sexta-feira, 15 de junho de 2018

Santo Amaro: do Carro de Boi ao Metrô de São Paulo

História publicada em 16/12/2010 link

Na década de cinquenta, século XX, não havia sistema de transporte nos bairros operários do Jardim São Luiz, e pelas cercanias do Capão Redondo e Vila das Belezas, a maioria se locomovia para o trabalho com bicicletas, o meio de transporte eficiente da época. Outros operários, com muita coragem, deslocavam-se de madrugada, pondo o "pé na estrada", uma verdadeira legião, rumo às várias indústrias que implantaram seu parque produtivo nas cercanias de Santo Amaro.

Os ônibus coletivos eram raros, e o ponto final do ônibus "Viação Columbia", primeira empresa a adentrar no bairro do Jardim São Luiz, tinha seu "ponto final" na entrada da Penhinha, próximo a pequena Capela da Penha, um marco, demolida em 1973. Hoje, neste local, situa-se o supermercado Extra dos pioneiros deste tipo de empreendimento, do Grupo Pão de Açúcar, da família Abílio Diniz.

Neste largo havia um "comércio local", denominado "Armazém do Pedro Ferreira", onde se podiam encontrar gêneros alimentícios, incluindo a famosa "Banha Matarazzo" e até ferramentas agrícolas. Do lado oposto, havia meia dúzia de casas pequenas sendo que uma delas era residência de uma senhora que perdeu a visão, dona Maria Coelho Aguiar, que muitos confundem com a grande genealogia desta família, onde há homônimas, mas pouco se sabe da referida moradora e que, mais tarde, com justiça, seu nome foi grafado na antiga Avenida São Luiz, que muita confusão fazia com a Avenida de mesmo nome no centro da cidade de São Paulo. Ela passava parte do tempo no portão a cumprimentar os transeuntes, onde se localizava o ponto dos ônibus esverdeados da Emílio Guerra* que ligava Santo Amaro a Itapecerica da Serra.

Neste mesmo local na parte do morro, oposto à capelinha estava o "Cortume Dias" grafado com "o", da família do empreendedor Antonio Dias da Silva, que tratavam os couros, em tambores giratórios em solução de água e ácidos, camurçados e pelegos que cobriam equinos comuns de tropeiros e animais que, atrelados às carroças, faziam o transporte de carga comum na época. Mais tarde, intensificaram a produção e começaram a fabricar tecidos oleados, precursora das lonas plásticas da multinacional Sansuy, na atualidade.

O córrego que corta o bairro e flui em direção ao Rio Pinheiros tem a denominação de Curtume, onde antes havia peixes; hoje são águas fétidas dos esgotos.

Do lado do atual Jardim São Francisco, um pouco afastado, havia um paiol de pólvora, também da família Dias, embora o propósito maior fosse de cunho industrial, também fazia alegria dos mestres fogueteiros da época, verdadeiras disputas entre famílias especialistas nesta arte sadia nas festas juninas, que rasgavam os céus noturnos límpidos, com a criançada a correr em competição a recuperar as varetas dos rojões de vara, um verdadeiro espetáculo nos descampados, que seria uma coisa inimaginável na atualidade.

Cita-se uma importante referência histórica: o sino que estava no campanário da Capela Penhinha, quando de sua demolição, achou-se por bem recuperar parte desse pequeno patrimônio, sendo que na atualidade faz parte do acervo da Paróquia São Luiz Gonzaga, podendo se ler na lateral do sino o nome de
seu doador, Fábrica Estrella, que também produzia percalinas e "pano couro" para encadernações e estofamento geral. A fábrica era gerenciada por Plínio Rodrigues Dias, o Plininho, filho de João Dias de Oliveira e dona Sebastiana Rodrigues Dias, dos genes santamarenses.

Cada indústria localizada na região tinha sua sirene característica, tocando em horários determinados, como que a chamar toda aquela massa ambulante. Na Avenida João Dias tinha-se a Hoover, Semp, Squibb, além de pequenas oficinas de marcenaria e máquinas operatrizes, sendo orgulho fazer parte do quadro de funcionários.

Bem mais à frente, chegaram os primeiros ônibus da Viação São Luiz, onde se montou o galpão da garagem na Avenida João Dias, número 1713, galpão este ainda em atividade como depósito de materiais DiCiCo. Esta empresa de ônibus se transferiu em outubro de 1984 para a Avenida Giovanni Gronchi, 7020, permanecendo no local até maio de 1993 e atualmente esta garagem se localiza na Estrada de Itapecerica, 1290 e se denomina Viação Campo Belo, tornou-se um grande monopólio urbano do consórcio 7, mas as suas origens remontam a década de 60, quando suas atividades abrangiam os bairros do Capão Redondo, Jardim São Luiz, Vila das Belezas, Valo Velho até Santo Amaro e depois com o Centro da Cidade, onde a população fez uma grande festa com bandeirolas e a empresa fez um "tour" com as crianças dos bairros até o Vale do Anhangabaú.

Santo Amaro já possuía um histórico empreendedor muito anterior a essa expansão, embasada em parte ao empreendimento assumido pelo empresariado de Santo Amaro, haja vista que, muito antes do desenvolvimento industrial da segunda metade do século XX, já havia preocupação de ampliar redes de fornecimento para São Paulo, sendo que a primeira linha férrea Cia. Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro, com locomotivas de fabricação Krauss, BN2, idealizada por Alberto Kuhlmann, alemão de nascença, naturalizado brasileiro, assumiu o compromisso, em 1883, depositando 5.000 réis na assinatura de garantias do contrato, com recursos próprios, e teve a participação de recursos privados de investidores santamarenses na ordem de 300.000 réis, sem intermediários.

A Estação da Ferrovia de Santo Amaro tinha parada obrigatória onde hoje se situa o colégio Linneu Prestes, e que mais tarde, utilizada pelo Bonde elétrico da Linha 101, com extensão de 31,0 km, inaugurada em 07 de julho de 1913 sobre a administração da "The São Paulo Railway Light and Power Company Ltd.", que havia adquirido a Carris, as locomotivas a vapor, desativadas definitivamente em 1914. O bonde servia o Itinerário desde o Largo da Sé, Rua Marechal Deodoro, Praça João Mendes, Rua Liberdade, Domingos de Morais, Jabaquara, Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, que atingia até a atual Avenida Adolfo Pinheiro (ainda não existia a Avenida Ibirapuera com seu traçado atual e muito menos a avenida vereador Jose Diniz, que era bem atuante com sua especialidade farmacológica), seguindo para a várzea de Santo Amaro, com ponto final no Largo Treze de Maio, onde era feito o balão de retorno. Em 23 de dezembro de 1920, foi inaugurado o trecho de 1600 m de extensão à represa de Guarapiranga, que pretendia ligar do Largo Treze de Maio à Capela do Socorro.

O que foi o Caminho do Carro de Boi, ligando Santo Amaro à capital paulista, para abastecimento de produtos, na atualidade tem novos trilhos no caminho, através do prolongamento da "Linha 5 do Metrô", e podem estar certo que desde a Linha do Trem a Vapor ao Bonde, mudou-se o modelo do transporte o trajeto é semelhante, seguindo para a Vila Mariana até atingir a Chácara Klabin.

*Emílio Guerra foi pioneiro do transporte coletivo ligando a região
Itapecerica a Santo Amaro e, mais tarde, tornou-se intendente da cidade de Cotia de 1964 a 1969.



Referências:

Acervo da Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo – FPHESP

Acervo do Museu da CMTC Livro "The Tramways of Brazil", de Allen Morrison

Retalhos da Velha São Paulo, Geraldo Sesso Junior.


Dna. Adozina Caracciolo de Azevedo Kuhlmann, neta do Engº Alberto Kuhlmann, depoimento quando das festividades dos 457 anos,em 15 de fevereiro de 2009, em Santo Amaro, na Associação Comercial de São Paulo, Distrital Santo Amaro.

Capela da Penhinha: Jardim São Luiz, São Paulo

A Capela Penhinha, distrito Jardim São Luiz/SP

No bairro Jardim São Luiz havia uma parada obrigatória na capela da Penhinha[1], em homenagem a Nossa Senhora da Penha, a Padroeira do Município de São Paulo (documento oficializado pela Câmara Municipal de SP), festejada pela igreja católica em 8 de setembro.

Penhinha- Festa de Nossa Senhora da Penha em setembro de 1956

Este local era ponto de peregrinação do povo e das romarias que partiam de Santo Amaro à Pirapora do Bom Jesus, por ocasião dos festejos de 6 de agosto, em homenagem a Bom Jesus, quando se faziam orações para agradecimentos de ida e volta da jornada. Animais impecáveis, com arreios reluzentes, atrelados às charretes que conduziam famílias inteiras que ali faziam a parada e davam ao lugar um estilo interiorano próprio do Município de Santo Amaro.

Já em tempos passados, os bandeirantes que exploraram o interior paulista buscavam a proteção em suas empreitadas, recorrendo em calamidades públicas de epidemias e secas, em preces à Nossa Senhora da Penha, da cidade de São Paulo. Consta que os paulistanos faziam questão da presença da Senhora da Penha em sua cidade. Remonta a 1819 a ida da imagem à Sé da capital paulista, em festa solene, “a fim de que Sua poderosa intercessão contribua para o benefício das chuvas”.

Em razão da devoção à santa e das graças e benesses conseguidas ao longo da trajetória vocacionada na fé, na entrada do bairro Jardim São Luiz foi construída uma pequena capela em homenagem à Nossa Senhora da Penha, conhecida pelo povo como "Penhinha". O registro mais antigo encontrado da capela é uma foto de 1910. A administração da capela foi conduzida, a partir de 1928, pela Conferência Nossa Senhora da Penha da Sociedade São Vicente de Paulo, de Santo Amaro.

 Penhinha 1910.

Ao alto, a capela tinha uma escada frontal, rodeada por altos coqueiros, que dava acesso aos transeuntes e devotos. Havia, na capela um campanário com sinos em bronze, que repicavam ao anunciar um feito importante no bairro Jardim São Luiz. Esses sinos foram fabricados em 1904 pela “Fundição Estrella”, que pertencia à família Dias, proprietária também da fábrica “Curtume Dias”.

A capelinha era toda branca, o que demonstrava a santidade do lugar e transmitia tranquilidade necessária ao viajante que pedia saúde e proteção em sua jornada.

Por conta da localização da capela, no entroncamento da Avenida João Dias com a da estrada que levava ao Município de Itapecerica da Serra, era possível vê-la. Por este entroncamento passava toda a boiada da fazenda Santa Gertrudes, que ia para o Matadouro Municipal, onde se abatiam as rezes para o frigorífico Eder, localizado ao lado da Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro. 


 Localização da Penhinha, destacada na parte inferior direita.


Fonte: Guia SAMARO, 4ª Edição, 1971.

A capela era parada obrigatória para a comitiva de boiadeiros devotos que, em suas montarias, atrelavam os animais próximos à Penhinha, para ter um pouco de descanso e fazer suas preces. Ali, próximo à capela, havia o armazém do Pedro Ferreira, onde se poderia abastecer com gêneros básicos como arroz, feijão, banha, milho, e alguns apetrechos de roça que faziam parte da vida cotidiana dos transeuntes, matutos caipiras interioranos, de fala mansa.

As festas em comemoração à santa faziam-se com participação popular que se dirigiam em júbilo para homenagear a "Santa Penhinha". A grandeza de toda comunidade circulante era demonstrada nas bandeirolas e enfeites que coloriam e embelezavam tudo ao redor.

Programação das festas da Capela Nossa Senhora da Penha, em 1947.

Panfleto de 1947

A Capelinha abrigava poucas pessoas em seu interior e muitos fatos de relevância eram desenvolvidos à sua volta como, por exemplo, a missa campal, literalmente no campo, em devoção a Deus.

A famosa Capelinha de Nossa Senhora da Penha, ou simplesmente Penhinha, foi demolida em maio de 1973 e hoje a área pertence ao Grupo francês CASINO (Casino Guichard Perrachon), detentor dos supermercados Pão de Açúcar, Extra e Assaí. 

A Imagem de Nossa Senhora da Penha do escultor Marino Del Favero 

 Imagem de Nossa Senhora da Penha, da capelinha Penhinha.

Obra de Marino Del Favero 

Essa imagem de Nossa Senhora da Penha foi obra de Marino Del Favero[2], conforme a assinatura atrás da imagem. Ela foi adquirida na década de 1930 depois de um incêndio na capelinha. Após restauração da capela, a irmandade adquiriu outra imagem de Nossa Senhora da Penha para reposição da imagem perdida no fogo.[3]

Quando o terreno onde se localizava a Capela de Nossa Senhora da Penha foi adquirido pela empresa Construções, Engenharia e Pavimentação Enpavi Ltda, houve a completa demolição da capela, pois a adquirente necessitava do espaço para colocar maquinários de terraplenagem. A imagem da padroeira foi transferida para a Paróquia São Luiz Gonzaga, onde integra hoje parte do acervo sacro da igreja.

 

 

 

Obs.:

Crônica original publicada em 19/01/2011 link:

http://www.saopaulominhacidade.com.br/historia/ver/4637/Penhinha%253A%2BJardim%2BSao%2BLuiz

Totalmente revisada em 28 de maio de 2023

 



[1] Depoimento e referência do escultor e modelador Felipe Dias Lopes

[2] Marino Del Favero nasceu na Província de Belluno, comuna de San Vito di Cadore, região de Veneto em 03 de março de 1864. Era de uma família de artistas entalhadores com formação na academia veneziana, como seu tio Giovanni Battista de Lotto, com que iniciou a atividade da arte tanto de entalhe quanto na escultura em mármore. Veio ao Brasil na “diáspora italiana” e trazia como bagagem um grande lastro de experiência na arte de esculturas, montando sua oficina-ateliê em 1893, na região central de São Paulo. O trabalho do escultor italiano era entalhado em madeira e depois marmorizado e dourado. Ele elaborava além de imagens, púlpitos, retábulos, altares. Criou muitas esculturas e trabalhou com obras de arte sacra por meio século, sendo reconhecido como um dos melhores escultores de arte sacra entre o final do século XIX e início do século XX no Brasil. Faleceu em São Paulo em 23 de junho de 1943. Informação obtida no II Seminário Internacional Patrimônio Sacro: Mosteiro de São Bento-julho de 2015: A Presença Italiana Na Arte Sacra Paulista na Virada do Séc. XX: A Oficina de Escultura e Entalhe de Marino del Favero - Cristiana Antunes Cavaterra, coordenação da mesa Percival Tirapeli.

[3] Felipe Dias Lopes, relata que seu pai, Constantino Dias Lopes, era espanhol e que veio para o Brasil em 1886 fixando residência na atual Avenida Maria Coelho Aguiar, tornando-se festeiro e guardião da Capela da Penhinha.









As Estradas de Santo Amaro para Socorro da Represa!

História publicada em 23/02/2011 link:


São Paulo possui uma "arqueologia histórica" que está soterrada por uma "camada de fatos" que se resume em fragmentos que, por vezes, precisam ser escavados e trazer à luz o conhecimento de como determinadas regiões se tornaram grandes aglomerados de subúrbio.

Fomos "escavacar" parte desta busca na região de Vila São José e Icaraí, ao longo da antiga estrada de Parelheiros, local onde houve, um dia, parelhas de animais, pelos lados da atual Avenida Teotônio Vilela atravessando a Capela do Socorro.

No passado, a ousadia do inglês Louis Romero Sanson, engenheiro britânico, que havia tido experiência anterior de construção deste tipo em Caracas, Venezuela, foi responsável pela construção da "Auto-Estradas Sociedade Anônima", que ligaria São Paulo a Santo Amaro e que depois se tornaria a Avenida Washington Luis, e também responsável pela expansão da região de Interlagos, anunciada como um verdadeiro Oasis, cercada de matas e duas belas represas, antes chamadas de Represa Velha de Santo Amaro e Nova, ou seja, a de Guarapiranga e Billings. A ideia de construir o balneário entre dois lagos foi definido através do francês que trabalhava no projeto de urbanismo, Alfred Agache.

A Sociedade Anônima Auto Estradas foi formada em 1927 para construções de várias obras de infra-estrutura, incluindo uma "super estrada" ligando a Cidade de São Paulo a Cidade de Santo Amaro. A Auto Estrada, um avanço tecnológico à época, passou a ser denominada depois de Avenida Washington Luís; foi construída saindo da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio para Santo Amaro, com 11,5 quilômetros.

Depois passava por um segundo posto denominado Vila Sofia que completava o percurso até a represa com 2,5 quilômetros. Pela concessão, foi permitida à sociedade cobrança de taxa de uso por um período de 15 anos e que, após esse período, seria repassada sem ônus para a Câmara Municipal de Santo Amaro.

Uma junção de interesses fazia com que não onerassem os cofres públicos com a participação de acionistas da sociedade que controlaria o "pedágio", completada com a participação dos proprietários de terras que seriam ressarcidos por compensar a passagem de uma auto-estrada moderna, além de expansão da localidade com vendas de lotes com despesas de propaganda e venda por conta da Sociedade Anônima Auto Estradas.

Para tal empreitada, a empresa responsável pela construção desembolsaria, para o arrojado projeto, a soma "astronômica" de Rs3.000.000$000, valores em réis, moeda circulante de então. Para uma comparação, o Município de Santo Amaro possuía receita anual de Rs 300.000$000, ou seja, despenderia seus recursos para construí-la em 10 anos, sem investimentos em outras áreas importantes.

Hoje essa parceria seria definida como "Parceria Pública Privada", para benefícios de muitos e "pode talvez incentivar alguns outros municípios a adotar uma solução semelhante para obtenção de vias de transporte de que carecem com urgência" com indicação colocada no compêndio de "Santo Amaro, Escorço Histórico", da década de 1930.

O engenheiro Sanson foi responsável também pela construção do Aeroporto de Congonhas. Num plano diretor de ampliação da cidade, implantou ainda o Autódromo José Carlos Pace, nome em homenagem ao piloto brasileiro de Fórmula 1, e que era conhecido como Autódromo de Interlagos, inaugurado 12 de maio de 1940 e administrado pela "Auto-Estradas Sociedade Anônima" até 1954, quando passou à administração municipal.

Um pouco à frente desta incursão pela história, entramos na bifurcação da Avenida Interlagos e Avenida do Jangadeiro acessando Avenida Teotônio Vilela. Quase uns três quilômetros à frente, estavam terras que um dia fizeram parte de um projeto imperial de ocupação do território brasileiro por colonos. Vimos ao alto a Capela São José, que está localizada do outro lado da Avenida Teotônio Vilela subindo a rampa da Praça, no Icaraí. É uma capelinha singela ao alto, um marco de um passado glorioso destes colonos alemães, terras da "boca do sertão paulista" do tempo do Império que fizeram parte da gleba das famílias Schunck, que ousou desbravar e fixar raízes que, juntamente com família Rochel, vieram para a região em 1829, quando da implantação da primeira Colônia em São Paulo e uniram-se famílias em laços matrimoniais.

Voltando para Santo Amaro, descemos na antiga Avenida Robert Kennedy, perto do Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico, pronto para descerrar a manta de sua "reinauguração", que marcou um feito épico da Travessia do Oceano em 1927 pelos aviadores Francesco Di Pinedo e João Ribeiro de Barros, mesma época do início da construção da Represa Nova de Santo Amaro, a Billings, maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo através do "aprisionamento" das águas Rio Grande, iniciada também em 1927 pela Light & Power fornecedora de energia elétrica para a Cidade de São Paulo completada no inicio da década de 30 do século passado.

O Monumento "atualmente" está acessível e pode-se contemplá-lo sem dificuldades, pois está "aberto" para visitação e, graças ao esforço da sociedade civil e dinheiro público, houve por bem trazerem o Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico de volta à "sua terra natal" para tornar-se parte integrante dos parques recém-inaugurados na orla da Represa de Guarapiranga.

Deste modo, o poder público fez uma correção histórica, recuperando este símbolo depois de 23 anos de ausência "descansando" na região dos Jardins, voltou e foi reinaugurado em 19 de dezembro de 2010, com as pompas de praxe para fixá-la novamente nas margens da Represa de Guarapiranga, depois da insistência por parte dos moradores que "fizeram" este lugar com esforço pessoal, aprazível, mas esquecido pelas autoridades, os maiores responsáveis pela degradação local, sem investimento em infra-estrutura, e isto consta à falta de captação e tratamento de águas de uso humano lançado diretamente nas represas.

Houve por bem "também" alterar o nome da Avenida Robert Kennedy para seu nome de Avenida Atlântica, originalmente aberta e depois ampliada para o loteamento como do Jardim Veleiros, feita pela Empresa Brasileira de Terrenos Ltda. e que surgiram nesta época incorporada a outros nomes sugestivos das belezas que remetia a pátria dos colonos e que originou a Vila Friburgo.

Somado a este loteamento estava o denominado "Interlagos - Balneário Satélite de São Paulo" da década de 30 da construtora e imobiliária ligada aos empreendimentos da "AESA - Auto Estradas S.A.".

Entre 1963 e 1965, houve necessidade de ampliar a "picada" cortada na mata original que saia do Largo do Socorro e que iria encontrar o empreendimento da Auto-Estrada que se unia a Interlagos. Nascia à Avenida Atlântica ampliada durante a gestão do prefeito de São Paulo, Francisco Prestes Maia, quando era o subprefeito de Santo Amaro Fernando Scalamandré Junior.

Começava a corrida pela apropriação indébita pelo interesse deste "novo nicho", abrindo-se um mercado imobiliário por contrato entre partes, muitos em volta das represas, sem preservação de mata ciliar para evitar assoreamento.

Por este motivo, estes locais não possuem, até em dias atuais, escrituras de posse lavradas por cartórios de registros. Muitos incautos se tornaram "proprietários" enganados por empresários do setor imobiliário atuando como grupo de pressão em muitos "projetos" que foram "aprovados" em gabinetes em troca de apoio político.

Havia na região os trens da Sorocabana que alimentava o Porto de Santos e cortava com seus trilhos locais primaveris, de mata intocável que passou a formar outros bairros ainda mais distantes, eram jardins da Primavera.

A concessão de uso de solo tornou-se posse definitiva por uma condição de "usucapião", adquirido por estabilização da posse por tempo. Com conivência do poder, que sem projeto e planejamento, passou a recolher impostos locais para "engordar" verbas municipais, passando a atitude a consolidar as áreas legalizadas em margens das represas abrindo espaço sem precedentes anteriores em disputas da força e sem um Plano Municipal de Habitação, na área de Região Metropolitana de São Paulo após a anexação dos 660 quilômetros que pertenciam a Cidade de Santo Amaro e passou ao Município de São Paulo!

Ainda pelo trajeto, dirigimo-nos à direção do Largo 13 de Maio, marco central de Santo Amaro, onde a Matriz do bairro permanece "silenciosamente" fechada por riscos eminentes à integridade de quem participa do cotidiano na localidade e que busca "interditada", mobilização para recuperação deste marco santamarense, sufocada pela expansão local.

Um exemplar da "Gazeta de Santo Amaro" da semana anunciava que se dariam os acontecimentos do dia 19 de dezembro de 2010. Lendo com tranquilidade, deparei-me com os expressivos momentos distintos: o anúncio da reforma da Biblioteca Prefeito Prestes Maia, antiga Biblioteca John Kennedy, em Santo Amaro e sobre a entrega do Parque da Barragem e a reinauguração do Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico agregando tudo a sua volta, e também alteração do nome da Avenida Robert Kennedy para Atlântica.

As formalidades já estavam encaminhadas pelos representantes municipais, três inaugurações em um único evento: a entrega do Parque Barragem, a reinauguração do Monumento aos Aviadores e a alteração do nome da Avenida Robert Kennedy.

Os Kennedy, deste modo, perderam o vínculo nominativo na região, ovacionados há quase 50 anos esquecidos na contemporaneidade, com alteração do nome da Biblioteca Municipal de Santo Amaro, que possuía o nome John Kennedy passando a ser denominada "Prefeito Prestes Maia" e da referida Avenida, efeitos do vinculo do passado, da Doutrina do Destino Manifesto Americano e fruto da "Aliança para o Progresso" entre os países da América da década de sessenta e que foram responsáveis de liberação de fundos financiadores para o Brasil. Um novo paradigma contemporâneo define não ser mais possível colocação de nomes de estrangeiros em logradouros "respeitando" a Lei nº 14.454, de 27 de junho 2007 que determina que as placas das ruas, avenidas, praças e logradouros públicos contenham informações sucintas sobre a origem, significado ou biografia de quem empresta o nome à via pública e vedada a denominação de vias e logradouros públicos em língua diferente da nacional.

Atualmente, tudo isto está localizado ao extremo sul do Município de São Paulo, na região de Capela do Socorro, e formada pelos distritos de Socorro, Cidade Dutra, Grajaú, com uma superfície de 134 km², que corresponde aproximadamente a 10% do município de São Paulo, sendo que 90% estão em áreas de proteção de mananciais, que abastece 30% da população da região metropolitana de São Paulo, e que precisa ser cuidada para evitar o colapso do impacto da ocupação desordenada e prioridade com o meio ambiente referida na Agenda 21, ou seja, o século que preservar a vida da Cidade de São Paulo que passará forçosamente na preservação da água dos mananciais, ou sucumbir por errôneas opções do planejamento da cidade em que se quer viver.

A "Cidade" de Santo Amaro/SP e seu Jornalismo Historiográfico

História publicada em 29/06/2011 link:


O bairro Capela do Socorro, que se incorporava ao distrito de Santo Amaro, realidade anterior à oficialização de 1938, tem seu nome ligado ao marco importante para a aviação mundial relacionado à Primeira Travessia do Atlântico sem suporte marítimo pelo oceano.

Este épico ocorrido em 1927 foi realizado pelos aviadores, Francesco De Pinedo, comandante da Força Aérea Italiana e João Ribeiro de Barros, comandante brasileiro, natural da cidade paulista de Jaú, que amerissaram com seus hidroaviões Santa Maria e Jahú na Represa de Guarapiranga, reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo e fornecedora de energia elétrica da empresa The São Paulo Tramway, Light and Power Company Ltd.

O fato teve relevância à época, promovendo a vinda do maior industrial de São Paulo, Francesco Matarazzo a Santo Amaro conversar sobre a construção do "Monumento aos Aviadores da Travessia do Atlântico" para memória deste momento histórico. O empresário fez o pedido ao então prefeito em exercício de Santo Amaro, Isaías Branco de Araujo, convencendo-o da importância histórica do Monumento que foi idealizado pelo artista italiano Ottone Zorlini em 1929.

Isaías Branco de Araujo já havia decretado cumprimento dos nomes dos aviadores às ruas nas margens da represa de Guarapiranga, além da referência de Avenida Atlântica ao que era ainda uma estrada de terra que se ligava à obra da "AESA - Auto Estradas S.A.", uma estrada que depois recebeu o nome de Avenida Washington Luís, homenagem ao presidente deposto pelo golpe de 1930. Era uma construção arrojada e moderna para a época, ligando a "Cidade de São Paulo" à "Cidade de Santo Amaro" e que se completava ao Largo 13 de Maio, centro de Santo Amaro, através da Avenida Victor Manzini, outra homenagem justa ao idealizador do jornal A Tribuna, fundado em 1936, que cruzava pelo Rio Pinheiros passando pela Capela do Socorro dirigindo-se largo da Cidade Dutra.

Em depoimento ao jornal da região, "Gazeta de Santo Amaro", em novembro de 1960, Isaías Branco de Araujo, prefeito de Santo Amaro de 1917 a 1928, na época município do Estado de São Paulo declarava no subtítulo "De Pinedo e Conde Matarazzo": "Recepcionei João Ribeiro de Barros quando desceu com o Jahú na Represa. Em homenagem ao grande aviador, dei o nome à Avenida do Bairro do Socorro, este já existente antes das formalidades de fundação indicada como o ano de 1938. Quando o Conde Matarazzo, em nome da colônia italiana, veio a esta cidade tratar do monumento na represa em honra ao aviador, foi por mim recebido".

No início da década de 60, houve necessidade de ampliar a "picada" cortada na mata original que saía do Largo do Socorro, indo ao encontro do empreendimento da Auto-Estrada unida a Interlagos, sendo, mais tarde, a referida Avenida ampliada durante a gestão do prefeito de São Paulo, Francisco Prestes Maia, quando era o subprefeito de Santo Amaro Fernando Scalamandré Junior. Nesta época também houve a alteração do nome da Avenida Atlântica para Robert Kennedy, o Bobby, irmão do presidente americano John Fitzgerald Kennedy, que visitava o Brasil oficialmente, fruto da "Aliança para o Progresso" entre os países da América da década de 60 e que foram responsáveis de liberação de fundos financiadores de empreendimentos brasileiros.

Hoje estes homens são parte da historiografia, os Kennedy não são mais nome de rua e a biblioteca ex-Kennedy recebe as honrarias de seu idealizador Prestes Maia, sinal dos tempos transformadores do espaço santamarense.

Uma nova resolução atual, Lei nº 14.454, de 27 de junho 2007, define não ser mais possível colocação de nomes estrangeiros em ruas, avenidas, praças e logradouros públicos voltando deste modo o nome original de Avenida Atlântica, realizado por ato público em 19 de dezembro de 2010, que recebeu de volta também o "Monumento aos Aviadores da Travessia do Atlântico", no Parque da Barragem, na Represa de Guarapiranga.

Santo Amaro possui uma historiografia respeitável, como tantos outros bairros paulistanos, e que através de sua importância há a incumbência da preservação da historiografia e a hemeroteca de suas duas representações jornalísticas de imparcialidade, através do "A Tribuna", do inesquecível jornalista Victor Manzini e a "Gazeta de Santo Amaro", de inestimáveis préstimos de seu diretor Armando da Silva Prado Netto.

Santo Amaro sempre ofertou a melhor política, mesmo recebendo pouco em troca das benesses ofertadas, e atualmente é de grande interesse imobiliário e recebe investimentos, transformando o local de residências de comerciantes e operários em local de construções verticalizadas, mas que deve preservar em seu interior as características de um urbanismo, devendo manter a preservação ambiental, evitando os desmandos do passado. 

Cidade de Santo Amaro com todo o respeito

História publicada em 26/03/2012 link:


Existe uma resistência por parte do poder público em determinar o que é útil às comunidades, que estão ao redor de sua estrutura. As cidades deveriam ser a excelência do bem conviver, mas o que vemos diante da teoria é o contrário da prática. O centro determina as regras dos subúrbios, que abastecem as cidades em suas necessidades, que por sua vez recebem o suporte da periferia, com uma estrutura subvalorizada, que interessa aos núcleos administrativos. Deste modo anda toda célula, por osmose, deste ser vivo urbano do sistema financeiro e econômico, atrelado aos interesses do poder político instituído expande por Santo Amaro. Esta expansão busca seu espaço vital expandindo suas garras e abarca conforme as necessidades, locais antes abandonados pelo poder público. Assim cresce no espaço periférico o setor imobiliário em toda uma barbárie destrutiva das comunidades, seu sentido comunitário, antes de ajuda mútua pela falta de infra-estrutura anterior. A locomoção dos tentáculos financeiros, vão se aproximando antes da expansão imobiliária e logo em seguida, uma estrutura militarizada onde anteriormente havia o respeito e nada era de interesse do poder de vigiar e punir.

Por muito tempo a região elevada a “VILLA” de Santo Amaro foi esquecida e abandonada a própria sorte, foi lesada em seus interesses em detrimento da capital: roubaram-lhe o direito de autonomia, sem contar furtos, embora menores, minaram-te as forças ao desviarem interesses de locomoção como o "metrô" anunciado para a região na década de 60, anterior ao da capital, para monopolizar o sistema de transporte urbano de empresários políticos controladores de coletivos urbanos precários.

Sem contar que te furtaram sempre em tua cultura caipira, mataram-te aos poucos, destruindo teu museu folclórico, teu conservatório, tua capacidade geradora de riquezas, teu expansionismo industrial. Tuas aspirações foram estranguladas porque resolvestes lutar pelo mínimo respeito democrático, e foste acuada em tua dignidade, no melhor estilo dos ditadores, segurastes nas serras teus detratores, os corruptores das liberdades na Revolução de 32, mas minaram-te até acabarem com tuas forças. Dividiram tua grandeza, e hoje te recolhe em um espaço mínimo de pouco mais de 15 quilômetros quadrados, de tua liberdade territorial do que antes excedia a 640 km².

Hoje estais na UTI e os poderosos querem dar-te sangue injetando nas tuas artérias, enaltecendo tuas belezas, do que pouco restou de ti, mas faz parte da cobiça financeira. Não sei se vais morrer antes do socorro, mas inevitavelmente terás sequelas do que sofrestes por abuso ao longo do tempo, e teus algozes, que te roubaram, bancam sintomas do abusador nas tribunas, se não os detratores, seus filhos que aprenderam com o mesmo discurso roubar-te como fizeram os genitores.

Embora o padroeiro Santo Amaro Abade, consta não ter tido filhos e como fala a sapiência do amigo Geraldo Diniz, morrido solteiro, não pertenço à genealogia da estirpe santamarense, mas fui recebido de braços abertos como filho adotivo da “Cidade” de Santo Amaro, e não mereces ingratidão, mereces ao menos respeito, apesar dos insultos que te aplicam, és maior do que os governantes efêmeros!

A Cidade de São Paulo Indígena



Foi oficiosamente registrada como "São Paulo dos Campos de Piratininga", local de "secar peixes" e que se tornaria a maior cidade da América do Sul. Se já era conhecida como Piratininga a aldeia de Tibiriçá, o "vigilante da terra" o morubixaba. Este "cacique" faz parte da historiografia com sua taba, a aldeia formada no local alto vendo-se todas as terras das águas ao redor das ocas a denominação Piratininga prevalece sobre o registro europeu que originou pelo Pátio do Colégio, mera tapera, casa de pau a pique, onde se pretendia instituir uma escola catequética de interesses da dominação européia.

O Ibirapuera faz parte de outra localidade do irmão de Tibiriçá, Caiubi, de caá (mato) e obi, ou as "folhas azuis" chefe dos nativos guaianás, que na partilha da "reforma agrária indígena", Piratininga foi dividida pelo morro da atual Avenida Paulista descendo até Santo Amaro, migrando este cacique na procura de região nas proximidades de outras nascentes d'água.

Diz-se que "El Rey", querendo dominar e denominar seus redutos na confluência ao sul do Tratado entre Portugal e Espanha, achou-se por bem encomendar um "agrimensor territorial" que além de delimitar a posse pela ocupação faria a toponímia, a lista de nomes específicos de pontos geográficos e que seriam determinados por vários relevos, como montanhas, rios.

Assim partiu a nau de Portugal rumo as "Terras sem Mal" trazendo o referido agrimensor, para o local mais próximo da divisa sul e apontou no litoral onde antes havia estado Martim Afonso de Souza, com sua Expedição Exploradora, condição esta seguida por muitos no mesmo feitio ao longo do tempo. Foi designado para o acompanhamento de tão honrado demarcador territorial os mais proeminentes guias do grupo de língua tupi, nativos denominados "negros da terra" pelos exploradores, uma língua geral que mesclada originou o dialeto caipira dos caboclos, "gente do mato", e o dialeto paulistano uma mistura de sotaques característicos com o advento das imigrações.

A expedição penetrava nas terras e montava acampamento, subindo vagarosamente por Paranapiacaba, onde o "mar estava a vista" do lado de Cubatão, a "terra montanhosa", a Serra do Mar. Deste modo penetrava-se na "Boca do Sertão" por Embu Guaçu, local de "cobra grande" por um caminho que os nativos conheciam com Cupecê, o local da "fronte da borda da mata" onde o "honrado emissário" de Portugal, voltado a certo luxo e um pouco de preguiça, não negava o ócio.

Começou a nomear o local, escrevendo conforme diziam os autóctones que conheciam cada espaço geográfico. Assim seguiu a marcha, parando em Grajaú, local dos "macacos pretos", foi mais adiante, parando no rio Guarapiranga, para matar a sede na "garça vermelha" dando de frente com o rio Jeribatiba, "local de muitas jerivás", palmeiras pendentes indo cortar caminho pelo M' Boi Mirim, local infestado de "cobras pequenas". Seguia a comitiva na trilha que levava a enxergar de longe o Morumbi, uma "colina com muito verde" subindo em direção a um caminho de Moema, um local "doce", um verdadeiro Oasis, seguindo depois em direção a Ibirapuera, ybyrá-pûer-a, tronco seco, árvore morta, típica de charco, indo depois para Iguatemi o "rio verde e escuro" até atingir o Itaim "a pedra pequena" para um descanso merecido. Depois seguia por terra firme pelo Butantã, "lugar de "terra dura" e firme em direção ao planalto cortado pelas águas onde da aldeia via-se o vale do Anhangabaú, onde corria o "rio do mau espírito", que os dogmáticos mudaram para "diabo".

Descendo um pouco mais, atingia-se o Anhembi, local de "ervas de flores amarelas" seguindo o curso para o Tamanduateí, de águas correntes fortes, por ser um "rio de muitas voltas", referência as sete voltas na várzea até atingir o Porto Geral, hoje "cruza-se a pé enxuto" a Rua 25 de Março. Talvez fosse habitado por tamanduás, mas para isso seriam necessárias escavações arqueológicas para confirmação contemporânea. Seguia um seu importante afluente, o Ipiranga, o rio Vermelho, conhecido pela independência, porém nem tanto independente assim. O Tamanduateí descia sinuosamente até encontrar com o Tietê, "o rio verdadeiro", o da integração do território usado para entradas ao interior. Passava-se pelo Carandiru, o "bosque dos carandás", espécie de palmeira de tronco forte, que embelezava a região.

Dizem as más línguas e as boas também, que o primeiro lugar do interior do Brasil em se encontrar o "Eldorado" foi no Pico Jaraguá, o "senhor do Vale", local onde luziu o primeiro veio de ouro, e quem possuía o nome de "senhor" era a montanha e não seu "dono de posse", Afonso Sardinha. Isso tudo se perdia ao longe noutra serra, a da Mantiqueira, "lugar onde chove muito", mas isso debandava mais para a "Boca do Sertão".

Há muitos outros belos exemplares de nomes que pertencem a este universo linguístico das nações indígenas, que na atualidade dizem somar mais de 200 outras línguas que não o português, com território, costumes dos mais variados, com danças, comidas, rituais e, deste modo são realmente nações, mas o medo da balcanização em Pindorama, a "Terra das Palmeiras", não se admite outra nação que não seja o Brasil.

O emissário do rei voltou, mais tarde, para a Metrópole, com os méritos do reino, galgou talvez outros postos pelos préstimos à Coroa e deve ter lotado a "burra" de maravedis, a moeda e ouro da Península Ibérica, a riqueza que lhe deu vida de marajá em algum outro reino das riquezas das Índias Orientais.

São Paulo de Piratininga, das Índias Ocidentais, ganhou a riqueza dos nomes que já existiam, anteriores ao "Achamento do Brasil" e ligava o Atlântico ao Pacifico pelo Peaberu "caminho (inca) do gramado amassado" que unia o Império em Cuzco, no Peru, a Capitania de São Vicente, ligação de um Mercosul antigo. Há muito “nhen-nhen-nhen” constante para "ficar falando sem parar", sobre este imenso vocabulário que ficou como legado indígena, um presente para São Paulo e que falamos constantemente no dia a dia, sem pretensão de um glossário, pois há tantas análises de especialistas competentes, sendo apenas uma maneira de "enxergar" a cidade de São Paulo de tantos matizes.

Navarro, Eduardo de Almeida. Método Moderno de Tupi Antigo. Rio de Janeiro:
Editora Vozes, 1998

A "cidade" de Santo Amaro e as bitolas dos "trilhos ferroviários"

História publicada em 29/05/2012 link:


Por contingências inerentes à vida precisei deslocar-me à "cidade" de Santo Amaro, deparando-me com sua transformação, mais uma vez, praxe de seu pioneirismo sobre trilhos, desde sua locomotiva a vapor alemã Krauss, de “bitola estreita”, que percorria quase vinte quilômetros entre Santo Amaro e o Bairro da Liberdade. Depois vieram os bondes 101, Santo Amaro, de “bitola larga”, num itinerário de pouco mais de 30 quilômetros ao Centro da capital do estado. Com os tempos "modernos" aflorou novas estruturas imobiliárias, que exigiram transportes coletivos mais rápidos, trens "bala", para ligar nossa única identidade nacional, a "bola" do futebol.

As novas condições "ferroviárias" em nome do "progresso" demonstram-nos que o tratamento de "evolução" reflete a "involução", pois alguma dúvida paira como condicionamento do pensamento humano, se há realmente uma "mudança para melhor", esquecendo-se de momentos progressivos anteriores!

Hoje, novamente o Brasil quer "alavancar-se" sobre trilhos, adquirir máquinas modernas "importadas", expandir portos para "exportar" seu desenvolvimento "in natura", próprio de seu eterno imediatismo. Deixando as indagações sempre latentes, repentinamente Santo Amaro, "que morreu solteiro e não teve filhos", como diz nosso grande amigo, Geraldo Diniz, conhecido como Pracinha, lavratura de legítimo santamarense digno desta estirpe, e um de seus grandes proclamadores, vê transformada em "outro" novo modelo urbano, através do metrô, da linha cinco, colorida de lilás, de “bitola internacional”, que já possui pequeno trajeto do bairro Capão Redondo ao Largo Treze de Maio.

Esta linha atual implanta-se sobre os antigos trajetos, ou se não, próximo de suas estruturas, e sendo assim a concessionária "tropicou" nos trilhos antigos dos bondes que circularam pela última vez em São Paulo, com direito a carreata e comício em 27 de março de 1968, saindo do Biológico, Vila Mariana, para o Largo Treze, em Santo Amaro.

Quem porventura quiser deparar-se com a placa comemorativa do referido feito, há de vê-la na parede lateral da Catedral, esta também, infelizmente desativada para "reforma" do local, por riscos de "tombar" literalmente, embora seja referido como patrimônio tombado.

Esta "nova" estrutura sobre trilhos, não é novidade nenhuma para Santo Amaro, e outras tantas pioneiras da cidade de São Paulo, sendo que o estado havia se desenvolvido por mais de dez mil quilômetros de trilhos ligando cidades, e agora "a cidade de Santo Amaro" será integrada novamente entre trilhos até a Chácara Klabin, num trajeto via Vila Mariana, como sempre fora feito no "progresso" trilhado, somente mudando o “bitolado”!

A Botina Amarela de Santo Amaro/SP

História publicada em 28/06/2012 link:


Hoje o termo se tornou a outorga "Troféu Botina Amarela" de relevância para todo santamarense, anualmente concedido pelo Centro de Tradições de Santo Amaro. Representa a identidade "caipira" daquela que "é" a Cidade de Santo Amaro. Há ainda, nesta representação, o "Museu Histórico de Santo Amaro", que encarna a vida desta postura daqueles que sentem esta importância cultural.

Há algumas condições que permanecem embutidas nesta filosofia: Supõe-se que o termo tenha tido algumas versões ao longo do tempo, neste espaço de 640 km², que já foi um município independente com particularidades únicas em suas festas e expressões como a Festa do Divino, sua culinária típica do tropeiro, com a pururuca crocante, um virado em "minestra" de coisas típicas da lavoura, seguida da prosa e da viola chorada típica da "boca de sertão", cantoria entoada no meio de um fogo a lenha próximo do galpão onde "descansavam" as ferramentas da "lida" da roça, foices, enxadas, enxós, machado, e um cavalo livre dos arreios que servirá como montaria, um dia, na Romaria de Pirapora (há interesse em fazer das romarias patrimônio histórico e para isso pensa-se em tombamento junto aos órgãos competentes!).

O agraciado "Botinado", significativo àqueles que possuem o mérito, tem o nobre dever de representar suas origens onde porventura esteja a memória da ancestralidade em quaisquer situações, manter a honradez além da ética que condiz com estas tradições que nasceram no Município desde suas estruturas de vilarejo.

Santo Amaro sempre teve relações de confiança com a Capital paulista, selando este compromisso na Revolução Constitucionalista, sendo responsável pelo abastecimento de produtos agrícolas e, além disso, fornecer à cidade combustível disponível anterior à energia elétrica: o carvão vegetal.

Nessas idas e vindas de circulação do campo para a cidade e vice versa havia o contato com doenças desconhecidas de então, combatidas com as condições que se tinha conhecimento, onde os sanitaristas requisitavam pequena infraestrutura de higiene básica evitando-se esgoto a céu aberto, combatendo, desse modo, doenças típicas tropicais e requisitando a população às condições mínimas para evitar que ficassem acamados.

Os trabalhadores da lavoura de Santo Amaro usavam como proteção, botinas de couro curtido que possuía uma coloração próxima ao amarelo, impregnada de terra de um tom meio alaranjado somado a um vermelho vivo. Para transitarem e para transportarem mercadorias para a Província, no mercado de abastecimento municipal, usavam as mesmas vestimentas usadas na labuta em Santo Amaro, com botina fabricada artesanalmente pelas "indústrias" familiares santamarenses, com solado de couro, com costura grossa e couro bem tratado. Assim, ficou registrada essa marca em toda a Província, onde o brasão define esta gentilidade antiga: "ANTIQUISSIMUM GENUS PAULISTA MEUM".

Entre os contadores de "causos" chegou-nos esta oralidade que é transmitida como identidade local, e deste modo, continuam a falar uns aos outros como matutos bem vividos: “Contei e afirmo ser a verdade!” Pode ser que existam outras versões e seria interessante se existissem outras, mas está feito como me foi dito e feito está. “Cada saber é um saber a saber”.

O Centro de Tradições de Santo Amaro, o Museu Histórico e a Hemeroteca,(em fase de conclusão, iniciada por este missivista e continuada por adeptos) do jornalismo de Santo Amaro, estão localizados na Avenida Professor Alceu Maynard de Araújo, número 32.

Datas comemorativas e intervenções em Santo Amaro, São Paulo

História publicada em 07/08/2009 link:

Anterior à civilização européia, todas as regiões possuíam nomes indígenas e muitas assim permaneceram por "preguiça" do agrimensor Real, que tinha incumbência de denominações oficiais. Assim permaneceu o campo de Ibirapuera ou Virapuera, do tupi ibi-ra-quera, denominação para "árvore velha". Da aldeia dos índios guaianases, à beira do rio Jeribatiba (Jerivá: palmeira que produz cocos e tiba: abundância), na localidade de Ebirapoêra (outra interpretação encontrada como "mata grande") foi fundada Santo Amaro, na aldeia de Caá-ubi, irmão do cacique Tibiriçá, que cedeu também sua aldeia para ali fundar o Colégio que deu origem a São Paulo. Havia semelhança no modelo de ocupação destas duas localidades protegidas contra ataques repentinos e com a proximidade das águas de sustentações das aldeias.

Havia também o Caminho do Peabiru, que em tupi-guarani tinha o significado: "Caminho Amassado Sem Ervas" (Pe=caminho, abiru=gramado amassado), que ligava o Pacífico ao Atlântico atravessando a Serra do Mar até Cusco no Peru, nos Andes Incas, "Terra D'El Dourado", cobiça de ibéricos, que possuíam o "Auto de Posse" das Terras. Para os descendentes guaranis, era o caminho de busca da Terra Sem Mal, caminho que levava ao céu. Pode ter sido, porém, um caminho de comércio para o povo inca, abrangendo mais de 3000 quilômetros.

O atual bairro de Santo Amaro recebeu muitos nomes ao longo do tempo, além dos dois acima, era ainda identificado também por Jeribatiba, Santo Amaro de Virapuera, e finalmente com o nome atual de Santo Amaro. O caminho da aldeia dos índios guaianases à beira do rio Jeribatiba, na aldeia do cacique Caá-ubi foi fundada a cidade de Santo Amaro, ligando-se à Trilha do Ouro e Prata Inca, do litoral pela Serra do Mar ou como era conhecido pelos portugueses, na parte mais baixa, como Serra do Facão.

O primeiro registro de terras na região data de 12 de agosto de 1560: duas léguas de terras na margem esquerda do rio (atual Rio Pinheiros) então chamado de Jeribatiba, doadas aos padres jesuítas. Data-se desta época a denominação Santo Amaro, homenagem dos jesuítas que trouxeram de Portugal uma imagem do Santo, embora se confira segunda hipótese
errônea da doação da imagem por parte do casal João Paes e Suzana Rodrigues (vide estudo detalhado em: O “Santo” da Igreja de Santo Amaro, a “Banda do Além” e a genealogia dos Aguilar, Rodrigues, Paes e Borba Gato http://carlosfatorelli27013.blogspot.com/2018/06/o-santo-da-igreja-de-santo-amaro-banda.html) para a Capela Nossa Senhora da Assunção de Ibirapuera, ambos vindos com o capitão maior da esquadra em expedição de exploração de 1532, que se dirigiu em direção ao Rio da Prata, de onde a embocadura escoava riquezas da América espanhola, Martim Afonso de Souza, para lavrar terras recebidas em sesmaria, primeiros latifúndios da terra, cujo documento original encontra-se hoje no Arquivo Nacional, em aldeamento dos naturais e caminho dos guaranis.

O padre José de Anchieta não presidiu uma missa oficialmente na aldeia que ficou conhecida como Santo Amaro (santo cristão, do século 6º, também denominado Mauro, antes de sua ordenação! É considerado protetor dos agricultores, carroceiros e carregadores) sendo 15 de janeiro o dia e mês em que se faz comemoração deste abade beneditino. Ele se tornou sacerdote a partir de 1566 quando foi ordenado, podendo assim fazer os santos ofícios a partir dessa data!

Em 14 de janeiro de 1686 a capela de Ibirapuera foi elevada à categoria de Freguesia de Santo Amaro pelo segundo (embora o primeiro D. Frei Manoel Pereira, dominicano, confirmado por Bula de 22 de novembro de 1676, nunca assumiu) Bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros Alarcão, secular que assumiu a mitra em de 19 de agosto de 1680 (embora conste a posse em 1681) até 06 de abril de 1700.

Em de 06 de setembro de 1746 foi criada a Diocese de São Paulo, representado com a criação do bispado paulista. O primeiro bispo foi Dom Bernardo Rodrigues Nogueira, que veio de Portugal em 1695 para tomar posse da diocese. Para que ele subisse a Serra do Mar, foi melhorado o Caminho do Cubatão, que os proprietários das sesmarias antigas chamavam Caminho do Padre José, 
dizem que o nome foi por mando tê-la aberto, ou consertado, o Venerável Padre José de Anchieta. Era entrada nos "sertões" atravessando o Geribatiba (Rio Pinheiros), indo para as terras de Butantan, de Afonso Sardinha, avizinhadas com as terras de Carapicuíba, saindo em direção a Piratininga.

Assim o bispo Dom Bernardo Rodrigues Nogueira fez primeiro contato com São Paulo entrando por Santo Amaro, em direção a cidade de São Paulo, representando a Igreja até novembro de 1748.

No dia 10 de julho de 1832, por decreto da Regência, Santo Amaro tornou-se independente com instituição própria instalando os trabalhos em 07 de abril de 1833 com a elevação para Vila de Santo Amaro (para ser elevada à condição de Vila deveria providenciar Cadeia, que em 1837 foi aprovada pela Câmara Municipal com imposto de quinhentos réis ao ano para a construção da mesma, além de instituir Forca, Pelourinho, e Igreja), empossando Francisco Antônio das Chagas, pai de Paulo Francisco Emílio de Sales, o poeta Paulo Eiró, também conhecido como professor Chico Doce, através de um eleitorado paroquial, sendo deste modo empossado o primeiro presidente da Comarca de Santo Amaro junto com mais sete vereadores. A primeira sessão da Câmara de Santo Amaro ocorreu no dia 6 de maio de 1833.

Em lei provincial de 1835, instituíram-se cargos de prefeito e subprefeitos, sendo nomeado o primeiro prefeito de Santo Amaro o capitão Manuel José Moraes, em 04 de março de 1835. Era tio-avô de Prudente de Morais, primeiro presidente civil do Brasil República.

O cartório do bairro de Santo Amaro possui os primeiros livros datados de 1832, arquivado o registro da transcrição da Lei Áurea, assinada no Rio de Janeiro, e a transcrição realizada em São Paulo, arquivada no 29º Registro Civil da Capital, no bairro Santo Amaro.

Em 14 de novembro de 1886, Dom Pedro 2º, Imperador do Brasil, e a Imperatriz Tereza Cristina estiveram na cidade de São Paulo e na cidade de Santo Amaro, para conhecerem a "Companhia de Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro", idealizada pelo engenheiro alemão, naturalizado, Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, inaugurada em 14 de março de 1886 para o transporte de cargas, em uma época em que Santo Amaro supria a Capital de São Paulo com aproximadamente 25 toneladas de produtos agrícolas por ano, seguindo o plano de estrutura de abastecimento da cidade de São Paulo. Dom Pedro 2º e a Imperatriz tomaram o comboio ricamente adornado para a ocasião, ostentando o brasão Imperial. Custou tão digna presença, aproximados 1:158$000 de réis, causando um rombo aos cofres públicos, quantia que fora emprestada por ilustres financistas santamarenses.

Deste modo Santo Amaro foi administrada, por um século, como Cidade, com autonomia de decisão até 22 de fevereiro de 1935, quando houve nomeação por parte da pasta da Justiça do governo Getúlio Vargas, nomeando em 16 de agosto de 1933, interventor federal, um governador biônico, Armando de Salles Oliveira, genro de Júlio de Mesquita, dono do jornal O Estado de São Paulo, anexando Santo Amaro à Cidade de São Paulo, transformando assim parte de uma história de Independência Administrativa.

Dizem as "más e boas línguas" que, além de retaliação, a inauguração do Aeroporto de Congonhas, em 1934, foi uma das razões pelas quais o decreto estadual número 6983, de 22 de fevereiro de 1935, determinou a extinção do município de Santo Amaro, incorporando-o ao município de São Paulo.

Previu-se geração de renda com a construção do novo Campo de Aviação (Congonhas) entregue definitivamente à cidade de São Paulo em abril de 1936, substituindo o Campo de Marte, que havia sido alvo de ataque aéreo em 1932, pois seus pilotos haviam sido convocados para integrar o Movimento Constitucionalista, juntamente com outros aviadores militares que haviam aderido à causa, além de Santo Amaro possuir o represamento da Guarapiranga para moderna hidroelétrica Usina de Cubatão, também conhecida como Usina da Serra ou Henry Borden, inaugurada em 10 de outubro de 1926, com construção Subterrânea, considerada marco de engenharia, devido ao túnel de adução ter sido escavado em rocha, protegido naturalmente contra bombardeios de aviação na Serra do Mar, que a Revolução de 32 não conseguiu destruir e parar o parque industrial.

Havia necessidade e interesse político em antecipar a anexação de Santo Amaro, mas, isto são conjeturas carentes de provas!...

Afinal, quando comemoramos nossa "Cidade de Santo Amaro"?





sábado, 9 de junho de 2018

O “Santo” da Igreja de Santo Amaro, a “Banda do Além” e a genealogia dos Aguilar, Rodrigues, Paes e Borba Gato

A Banda do Além (além do Rio Geribativa, atual Rio Pinheiros), região de Santo Amaro, São Paulo

A história do Brasil, e no caso o fragmento do Bairro de Santo Amaro, São Paulo, parece ainda incompleta e em alguns momentos, por vezes, indecifráveis e as poucas informações nos levam a buscar conteúdo em nova investigação mais detalhada para sanar dúvidas existentes. Essa crônica não quer dirimir o contexto do que é corrente, mas tentar buscar parte desta história oculta no tempo!


Qual Suzana Rodrigues doou o “Santo” em 1560 para a Vila de Santo Amaro, São Paulo?

Há o consenso no bairro Santo Amaro, (Titulada de Vila a partir de 1832) que o referido nome do local adviria do padroeiro dos agricultores e discípulo de São Bento, a partir de 1560, quando o casal João Paes e Suzana Rodrigues doou um santo de madeira à capelinha instalada no aldeamento de índios catequizados naquela área!

Não se contesta o fato, pois a data de 1560 está em conformidade com a referência histórica e faz parte do “batismo” de outras regiões que se tornaram aldeamentos. A questão é outra, ou seja, quem são os doadores Suzana Rodrigues (veja as datas de nascimento das duas Suzanas Rodrigues (mãe e filha) nesta crônica) e João Paes que “dizem” ter ofertado a imagem do Santo em 1560!

Será que a imagem veio por outras mãos a partir dos interesses da colonização portuguesa, tanto de âmbito da Coroa quanto do religioso, á época controlada pelos jesuítas?

*QUEM SÃO AS SUZANAS RODRIGUES DE SANTO AMARO?

Há duas Suzanas Rodrigues, em São Paulo, no século 16, uma nascida por volta de 1559 e outra que era sua filha, nascida em 1597, sendo chamada de Suzana Rodrigues, a Moça, para diferenciar do nome da mãe, foi casada com o Capitão João Pais (ou Paes), casal que hipoteticamente deu a imagem ao hoje bairro de Santo Amaro!

Segue abaixo cronologia e genealogia de envolvidos na “colonização de Santo Amaro”, São Paulo:
Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar nascido 1560, falecido em1608, (1612) Paraupava, Sertão do rio Paraná.
Susana Rodrigues consta como data de nascimento estimada de 1559, sendo viúva de Damião Simões, depois casada com Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar  em 1589 e em 1631 tem inventário.

Suzana Rodrigues, a Moça, nascida por 1597, ainda era solteira em 1619, falecida após 1650, em Santo Amaro, São Paulo. Era filha de Susana Rodrigues e Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar, esposa do Capitão João Paes
Capitão João Pais (ou Paes), nasceu em São Paulo por volta 1580 casado em primeiras núpcias com Luiza da Gama falecida em 1615, em 19 de abril de 1616, foi inventariante da mãe, Maria Paes e posteriormente casou-se com Suzana Rodrigues, a Moça.

João de Borba Gato,
genro do Capitão João Pais e Susana Rodrigues, (a Moça) tiveram uma filha Suzana Rodrigues, mas acrescida do sobrenome Borba, mas esta é outra história!

Abaixo colocamos a estrutura familiar dos envolvidos e que fizeram parte, ou direta ou indiretamente no caso:
Tudo se inicia com Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar (às vezes sem o termo Rodrigues)

Natural de Castela, nascido pelos anos de 1560, residiu em São Paulo, no lugar então denominado Ibirapoera, sendo tronco desta família em São Paulo de nobre ascendência, povoador e célebre conquistador dos sertões no posto de Capitão-mor da tropa e da governança de São Paulo. Foi ativo bandeirante tomando parte na bandeira de Nicolau Barreto em 1602, ocasião em que escreveu seu testamento. Saiu chefiando bandeira própria em 1608 em direção à Paraupava e nunca mais retornou. 
Em 1589 casou-se com Suzana Rodrigues, viúva de Damião Simões. Suzana ainda vivia em 1624, mas já fora inventariada em 21 de Fevereiro de 1631, ano provável de seu falecimento.

Martim Tenorio de Aguillar  e Suzana Rodrigues tiveram quatro filhas, a saber:

1. Maria Tenório, casada em 1601 com Clemente Álvares. Faleceu Maria Tenório em 1620 e seu marido foi inventariado em 1641.

2. Ana da Veiga, casada com Teodósio da Fonseca. Teve seu dote escriturado pelo pai pouco antes da saída da bandeira de Nicolau Barreto em 1602. Já era falecida em 1612, deixando o filho único Diogo, que foi levado pelo pai ao Rio de Janeiro. 

 3. Elvira Rodrigues nasceu por volta de 1590, casou-se com Cornélio de Arzam (ou Arzão) depois da saída da bandeira de Martim Rodrigues em 1608. Elvira ainda vivia em 1672, ocasião em que possuía casa defronte ao convento de São Francisco, São Paulo.

4. Suzana Rodrigues, a Moça, nascida por 1597, ainda era solteira em 1619. Em 1631 seu marido João Paes aparece pela primeira vez no inventário do sogro e também é neste ano que João Paes tardiamente fecha as contas no inventário de sua primeira mulher, Maria da Gama.

Martim Fernandes Tenorio de Aguillar  foi sogro dos mineiros e fundidores Clemente Álvares e Cornélio de Arzão, interessados num engenho de ferro, construído em Ibirapuera (Morro da Barra, em Santo Amaro)inaugurado a 16 de agosto de 1607 e que por isso tomou o nome de Nossa Senhora de Agosto[1].

O inventário e testamento do Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar  foi feito pelo juiz Bernardo de Quadros e os avaliadores foram João da Costa e Antonio Lopes Pinto.Local: Ebirapoeira, termo da Vila de São Paulo, sendo declarante sua mulher, Suzana Rodrigues, deixando bens abaixo relacionados, além de outros pertences:


  • Escritura dada por Jerônimo Leitão a Baltazar Rodrigues, que por certidão passada por Belchior da Costa pertence a este inventário (capões entre os rios Jeribatiba e Bohi)
  • Outra escritura do mesmo Baltazar Rodrigues, que ele comprara de Belchior da Costa e foram arrematadas por Martim Rodrigues, por dívida que Baltazar tinha com o órfão Damião Simões
  • Chãos na vila e que entregou por dívida que tinha com o órfão Damião Simões
  • Terras no Rio Bohi arriba, dada por Roque Barreto
  • Idem, no rio Bohi abaixo, dada por Gaspar Conqueiro
  • Casa que foi de Pedro Grande arrematada por Martim Rodrigues
  • Carta de dada por Gaspar Conqueiro a Clemente Alvares, Martim Rodrigues e Damião Simões e que estava em poder de Clemente Álvares.


Cornélio de Arzão, genro do Capitão-Mor Martim Fernandes Tenório de Aguillar 

Cornélio de Arzão, nasceu no Condado de Flandres, Bélgica, pelos anos de 1565, faleceu em São Paulo em 30 de outubro de1638, casou com Elvira Rodrigues.
Era cristão novo, ou seja, judeu convertido ao catolicismo, chegando em São Paulo em 1609, quando Martim Rodrigues já havia partido em sua bandeira em 1608. Foi sua sogra, Suzana Rodrigues, quem tratou de seu casamento com Elvira Rodrigues e não conheceu o sogro.
Cornélio de Arzão aparece em 1616 como um dos primeiros donos de moinhos movidos a roda d’ água nas beiradas do rio Anhangabaú, e 12 anos mais tarde estava em Santo Amaro, ás margens do Rio Pinheiros, perto do Engenho de Ferro. Seu moinho “de moer trigo moente e corrente” foi avaliado pela Inquisição em 1638 em 10 mil réis e no pregão foi arrematado por 14 mil réis, o que sem dúvida, pelo valor atingido, era uma boa peça, mecanismo valioso. O moinho de trigo referido com esse produto foi substituído pelo milho que era\ menosprezado e rotulado como “Farinha de cachorro”, mas que no século seguinte fazia parte da alimentação inúmeros produtos provenientes do milho e que já se dizia que em nada se diferenciava da farinha européia, salvo em ser esta cozida ao forno e levar sal.
Cornélio de Arzão apesar de seu trabalho honesto entrou em conflitos com os jesuítas, em 1618, que não conseguiam fazer negócios vantajosos com ele. Assim foi submetido a julgamento pela Inquisição, perdendo todos os seus bens, confiscados que foram pelo Santo Ofício, mesmo não se comprovando crime que tenha perpetrado. Esteve preso por cinco anos em Setúbal, Portugal. Em 1627 foi libertado e retornou ao Brasil, conseguindo uma carta de sesmaria para um terreno nas cercanias de São Paulo, em área onde é hoje o município de Cubatão, por volta de 1628, local onde passavam diversos ribeirões e córregos e era praxe o pagamento de pedágio ao proprietário quando alguém precisava transpor as águas em viagem. Os jesuítas para aumentar suas rendas nos pedágios e na exploração das terras em Cubatão, conseguiram nova expropriação de sua sesmaria e de inúmeras outras propriedades vizinhas, resultando perda de todos os seus bens em 1628. Morreu em São Paulo em 30 de outubro de1638, deixando testamento no qual distribui o que sobrou de seus pertences para seus familiares.

Capitão João Pais (ou Paes) genro do Capitão-Mor Martim Fernandes Tenório de Aguillar[2]

O Capitão João Pais era filho de Maria Pais e foi inventariante da mãe com testamento em 1616 e foi inventariada em São Paulo, tendo sido casada com André Fernandes estando viúva também de seu 2º marido, Juan de Sant’Ana, castelhano, falecido abintestado[3] no sertão em 1612, sem geração desse matrimônio. Fez no testamento disposições pias e determinou sepultura no Convento de Nossa Senhora do Carmo, com o acompanhamento do vigário e dos irmãos da Santa Casa de Misericórdia. No inventário declarou-se um sítio em “Virapoeira”, roças, casa de taipa de pilão na vila, etc...

Tiveram quatro filhos:
1 - André Fernandes
2 - Jerônyma Fernandes
3 - Cap. João Pais
4 - Izabel Fernandes

O capitão João Pais nasceu em São Paulo por volta 1580 e casou-se na Vila de São Paulo pela primeira vez por 1607 com Luiza da Gama, nascida antes de 1584, em Portugal. Luiza da Gama teria vindo com o pai Francisco da Gama, com a mãe e o irmão Francisco da Gama, o moço, falecido em 1600.
João Pais falecida a esposa em 1615, com testamento e codicilo[4], fez disposições pias e determinou sepultura na igreja de Nossa Senhora do Carmo, como irmã da Ordem do Carmo.
Casou-se pela segunda vez, com Susana Rodrigues, a Moça, nascida em 1597, filha do Capitão Martim Rodrigues Tenório de Aguilar, natural da Espanha, pessoa da governança de São Paulo.
Suzanna Rodrigues entre 1616 e 1619 estava já casada com João Pais e tiveram os descendentes:
Anna da Veiga Pais
Antonio Paes
Sebastiana Rodrigues Pais
Martim Rodrigues Tenório de Aguilar
João Paes Rodrigues
O Capitão João Pais exerceu na Câmara de São Paulo os cargos de almotacel[5] em 1624, vereador em 1625, 1635, 1644, 1648, 1651 e juiz ordinário em 1657.

A DESCENDÊNCIA DOS “BORGA GAT(T)O” EM SANTO AMARO

BELCHIOR DE BORBA GATO, GENRO DE CORNÉLIO ARZÃO.

Os Borba Gato são originários da Ilha Terceira, nos Açores, sendo Belchior de Borba Gato (e não Balthazar como referido em outras publicações) e seus sobrinhos Manoel e João, casaram-se com as netas do bandeirante Martim Rodrigues Tenório, e se estabeleceram na região de Santo Amaro, ao sul da Vila de São Paulo.
Belchior já estava na Vila de São Paulo em primeiro de abril de 1628. No inventário dos bens de Cornélio de Arzão feito pela Inquisição, assina-se como forasteiro, isto é, recém chegado. No inventário que se fez por morte de Cornélio Arzão em 30 de outubro de 1638, Belchior de Borba Gato estava casado com Ana Rodrigues de Arzão, filha de Cornélio Arzão e Elvira Rodrigues.

Belchior aos 23 de outubro de 1639 recebeu termo de juramento para ser arrumador de terras.
" Neste estado se achavão as Minas de ouro de São Paulo ate o tempo da glorioza e feliz acclamação o Sr. Rey D. João o 4º. a quem os camaristas de S. Paulo mandarão render a sua reverente, e humilde odediencia, pelo dous enviados desta honrosa conducta Luiz da Costa Cabral, e Belchior da Borba Gato, que conseguirão aventura de beijar a Real Mão do seo Principe Soberano, e natural Senhor, a quem os Camaristas declarão, que os certoens da Capitania de S. Paulo erao ricos de haveres encobertos eficavao dispostos os Vassallos Paulistas a penetrarem-os para os descobrimentos de ouro, e prata, porque esperavam, que S. Magestade tivesse nesta America outro Potocci[6], como a Coroa de Castella; (....)"

Belchior de Borba Gato e Anna tiveram os filhos abaixo, com descendência parcial indicada por Silva Leme,:
Belchior de Borba Gato , o moço     
Lucas de Borba Gato                        
Balthazar de Borba Gato                   
Maria / Beatriz de Borba                   

João de Borba Gato, genro do Capitão João Pais e Susana Rodrigues

Nascido por entre os anos de 1615 a 1620, na Ilha Terceira, Portugal. Casou-se com Sebastiana Rodrigues Paes, filha do Capitão João Pais e Susana Rodrigues, a Moça, irmã de Elvira Rodrigues, esta sogra de Belchior de Borba Gato. Sebastiana nasceu depois de 1625 e faleceu em dezembro de 1669 em São Paulo

No Arquivo do Estado de São Paulo existe o inventário da Sebastiana Rodrigues Paes datado de 03 de agosto de 1670 com seu testamento feito em 15 de agosto de 1669, com declaração do tabelião em 22 de agosto de 1669 e dado o cumpra-se em 9 de dezembro de 1669.

O auto de inventário foi feito em 08 de março de 1670 na casa do viúvo João de Borba Gato, na Vila de São Paulo, capitania de São Vicente, assinado por Manoel Pacheco Borba porque o viúvo João de Borba estava completamente cego desde pelo menos 1662.

Em seu testamento, datado de 15 de agosto de 1669, Sebastiana declara ser natural da Vila de São Paulo, filha do defunto João Paes e de Suzana Roiz (ou Rodrigues) já defunta, sendo casada com João de Borba Gato e nomeia seus seis filhos. Pediu para ser sepultada na Matriz envolta no hábito de São Francisco, “na cova de meu pae e mãe”. Entre seus bens declara fazenda, casas, etc e "um sitio com duas casas de taipa de pilão que compramos do  defunto Belchior de Borba”.

João de Borba possuía casas na Vila de São Paulo, “defronte à porta do Convento de São Francisco” que oferece em fiança no inventário de Bento Pires Ribeiro com o aval de João Paes, em 1671. 

Sebastiana Rodrigues Paes, (filha de João Paes com Suzana Rodrigues filha de Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar)  esposa de João de Borba Gato tiveram seis filhos, nomeados no testamento e arrolados em 1670 no inventário materno:

Capitão Manoel de Borba Gato, com 21 anos

Maria de Borba, casada

Suzana Rodrigues Borba, com 16 anos.

Paula ou Paulina de Borba, com 14 anos, nascida por 1656, comparece como madrinha em alguns batizados em Santo Amaro, SP.

Ana de Linhares, com 12 anos em 1670. Casou-se com Antonio Álvares Machado e tiveram filhos batizados em Santo Amaro, onde Antonio faleceu por 1700 e Ana manteve casa aberta com servos e administrados até 1706.

Isabel, com 3 anos em 1670, sem mais notícias


Tenente General do Mato Manuel de Borba Gato

Manuel de Borba Gato, personagem fundamental na descoberta, conquista e povoamento das minas, é sempre citado nos tratados das bandeiras paulistas, nos estudos sobre a Guerra dos Emboabas administração das Minas do Rio das Velhas, nem sempre com dados muito precisos. Com a segurança que nos dá o inventário de sua mãe, podemos afirmar que o bandeirante nasceu em São Paulo em 1649, já que tinha 21 anos na abertura do inventário em 1670. Nada indica que já fosse casado, era provavelmente ainda solteiro.

Casou pouco depois com Maria Leite[7], filha de Fernão Dias Paes, o Caçador de Esmeraldas, e Maria Garcia Rodrigues Betting.(ou Betim) Em 1674, já casado, partiu com o sogro, cunhado e mais bandeirantes na grande bandeira organizada por Fernão Dias Paes, que durou 7 anos embrenhando-se nos sertões das Minas Gerais. Basta lembrar que, em decorrência do assassinato do fidalgo emissário da Coroa portuguesa Dom Rodrigo Castel Branco[8], que viera a mando da Metrópole, obrigou Borba Gato a se esconder pelos sertões, vivendo com os índios em exílio forçado.

Passado o incidente e conseguindo anistia, Manoel de Borba Gato voltou em definitivo para as minas do Rio das Velhas, Minas Gerais, para onde levou a família. Um escrito de meados do século XVIII, abaixo referido , assim relata o acordo feito entre Manoel de Borba Gato e Artur de Sá pelo qual obteve perdão pelo assassinato de Dom Rodrigo Castel Branco em troca da descoberta de minas de ouro:

“Lançou-se como humilde rato o Gato aos pés de seu benfeitor, agradecendo a promessa de perdão, suposto sempre receoso, por ser condicional; mas animado da certeza com que cumpriria a condição, manifestando o ouro que tinha descoberto no Rio das Velhas .... que sempre teve oculto, por alta providência do céu, para lhe servir de livramento naquele tempo”.


Esta crônica está sujeita a interferências de quem assim o desejar para melhor compreensão deste momento histórico! Foram feitas sinalizações para que o estudo fosse dirigido de maneira a evitar ambiguidade no entendimento de passagem com toda a rede genealógica!

Referências e fontes:

M.E. de Azevedo Marques, Província de São Paulo, Editora Itatiaia e Editora USP,1980
Francisco de Assis Carvalho Franco, Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Martins Editora e EDUSP.
Cúria Metropolitana de São Paulo
Inventários e Testamentos- publicação do Arquivo Publico do Estado de S.Paulo
Registro Geral da Câmara de São Paulo
Revista do Instituto Heráldico - Genealógico
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
Luiz Gonzaga da Silva Leme, Genealogia Paulistana.
Afonso de E. Taunay, Relatos Sertanistas, EDUSP, 1981
POVOADORES DE SÃO PAULO – (Primeiras gerações) Revista da ASBRAP n° 6

Vide mais em:

A FÁBRICA DE FERRO NO MORRO DA BARRA DE SANTO AMARO – SÉCULO XVII – UMA INDAGAÇÃO





[1] (“O engenho de Ferro começou a fundir quinta-feira a 16 de agosto de 1607 ao qual possuíram por nome Nossa Senhora de Agosto que é a Assunção Bendita e seu dia 15 do dito mês”
Diogo de Quadros era provedor das minas, tinha poucas posses e ia devagar com o projeto, mas acabá-lo era importante, pois ali havia muito metal de ferro. O equipamento era composto de dois malhos de 175 quilos, duas argolas de mesmo peso, duas chapas cada de 30 quilos e duas de 60 quilos. Tudo perfazendo a soma de investimento de 36 mil réis. Não havia mão de obra especializada, e era tudo lento, demorando quase dois anos para sua implantação. A produção tornou-se dispendiosa, o ferro era produzido a custo de 4 mil réis o quintal, quando valia só a metade. Queixava-se Diogo de Quadros da baixa produtividade dos “índios maramomís” na produção de carvão e o serviço não se desenvolvia como “Sua Majestade” pretendia, perdendo seus reais quintos, imposto da produção efetiva.)

[2] (Vem esse bandeirante registrado por Silva Leme como Martim Fernandes Tenório de Aguilar (Inventários e Testamentos – II, 5 e segs. – Atas, cit., II, 217. – A. Taunay – História das Bandeiras – I, 185-190. – Roque Leme da Câmara – Nobiliarquia Brasiliense – Rev. Inst. Hist. São Paulo – XXII, 210)

[3] Abintestado: diz-se daquele que morre sem deixar testamento.

[4] Codicilo é ato jurídico  de última vontade, em que a pessoa antes de morrer, escreve de próprio punho como gostaria que fosse seu enterro ou destina determinado valor para o patrocínio do mesmo.

[5] Almotacel: Inspetor dos pesos e medidas e da fixação dos preços dos gêneros alimentícios.

[6] Cerro de Potosi, na atual Bolívia, de onde a Espanha retirou grande quantidade de prata enviada à Europa.

[7] Da união, nasceram três filhas que casariam com portugueses provenientes do Reino, aliás, três Franciscos: Francisco Tavares, Francisco de Arruda, Francisco Duarte de Meireles

[8] O Rei o nomeou pelo alvará de 14 de julho de 1673  fazendo mercê do foro de fidalgo da Casa Real por serviços que ia prestar nas minas do Brasil. Foi ainda nomeado administrador-geral das minas.