histórica que as egrégias autoridades municipais não fazem mais do que sua obrigação devolver o Monumento, afinal foram eles que arrebataram-no de seu local original, não importa qual modelo de governo o fez, quem se compromete a dirigir um órgão qualquer, assume compromissos anteriores. Não se furta um povo de seus direitos por simples capricho de seus representantes, que documentam firmando em gabinetes lacônicos “cumpra-se”. Há de se respeitar direitos antes de assumirem deveres administrativos. É antes de tudo uma correção aos desmandos, não é um favor, mais uma obrigação do poder!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

METRÔ DE SANTO AMARO NO SÉCULO 20 E O INTERESSE DO FUTEBOL NO SÉCULO 21

ELABORAÇÃO DE PROJETO HÁ 46 ANOS: UM FATO IMPRESSIONANTEMENTE ATUAL!!!

1) INICIADAS OBRAS DO METRÔ[1]

No decorrer desta semana a população santamarense viu o início das demolições do Largo 13 de Maio. Muitas indagações, muitos espantos e descréditos foram ouvidos. Mas, as obras da faixa do metrô tiveram inicio em ritmo acelerado no tocante as demolições e aterros, sem dar ainda uma idéia de como será o tão desejado e necessário metrô.
O aproveitamento da Avenida Vereador José Diniz[2] e outras artérias para o metrô é a idéia inicial dos técnicos. Mas como será ainda, não nos foi possível tomar informações junto aos órgãos encarregados da obra, dado o volume dos estudos.

2) METRÔ DA LINHA SUL VAI TRANSPORTAR 105 MILHÕES[3]
ESTAÇÃO VAI TER LOJAS E VITRINES

A estação do “subway” em Santo Amaro será no Largo 13 de Maio e sua área se estenderá à Rua Voluntário Delmiro Sampaio. Ampla, com lojas e vitrines, terá a profundidade de 10 metros abaixo do nível do solo. Um saguão medindo20 metros de largura por 100 metros de comprimento será a última etapa da linha de Santo Amaro. Há, contudo, projeto no sentido do metrô atingir a av. Marginal. Confirmada a hipótese, será construída uma estação conjunta da CPTM[4] e do metrô, que poderá recolher os passageiros de Interlagos, Parelheiros, etc.

CUSTO
De acordo com o projeto, o metropolitano paulista não será dos mais caros. A linha sul não apresenta dificuldades especiais, a única obra importante, no seu curso, é o túnel do Paraíso.

MATERIAL RODANTE
Muito embora ainda não esteja definitivamente assentado, o metrô paulistano deverá usar vagões (8 em cada composição) equivalente a 135 metros.
LINHA SUL VAI SER PRIMEIRA
De acordo com o projeto a primeira linha recomendada é a de santo amaro e o que poderá ser resolvida e iniciada mesmo sem a fixação do tipo do metropolitano, a sua construção esta prevista em um ou dois anos.

Indagações deste missivista:

O que houve com o projeto original?
Para tudo que é elaborado como projeto é necessária verba! O que aconteceu com a verba antiga, e por que a obra parou?
Quem eram as empreiteiras?
Houve desapropriações?
O lobby dos transportes coletivos à época influenciou a não concretização da obra?
Qual a participação política à época neste caso?
Qual o prejuízo para Santo Amaro?

Mas, hoje devido à “vontade política” e do setor imobiliário abarcada pelas empreiteiras, loteadas por empresários vinculados ao poder, interessados na modernização das grandes capitais visando interesses do “ópio do povo”, o futebol, esta “maravilha” que nos faz esquecer as misérias humanas construídas, vamos disponibilizar alguns “bilhares” (na jogatina) de dólares para fomentar interesses privados; e que venha o trem-bala deixando-nos novamente obsoletos na história!!!
Uma última questão:
Por que vinculam o Hino Nacional aos interesses da nação nos campos de futebol?
É por causa dos investimentos no setor, obrigados por uma federação internacional, que obriga os ditames reguladores do enobrecimento, escondendo as reais necessidades dos povos?
Notas:

[1] Matéria de 18 de junho de 1964, do Jornal Gazeta de Santo Amaro
[2] Denominação atual da antiga Avenida Conselheiro Rodrigues Alves
[3] Matéria de 22 de março de 1963, do Jornal Gazeta de Santo Amaro
[4] Leia-se “Sorocabana”, antiga linha de trem que servia a localidade; no hodierno CPTM

sexta-feira, 9 de julho de 2010

“MONUMENTO É DOCUMENTO”: DOIS MOMENTOS HISTÓRICOS

O Avião Savoia-Marchetti S 55: da Travessia do Atlântico, em 1927, ao Bombardeio de São Paulo, em 1932. Quem sou? Sou um MONUMENTO e muito REPRESENTO!!!

Não irei dissertar sobre mim, pois muitos já o fizeram, e há inúmeros trabalhos sobre o feito ocorrido, para eu representar o que hoje sou!!!

Meu nome: “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”. As autoridades já me chamaram de "fascista", a mídia alcunhou-me de "estátua", e até "totem", mas meus braços "são asas" e representam a monumental liberdade! Atravessaram um oceano imenso, correram riscos enormes para eu fazer parte da história da aviação nos nomes de Francesco De Pinedo e João Ribeiro De Barros, pilotando aviões Savoia-Marchetti S55 e eu fui erigido para representar esse momento histórico!Estou voltando da Praça Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, e serei recolocado de onde eu nunca deveria ter saído, no Parque Barragem, próximo a Represa de Guarapiranga; sem muita pompa, transportado em amarras rudimentares, lançado em jateamento de bombardeios de granalhas de aço sujas que mal me limparam, onde as bombas químicas não fizeram o efeito merecido, e o azinhavre, de tom corrosivo verde do bronze, permanece em meu corpo assim como o frio granito que me sustenta, sem contar a peça lapidada do capitel compósito, que completa minha estrutura juntamente com o fuste romano, que será reposta sem merecidos cuidados.
A "CIDADE DE SANTO AMARO" E A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA
O município de Santo Amaro, promissora cidade do interior paulista, detentora de recursos hídricos da Represa de Guarapiranga, em franca expansão, preparava-se para comemorar seu centenário a 10 de julho de 1932, quando a Revolução Constitucionalista eclodiu, exigindo cancelamento dos festejos. Da vestimenta de gala mudou-se repentinamente para o caqui do uniforme e os santamarenses foram se debater como Voluntários por São Paulo, que lutou bravamente até haver acordo entre constitucionalistas e legalistas. Com a intervenção federal de Armando Salles Oliveira, pelo decreto 6988, expedido em 22 de fevereiro de 1935, Santo Amaro perdia sua autonomia política e administrativa.
Voluntários em frente à Prefeitura Municipal de Santo Amaro
REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932: IDEAIS DEMOCRÁTICOS

Mas hoje é o dia da comemoração da "Guerra Paulista", da "Revolução Constitucionalista de 1932", nomes do movimento armado ocorrido no Brasil deflagrada de 9 de julho a 4 de outubro de 1932. Para homenagear e preservar a memória foi edificado o “Obelisco de São Paulo”[1], onde há cenas bíblicas e passagens da história paulista feitas com pastilhas de mosaico veneziano.
O projeto é do escultor ítalo-brasileiro Galileo Ugo Emendabili, que chegou ao Brasil em 1923, aos 34 anos de idade, contrário ao autoritarismo em seu país, a Itália. É o maior Monumento da cidade e tem 72 metros de altura, sendo um monumento funerário brasileiro localizado no Parque do Ibirapuera, São Paulo onde repousam os corpos dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo[2], primeiros que tombaram durante a Revolução de 1932 e de outros ex-combatentes que se eternizaram lutando pelos ideais democráticos contra a afronta do governo autoritário de Getúlio Vargas, resultando após o conflito na promulgação em 16 de julho de 1934, uma nova constituição nacional "para organizar um regime democrático,que assegure à Nação, a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico", conforme seu preâmbulo.O Obelisco paulista possui detalhes que elucidam a data:

São 9 degraus que conduzem à cripta do Monumento; a altura do Obelisco da base até o topo é de 72 metros (7+2 =9) e da cripta até o topo a distância é de 81 metros (8+1=9 e 9x9=81). A soma de aritmética também é curiosa: 7+2+8+1=18 (1+8=9). A simbologia também está presente no desenho do gramado ao redor do Monumento, que possui área de 1.932 metros quadrados e forma um coração onde está fincada a espada, símbolo do Obelisco, que sagrou a vitória política, apesar da derrota militar dos paulistas.
SÃO PAULO: ÚNICA CIDADE DO BRASIL A SOFRER BOMBARDEIO AÉREO!

"Três dias após o rompimento das hostilidades, os primeiros navios da Marinha chegam às costas de São Paulo, iniciando o bloqueio do porto de Santos. Para o apoio a esses navios e a outros que a eles se juntariam, nesse mesmo dia, três Savoia-Marchetti S 55 e dois Martin PM deslocaram-se para Vila Bela, na Ilha de São Sebastião. Além das missões de apoio aéreo às unidades navais, era intenção da Marinha empregar os aviões acima, juntamente com quatro Vought 02U-2A Corsair, em ataques a alvos terrestres. Os Corsair na configuração flutuadores operavam do Galeão, por ser tecnicamente contra-indicado fazê-lo ao largo de Vila Bela, o que levou a Marinha a aumentar o campo de pouso da ilha e utilizar a configuração rodas, a fim de poder operá-los mais próximo da área de combate, fazendo o patrulhamento da costa paulista entre Santos e Parati. Para reforçar a Aviação Militar desdobrada no Vale do Paraíba, dois aviões Corsair permaneceram regularmente em alerta no Galeão, enquanto os outros dois apoiavam as unidades navais, partindo do campo de Vila Bela, já com novas dimensões.
No dia 27 de julho, estes últimos receberam a missão de escoltar um Martin PM e dois Savoia Marchetti S-55 no ataque às instalações da Light em São Paulo, mas a missão foi abortada. No dia seguinte nova tentativa de ataque a Cubatão, também sem sucesso, por conta de precárias condições atmosféricas sobre o alvo. A terceira tentativa, no dia 29, com um Savoia Marchetti e um Corsair foi positiva quanto ao ataque, mas os resultados do bombardeio foram insignificantes".
(Cambeses Júnior, Manuel. O Emprego do Avião na Revolução Constitucionalista de 1932. Instituto Histórico e Cultural da Aeronáutica, p. 14-15) Savoia-Marchetti S55
Martin PM

Vought 02U-2A Corsair

As Lápides que representam Momentos importantes de São Paulo jazem como que a contemplar a história humana, mesmo quando os homens esquecem-se de “seu” passado, e, mesmo que isso ocorra, este “NOVE DE JULHO DE 2010” é lembrança da "Epopéia Paulista" e faz parte da história do Brasil!

Referências Bibliográficas:

SILVA, Hélio – 1932. A Guerra Paulista. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976, 2ª ed.

RODRIGUES, Sylas - Gaviões de Penacho, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Cultural da Aeronáutica, 2000.

ANDRADE NETO, Manoel Cândido de . Bastidores da Revolução Constitucionalista.
Rio de Janeiro, Estandarte, 1995.

WANDERLEY, Nelson Freire Lavenère. História da Força Aérea Brasileira. Rio de Janeiro, Ministério da AERONÁUTICA, 1974.

DONATO, Hernani. A Revolução de 1932 - São Paulo, Círculo do Livro (Livro Abril), 1982.

Notas:

[1] O Obelisco carrega o simbolismo da lembrança nas raizes gregas: óβελίσκος , obeliskos, diminutivo de óβελός : obelos , pilar pontiagudo, associado à cultura egípcia, reflete a teoria de uma visão comum no nascer e pôr do sol, numa renovação constante.

[2] O dia 23 de maio de 1932 quatro estudantes, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo foram mortos em choque com a polícia getulista na Praça da República, em São Paulo, tornando-se mártires da revolução constitucionalista, dando origem ao Movimento MMDC. Anos depois, a data foi oficializada como o "Dia da Juventude Constitucionalista", que lembra a participação dos jovens na revolução.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Oralidade dos Moradores da Capela do Socorro e o Monumento da Travessia do Atlântico

História: POVO PRESENTE!

Quem faz um lugar, uma vila, um lugarejo senão pessoas, que vieram estabelecer raízes para constituir um núcleo familiar e criar relações de convívio social, estrutura dos primeiros contatos de amizade, que depois formaram as relações com interação étnica com miscigenação de nuances de cores maravilhosas, únicas no mundo, formação também da “Cidade de Santo Amaro”, que as matizes deram origem ao “caboclismo” que preservou raízes de interior.

Santo Amaro possuía um território invejável que parece uma história de relações dos primórdios do reino de Portugal. No planalto por meio de outorga as terras recebidas em sucessório pelos irmãos Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa, que resultou em célebre litígio que se prolongou entre donatários da família da Condessa de Vimieiro, dona Mariana de Souza Guerra, repelida da sua Vila Capital de São Vicente, bem como de Santos, São Paulo e de Mogi das Cruzes que através de Capitães-mores-governadores, cada um dos quais governando com ampla jurisdição. Ao outorgar vantagens municipais às cidades conquistadas, permitia a prática de velhos usos e costumes desde que não contrariassem a política geral do Estado, o que possibilitou a preservação de terras por vezes de Espanha que não eram reclamadas. Deste modo surgia o que era a prática de autogoverno enraizada no espírito daqueles que ocuparam as terras. Por sua vez os Monsantos, representado pelo Conde de Monsanto, neto de Pero Lopes de Sousa, intentou uma ação para tomar de volta como herdeiro a capitânia, com fundamento jurídico, sendo descendente do Lopes de Sousa, o 1º donatário, com direito ao “morgado”, propriedade dada ao filho mais velho por herança. Disto ressurge um interesse do governo de Portugal assumir o controle implantando normas de ocupação desde que as terras tivessem uso de ocupação familiar.

Este é um pequeno prelúdio de formação dos povoados paulistas e no sul, encaixados também como formação das prevenções de ocupação que mais tarde culminou com as colônias maciças abaixo do Trópico de Capricórnio, a partir de século dezenove, terras de interesse aos imigrantes, com características mais próximas do clima das estações européias. Por outro lado foram aceitos com contratos assumidos entre as partes do Império do Brasil e as potências européias de então, “arrumaram” uma solução para conflitos internos sociais, pois resolviam problemas de uma massa humana que na Europa estavam sem trabalho, enfim sem renda de sustento básico, e as “colônias de imigrantes” resolviam a falta de ocupação de território do Brasil em litígio antigo com a Espanha.

Em Santo Amaro, cidade encaixada na citação acima, implantou-se a primeira Colônia imigratória de alemães em 1829, e desde então a região recebeu novo ciclo da história, iniciando a formação de desenvolvimento local, uma entrada para a Boca do Sertão, quando a região era somente conhecida por Coruroca. Com tudo isto após quase um século passado, amerissam em 1927, na Represa de Guarapiranga os aviadores Francesco De Pinedo e João Ribeiro De Barros, ambos alcançaram o mérito de atravessarem o espaço do Oceano Atlântico sem escala e sem que houvesse suporte naval em tão arriscada travessia. Disto resultou digna homenagem, erigindo-se o “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”, obra de Ottone Zorlini, na Capela do Socorro, até então subdistrito de Santo Amaro. Quando neste momento histórico, um menino franzino corria a ver um avião pousar nas águas, cercada de Ford bigode, e gente “aprumada” como em apresentação de gala. Era o senhor Francisco de Moraes, nascido em 15 de março de 1915, que começa a relatar fatos impressionantes da época, acompanhado de seus filhos Eulálio e Inês, foi dando uma aula de exatidão em recordações minuciosas, quando descrevia seus momentos, no auge da peraltice de menino que brilhava os olhos no horizonte, ao ver “aquele avião lindo”, o Jahú. Depois viu a “vila” crescer e vir a se ajuntar ao pioneirismo dos Moraes outros tantos, que após a travessia do Atlântico se aproximavam das ruas de terra que receberiam nomes do feito histórico em homenagem ao aviador italiano Francesco De Pinedo, e o brasileiro João (Ribeiro) de Barros, o intrépido aviador da cidade de Jaú, interior de São Paulo, que logrou também concluir o feito apesar dos revezes e trapaças para atravessar o oceano que recebeu também digna homenagem na Avenida Atlântica, mais tarde rebatizada de Avenida Robert Kennedy, com todo respeito ao estadista norte-americano, sem referência ao feito histórico.
Foram-se aos poucos se achegando ao local em franca expansão as famílias de Paulo Vaz, Amaro Branco, João Hessel, também conhecido por Ambura, Silvano Klein, Cristina Luz, Antonio Alves, Amaro Ferreira, Guilherme Ficher, os da família Ponjulippi, Saturino de Moraes, José Lameira, os Cavalcanti, Martins Pelúcio, Eliseu Gusbert, Virgílio Pavanelli. Orlando Bercari, Júlio Pires, Mauro Branco Jacinto, Adão Remberg, que os amigos chamavam de garça, por se magro e de pernas finas. A professora “dona” Amália, somava sua competência educacional, transmitindo a toda a cultura necessária, com formação aos jovens recém chegados, recordações de sua importância representativa é, mesmo passados o tempo, extremamente respeitada. Seu João Zillig da Silva, com a calma dos grandes sábios, nascido em 9 de outubro de 1927, parece eternizar aquele momento em contemplação diante de algumas fotos locais, que ressalta os primeiros encontros religiosos na casa do senhor Adão Remberg, que cedia gentilmente, na avenida empoeirada do que um dia se tornaria a Avenida De Pinedo. Descreve o “balão” do bonde próximo ao largo onde a Capela possuía a imagem de Santa Terezinha, que depois foi enviada para o Embu-Guaçu, dando lugar a Nossa Senhora do Socorro, igreja fundeada em 1952, onde passaram sacerdotes que demarcaram a história local: Manoel, Tadeu, Natal, Olívio, Albino,Mario Ganezzi, Alcides, Simão Benedito, Simão Bento, Plácido de Almeiro, Antonio Lima, Marson. Seguia esse importante depoimento seu sobrinho Acácio Zillig da Silva e sua esposa Maria Amélia, reforçando detalhes, citando pessoas que por contingências da vida viviam como andarilhos na região com seu Honorato, a negra Luiza, que antes era eximia cozinheira mas perdeu o sentido do racional, não conseguia ter a concentração da juventude, além do memorável Big, que dizem alguns que quando jovem foi mecânico e depois, pelos revezes da vida, tornou-se um andarilho pelos arredores de Santo Amaro.

Memória naquele instante não faltava, onde a única que falhava era a deste missivista; começa um depoimento das recordações de ilustre personalidade da Capela, senhor Jeremias Homero Bhering, nascido em 31 de outubro de 1929, por muito tempo servindo como farmacêutico, profissão aprendida com Pascoal Militelo na “Pharmacia Internacional”, na Avenida De Pinedo, nº 145, que a modernidade rebatizou após o ano 2000 como “Help”, onde o “Socorro” faz parte desta história, e agora recebe de volta seu MONUMENTO, aliás, de onde nunca deveria ter saído, pois os monumentos representam um marco local, e não pertence ao poder efêmero e momentâneo, pertence ao local da origem do feito onde reside o povo que presenciou o fato!
Em 1938 a Capela do Socorro ganhou ares de autonomia com a implantação do Cartório do Registro Civil e Notas, na Rua dos Italianos, atual Amaro Luz, nº 155, esquina da Avenida Atlântica, que os depoentes recordam a presença marcante do senhor Antonio, que além de suas atribuições casamenteiras com a outorga de juiz de paz, era também diretor da banda da localidade.

Sorriam os três a nos olhar como que olhando o tempo que nós não tínhamos a dimensão exata desta época e sua grandeza, e começam a lembrar das manadas a circular vindo pelo caminho do Embu Guaçu, na Estrada da Boiada, onde a Light em meados de 1946 fez a ponte e depois disto com o “desenvolvimento” recebeu a atual Avenida Guarapiranga, que ganhou pavimento deste ponto até o Largo do Socorro, num custo aproximado de 200 mil cruzeiros!!! Tudo isso era transportado em carroças atreladas aos burros, como as de Alfredo Leitão, que chegando ao local com seixos ou terra destravava a amarra “basculando” a carga, um inovação extraordinária para a época. Antes, repetem os depoentes, testemunhas vivas deste momento histórico, era necessário contornar pelo Bairro da Comporta, o Mercadinho para ter acesso ao sentido do Largo da Capela do Socorro. Um belo dia, vindo uma manada desenfreada em um “estouro de boiada”, desgarraram alguns bois pelos charcos, alguns foram recolhidos pelos tropeiros, mas um após a passagem da manada ficou no local, e se tornou atração, sendo batizado de Tenório, um belo exemplar de pelugem preta, vagava pelo local, tornando-se integrante da farra juvenil que saciava sua sede com cerveja, que, aliás, era sua bebida preferida!!! A região abastecia com lenha, combustível de então, para ser transportado para São Paulo através de Santo Amaro, onde se descarregava a carga. O bonde circulou pela Capela do Socorro, atravessando uma ponte de madeira de via única, aproximadamente onde há atualmente a Estação do Socorro da CPTM, até ser desativado, mas é um fato que a historiografia não possui definição da data. Por muito tempo o local ficou com características interioranas pelo afastamento da cidade e por este motivo era natural a cooperação entre os moradores, facilitando ainda mais a conservação dos usos e costumes nos núcleos formados que repercutiam nas festas do Divino, as juninas, que eram animadas pelas famílias de Benedito Fogueteiro, Pedro Mariano, que ganhavam o “socorro” dos barqueiros Orlando Candiani, e de Joaquim Capinzeiro, que abastecia o mercado com capim para forragem de colchão. O fato é que pelas dificuldades da época o pioneirismo desfrutou de grande suporte popular, onde todos se ajudavam entre si, com normas de ações próprias como um autogoverno que ficou no espírito da população, que no hodierno conseguiu reverter ao seu local de origem o “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico” parte da saga Monumental.

O exposto foi colocado com a coerência do recolhimento da oralidade, com aquilo que temos de real, onde nosso único comprometimento é com o fato histórico e respeito ao “corpo” disso tudo, que são as pessoas, independente da Colônia que pertençam! É um fragmento de tantos que participaram deste momento, há muito mais a ser recolhido e preservado. Pode haver grafia que não seja definida como correta, podendo ser corrigida por aqueles que fazem parte deste universo!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Transporte do “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”

Heróicos Comandantes : Francesco De Pinedo(Itália) e João Ribeiro De Barros(Brasil)

Profissionais do ramo da engenharia civil transportaram o Monumento do Jardim América para a Capela do Socorro, na Represa de Guarapiranga, em São Paulo, que reverencia os aviadores que atravessaram o Atlântico, em reide de 1927, numa época em que pouco havia de instrumentação, em um “vôo cego”, fizeram o épico para a união da relação dos povos continentais, Europa e América e que foi imortalizado pela obra de Ottone Zorlini.

Embora se louve o trabalho destes profissionais, sendo formado no ramo industrial e tendo trabalhado em grandes construções de metalurgia como nos maiores fornos de forjaria e tratamento térmico da América Latina, e nas máquinas de estocagem e carregamento da maior empresa mineradora do mundo, tendo experiência profissional no setor de engenharia[1], não tão apurada quanto aos citados profissionais que entendem sem sombra de dúvidas, de logística de transporte, mas sem um projeto de seqüência de just-in-time, onde cada peça deveria ter manipulação adequada com a importância de seu idealizador, deveria respeitar uma meta seqüencial. Parece que tendo um cronograma a respeitar e não um organograma, tudo deve que estar em algum lugar em um tempo que respeite unicamente uma meta de engenharia civil. Não citemos que seria necessário remeter aos profissionais do setor arqueológico pela importância do fuste romano e o capitel compósito, que parece que não será recuperado, nem a um historiador renomado para acompanhamento do tempo e espaço, mas um estudioso no campo de restauro histórico seria “mister” conveniente respeitar.
Enfim a obra de quarenta e quatro peças não tem dentro de seu contexto histórico acompanhamento técnico suficiente para a importância da obra, não há seqüência lógica, embora todo respeito tenhamos pelos profissionais envolvidos, até os responsáveis das instituições de preservação calam-se, por interferência da condição do poder que produz documento e a só cabendo citações de interesses do vencedor ao preço de R$ 394.992,77. Embora calem as vozes dos vencidos as pedras falarão para a posteridade, pois tudo que emana da política tem efemeridade.
Se cometo algum deslize, provem pelo interesse da historiografia!

[1] “Louvar-se a si próprio é deplorável” - Dante

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Represa de Guarapiranga e a Volta do Monumento ao Paredão

Parques Públicos na Orla da Represa de Guarapiranga

Há uma “gentrificação”, enobrecimento da cidade de São Paulo e que agora se expande para o extremo sul do município na orla da Represa de Guarapiranga, em operação desde 1907, época em que no Rio Pinheiros, construiu-se o canal de alimentação que passa pela ponte da Estrada do Guarapiranga, ligando-se com a Represa, sendo referência os fundos do Clube Atlético Indiano, de muita tradição, fundado em 1930. Desta origem segue o que se denominou chamar de Barragem, ou popularmente Paredão, barreira de contenção das águas da Represa. Em 1906, a Light iniciava as obras da conhecida Represa de Santo Amaro, depois denominada Represa de Guarapiranga, com barreira de contenção de 1,5 km de comprimento, 19 metros de altura e armazenagem para 200 milhões de metros cúbicos de água.

Neste início da orla, em 1927, amerissaram intrépidos pilotos da Primeira Travessia do Atlântico, nas pessoas de Francesco De Pinedo, italiano, natural de Nápoles, e João Ribeiro de Barros, brasileiro, natural da cidade de "Jahú", e onde se erigiu o Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico, para perpetuar a história e em homenagem ao fato, e que por longos quase 60 anos permaneceu um marco intocável, sendo que em 1987 o Governo Municipal transferiu o monumento para a Praça Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América, local que não possuía nem vínculo com a travessia do Atlântico, nem com a Represa Guarapiranga. Seguindo pelas Avenidas De Pinedo e João de Barros, que também se seqüestrou o Ribeiro, será construído o primeiro parque da orla da Represa Guarapiranga, com nome de "Parque Barragem", que muito bem caberia o nome "Travessia do Atlântico". Esta orla no passado também já possuiu o galhardo nome de "Riviera Paulista". Este parque será inserido na história da Capela do Socorro, e de todos quanto, de alguma maneira, fazem parte desta região de Santo Amaro, São Paulo. Partindo deste ponto até a esquina da Avenida Robert Kennedy, que também, um dia, chamou-se Avenida Atlântica, ligada ao fato da travessia citada, teremos aproximadamente 90 mil metros quadrados previsto investimento na ordem de 1,5 milhões de reais. Seguindo à frente já na Avenida Robert Kennedy, antiga Atlântica, teremos o segundo parque com a denominação "Parque Praia de São Paulo", que terá limites em frente de grandes clubes náuticos e outros afins, como o São Paulo Athletic Clube (SPAC), São Paulo Yatch Clube (SPYC), Yatch Clube de Santo Amaro (YCSA), Marina Atlântica, Golf Center Interlagos, em frente ao clube Centro Associativo Fazenda Estadual, CAFE, n.º 2447, da referida avenida. Um pouco mais à frente temos o Club ADC, Marina Silvestre, Bombeiros Interlagos, com larga experiência em salvamento de submersão, pois próximo à base há o que, costumeiramente, os banhistas de fins de semana chamam de Prainha, que carece de cuidados especiais, pois se trata da Guarapiranga Beach Paulistana. Segue mais à frente o Clube Desportivo Municipal (alterado atualmente para "Comunitário" por autoridades municipais) de Iatismo (CDMI). Tudo isto está demarcado em área física de 18 mil metros quadrados de parque inteiramente arborizado, com orçamento próximo de um milhão de reais.

Nas proximidades deste, um pouco adiante na Avenida Robert Kennedy, teremos o terceiro parque com o nome "Parque Castelo", área de extrema beleza e preservação onde encontramos o Clube de Campo Castelo, sendo seus limites na outra margem com o campo de futebol do Barcelona Capela, e abrangerá 87 mil metros quadrados, também orçados próximo de um milhão de reais.

Após este, teremos o quarto parque previsto para 538 mil metros quadrados, o maior deles, com investimento na ordem de 5,4 milhões de reais, denominado "Parque Nove de Julho", onde se estruturarão quadras diversas, ciclovias, campos de futebol, pistas, enfim, uma série de complementos que deverão ser disponibilizados ao lazer diário da população, pois há um número grande de bairros adjacentes a todos estes empreendimentos que serão idealizados.

O quinto e último é o "Parque São José", com 95 mil metros quadrados, embora tenha dimensões semelhantes aos dois primeiros terá investimento maior, na ordem de 5,7 milhões de reais, pois será constituído de uma infra-estrutura reforçada de equipamentos por estar próximo das confluências das Avenidas Robert Kennedy e Senador Teotônio Vilela, onde há grande contingente populacional, tendo como ponto de referência de localização, atrás da Universidade de Santo Amaro, UNISA, unidade Interlagos, próximo a cidade Dutra, onde do outro lado segue-se em direção ao "Autódromo José Carlos Pace", comumente chamado de Interlagos, em homenagem a um dos grandes pilotos brasileiros, dentre tantos, onde se destacam curvas marcantes como a Curva "S" do Senna, do lendário e inesquecível piloto Ayrton Senna, sem esquecer-se dos irmãos Fittipaldi, que muitas alegrias trouxeram ao esporte automobilístico, juntamente com Nelson Piquet, e outros tantos excelentes pilotos brasileiros!Assim, pela expansão da cidade de São Paulo sobre a periferia do extremo sul de São Paulo, há necessidade de uma infra-estrutura compatível ao local, pois estamos dentro de um manancial necessário ao bem estar humano, e que a população merece, sendo necessária sua "preservação" deste investimento próximo dos quase 15 milhões de reais, vindos dos governos Estadual, Municipal e do Banco Mundial.

Volta também em julho de 2010, ao seu local de origem o "Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico", do escultor italiano Ottone Zorlini, inaugurado em 21 de agosto de 1929, que homenageia o feito dos heróicos aviadores, que foi erigida na Represa do Guarapiranga, um marco e reparação do Governo Municipal, responsável por aprovar a remoção em 1987, onde o administrador sempre tem responsabilidades dos feitos do poder a que se sujeita!


"Desistimos de incriminar as circunstâncias e de com elas nos preocupar quando vemos outrem aceitar as mesmas circunstâncias plácida e alegremente. Quando as coisas não correm na medida dos nossos desejos, muito contribuirá para o nosso contentamento pensarmos nas coisas agradáveis e encantadoras que nos pertencem; na mistura, o melhor eclipsa o pior. Quando os nossos olhos são ofuscados pela claridade excessiva, nós acalmamo-los olhando para a verde relva e para as flores; todavia, mantemos a mente absorta com o que é penoso e forçamo-la a remoer sem trégua os vexames, desviando-a violentamente de pensamentos mais reconfortantes".
(Plutarco, in "Do Contentamento")

Totem Fascista ou Monumento aos Heróis Aviadores da Travessia do Atlântico e o Monumento à Independência.

Translado definitivo: julho de 2010, da Praça Nossa Senhora do Brasil, Jardim América para o Parque Barragem, Capela do Socorro; Santo Amaro, São Paulo. Valor R$ 394.992,77 Deparamo-nos com o contexto estampado em matutino de circulação corrente em São Paulo, com os dizeres: “Totem Fascista de volta à Guarapiranga”. Parece que o Monumento aos aviadores da primeira travessia do Atlântico, sem escala e suporte naval, é tudo: estátua, totem menos ser o que representa sua real constituição: Monumento!

Não irei declinar novamente sobre estátua e monumento, mas o que representa a matéria e a especificada definição totem, pelo acadêmico Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em o Novo Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa, século XXI, Editora Nova Fronteira:

“totem: em diversos povos e sociedades, animal, vegetal ou qualquer entidade ou objeto em relação ao qual um grupo ou subgrupo social, coloca-se numa relação simbólica especial, que envolve crenças e práticas especificas, variáveis conforme a sociedade ou cultura considerada”.
Que há relação simbólica do Monumento por ser um épico humano, onde o momento permitiu o ato heróico que culminou com o sucesso da chegada, é fato notório e confirmado pelos anais históricos, mas não uma prática de ancestralidade. Existe um fato que precisa ser exposto às gerações que não participaram do momento histórico, mas não se trata de um objeto de peregrinação de cunho religioso.
O "Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico", de Ottone Zorlini, não é mera estátua, nem um totem, mas realmente um Monumento, pois “Monumento é Documento”, de feitos humanos, o único animal a fazê-lo em registro histórico! Outro fato é a repetição do termo “fascista”, também já colocado em texto anterior, mas se há interesse em refletir como algo desmerecido, temos outro monumento representativo, no Ipiranga, de Ettore Ximenes, escultor italiano, onde nos vértices da base do pedestal central
“em cada vértice, formado pelos quatro painéis em granito, que envolvem a base do pedestal, há um fascio, símbolo do império romano, que significa o poder de vencer os inimigos da nação”, explicação esta que se encontra no interior do referido “Monumento à Independência”, do Brasil! Além disso, na entrada das escadarias externas do Museu Paulista, conhecido por Museu do Ipiranga, há também os referidos fascios completados com as franquisques! Não se define em momento algum que ambas as representações tenha cunho do autoritarismo! Isto deixa evidente a importância dos Monumentos à Independência do Brasil e Aos Heróis Aviadores da Travessia do Atlântico, suas reais representações.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SONHOS MONUMENTAIS

Santo Amaro, São Carlos, Jau e a Volta do Monumento aos Aviadores

Raridades da aviação fizeram-me deslocar por 350 quilômetros, acrescidos pela ida a cidade de Jau, do comandante João Ribeiro de Barros, para vê-las neste maravilhoso acervo no “Museu Asas de Um Sonho”, da TAM, em São Carlos, além de certa relação com a cidade, pois meu bisavô casou-se na cidade em 1904. Saímos de São Paulo com a convicção de ir ao encontro da história, memória da audácia de homens desbravadores, e que minha formação acadêmica sempre perseguiu.
Quando jovem estudava na Avenida De Pinedo confluência com Avenida João de Barros, (outro erro crasso, pois falta o Ribeiro) onde neste local situava-se o Monumento pela amerissagem da primeira travessia Atlântica, entre continentes, nome antigo da avenida que circunda a Represa de Guarapiranga, depois mudada para Avenida Robert Kennedy, nome este sem relação alguma com o feito histórico. Depois de formado em mecânica industrial tornei-me projetista de ferramentas de fundição de motores Mecedes-Benz, na extinta SOFUNGE, na Vila Anastácio, Lapa, e lá passei a admirar ainda mais o pioneirismo da industrialização paulista, embora tardia, dava todo o suporte as necessidades “destes homens malucos e suas máquinas voadoras”. Fui estudar história, pois estava no sangue como autodidata; alcancei o bacharelado e licenciatura e assim comecei a perseguir um sonho: reabilitar a volta do monumento seqüestrado de Santo Amaro, na Capela do Socorro. Textualizei em 2008 “A Represa do Guarapiranga e a Primeira Travessia do Atlântico” dando referência ao "Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico", de Ottone Zorlini com escultura de bronze, denominada “Vitória Alada”, lembrança do sonho de Ícaro.
O descrédito por parte dos detentores de recursos do Estado fazia-nos perseverar e acreditar mais em poder reaver para o local citado o Monumento, e não estátua, em homenagem aos intrépidos aviadores, e que fora “seqüestrado” ao tempo do governo municipal, do então prefeito Jânio da Silva Quadros e levado em 1987 para a Praça Nossa Senhora do Brasil, na região do Jardim América, local sem vínculo nenhum com a travessia.
A saga do hidroavião JAHÚ e a volta do monumento tornaram-se obsessão. Em 2008 tentei rever o avião, que anteriormente estava na OCA, no Ibirapuera, Museu da Aeronáutica, mas o museu da TAM à época havia fechado para reforma, fiquei um pouco apreensivo por não saber quando poderia rever o JAHÚ, pois o mesmo havia sido abandonado anteriormente e estava em disputa judicial, havia o desrespeito com a “obra prima”, caso corriqueiramente comum com a história do país.
Neste ínterim o foco era lutar em prol da história pelo retorno do Monumento ao seu local de origem. Fiquei contente quando meia dúzia de abnegados estava sonhando o que eu também sonhava, integramo-nos para ir às autoridades locais buscar respaldo e adesão. No primeiro instante as autoridades mostraram-se céticos, sem saberem a importância do que nós achávamos importante, que era o Monumento no seu local de origem, na Represa de Guarapiranga. Fomos expondo a idéia como formiguinhas repassando nossa intenção ao rol de nossas relações. Os políticos não pareciam interessados, mas historiador “é um teimoso até a idéia se concretizar”; vendo uma oportunidade de efeito político os mesmos que se recusaram no passado abraçaram a causa e assim o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, CONDEPHAAT, dava o aval para a volta do Monumento que tanto buscávamos reaver.
Repentinamente foram disponibilizados para operação de desmonte e montagem em seqüência criteriosa com recursos de emenda parlamentar, R$ 394.992,77 com centavos e tudo, para transportar o Monumento, marco da aviação. A batalha chegava ao fim, e o poder assumiu assim o retorno, com documentos oficiais. Esperamos que o translade seja feito com festividade à altura do feito, pela aviação brasileira sobrevoando o local com o merecimento que se faça jus.
Coincidentemente a TAM reabriu seu magnífico acervo para visitação, fato esperado por mim com certa ansiedade. Programamo-nos em ir atrás de rever nas “Asas de Um Sonho”, um sonho solitário que se tornou solidário, do Savóia Marchetti S-55 que foi parte integrante desta história, com os motores em V perfeitamente conservados, e aqui enaltecemos a perseverança da família Amaro e seu inesquecível comandante Rolim, pois como único exemplar no mundo, depois do que passou o hidroavião, podemo-nos orgulhar como brasileiro de possuir a única peça existente no mundo e com os dois motores Isotta Fraschini ASSO 500 HP
Do museu ainda deixo outra ressalva que era estar em frente com o Paulistinha, da Companhia Aeronáutica Paulista, de Baby Pignatari, da família Matarazzo, empresário da Caraíba Metais, que apaixonado por aviação e por uma atriz, nascida na Itália, à princesa Ira de Furstemberg brilhou nas telas do cinema, construiu nas matas afastadas da cidade um local aprazível para recebê-la convidando seus amigos, o arquiteto Oscar Niemeyer e o paisagista Burle Marx, (no hodierno nome perpetuado como parque) a dar o requinte ao local virginal de Mata Atlântica, no costado da Chácara Tangará, hoje condomínios entre Vila Andrade e Morumbi, em São Paulo, uma divisão de águas entre o urbano e o subúrbio.

O Thundebolt P-47 foi outro avião marcante, uma pelos feitos heróicos do “SENTA A PÚA!”, na campanha da segunda guerra mundial que a audácia do grupo de aviação de caça da FAB transformou ases da mais alta estirpe, muitas vezes sem o reconhecimento merecido por parte do Estado, mas foi também um “Monumento” que marcou meus olhos infantis quando meu pai levava-me a visitar os “oriundi” no “Bairro do Bixiga”. Estava lá um P-47 imponente na Praça 14 Bis, a praça esta lá sufocada pelos prédios e o Thundebolt “sumiu”. Uns falam que lá nunca houve um avião, outros que era a réplica do 14 BIS, mas minha mente gravou um instante óptico e ela não mente para mim.Depois seguimos para a cidade de Jau, paramos na “Praça Siqueira Campos” onde há um Monumento erigido em 1953, no centenário da cidade do comandante João Ribeiro de Barros e logo abaixo, na “Praça da República”, há talvez o mais antigo monumento relacionado ao feito, homenagem esta feita em 1927 pela comunidade sírio-libanesa, um pouco escondido atrás de uma fonte, entre folhagens. Seguimos ao “Cemitério Municipal Ana Rosa de Paula” e deparamos com o Mausoléu do Aviador, iluminado pelos raios de sol refletidos na morada de quem lutou muito e partiu cedo, mas deixando o legado de um sonho perseguido com todas as diversidades encontradas. Tive a feliz aproximação no Museu, com o presidente João Francisco Amaro, clássico anfitrião, requisitado pelos visitantes inclusive este missivista, falei de “nosso” sonho, ele ficou admirado, citei o valor do “resgate” do Monumento, ele ficou impressionado, disse-lhe que seria remoção e recuperação das peças, inclusive o “Capitel Compósito Romano” e limpeza do Ícaro Alado, não saberia dizer se o custo estava dentro dos parâmetros, mas havia na apresentação dos responsáveis um amadurecimento profissional.

Isto foi parte do que vi, indescritível, mas um pouco da historia da aviação nacional, e “quem dormiu e não sonhou perdeu o sono por não sonhar”!

"Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”: Data Vênia

*"Que disse, fiz, portanto feito está."

"Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico", de Ottone Zorlini. Escultura em bronze com coluna romana autêntica em granito rosa doada pelo rei Victor Emanuel atualmente localizada na Praça Nossa Senhora do Brasil, esquina da Avenida Brasil com a Rua Colômbia, Jardim América, com translado definido para orla da Represa Guarapiranga, "Parque Barragem".

1) Monumento ou Estátua
Aos egrégios representantes do poder, há colocações de suma importância histórica quanto ao retorno do “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico”, que por si já se define como tal, pois “Monumento é Documento” e visto desta maneira pelos historiadores. Monumento é obra ou construção destinada a transmitir à posteridade a memória de fato ou pessoa notável; estátua é escultura em três dimensões, que representa figura humana, ou não, por vezes sem expressão definida de valor histórico, portanto temos diante disto o que representa a obra em homenagem aos aviadores do Atlântico, Francesco Zefinelli, o Marquês De Pinedo e João Ribeiro de Barros, epopéia do pioneirismo heróico da tripulação, pois foi o primeiro feito realizado sem acompanhamento naval, somente realizado com o que havia de melhor em instrumentação à época.

2) Vitória Alada

No topo de um alto pedestal, uma escultura de bronze, chamada de “Vitória Alada”, lembrança do sonho de Ícaro, apontando na direção do Oceano Atlântico. Na face frontal do pedestal de granito, estrelas de bronze compõem a constelação do Cruzeiro do Sul, além de dois fascios que se encontram nas laterais; um deles com a esfera celeste e a inscrição “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira; o outro, o símbolo de Roma: a loba amamentando os irmãos Rômulo e Remo.

3) Autor da Obra: O Italiano Ottone Zorlini

Outro fato relevante é quanto ao autor da obra. Evidentemente que possuímos grandes expressões na arte escultural que engrandece sobremaneira este campo expressivo e de reconhecimento internacional, mas ao dizer que o monumento em questão é obra genuína nacional foge ao contexto e expressa uma inverdade histórica.
O monumento que faz parte de um contexto que recebeu a sensibilidade de Ottone Zorlini, nascido em Treviso, Itália, em 20 de setembro 1891, fixou residência em São Paulo a partir de 1928 aonde veio a falecer em 06 de junho 1967. Inicia sua trajetória profissional, aos 13 anos, quando começa a trabalhar em uma fábrica de cerâmica; em Veneza a partir de 1906, cursa a Academia de Belas Artes, freqüenta os ateliês do escultor Umberto Feltrin e do ceramista Cacciapuoti. Na cidade berço renascentista executa várias obras e em 1927, vem para o Brasil realizar o “Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico” com participação da Sociedade Dante Alighieri, edificado junto à Barragem da Represa de Guarapiranga, próximo ao local das amerissagens, concluído em 1928 e inaugurado no dia 21 de agosto de 1929, definida pelo autor como “a junção ideal da época da Roma Antiga às modernas conquistas que renovam e perpetua a grandeza do passado”, obra realizada quando já possuía 37 anos, Em São Paulo berço da imigração italiana conheceu artistas como Mario Zanini, Francisco Rebolo e Alfredo Volpi, integrantes do “Grupo Santa Helena”, com os quais viajava para pintar os arredores da cidade e trechos do litoral paulista, integrando-se depois na formação do Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo.
4) Os Fascios

Outra questão a elucidar é quanto à representação dos adornos laterais que causam polêmicas, apresentados e definidos na mídia como símbolo do fascismo:
“Dois fascios (feixes de lenha, que sustentam machados) de bronze nas laterais também ajudaram a apimentar a polêmica. Na época da primeira transferência, o passado controverso não foi esquecido: "Acaba hoje instalação do monumento fascista nos Jardins" e "Monumento ostenta símbolo fascista" foram títulos de reportagens na época da transferência da obra para os Jardins. A justificativa do prefeito Jânio Quadros era que a escultura estava "escondida" na zona sul”.
Primeiramente não é lenha, ou qualquer madeira tosca, para usar como combustível, mas forma a representação das varas de jurisdição a cargo da justiça. O termo latino “fasces”, na expressão fasces lictoris "feixe de lictor", era simbologia de origem etrusca incorporada pelo Império Romano, associado ao poder e à autoridade, denominado fasces lictoriae, por ser carregado pelo “lictor”, o qual na Roma Antiga, em cerimônias oficiais (jurídicas, militares e outras de poder) precedia a passagem de figuras da suprema magistratura, abrindo caminho em meio ao povo. O lictor era encarregado de convocar o réu, quando fosse solicitado pelo magistrado.
O Ícaro de asas abertas como que a fitar a imensidão do espaço e a sobrevoar a rota escolhida desponta o Cruzeiro do Sul, que são as cinco estrelas fixadas na base de sustentação. Na parte frontal do monumento apresenta-se a coluna romana que demonstra a beleza do “capitel” que remete o homem na busca incessante da perfeição. Em ambos os lados estão à representação da aplicação da lei, um molho de varas que era levado pelo “lictor”, o magistrado romano, e ao centro do fascio a “franquisque”. Um deles no Monumento tem a esfera celeste e a inscrição “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira; o outro, o símbolo de Roma: uma loba alimentando os irmãos Rômulo e Remo. Durante a Segunda Guerra Mundial, os fascios de bronze do monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico foram retirados, pois diziam que refletia alusão ao fascismo, e toda simbologia que lembrasse os movimentos nacionalistas do Eixo, Itália, Alemanha e Japão foram proibidos, inclusive a língua.

5) Franquisque

Quanto a “machadinha” trata-se realmente de um “machado de guerra” de nome “franquisque” que foi utilizado durante os anos iniciais da Idade Média pelos francos, de onde extraiu-se o nome. Esta arma tornou-se característica desse povo, em especial durante os anos de 500 a 750 d.C. Apesar de ser mais comumente associada aos francos, por sua notória utilização durante o reino de Carlos Magno (768-814 d.C.), era também utilizada por outros povos germânicos, incluindo os anglo-saxões. A primeira referência ao termo francisque surge no livro "Ethymologiarum sive originum, libri XVIII", de Isidore de Sevilha (c. 560 - 636 d.C.), como o nome utilizado entre os espanhóis referia-se aos francos para se referir a estas armas, provavelmente porque eram utilizados pelos povos além dos Pirineus, para penetrar atacando e rasgando com puxão brusco e cortante o corpo do combatente inimigo.

6) Coluna Romana:

A Sociedade Dante Alighieri propôs a construção de um monumento “Aos Heróis da Travessia do Atlântico” junto à barragem do Guarapiranga, próximo ao local das amerissagens, inaugurado no dia 21 de agosto de 1929.
Escultura de bronze sobre pedestal de granito com fustel romana autêntica de granito rosa, doada pelo rei Victor Emanuel, retirada em escavação arqueológica milenar recém-descoberta no Monte Capitólio, em Roma. Em “Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos da Cidade de São Paulo” tem citação como jônica, mas suas características são uma somatória junto ao estilo coríntio, valendo-se da união das duas para formar a ordem compósita. Para celebrar a aventura dos compatriotas, Benito Mussolini, primeiro-ministro da Itália, pelo reinado de Victor Emanuel, entre 1922 e 1943, enviou a São Paulo a coluna que foi incorporada à parte inferior do monumento pelo autor da obra.
A cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, também recebeu uma coluna romana do Monte Capitólio, doada em 1931. Implantada no Pátio do Instituto Histórico e Geográfico, na Cidade Alta, era conhecida como “Coluna Capitolina” ou “Coluna Del Prete”. Comemora a travessia em linha reta e vôo direto, sem escalas, de Roma à praia de Touros, realizada pelos aviadores Carlo Del Prete e Arturo Ferrarin em 1928. Associada à figura de Mussolini, a coluna foi derrubada em 1935, durante a Intentona Comunista.

7) Mussolini

Mussolini, primeiro-ministro da Itália entre 1922 e 1943, buscava interesses estratégicos nos vôos pioneiros e queria criar pontos de apoio para sua frota aérea. O tenente-coronel Francesco De Pinedo assumiu a direção do Estado Maior da Aeronáutica e era chamado por Mussolini de “Senhor das Distâncias” por causa da viagem pelo Atlântico e pelas duas Américas. O hidroavião Savóia Marchetti S-55, com amerissagem estilo catamarã e com características militares, recebeu o nome de “Santa Maria”, lembrando a descoberta da América pelo navegador genovês Colombo, nome de uma de suas caravelas. No livro “Il Mio Volo Attraverso l’Atlantico e le Due Americhe”, De Pinedo relata que, durante sua permanência no Rio de Janeiro, foi convencido por “oriundi” de São Paulo, onde a colônia italiana era numerosa, a desviar sua rota e pousar na Represa de Guarapiranga em Santo Amaro, quando sua rota previa parar apenas em Santos. Assim o hidroavião chegaria à Represa de Guarapiranga, com efusão da multidão às margens da represa aclamando o feito do sucesso. Deste modo abriram-se novos horizontes para implantação da aviação comercial unindo continentes distantes.

Em 1985, o Instituto Cultural Umbro-Toscano de São Paulo solicitou a readequação do local de implantação do monumento à Prefeitura. A entidade temia pela integridade da obra, e o translado foi realizado pelo governo municipal em 1987, cujo resgate histórico ocorrerá no ano de 2010, com seu retorno ao local de onde nunca deveria ter saído; às margens da Represa de Guarapiranga, São Paulo.

*"Cui dixit, fecit, autem factum est."

VIDE:
Federico, Maria Elvira Bonavita. Meio Ambiente e Degradação Cultural. São Paulo: FAPESP, 2005