sábado, 23 de maio de 2015

Escola Adventista e o Capão Redondo: 100 anos de convívio

O EXTREMO SUL DE SÃO PAULO: SANTO AMARO

O Capão Redondo abrangia vasta área em uma grande extensão de terra que pertencia ao senador Uladislau Herculano de Freitas Guimarães[1], gaúcho, que se tornou presidente (termo usado na época para governador) do Estado do Paraná em 1890, além de tornar-se Ministro da Justiça e Negócios Exteriores em 1913, e dirigir a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, tornou-se ainda deputado e senador estadual por São Paulo.

Estas terras do Capão Redondo, depois, foram adquiridas por outros donos por meio de permutas entre terras da família Corrêa, na cidade de Itapuí, antiga Bica da Pedra, região de Jaú, no interior paulista. A outra parte da propriedade foi vendida posteriormente ao Capitão Amaro Vieira de Moraes, e aos pais da esposa de Pantaleão Teizen e englobava a soma do território de Salvador Antonio Corrêa.

Em 1912 a família de Salvador Corrêa, Antonio Pires de Oliveira e Antonio Rodrigues da Silva, mudaram para a região, seguidos de outras famílias. Em depoimento de 1995, (Jornal O Campo Limpo, ano 1, nº 4) o senhor Adão Corrêa, caçula de uma linhagem de oito filhos de Salvador Corrêa e dona Joana Maria das Dores, e, que havia sido delegado da 47ª delegacia de polícia,  expunha que: “No Capão Redondo existiam dois lagos, um lago nós conhecíamos como lago Salvador Corrêa e o outro lago era o lago dos Moraes. O meu pai (Salvador Antonio Corrêa) e o senhor Antonio das Chagas(morador pioneiro na região) construíram um engenho, que fabricava farinha de mandioca e de milho e era movido por água que vinha do lago Salvador Corrêa”

Como parte decorrente da imigração alemã veio para a região de Santo Amaro,[2] em 1914 Johannes Rudolf Berthold Lipke, original de Berlim, na Alemanha, onde realizou uma série de conferências pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, tendo na época contato com o casal Benedita da Conceição e Pantaleão Teizen que venderam a fazenda, propriedade de aproximadamente 50 alqueires paulista[3] por vinte milhões de réis, acertados em 28 de abril de 1915, dando início ao Seminário Adventista no Capão Redondo, hoje UNASP, Campus São Paulo, na Estrada de Itapecerica, onde foram implantadas as instalações do "Colégio da União Conferência Brasileira Adventista do Sétimo Dia", com sede fundada em 06 de maio de 1915 e que mais tarde passou a denominação de Colégio Adventista Brasileiro. 

A localização do “Collegio Adventista” era apresentado em prospecto da época e de como proceder para chegar-se a instituição:
LINHA SÉ-SÃO PAULO À SANTO AMARO (1937)

“De São Paulo até Santo Amaro o trajeto é feito de bonde em cerca de 45 minutos e daí até o local da escola em veículo a tração animal que faz o percurso em uma hora”.

Mais tarde por regime de comodato foi cedido pelo governo paulista área para ser beneficiada e cuidada e que estava conjuntamente à gleba adquirida pela instituição que se tornava usufrutuário da cessão, sendo que em 1979 voltou a fazer parte das “propriedades do governo” e onde foram edificados prédios populares que comumente se conhece como COHAB (conjunto habitacional). Em área de bosque de 134 mil metros quadrados foi implantado, após devolução de terras, o Parque Santo Dias, em 7 de novembro de 1992.

Como primeiro diretor do Seminário Adventista de 1915 a 1918, Johannes Rudolf Berthold Lipke (1875-1943) foi apoiado por John Henrique Boehm, (1874-1975) fundador e primeiro administrador desta instituição, o qual foi incumbido de construir o prédio da escola, idealizado para formar estrutura educacional e para ser auto-suficiente, produzindo as próprias necessidades básicas da instituição na agropecuária e agricultura. 

Depois de edificada toda a estrutura paulistana, Boehm foi incumbido de idealizar o mesmo estilo empreendedor no Espírito Santo, nas colônias alemãs, dirigindo para este Estado em 1917.

Na década de 20 e 30 implantou-se a “Produtos Alimentícios Superbom”, empresa fundada pelo Instituto Adventista, que iniciou a produção de sucos, em especial de uvas adquiridas na cidade de Jundiaí, classificadas com esmero de especialistas antigos, como senhor Hugo que mantinha o sumo da uva no lagar, além de manter as caldeiras em fogo brando, com produção de mel, cevada e grãos integrais, e concentrados de soja vendidos em pequena loja que havia com fachada voltada para a Estrada de Itapecerica.

A primeira professora brasileira do colégio foi Albertina Rodrigues Simon, pois terminada a Primeira Guerra Mundial, o governo brasileiro decretou que nenhuma escola particular poderia funcionar sem ter um educador (a) brasileiro formado para ensinar a língua vernácula, História e Geografia do Brasil. Assim, no início de 1918, Albertina recebeu um chamado para lecionar no Colégio Adventista Brasileiro (CAB), atual UNASP-SP[4]. 

Temos que lembrar a participação ativa de Ernesto Bergold, gerente do Departamento Agropecuário do Instituto Adventista de Ensino, grande colaborador da pecuária leiteira[5] do “gado holandês preto e branco” criado na região de onde saíram muitos reprodutores para várias regiões brasileiras. Deste esforço muitos troféus foram conquistados pela “vaca Fortaleza” por sua “performance” na produção leiteira, sendo responsável pelo troféu “Vaca de Ouro” conquistado em 1957. 

Tudo isso foi concretizado a partir de 1945, quando o Serviço de Controle Leiteiro da Associação Paulista de Criadores de Bovinos difundiu os resultados conseguidos em ordenhas. Existiam animais com nomes pitorescos como Nativa, Festa, Botãozinho, que eram vacas de lactação, fornecedoras, em média diária per capita de 40 litros de leite, ou sendo preparadas para a cria sendo inseminadas com sêmen de touro que "bufafa" na raia, solitário, e por sua aparência recebia nomes de sua qualidade reprodutora como o sugestivo nome inglês “Strong”, pela sua robustez, de estrutura fortalecida, meio amarronzado, além de outros animais que fizeram parte de um quadro genético dos melhores, como Jaguari, Sorriso e Fumaça, e que mais tarde outros tratadores como Bonfim e Sassá deram seguimento, este último apelidado desde criança lá em Itabuna, Bahia, onde aprendeu o manuseio, e, aplicava-se a técnica apropriada, cuidando com carinho a pequena manada desta seleção de animais escolhidos para dar qualidade aos produtos locais deste subúrbio meio interiorano do Capão Redondo.

Havia determinadas pessoas que cuidavam de outros seguimentos, como o senhor Framiak, que dirigia toda a turma que havia nesta área produtiva da instituição, ou como o Zé Horta, que recebeu a alcunha por cuidar das leguminosas, ou o seu Antonio do Trator, que remexia a terra preparando o solo para o cultivo, ou o seu Paulo veterinário que recebia toda informação possível por parte do Lourival, que também controlava o plantel.

Com a iniciação do loteamento os primeiros a adquirir os terrenos próximos a Escola Adventista foram os Zorub e os Van Rôo, talvez integrantes de famílias provenientes de outras regiões européias, e que foram sendo adaptados a outra realidade. Aos poucos foram sendo loteadas outras glebas em antigas propriedades de Antonio Chácara, Quirino Diz, Belchior de Araujo, Juca Candido e Juca Grilo, dando origem a expansão de novos bairros em volta de colégio, como o Parque Fernanda, em 1959, com área de 37.248,50 m2 do espólio de Jose Figueiredo Junior, processo nº 291/59 loteado por Dantas de Freitas S.A Comercial Agrícola e Construção; Jardim Comercial, em 1961 possuindo 110.491,85 m2 constituído pela Comercial e Construtora A. E. Carvalho S.A. ou o Jardim das Rosas, projetado em 1963 com 98.773,00 m2 e o Parque Independência com 223.248,00 m2, feito pela Simberg Imobiliária e Agrícola Ltda.


São Paulo tinha aproximadamente em 1915, 500 mil habitantes e o Capão Redondo possuía alguns “fogos”, casinhas esparsas, com não mais que 50 pessoas espalhadas em longas extensões de terras do extremo sul paulistano. Hoje se tornou um local adensado com aproximadamente 300 mil pessoas distribuída numa extensão de 13,6 Km2, sendo, na atualidade, um dos distritos paulistanos.

Deste modo que onde foi um capão, um bosque em meio e um descampado, área de caça, de pequenos animais selvagens que possuíam seu habitat natural na localidade, surgiu esta região administrativa do Capão Redondo com área estimada atualmente em 13,6 km2 adensada na periferia que cresce no extremo da capital, de muita arte e cultura paulistana.


NOTA: Crônica sujeita a revisões para aprimoramento das informações e complemento da historiografia.


Complementos disponíveis para análise e considerações:






Jornal O Campo Limpo, ano 1, nº 2 e 4

Exposição do Colégio Adventista ocorrida em abril de 2009

Revista Adventista, outubro de 1984, p. 30. SIMON

Revista Adventista, agosto de 1943, p. 25; 34-LIPKE

João Rabello, John Boehm - Educador Pioneiro (São Paulo: Centro Nacional da Memória Adventista, 1990).




[1] Homenageado com denominação de rua próximo ao Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, mas devido à dualidade de nomes dentro do mesmo município, pois São Amaro perdeu sua emancipação política em 1935, tornado-se parte integrante do território do município de São Paulo, foi alterado, mais tarde, para Rua Desembargador Bandeira de Melo. Nota: há alguns desembargadores com o referido sobrenome, falta informação a respeito do homenageado.

[2] Em 1829 Imigrantes alemães instalam-se na Região da Colônia Paulista e Itapecerica, regiões pertencentes, à época, a Vila de Santo Amaro, independente administrativamente de 1832 a 1935.

[3] 50 alqueires paulista (onde um alqueire= 24200 m2) corresponde a aproximados 300 acres (onde um acre=4046,85 m2). Um acre era quantidade de terras planas que um homem poderia arar em um dia com uma junta de bois. Fazenda é uma grande área rural, destinada para a prática de agricultura e da pecuária que podem ser dirigidas por pessoas, famílias, ou comunidades, ou por corporações e companhias. 
[4] O Ministério da Educação transformou em 1999 o IAE em Centro Universitário.

[5] Houve um grande empenho no desenvolvimento educacional e agroindustrial da escola, destacando-se a partir de 1925 a criação de gado leiteiro holandês, importado dos Estados Unidos.

1 comentário:

Miguel Watanabe disse...

Adorei, todo homem se torna imortal quando seu legado não é egoista