quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Carvão Vegetal: Santo Amaro fornecedor da Cidade de São Paulo

“Um modelo eternizado de 'apoderamento' de território no Brasil”


A INDÚSTRIA DO CARVÃO VEGETAL

Ao redor das grandes  cidades, numa verdadeira cinta envolvendo, instalaram-se industrias urbanas subsidiarias, fornecedoras de produtos de consumo forçado pelos habitantes da metrópole. Formam-se pequenas chácaras, que industrializam, hortícola, granjas modelos, cuja produção de leite encontra rápido consumo, granjas avícolas, que abastecem a população de ovos e frangos, etc.

Uma das manifestações mais típicas dessa atividade acessória das grandes cidades é a que se refere a indústria do carvão vegetal. Nos lugares em que o gás é caro ou a eletricidade não chega para uso franco do povo, o problema do combustível é resolvido pela lenha e pelo carvão. Pode-se dizer que nas cidades do interior a lenha é o combustível comum; mas nos grandes centros, é necessário recorrer ao uso do carvão vegetal, que apresenta uma série de vantagens, a principal das quais está no preço.

Assim ao redor do aglomerado urbano, população de trabalhadores, disseminadas, em pequenos núcleos pelas matas, vivem do mistér de fazer carvão. Em São Paulo em todas as direções, particularmente na zona sul, sucedem-se as carvoeiras (ou “cayeiras”, no dizer dos trabalhadores) que aos poucos vão desbastando as matas que por ali ainda existem.

A reportagem do “Estado” teve ocasião, durante os últimos feriados, de percorrer a extensa região que vais de Santo Amaro até a estação de Engenheiro Marsillac, a linha Mayrink-Santos.Afora algumas plantações de batatinhas, milho e feijão, feitas por japoneses, o restante se resume numa só atividade: fabricar carvão.
O automóvel encontra, aguardando transporte à margem da estrada, pilhas enorme de sacos de carvão, os quais ali permanecem sem vigilância alguma, tal a organização de que se reveste a indústria nas suas diversas articulações.

O primeiro trabalho do carvoeiro é roçar o mato, esperando que ele comece a secar. O fogo- inseparável da técnica agrícola dos brasileiros- lavra depois com intensidade, eliminando a “tranqueira” [1], e deixando os troncos livres para serem picados. O carvoeiro leva então a madeira para o lugar a “cayeira”, que deve ser plano, e vai amontoando os troncos, todos de pé dos mais grossos aos mais finos, ao redor de uma espécie tubo, formado por quatro espeques[2] trançados com cipó, o qual age com se fosse uma chaminé.
Terminado o trabalho do empilhamento da lenha, em forma circular, o carvoeiro envolve-a de sapé, cobrindo-a em seguida de terra, tendo antes o cuidado de deixar aberto, bem no cume da carvoeira, o “suspiro” central que, protegido pelos espeques, desce até o solo. É por sli que o carvoeiro deita fogo e é por ali que ele “dá de comer à cayeira”. Esta operação consiste em atear fogo na base da carvoeira, cobrindo depois as primeiras brasas co um saco de gravetos. O fogo deve ser sustentado nos primeiros dias com os gravetos e a esta operação é que os trabalhadores chamam “ dar de comer”.
Carvoeira coberta de terra pronta para receber fogo

Iniciada a queima, é necessário dirigir sua preparação. O carvoeiro abre uma série de buracos na terra, os quais, condutores de oxigênio para o interior da “cayeira”, puxam o fogo do centro para a periferia. Daí por diante é só abrir novos buracos em círculos, mais acima, e o fogo irá subindo gradualmente, obedecendo ao chamado dos orifícios até atingir o alto da carvoeira, onde se encontra o “suspiro” principal.

Geralmente, o carvoeiro não aguarda o sufocamento do fogo, abrindo a “cayeira” ainda acessa. O carvão é revolvido com rastelos e pás no meio da terra (polvorinho), e algum mais rebelde é apagado com água. Imediatamente é ensacado e logo que o número de sacos é razoável, um cargueiro de burros transportá-os a beira da estrada onde o caminhão de São Paulo vai buscá-los.

Cada carvoeira dá em média 80 a 90 sacos, mas algumas chegam a produzir 150 a 200 sacos. Um metro de lenha de bom mato rende, ordinariamente, 4 sacos, sendo a madeira cotada a 4 e  4$500[3] o metro.
Por sua vez, o carvão é vendido a 4$ e 4$500 o saco, de onde (há) uma boa margem de lucro para o trabalhador.

Como sempre, porém, o intermediário é quem mais lucra: adquirindo o carvão a esse preço, ele faz o transporte para São Paulo, procede ao reensaque (sacos menores) e finalmente o distribui a 7$ e 7$500, exigindo ainda o saco de volta. 

"IMPORTAÇÃO" ANTIGA: LENHA RACHADA ANUNCIO "O ESTADO DE SÃO PAULO" DE 3 DE FEVEREIRO DE 1895

A vida do trabalhador é a mais precária possível: obrigado a viver no meio do mato -pois onde se instala a carvoeira logo se abre uma chaga na floresta- ele não pode fixar-se ao solo senão pela casa, ou melhor, pelo casebre fácil de ser abandonado, coberto de sapé ou de folhas de saricanga, construído de troncos de palmito ou de pau a pique, numa promiscuidade com os filhos que faz pena.

 Típica habitação do carvoeiro


Curiosidades: Como os autóctones viam este modelo e o denominavam (tupi guarani)

CAIÇARA: cai=queimada+çara=quem executa. Expressão dos íncolas do Brasil traduzindo a revolta por quem praticava ato contra a floresta, templo sagrado da tradição e  de onde se extraia as matérias úteis, tacapes, arco, flechas ,maracás, raízes, frutos, enfeites, caça.

CAAPORA: morador (porá)+caa(mata) que derivou o termo caipira,  ou morador do mato

CAAPUERA: tupi kó puéra, o que já foi roça, o mesmo que capoeira.


Matéria: O ESTADO DE SÃO PAULO, 09 DE NOVEMBRO DE 1939.

SILVA, João Luiz Máximo da. Cozinha Modelo: O Impacto do Gás e da Eletricidade na Casa Paulistana (1870-1930)São Paulo: Edusp

PINHEIRO, Joaquim Gil. Memórias de MBoy. São Paulo: Empreza Graphica Moderna, 1911


[1] Galhos com ramagem sem nenhum valor comercial
[2] Peça de madeira com que se escora alguma coisa, esteio.
[3] Réis, sistema monetário do Brasil circulante até 1942. O Decreto-lei nº 4.791, de 05 de outubro de 1942 (Diário Oficial da União de 06 de outubro de 1942), instituiu o CRUZEIRO como modelo de unidade monetária brasileira, com equivalência a um mil-réis. [Rs 1$000 (1 mil-réis) = Cr$ 1,00(cruzeiro)]

Zona Carvoeira de Santo Amaro

“Os sapatões barreados e as mãos sujas e calejadas pelo trabalho”


A indústria principal, ou melhor, a única indústria é a da madeira. Carvão e lenha dão vida a região; não há lavoura, nem mesmo a nossa clássica e eterna “lavoura parasitaria da terra”. Há apenas o parasitismo puro e simples, sem plantações. Donde se conclui que no dia em que se acabarem as matas...
Tira-se a madeira de lei já bem escassa, corta-se a lenha que as estradas de ferro pressurosamente adquirem e queima-se o resto para o fabrico do carvão. O chão calcinado, em breve reverdece coberto de tênue camada de capim, e que sucede uma capoeira rala e cheia de pragas. E é só. 

O homem passa adiante, de machado em punho, ateando fogo em tudo. O fogo é ali o grande associado do homem e o seu principal instrumento de trabalho. Para isso contribui poderosamente o regime da propriedade rural. O senhor do solo vende apenas o mato, o lenhador e o carvoeiro, na pressa dos lucros, por metro produzido, não tem cuidado com a terra que não lhes pertence. Usam o fogo até para substituir a capina: os troncos são partidos a dinamite.

Colônia e Parelheiros são os dois centros exportadores de carvão de Santo Amaro. Essas duas localidades tem apenas uma rua, que é a própria estrada, ladeada de casas de taboas ou de pau a pique; algumas, porém, graças aos beirais extensos e ao seu estilo colonial, deturpado pelas reformas sucessivas, demonstram que os lugares são muito mais antigos do que parecem. Não têm escolas. E, em Parelheiros, onde passam “jardineiras”, há açougue de carne verde, que é talvez o primeiro indício de urbanização.
Quando se pergunta a um trabalhador o preço do carvão, ele responde: “Na Colônia está a 4$ o saco”. Parelheiros e Colônia são dois entrepostos de carvão, que importam o que consomem e exportam o que produzem. A hegemonia na exportação de lenha cabe à estação de Engenheiro Marsilac, ou como dizem por lá ao “P 10”. Esta, então, é que desafia classificações. Seus habitante são ferroviários (urbanos) e lenhadores (semi-urbanos), e o arraial, todo de casas de taboas, tem uma vida puramente agrícola: exporta toda a sua produção...

FALTA DE TRANSPORTE E DE BRAÇOS

O carvão absorve os trabalhadores avulsos. Um “ajudante” do mestre carvoeiro ganha em média, de 10$ a 12$ por dia, salário que o lavrador local não poderia pagar. Sabe-se de um lavrador que gastou mais de trezentos contos de reis numa fazenda, tentando a agricultura, e que afinal, abandonou tudo por falta absoluta de braços e transportes. Esse bem intencionado lavrador mecanizara ao máximo sua fazenda, afim de não sentir a falta de braços, comprando tratores, caminhões, arados de discos, usina elétrica, etc. Conseguira, ainda de certa forma particular, auxilio de cerca de cinquenta contos de reis para abrir estradas e instalar escolas, mas não pode levar adiante o seu plano, por oposição dos proprietários vizinhos, temerosos de serem impedidos de trafegar, com seus carros de bois, nos caminhos pedregulhados...


Não há escolas primarias. As crianças aos oito  anos de idade ainda não sabem distinguir mão direita da esquerda. E isso junto a capital paulista, numa zona servida por três linhas de “jardineiras”, que em hora e meia fazem a ligação completa de Santo Amaro a Engenheiro Marsillac!
Largo 13 de Maio (antigo Largo da Bola) centro da Cidade de Santo Amaro

Os lavradores sem instrução, sem terras para fixar-se, abandonados a crendice e ao curandeirismo, obrigados, ainda, em razão de sua indústria, a viverem disseminados pelo mato como bichos, em núcleos esparsos e de difícil acesso, não há quem consiga civilizá-los. De vez em quando, os mais destemidos, nacionais ou estrangeiros, imundos, roídos de doenças e paupérrimos, lançam-se a uma grande aventura: chegam a Santo Amaro. Mas daí não passam...

A grande cidade[1], a famosa capital, cuja proximidade pressentem, porque lhes adquirem o carvão e porque muitos falam dela, eles não procuram conhecer.

ABAIXO:  "FOGÕES AMERICANOS UNCLE SAM" ANÚNCIO O ESTADO SP 24 JAN 1888
Têm acanhamento, talvez de sua fala cantada, de seu terno de brim remendado, de sua camisa ordinária, de seus sapatões barreados, de suas mãos sujas e calejadas.
Ou, talvez, porque saibam que a ela devem a vida miserável que levam, dia e noite no mato, esquecidos do mundo, isolados de tudo, atentos apenas à espessa fumaça que se desprende com uma vida que se esgarça do topo das carvoeiras...


Reflexões pessoais do blog
O expurgo do passado reflete na atualidade: O Estado com o seu poder e sem planos diretores apropriados para cada região, abarcam hoje os frutos plantados por gerações de abandonados a própria sorte, sem cerimônias espalhando suas extensas garras nos seus interesses políticos e financeiros. Hoje o lugar é cobiçado por uma expansão imobiliária lenta, mas firme em seus propósitos, expulsando paulatinamente estes “heróis anônimos” e criando reservas de indigentes, maiores do que no passado. São bárbaros invadindo interesses unicamente vindos de grandes conglomerados ávidos por ter a posse territorial, tendo com pano de fundo, áreas ainda de matas intocadas e mananciais perpetuados, mas por certo por muito pouco tempo. Preservação é algo obsoleto aos interesses imobiliários e a devastação é maior do que aquele modelo antigo de subsistência, que se feito à época foi por abandono do Estado e por falta de perspectivas melhores!


Integra de matéria: “O Estado de São Paulo”, 24 de abril de 1939

Gasômetro, Brás, década de  1950. Veículo da Companhia de Gás de São Paulo.Caixa d'água, chaminé e um gasômetro da Usina de Gás de Carvão. Acervo Fundação Energia e Saneamento


[1]A The San Paulo Gaz Company no início de suas atividades já percebia os limites do uso da lenha como combustível, ressaltado em relatório da diretoria de 1911: “Acredito que temos aqui um vasto campo para operações[...] Para isto, basta conhecermos as condições de vida em São Paulo, onde se cozinha com lenha, que está se tornando escassa devido ao desmatamento nos arredores da cidade, para prevermos o inevitável e constante crescimento na substituição da lenha pelo gás nas cozinhas da cidade de São Paulo”
SILVA, João Luiz Máximo da. Cozinha Modelo: O Impacto do Gás e da Eletricidade na Casa Paulistana (1870-1930)São Paulo: Edusp

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

REFORMA AGRÁRIA: CONFLITO COM OS LATIFUNDIÁRIOS E O INÍCIO DO GOLPE NO BRASIL

PLUTOCRACIA: AOS RICOS TUDO, AOS POBRES A LEI![1]
 
Quando se define classe de proprietários e não proprietários, demonstra as disparidades latifundiárias do “Brazil”, iniciada com os primeiros 15 latifúndios denominados de capitânias, arrastados no longo do tempo. Em momento algum, houve governo com coragem suficiente para desbancar os grandes proprietários a favor de reformas agrárias[2]. Instituiu-se o estado cartorial de proteção aos fidalgos protegidos do rei. As reformas nunca de fato aconteceram, pois para isto seria necessário bater de frente com interesses dos poderosos e os mesmos possuíam riqueza suficiente para sustentar seus interesses diante do protecionismo da lei.[3]

REFORMA PERMEOU O INÍCIO DO GOLPE

Existe uma barbárie que nasce de maneira silenciosa, mas que foi construída ao longo do tempo por sistemas que permearam os acontecimentos onde estão colocadas as primícias de todo contexto das diferenças das classes dominantes que controlam os meios de produção, que fala burguês, mas na atualidade esta transvestido de outro termo mais amplo: liberal. No ponto desta cadeia alimentar esta aquele que dá sustentação produtiva, como na cadeia e aquele primário que sustenta toda o ciclo e no âmbito social assume  a situação das carências básicas e naturais.[4]

Interpretação weberiana do capitalismo:

“Max Weber contribuiu seguramente para a compreensão do fenômeno do capitalismo, ao ligar sua existência à satisfação de necessidades de um grupo mediante operações lucrativas e por meio de empresas. O capitalismo se apresentaria de forma distinta nos diversos períodos da história, ‘mas a satisfação das necessidades cotidianas baseada em técnicas capitalistas é peculiar do Ocidente, e ainda neste, somente na segunda metade do século XIX torna-se coisa natural’”. (Furtado, 1977:37).

A questão agrária foi um dos principais pontos que polarizaram o debate político durante os anos em que João Goulart ocupou a presidência. Ela esteve no centro das preocupações dos atores políticos em geral, do governo, dos partidos, dos movimentos sociais, da Igreja Católica, da opinião pública. Foi, em grande parte, naquele momento que se consolidou a noção de que o Brasil necessitava de uma reforma agrária capaz de eliminar a grande propriedade, o latifúndio, visto como obstáculo fundamental ao desenvolvimento.
A idéia de que a questão agrária configurava um dos nossos problemas sociais mais sérios, resultado de um padrão concentrador da propriedade da terra instituído ainda no período colonial. Em uma ponta da hierarquia social, esse padrão acarretava riqueza, poder e privilégio. Na outra, produzia pobreza, analfabetismo, fome, doença, subordinação, isolamento.
Uma das diferenças entre o governo Jango e os precedentes foi o envolvimento que o Poder Executivo passou a ter com a questão agrária. Esse envolvimento ficou claro em novembro de 1961, quando o presidente compareceu ao Iº Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, organizado pela União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) em Belo Horizonte. Sua ação incidiu, por um lado, no terreno da legislação sindical e trabalhista rural, e, por outro, na realização de uma reforma agrária. Foi no governo Jango que os trabalhadores rurais, que até então se organizavam, em função de uma série de complicadores legais, em entidades de caráter civil, como Ligas Camponesas e associações de lavradores, passaram a criar sindicatos e federações, desembocando, posteriormente, na criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG. Foi no governo Jango que direitos trabalhistas básicos, pelo menos há duas décadas existentes nas cidades, foram estendidos ao campo por meio do Estatuto do Trabalhador Rural, aprovado em 1963.
Aqueles homens eram trabalhadores do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, a 50 km da "Veneza Brasileira". Eram "foreiros" e pagavam dias de "condição" ao proprietário. Haviam organizado a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco. Mas o proprietário, que a princípio apoiara o movimento, queria agora despejá-los do engenho, alegando que aquilo era "comunismo". Os camponeses liderados por Zezé da Galiléia pediam a Julião que levasse seu caso para a Justiça. Corria o mês de dezembro de 1954. Julião, que era também deputado estadual pelo Partido Socialista, solidarizou-se com eles e, a 1º de janeiro de 1955, legalizou a Sociedade fundada pelos "galileus". Era o início da história das Ligas Camponesas. Outro deputado socialista, Carlos Luís de Andrade, elaborou um projeto que autorizava a desapropriação do Engenho Galiléia, enquanto Julião lançava uma campanha pela reforma agrária.
Em 1958, no Recife, 3.000 trabalhadores rurais reuniram-se no Primeiro Congresso de Foreiros e Pequenos Proprietários. Nesse ano, Cid Sampaio, foi eleito governador de Pernambuco com o apoio dos comunistas.
Em fins de 1959, a Assembléia Legislativa aprovou a desapropriação de 500 hectares do Engenho Galiléia e entregou-os aos trabalhadores. No ano seguinte, as Ligas Camponesas já estavam organizadas em 26 municípios pernambucanos e se estendiam pela Paraíba e pelo norte de Alagoas.
Diante das resistências, o governo passou a pressionar o Congresso de modo firme, juntamente com os movimentos sociais, que demandavam reforma agrária "na lei ou na marra".[5] Foi nesse jogo de pressões que João Goulart anunciou, em 13 de março de 1964, no Comício das Reformas, realizado no Rio de Janeiro, a desapropriação de terras localizadas às margens de rodovias, ferrovias e obras públicas. Ao invés de resultarem na aprovação da reforma, contudo, os atos do governo aprofundaram a ruptura com grupos de centro que lhe davam suporte, como o Partido Social Democrático (PSD), abrindo caminho para o golpe de1964.






























Bibliografia:

FURTADO, Celso. Dialética do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.


[1] "Para os ricos, os favores da lei; para os pobres, os rigores da lei.” (Maquiavel)

[2] Sistema “alodial” de se pagar tributo, idéia medieval de pagamento feito ao senhorio da nobreza, clero ou monarca, que prevalece nos arrendamentos no Brasil.

[3]  “Não há tribunais que bastem para proteger a lei quando o dever se ausenta da consciência dos juizes”-Rui Barbosa. (Quando a palavra do juiz deixa de ser pétrea, articulando interesses pessoais pela corrupção rasteira associada ao crime de peculato, a toga, símbolo da honestidade, distancia-se deste valor moral, infelizmente passa a ser desacreditada).
Sempre perdemos o “bonde da história” para resolvermos as diferenças e desigualdades. Em momento algum houve “um saco roxo” para fazer reformas que beneficiasse a população, e sempre as revoluções foram arquitetadas nos quartéis, mesmo o comando sempre partiu das casernas. Poucos são nossos heróis realmente saídos dos casebres, que o poder de então construiu, e continua nossos grandes homens foram “bode expiatório de um momento”, lançados as turbulências como “boi de piranha”.

[4]“Impasse, com base numa reconstrução do quadro conceitual de que se utiliza o economista, reconstrução essa apoiada numa visão global das estruturas sociais historicamente identificadas” (Furtado, 1977:11).

[5] “Desde Marx tem-se privilegiado nesse estudo do desenvolvimento econômico o processo de luta de classes, vale dizer, os conflitos sociais que afetam diretamente o custo de reprodução da população, e, portanto, definem o montante relativo do excedente. Esse enfoque tem-se revelado de grande fecundidade no quadro das condições históricas que vêm condicionando, no correr do último século e meio, o comportamento da classe operária na Europa. Mas nada nos autoriza, quando não seja uma teoria pré-fabricada, a colocar no mesmo plano a luta de classes que levou a burguesia a participar hegemonicamente do poder na Europa do século dezoito, e a que vem permitindo à classe operária européia ter acesso a parte dos frutos dos aumentos de produtividade social” (Furtado, 1977:26).

O DESLOCAMENTO DE INDÚSTRIAS - A CIDADE E A MORADIA

TRABALHO E RENDA, NÃO ESMOLA! PATERNALISMO E A SUBMISSÃO ETERNA AO ESTADO
 
Uma das coisas que mais prosperam no país é o setor imobiliário. A expansão paulistana no campo imobiliário onde a expansão da cidade demandou prédios de luxo, tanto de condomínios quanto de uso comercial, e que foram edificadas em áreas nobres espoliando aqueles que tinham direito a estas áreas pela permanência de longevidade, foram desalojadas por despejo compulsório  e indenizados pelos valores venais dos impostos prediais. As favelas em pontos de interesse imobiliário para valorização estão sendo desalojadas num modelo de “arraste”, com demolições compulsórias ou por algum “acidente” no local, com no caso incêndios devastadores, que obrigam os antigos moradores a buscar outro local para continuar no mesmo sistema, mas longe do centro urbano paulistano. Não há política habitacional de Estado, mas uma demagogia de governos, com varias bolsas “miséria”!

SANTO AMARO-Laboratórios Lepetit S.A.(Rua Campos Sales nº 1.500-atual Rua Mário Lopes Leão)
 São Paulo é um vasto canteiro de obras de alto padrão, nunca edificações para a classe operária[1], proliferando aglomerados humanos nos morros e mananciais em favelas. São Paulo não possui redes de esgoto e tratamento suficiente e lança esgoto sem tratamento nos rios e represas da Região Metropolitana[2].

 SANTO AMARO- Plavinil do Brasil, Av. das Nações Unidas,20003 (Marginal do Rio Pinheiros)

O deslocamento de indústrias para o interior de São Paulo  proporcionou um desemprego em massa agravando ainda mais a situação da pobreza e miséria, onde o poder quer aplicar a “gentrificação”, uma higienização local na Metrópole de São Paulo, [3].

SANTO AMARO-BERA DO BRASIL METALURGIA E COMERCIO DE METAIS LTDA, Avenida das Nações Unidas, 17271(Marginal do Rio Pinheiros)

Sua “desindustrialização” sistemática pelo deslocamento para outras cidades, que oferecem incentivos fiscais para nelas serem fixadas. Assim o pólo industrial paulistano perdeu boa parte da produção industrial, sito com exemplo a região do extremo sul da capital, Santo Amaro: Rolamentos Scheffers, FAG, Metal Leve, Caterpillar, Bera, Chocolates Lacta, Baterias Durex, Kibon, Fundição Eletro Alloy, Kodak, Hartmann & Braun, Eletromar, Inbel S.A., Laboratório Le Petit, Bicicletas Caloi, Monark, Pial, Plavinil, Rubber Art, SQUIBB Farmacêutica, Laborterápica e todas subsidiárias de suas matrizes estrangeiras, ou de controle acionário como a rede paulista de gás, responsabilidade da COMGÁS, empresa controlada pela BRITISH  GAZ e pela Shell.[4]

 

SANTO AMARO - Metalúrgica Técnica Erwal Ltda / Fornos Industriais Pyro Ltda, Rua Amador Bueno, nº. 219



Outras já estão em vias de se retirarem definitivamente da região no caso da SEMP Toshiba. A lista é enorme desta desativação produtiva de São Paulo, em outras localidades, o sistema usou o modelo "DOSES HOMEOPÁTICAS" para fazer da cidade de São Paulo unicamente centro de serviços, desarticulando todo o setor primário,sendo ainda um grande polo comercial provindo de mercadorias de várias partes do país e do mundo, que mantém até um mercado negro incontrolável e nocivo a produção nacional estagnada.

Os sindicatos, preocupados com o poder de hierarquia de comando da “massa de reserva” dentro do poder sindical, jamais colocou em debate a condição de uso desta mão de obra preparada no processo de aproveitamento em outros segmentos, ou talvez até no deslocamento desta capacidade produtiva juntamente com a empresa. Claro que acarretaria um deslocamento maior de contingente, contando o familiar, mas isso seria um modelo a ser computado, evitando-se que de repente fosse abortada a renda de sustentação do proletariado que foi obrigado a se sujeitar a informalidade. O interesse do sindicato foi maior do que do sindicalizado, que ficou sem fundo de reserva enquanto o sindicato dispõe ainda do imposto sindical de cada trabalhador, estabelecida pela lei nº 11.648, e que regulamenta as centrais sindicais que ainda detém uma boa parcela de recursos provenientes  do governo federal, sem necessidade de prestações de conta deste recurso público, além do Fundo do Amparo ao Trabalhador, liberado através do CONDEFAT, e usado em adequação de mão de obra de cursos imediatos. A tutela do Estado permanece para manter a submissão do trabalhador![5]

O direito de cada homem é conservar sua vida, e ter a propriedade de si mesmo. O trabalho sendo propriedade, pois o corpo é que executa, ao homem é dado o direito de usufruir e de usar seu corpo como lhe convir dispondo-o de modo a lhe proporcionar a conservação da vida, trocar, alienar (vender a si mesmo em troca de salário, não é prostituição!).

“Não existe atividade mais imediatamente ligada à vida do que o trabalho” (HANNAH ARENTH)

Vitor Hugo alerta que as massas sociais, bases da civilização, têm uma solidez que lhe garante a permanência através das convulsões dos sistemas e que pode proporcionar a erupção da revolução[6], que ao eclodir transborda o que era latente, a submissão, pois quem não tem o que perder não tem nenhum valor a defender do que sua própria vida que ofertará em sacrifício.

Interpreta que a sociedade não enxerga a sua condição concreta e assim, fomenta sua única arma a violência que aprendeu recebendo da própria sociedade. Não se dá o que nunca recebeu, e seu mundo é paralelo ao estruturalismo do poder que não lhe forneceu instrução, nem moradia digna, nem trabalho e sempre esteve à margem do processo de desenvolvimento. [7] Em tantas reivindicações não requereu nada além do que lhe é direito: liberdade, igualdade, fraternidade, cidadão pleno, trabalhador, e fazer parte das decisões onde o homem é o agente, tanto no campo quanto na cidade.











[1] Deste modelo apressado de formação resultou uma mão de obra braçal deslocada há décadas de várias regiões do Brasil para expandir o pólo industrial de São Paulo, mas sem planejamento e preocupação pela baixa qualificação desta mão de obra de reserva. Sem políticas de planejamento sustentável, perdeu-se nestes últimos anos quase todo seu parque industrial, mas a mão de obra que sustentou o giro das máquinas permaneceu incontinenti em regiões que foram altamente industrializadas e não foi remanejada nem aproveitada. São agora forçosamente empurradas por empreendimentos imobiliários, não para cobrir déficit de casas populares, mas para padrão de alto nível que nunca estão em crise pois possuem financiamentos generosos para “expansão do progresso”

[2] O Estado de São Paulo 12 de outubro de 2012: MP pede R$ 11,5 bi da Sabesp por poluição de rios

[3]“massa engaiola da empoleirados, antros sem luz e ar, em casas sujas que são habitadas por uma população operaria misturada a ladrões, prostitutas e que se cruzam em ruelas sujas lotadas de crianças doentias e mulheres em andrajos todos semimortos pela fome A ração e proveniente da caridade instituída em casas de amparo legalizadas” (Engel observando Londres).

[4] O Brasil possui fontes alternativas energéticas que foram desenvolvidas por abnegados cientistas que conseguiram provar a eficiência de fontes renováveis provenientes de cultura vegetal, onde o álcool é o mais difundido e até financiou equipe automobilística com o Pró-Álcool, mas que sucumbiu a outros interesses que não aos do país. Ficamos na década de setenta, a mercê dos maiores fornecedores de petróleo do Oriente Médio, possuidores de terras estéreis, bancos de areia escaldante, (já exportamos água potável para os países árabes) não cultivável, mas que no fundo escondem-se reservas incalculáveis de petróleo oriundas de fosseis depositados em milhões de anos onde devastaram florestas pelo único agente responsável disso tudo: o homem. Agora devastam nossas florestas a procura de novas riquezas onde os desmandos de fronteiras são portas abertas á pirataria de terras a perder de vista, adquiridas por testas de ferro brasileiros. Grandes plantações de soja para abastecer o mercado externo compradas por capital externo nos 24% de cerrado existente no território nacional para abastecer a fome de quem tem dinheiro para pagar, mas nada disso pertence ao Brasil (e dele tirar a fome). Calcula-se,dados de 2008, que 5 milhões de hectares de terras brasileiras estão em mãos de capital estrangeiro.A produção de milho atingira a casa dos 100 milhões de toneladas para produção de combustível a um preço atual de US$ 82,00 a tonelada(abril de 2008).O  governo americano não quer o etanol produzido da cana de açúcar brasileiro,ele quer o controle das usinas detentoras da produção.

[5] O Estado de São Paulo, 28 de setembro de 2008, profª Suely Caldas: Sindicatos ricos e fracos

[6] “Quando a vida nos degrada e a esperança foge dos corações dos homens, só a revolução” – Oscar Niemeyer

[7] Tudo isto resultou na Comuna de Paris que espantou o 2º império (1852-1870).