sexta-feira, 15 de junho de 2018

Cidade de Santo Amaro com todo o respeito

História publicada em 26/03/2012 link:


Existe uma resistência por parte do poder público em determinar o que é útil às comunidades, que estão ao redor de sua estrutura. As cidades deveriam ser a excelência do bem conviver, mas o que vemos diante da teoria é o contrário da prática. O centro determina as regras dos subúrbios, que abastecem as cidades em suas necessidades, que por sua vez recebem o suporte da periferia, com uma estrutura subvalorizada, que interessa aos núcleos administrativos. Deste modo anda toda célula, por osmose, deste ser vivo urbano do sistema financeiro e econômico, atrelado aos interesses do poder político instituído expande por Santo Amaro. Esta expansão busca seu espaço vital expandindo suas garras e abarca conforme as necessidades, locais antes abandonados pelo poder público. Assim cresce no espaço periférico o setor imobiliário em toda uma barbárie destrutiva das comunidades, seu sentido comunitário, antes de ajuda mútua pela falta de infra-estrutura anterior. A locomoção dos tentáculos financeiros, vão se aproximando antes da expansão imobiliária e logo em seguida, uma estrutura militarizada onde anteriormente havia o respeito e nada era de interesse do poder de vigiar e punir.

Por muito tempo a região elevada a “VILLA” de Santo Amaro foi esquecida e abandonada a própria sorte, foi lesada em seus interesses em detrimento da capital: roubaram-lhe o direito de autonomia, sem contar furtos, embora menores, minaram-te as forças ao desviarem interesses de locomoção como o "metrô" anunciado para a região na década de 60, anterior ao da capital, para monopolizar o sistema de transporte urbano de empresários políticos controladores de coletivos urbanos precários.

Sem contar que te furtaram sempre em tua cultura caipira, mataram-te aos poucos, destruindo teu museu folclórico, teu conservatório, tua capacidade geradora de riquezas, teu expansionismo industrial. Tuas aspirações foram estranguladas porque resolvestes lutar pelo mínimo respeito democrático, e foste acuada em tua dignidade, no melhor estilo dos ditadores, segurastes nas serras teus detratores, os corruptores das liberdades na Revolução de 32, mas minaram-te até acabarem com tuas forças. Dividiram tua grandeza, e hoje te recolhe em um espaço mínimo de pouco mais de 15 quilômetros quadrados, de tua liberdade territorial do que antes excedia a 640 km².

Hoje estais na UTI e os poderosos querem dar-te sangue injetando nas tuas artérias, enaltecendo tuas belezas, do que pouco restou de ti, mas faz parte da cobiça financeira. Não sei se vais morrer antes do socorro, mas inevitavelmente terás sequelas do que sofrestes por abuso ao longo do tempo, e teus algozes, que te roubaram, bancam sintomas do abusador nas tribunas, se não os detratores, seus filhos que aprenderam com o mesmo discurso roubar-te como fizeram os genitores.

Embora o padroeiro Santo Amaro Abade, consta não ter tido filhos e como fala a sapiência do amigo Geraldo Diniz, morrido solteiro, não pertenço à genealogia da estirpe santamarense, mas fui recebido de braços abertos como filho adotivo da “Cidade” de Santo Amaro, e não mereces ingratidão, mereces ao menos respeito, apesar dos insultos que te aplicam, és maior do que os governantes efêmeros!

A Cidade de São Paulo Indígena



Foi oficiosamente registrada como "São Paulo dos Campos de Piratininga", local de "secar peixes" e que se tornaria a maior cidade da América do Sul. Se já era conhecida como Piratininga a aldeia de Tibiriçá, o "vigilante da terra" o morubixaba. Este "cacique" faz parte da historiografia com sua taba, a aldeia formada no local alto vendo-se todas as terras das águas ao redor das ocas a denominação Piratininga prevalece sobre o registro europeu que originou pelo Pátio do Colégio, mera tapera, casa de pau a pique, onde se pretendia instituir uma escola catequética de interesses da dominação européia.

O Ibirapuera faz parte de outra localidade do irmão de Tibiriçá, Caiubi, de caá (mato) e obi, ou as "folhas azuis" chefe dos nativos guaianás, que na partilha da "reforma agrária indígena", Piratininga foi dividida pelo morro da atual Avenida Paulista descendo até Santo Amaro, migrando este cacique na procura de região nas proximidades de outras nascentes d'água.

Diz-se que "El Rey", querendo dominar e denominar seus redutos na confluência ao sul do Tratado entre Portugal e Espanha, achou-se por bem encomendar um "agrimensor territorial" que além de delimitar a posse pela ocupação faria a toponímia, a lista de nomes específicos de pontos geográficos e que seriam determinados por vários relevos, como montanhas, rios.

Assim partiu a nau de Portugal rumo as "Terras sem Mal" trazendo o referido agrimensor, para o local mais próximo da divisa sul e apontou no litoral onde antes havia estado Martim Afonso de Souza, com sua Expedição Exploradora, condição esta seguida por muitos no mesmo feitio ao longo do tempo. Foi designado para o acompanhamento de tão honrado demarcador territorial os mais proeminentes guias do grupo de língua tupi, nativos denominados "negros da terra" pelos exploradores, uma língua geral que mesclada originou o dialeto caipira dos caboclos, "gente do mato", e o dialeto paulistano uma mistura de sotaques característicos com o advento das imigrações.

A expedição penetrava nas terras e montava acampamento, subindo vagarosamente por Paranapiacaba, onde o "mar estava a vista" do lado de Cubatão, a "terra montanhosa", a Serra do Mar. Deste modo penetrava-se na "Boca do Sertão" por Embu Guaçu, local de "cobra grande" por um caminho que os nativos conheciam com Cupecê, o local da "fronte da borda da mata" onde o "honrado emissário" de Portugal, voltado a certo luxo e um pouco de preguiça, não negava o ócio.

Começou a nomear o local, escrevendo conforme diziam os autóctones que conheciam cada espaço geográfico. Assim seguiu a marcha, parando em Grajaú, local dos "macacos pretos", foi mais adiante, parando no rio Guarapiranga, para matar a sede na "garça vermelha" dando de frente com o rio Jeribatiba, "local de muitas jerivás", palmeiras pendentes indo cortar caminho pelo M' Boi Mirim, local infestado de "cobras pequenas". Seguia a comitiva na trilha que levava a enxergar de longe o Morumbi, uma "colina com muito verde" subindo em direção a um caminho de Moema, um local "doce", um verdadeiro Oasis, seguindo depois em direção a Ibirapuera, ybyrá-pûer-a, tronco seco, árvore morta, típica de charco, indo depois para Iguatemi o "rio verde e escuro" até atingir o Itaim "a pedra pequena" para um descanso merecido. Depois seguia por terra firme pelo Butantã, "lugar de "terra dura" e firme em direção ao planalto cortado pelas águas onde da aldeia via-se o vale do Anhangabaú, onde corria o "rio do mau espírito", que os dogmáticos mudaram para "diabo".

Descendo um pouco mais, atingia-se o Anhembi, local de "ervas de flores amarelas" seguindo o curso para o Tamanduateí, de águas correntes fortes, por ser um "rio de muitas voltas", referência as sete voltas na várzea até atingir o Porto Geral, hoje "cruza-se a pé enxuto" a Rua 25 de Março. Talvez fosse habitado por tamanduás, mas para isso seriam necessárias escavações arqueológicas para confirmação contemporânea. Seguia um seu importante afluente, o Ipiranga, o rio Vermelho, conhecido pela independência, porém nem tanto independente assim. O Tamanduateí descia sinuosamente até encontrar com o Tietê, "o rio verdadeiro", o da integração do território usado para entradas ao interior. Passava-se pelo Carandiru, o "bosque dos carandás", espécie de palmeira de tronco forte, que embelezava a região.

Dizem as más línguas e as boas também, que o primeiro lugar do interior do Brasil em se encontrar o "Eldorado" foi no Pico Jaraguá, o "senhor do Vale", local onde luziu o primeiro veio de ouro, e quem possuía o nome de "senhor" era a montanha e não seu "dono de posse", Afonso Sardinha. Isso tudo se perdia ao longe noutra serra, a da Mantiqueira, "lugar onde chove muito", mas isso debandava mais para a "Boca do Sertão".

Há muitos outros belos exemplares de nomes que pertencem a este universo linguístico das nações indígenas, que na atualidade dizem somar mais de 200 outras línguas que não o português, com território, costumes dos mais variados, com danças, comidas, rituais e, deste modo são realmente nações, mas o medo da balcanização em Pindorama, a "Terra das Palmeiras", não se admite outra nação que não seja o Brasil.

O emissário do rei voltou, mais tarde, para a Metrópole, com os méritos do reino, galgou talvez outros postos pelos préstimos à Coroa e deve ter lotado a "burra" de maravedis, a moeda e ouro da Península Ibérica, a riqueza que lhe deu vida de marajá em algum outro reino das riquezas das Índias Orientais.

São Paulo de Piratininga, das Índias Ocidentais, ganhou a riqueza dos nomes que já existiam, anteriores ao "Achamento do Brasil" e ligava o Atlântico ao Pacifico pelo Peaberu "caminho (inca) do gramado amassado" que unia o Império em Cuzco, no Peru, a Capitania de São Vicente, ligação de um Mercosul antigo. Há muito “nhen-nhen-nhen” constante para "ficar falando sem parar", sobre este imenso vocabulário que ficou como legado indígena, um presente para São Paulo e que falamos constantemente no dia a dia, sem pretensão de um glossário, pois há tantas análises de especialistas competentes, sendo apenas uma maneira de "enxergar" a cidade de São Paulo de tantos matizes.

Navarro, Eduardo de Almeida. Método Moderno de Tupi Antigo. Rio de Janeiro:
Editora Vozes, 1998

A "cidade" de Santo Amaro e as bitolas dos "trilhos ferroviários"

História publicada em 29/05/2012 link:


Por contingências inerentes à vida precisei deslocar-me à "cidade" de Santo Amaro, deparando-me com sua transformação, mais uma vez, praxe de seu pioneirismo sobre trilhos, desde sua locomotiva a vapor alemã Krauss, de “bitola estreita”, que percorria quase vinte quilômetros entre Santo Amaro e o Bairro da Liberdade. Depois vieram os bondes 101, Santo Amaro, de “bitola larga”, num itinerário de pouco mais de 30 quilômetros ao Centro da capital do estado. Com os tempos "modernos" aflorou novas estruturas imobiliárias, que exigiram transportes coletivos mais rápidos, trens "bala", para ligar nossa única identidade nacional, a "bola" do futebol.

As novas condições "ferroviárias" em nome do "progresso" demonstram-nos que o tratamento de "evolução" reflete a "involução", pois alguma dúvida paira como condicionamento do pensamento humano, se há realmente uma "mudança para melhor", esquecendo-se de momentos progressivos anteriores!

Hoje, novamente o Brasil quer "alavancar-se" sobre trilhos, adquirir máquinas modernas "importadas", expandir portos para "exportar" seu desenvolvimento "in natura", próprio de seu eterno imediatismo. Deixando as indagações sempre latentes, repentinamente Santo Amaro, "que morreu solteiro e não teve filhos", como diz nosso grande amigo, Geraldo Diniz, conhecido como Pracinha, lavratura de legítimo santamarense digno desta estirpe, e um de seus grandes proclamadores, vê transformada em "outro" novo modelo urbano, através do metrô, da linha cinco, colorida de lilás, de “bitola internacional”, que já possui pequeno trajeto do bairro Capão Redondo ao Largo Treze de Maio.

Esta linha atual implanta-se sobre os antigos trajetos, ou se não, próximo de suas estruturas, e sendo assim a concessionária "tropicou" nos trilhos antigos dos bondes que circularam pela última vez em São Paulo, com direito a carreata e comício em 27 de março de 1968, saindo do Biológico, Vila Mariana, para o Largo Treze, em Santo Amaro.

Quem porventura quiser deparar-se com a placa comemorativa do referido feito, há de vê-la na parede lateral da Catedral, esta também, infelizmente desativada para "reforma" do local, por riscos de "tombar" literalmente, embora seja referido como patrimônio tombado.

Esta "nova" estrutura sobre trilhos, não é novidade nenhuma para Santo Amaro, e outras tantas pioneiras da cidade de São Paulo, sendo que o estado havia se desenvolvido por mais de dez mil quilômetros de trilhos ligando cidades, e agora "a cidade de Santo Amaro" será integrada novamente entre trilhos até a Chácara Klabin, num trajeto via Vila Mariana, como sempre fora feito no "progresso" trilhado, somente mudando o “bitolado”!

A Botina Amarela de Santo Amaro/SP

História publicada em 28/06/2012 link:


Hoje o termo se tornou a outorga "Troféu Botina Amarela" de relevância para todo santamarense, anualmente concedido pelo Centro de Tradições de Santo Amaro. Representa a identidade "caipira" daquela que "é" a Cidade de Santo Amaro. Há ainda, nesta representação, o "Museu Histórico de Santo Amaro", que encarna a vida desta postura daqueles que sentem esta importância cultural.

Há algumas condições que permanecem embutidas nesta filosofia: Supõe-se que o termo tenha tido algumas versões ao longo do tempo, neste espaço de 640 km², que já foi um município independente com particularidades únicas em suas festas e expressões como a Festa do Divino, sua culinária típica do tropeiro, com a pururuca crocante, um virado em "minestra" de coisas típicas da lavoura, seguida da prosa e da viola chorada típica da "boca de sertão", cantoria entoada no meio de um fogo a lenha próximo do galpão onde "descansavam" as ferramentas da "lida" da roça, foices, enxadas, enxós, machado, e um cavalo livre dos arreios que servirá como montaria, um dia, na Romaria de Pirapora (há interesse em fazer das romarias patrimônio histórico e para isso pensa-se em tombamento junto aos órgãos competentes!).

O agraciado "Botinado", significativo àqueles que possuem o mérito, tem o nobre dever de representar suas origens onde porventura esteja a memória da ancestralidade em quaisquer situações, manter a honradez além da ética que condiz com estas tradições que nasceram no Município desde suas estruturas de vilarejo.

Santo Amaro sempre teve relações de confiança com a Capital paulista, selando este compromisso na Revolução Constitucionalista, sendo responsável pelo abastecimento de produtos agrícolas e, além disso, fornecer à cidade combustível disponível anterior à energia elétrica: o carvão vegetal.

Nessas idas e vindas de circulação do campo para a cidade e vice versa havia o contato com doenças desconhecidas de então, combatidas com as condições que se tinha conhecimento, onde os sanitaristas requisitavam pequena infraestrutura de higiene básica evitando-se esgoto a céu aberto, combatendo, desse modo, doenças típicas tropicais e requisitando a população às condições mínimas para evitar que ficassem acamados.

Os trabalhadores da lavoura de Santo Amaro usavam como proteção, botinas de couro curtido que possuía uma coloração próxima ao amarelo, impregnada de terra de um tom meio alaranjado somado a um vermelho vivo. Para transitarem e para transportarem mercadorias para a Província, no mercado de abastecimento municipal, usavam as mesmas vestimentas usadas na labuta em Santo Amaro, com botina fabricada artesanalmente pelas "indústrias" familiares santamarenses, com solado de couro, com costura grossa e couro bem tratado. Assim, ficou registrada essa marca em toda a Província, onde o brasão define esta gentilidade antiga: "ANTIQUISSIMUM GENUS PAULISTA MEUM".

Entre os contadores de "causos" chegou-nos esta oralidade que é transmitida como identidade local, e deste modo, continuam a falar uns aos outros como matutos bem vividos: “Contei e afirmo ser a verdade!” Pode ser que existam outras versões e seria interessante se existissem outras, mas está feito como me foi dito e feito está. “Cada saber é um saber a saber”.

O Centro de Tradições de Santo Amaro, o Museu Histórico e a Hemeroteca,(em fase de conclusão, iniciada por este missivista e continuada por adeptos) do jornalismo de Santo Amaro, estão localizados na Avenida Professor Alceu Maynard de Araújo, número 32.

Datas comemorativas e intervenções em Santo Amaro, São Paulo

História publicada em 07/08/2009 link:

Anterior à civilização européia, todas as regiões possuíam nomes indígenas e muitas assim permaneceram por "preguiça" do agrimensor Real, que tinha incumbência de denominações oficiais. Assim permaneceu o campo de Ibirapuera ou Virapuera, do tupi ibi-ra-quera, denominação para "árvore velha". Da aldeia dos índios guaianases, à beira do rio Jeribatiba (Jerivá: palmeira que produz cocos e tiba: abundância), na localidade de Ebirapoêra (outra interpretação encontrada como "mata grande") foi fundada Santo Amaro, na aldeia de Caá-ubi, irmão do cacique Tibiriçá, que cedeu também sua aldeia para ali fundar o Colégio que deu origem a São Paulo. Havia semelhança no modelo de ocupação destas duas localidades protegidas contra ataques repentinos e com a proximidade das águas de sustentações das aldeias.

Havia também o Caminho do Peabiru, que em tupi-guarani tinha o significado: "Caminho Amassado Sem Ervas" (Pe=caminho, abiru=gramado amassado), que ligava o Pacífico ao Atlântico atravessando a Serra do Mar até Cusco no Peru, nos Andes Incas, "Terra D'El Dourado", cobiça de ibéricos, que possuíam o "Auto de Posse" das Terras. Para os descendentes guaranis, era o caminho de busca da Terra Sem Mal, caminho que levava ao céu. Pode ter sido, porém, um caminho de comércio para o povo inca, abrangendo mais de 3000 quilômetros.

O atual bairro de Santo Amaro recebeu muitos nomes ao longo do tempo, além dos dois acima, era ainda identificado também por Jeribatiba, Santo Amaro de Virapuera, e finalmente com o nome atual de Santo Amaro. O caminho da aldeia dos índios guaianases à beira do rio Jeribatiba, na aldeia do cacique Caá-ubi foi fundada a cidade de Santo Amaro, ligando-se à Trilha do Ouro e Prata Inca, do litoral pela Serra do Mar ou como era conhecido pelos portugueses, na parte mais baixa, como Serra do Facão.

O primeiro registro de terras na região data de 12 de agosto de 1560: duas léguas de terras na margem esquerda do rio (atual Rio Pinheiros) então chamado de Jeribatiba, doadas aos padres jesuítas. Data-se desta época a denominação Santo Amaro, homenagem dos jesuítas que trouxeram de Portugal uma imagem do Santo, embora se confira segunda hipótese
errônea da doação da imagem por parte do casal João Paes e Suzana Rodrigues (vide estudo detalhado em: O “Santo” da Igreja de Santo Amaro, a “Banda do Além” e a genealogia dos Aguilar, Rodrigues, Paes e Borba Gato http://carlosfatorelli27013.blogspot.com/2018/06/o-santo-da-igreja-de-santo-amaro-banda.html) para a Capela Nossa Senhora da Assunção de Ibirapuera, ambos vindos com o capitão maior da esquadra em expedição de exploração de 1532, que se dirigiu em direção ao Rio da Prata, de onde a embocadura escoava riquezas da América espanhola, Martim Afonso de Souza, para lavrar terras recebidas em sesmaria, primeiros latifúndios da terra, cujo documento original encontra-se hoje no Arquivo Nacional, em aldeamento dos naturais e caminho dos guaranis.

O padre José de Anchieta não presidiu uma missa oficialmente na aldeia que ficou conhecida como Santo Amaro (santo cristão, do século 6º, também denominado Mauro, antes de sua ordenação! É considerado protetor dos agricultores, carroceiros e carregadores) sendo 15 de janeiro o dia e mês em que se faz comemoração deste abade beneditino. Ele se tornou sacerdote a partir de 1566 quando foi ordenado, podendo assim fazer os santos ofícios a partir dessa data!

Em 14 de janeiro de 1686 a capela de Ibirapuera foi elevada à categoria de Freguesia de Santo Amaro pelo segundo (embora o primeiro D. Frei Manoel Pereira, dominicano, confirmado por Bula de 22 de novembro de 1676, nunca assumiu) Bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros Alarcão, secular que assumiu a mitra em de 19 de agosto de 1680 (embora conste a posse em 1681) até 06 de abril de 1700.

Em de 06 de setembro de 1746 foi criada a Diocese de São Paulo, representado com a criação do bispado paulista. O primeiro bispo foi Dom Bernardo Rodrigues Nogueira, que veio de Portugal em 1695 para tomar posse da diocese. Para que ele subisse a Serra do Mar, foi melhorado o Caminho do Cubatão, que os proprietários das sesmarias antigas chamavam Caminho do Padre José, 
dizem que o nome foi por mando tê-la aberto, ou consertado, o Venerável Padre José de Anchieta. Era entrada nos "sertões" atravessando o Geribatiba (Rio Pinheiros), indo para as terras de Butantan, de Afonso Sardinha, avizinhadas com as terras de Carapicuíba, saindo em direção a Piratininga.

Assim o bispo Dom Bernardo Rodrigues Nogueira fez primeiro contato com São Paulo entrando por Santo Amaro, em direção a cidade de São Paulo, representando a Igreja até novembro de 1748.

No dia 10 de julho de 1832, por decreto da Regência, Santo Amaro tornou-se independente com instituição própria instalando os trabalhos em 07 de abril de 1833 com a elevação para Vila de Santo Amaro (para ser elevada à condição de Vila deveria providenciar Cadeia, que em 1837 foi aprovada pela Câmara Municipal com imposto de quinhentos réis ao ano para a construção da mesma, além de instituir Forca, Pelourinho, e Igreja), empossando Francisco Antônio das Chagas, pai de Paulo Francisco Emílio de Sales, o poeta Paulo Eiró, também conhecido como professor Chico Doce, através de um eleitorado paroquial, sendo deste modo empossado o primeiro presidente da Comarca de Santo Amaro junto com mais sete vereadores. A primeira sessão da Câmara de Santo Amaro ocorreu no dia 6 de maio de 1833.

Em lei provincial de 1835, instituíram-se cargos de prefeito e subprefeitos, sendo nomeado o primeiro prefeito de Santo Amaro o capitão Manuel José Moraes, em 04 de março de 1835. Era tio-avô de Prudente de Morais, primeiro presidente civil do Brasil República.

O cartório do bairro de Santo Amaro possui os primeiros livros datados de 1832, arquivado o registro da transcrição da Lei Áurea, assinada no Rio de Janeiro, e a transcrição realizada em São Paulo, arquivada no 29º Registro Civil da Capital, no bairro Santo Amaro.

Em 14 de novembro de 1886, Dom Pedro 2º, Imperador do Brasil, e a Imperatriz Tereza Cristina estiveram na cidade de São Paulo e na cidade de Santo Amaro, para conhecerem a "Companhia de Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro", idealizada pelo engenheiro alemão, naturalizado, Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, inaugurada em 14 de março de 1886 para o transporte de cargas, em uma época em que Santo Amaro supria a Capital de São Paulo com aproximadamente 25 toneladas de produtos agrícolas por ano, seguindo o plano de estrutura de abastecimento da cidade de São Paulo. Dom Pedro 2º e a Imperatriz tomaram o comboio ricamente adornado para a ocasião, ostentando o brasão Imperial. Custou tão digna presença, aproximados 1:158$000 de réis, causando um rombo aos cofres públicos, quantia que fora emprestada por ilustres financistas santamarenses.

Deste modo Santo Amaro foi administrada, por um século, como Cidade, com autonomia de decisão até 22 de fevereiro de 1935, quando houve nomeação por parte da pasta da Justiça do governo Getúlio Vargas, nomeando em 16 de agosto de 1933, interventor federal, um governador biônico, Armando de Salles Oliveira, genro de Júlio de Mesquita, dono do jornal O Estado de São Paulo, anexando Santo Amaro à Cidade de São Paulo, transformando assim parte de uma história de Independência Administrativa.

Dizem as "más e boas línguas" que, além de retaliação, a inauguração do Aeroporto de Congonhas, em 1934, foi uma das razões pelas quais o decreto estadual número 6983, de 22 de fevereiro de 1935, determinou a extinção do município de Santo Amaro, incorporando-o ao município de São Paulo.

Previu-se geração de renda com a construção do novo Campo de Aviação (Congonhas) entregue definitivamente à cidade de São Paulo em abril de 1936, substituindo o Campo de Marte, que havia sido alvo de ataque aéreo em 1932, pois seus pilotos haviam sido convocados para integrar o Movimento Constitucionalista, juntamente com outros aviadores militares que haviam aderido à causa, além de Santo Amaro possuir o represamento da Guarapiranga para moderna hidroelétrica Usina de Cubatão, também conhecida como Usina da Serra ou Henry Borden, inaugurada em 10 de outubro de 1926, com construção Subterrânea, considerada marco de engenharia, devido ao túnel de adução ter sido escavado em rocha, protegido naturalmente contra bombardeios de aviação na Serra do Mar, que a Revolução de 32 não conseguiu destruir e parar o parque industrial.

Havia necessidade e interesse político em antecipar a anexação de Santo Amaro, mas, isto são conjeturas carentes de provas!...

Afinal, quando comemoramos nossa "Cidade de Santo Amaro"?





sábado, 9 de junho de 2018

O “Santo” da Igreja de Santo Amaro, a “Banda do Além” e a genealogia dos Aguilar, Rodrigues, Paes e Borba Gato

A Banda do Além (além do Rio Geribativa, atual Rio Pinheiros), região de Santo Amaro, São Paulo

A história do Brasil, e no caso o fragmento do Bairro de Santo Amaro, São Paulo, parece ainda incompleta e em alguns momentos, por vezes, indecifráveis e as poucas informações nos levam a buscar conteúdo em nova investigação mais detalhada para sanar dúvidas existentes. Essa crônica não quer dirimir o contexto do que é corrente, mas tentar buscar parte desta história oculta no tempo!


Qual Suzana Rodrigues doou o “Santo” em 1560 para a Vila de Santo Amaro, São Paulo?

Há o consenso no bairro Santo Amaro, (Titulada de Vila a partir de 1832) que o referido nome do local adviria do padroeiro dos agricultores e discípulo de São Bento, a partir de 1560, quando o casal João Paes e Suzana Rodrigues doou um santo de madeira à capelinha instalada no aldeamento de índios catequizados naquela área!

Não se contesta o fato, pois a data de 1560 está em conformidade com a referência histórica e faz parte do “batismo” de outras regiões que se tornaram aldeamentos. A questão é outra, ou seja, quem são os doadores Suzana Rodrigues (veja as datas de nascimento das duas Suzanas Rodrigues (mãe e filha) nesta crônica) e João Paes que “dizem” ter ofertado a imagem do Santo em 1560!

Será que a imagem veio por outras mãos a partir dos interesses da colonização portuguesa, tanto de âmbito da Coroa quanto do religioso, á época controlada pelos jesuítas?

*QUEM SÃO AS SUZANAS RODRIGUES DE SANTO AMARO?

Há duas Suzanas Rodrigues, em São Paulo, no século 16, uma nascida por volta de 1559 e outra que era sua filha, nascida em 1597, sendo chamada de Suzana Rodrigues, a Moça, para diferenciar do nome da mãe, foi casada com o Capitão João Pais (ou Paes), casal que hipoteticamente deu a imagem ao hoje bairro de Santo Amaro!

Segue abaixo cronologia e genealogia de envolvidos na “colonização de Santo Amaro”, São Paulo:
Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar nascido 1560, falecido em1608, (1612) Paraupava, Sertão do rio Paraná.
Susana Rodrigues consta como data de nascimento estimada de 1559, sendo viúva de Damião Simões, depois casada com Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar  em 1589 e em 1631 tem inventário.

Suzana Rodrigues, a Moça, nascida por 1597, ainda era solteira em 1619, falecida após 1650, em Santo Amaro, São Paulo. Era filha de Susana Rodrigues e Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar, esposa do Capitão João Paes
Capitão João Pais (ou Paes), nasceu em São Paulo por volta 1580 casado em primeiras núpcias com Luiza da Gama falecida em 1615, em 19 de abril de 1616, foi inventariante da mãe, Maria Paes e posteriormente casou-se com Suzana Rodrigues, a Moça.

João de Borba Gato,
genro do Capitão João Pais e Susana Rodrigues, (a Moça) tiveram uma filha Suzana Rodrigues, mas acrescida do sobrenome Borba, mas esta é outra história!

Abaixo colocamos a estrutura familiar dos envolvidos e que fizeram parte, ou direta ou indiretamente no caso:
Tudo se inicia com Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar (às vezes sem o termo Rodrigues)

Natural de Castela, nascido pelos anos de 1560, residiu em São Paulo, no lugar então denominado Ibirapoera, sendo tronco desta família em São Paulo de nobre ascendência, povoador e célebre conquistador dos sertões no posto de Capitão-mor da tropa e da governança de São Paulo. Foi ativo bandeirante tomando parte na bandeira de Nicolau Barreto em 1602, ocasião em que escreveu seu testamento. Saiu chefiando bandeira própria em 1608 em direção à Paraupava e nunca mais retornou. 
Em 1589 casou-se com Suzana Rodrigues, viúva de Damião Simões. Suzana ainda vivia em 1624, mas já fora inventariada em 21 de Fevereiro de 1631, ano provável de seu falecimento.

Martim Tenorio de Aguillar  e Suzana Rodrigues tiveram quatro filhas, a saber:

1. Maria Tenório, casada em 1601 com Clemente Álvares. Faleceu Maria Tenório em 1620 e seu marido foi inventariado em 1641.

2. Ana da Veiga, casada com Teodósio da Fonseca. Teve seu dote escriturado pelo pai pouco antes da saída da bandeira de Nicolau Barreto em 1602. Já era falecida em 1612, deixando o filho único Diogo, que foi levado pelo pai ao Rio de Janeiro. 

 3. Elvira Rodrigues nasceu por volta de 1590, casou-se com Cornélio de Arzam (ou Arzão) depois da saída da bandeira de Martim Rodrigues em 1608. Elvira ainda vivia em 1672, ocasião em que possuía casa defronte ao convento de São Francisco, São Paulo.

4. Suzana Rodrigues, a Moça, nascida por 1597, ainda era solteira em 1619. Em 1631 seu marido João Paes aparece pela primeira vez no inventário do sogro e também é neste ano que João Paes tardiamente fecha as contas no inventário de sua primeira mulher, Maria da Gama.

Martim Fernandes Tenorio de Aguillar  foi sogro dos mineiros e fundidores Clemente Álvares e Cornélio de Arzão, interessados num engenho de ferro, construído em Ibirapuera (Morro da Barra, em Santo Amaro)inaugurado a 16 de agosto de 1607 e que por isso tomou o nome de Nossa Senhora de Agosto[1].

O inventário e testamento do Capitão-Mor Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar  foi feito pelo juiz Bernardo de Quadros e os avaliadores foram João da Costa e Antonio Lopes Pinto.Local: Ebirapoeira, termo da Vila de São Paulo, sendo declarante sua mulher, Suzana Rodrigues, deixando bens abaixo relacionados, além de outros pertences:


  • Escritura dada por Jerônimo Leitão a Baltazar Rodrigues, que por certidão passada por Belchior da Costa pertence a este inventário (capões entre os rios Jeribatiba e Bohi)
  • Outra escritura do mesmo Baltazar Rodrigues, que ele comprara de Belchior da Costa e foram arrematadas por Martim Rodrigues, por dívida que Baltazar tinha com o órfão Damião Simões
  • Chãos na vila e que entregou por dívida que tinha com o órfão Damião Simões
  • Terras no Rio Bohi arriba, dada por Roque Barreto
  • Idem, no rio Bohi abaixo, dada por Gaspar Conqueiro
  • Casa que foi de Pedro Grande arrematada por Martim Rodrigues
  • Carta de dada por Gaspar Conqueiro a Clemente Alvares, Martim Rodrigues e Damião Simões e que estava em poder de Clemente Álvares.


Cornélio de Arzão, genro do Capitão-Mor Martim Fernandes Tenório de Aguillar 

Cornélio de Arzão, nasceu no Condado de Flandres, Bélgica, pelos anos de 1565, faleceu em São Paulo em 30 de outubro de1638, casou com Elvira Rodrigues.
Era cristão novo, ou seja, judeu convertido ao catolicismo, chegando em São Paulo em 1609, quando Martim Rodrigues já havia partido em sua bandeira em 1608. Foi sua sogra, Suzana Rodrigues, quem tratou de seu casamento com Elvira Rodrigues e não conheceu o sogro.
Cornélio de Arzão aparece em 1616 como um dos primeiros donos de moinhos movidos a roda d’ água nas beiradas do rio Anhangabaú, e 12 anos mais tarde estava em Santo Amaro, ás margens do Rio Pinheiros, perto do Engenho de Ferro. Seu moinho “de moer trigo moente e corrente” foi avaliado pela Inquisição em 1638 em 10 mil réis e no pregão foi arrematado por 14 mil réis, o que sem dúvida, pelo valor atingido, era uma boa peça, mecanismo valioso. O moinho de trigo referido com esse produto foi substituído pelo milho que era\ menosprezado e rotulado como “Farinha de cachorro”, mas que no século seguinte fazia parte da alimentação inúmeros produtos provenientes do milho e que já se dizia que em nada se diferenciava da farinha européia, salvo em ser esta cozida ao forno e levar sal.
Cornélio de Arzão apesar de seu trabalho honesto entrou em conflitos com os jesuítas, em 1618, que não conseguiam fazer negócios vantajosos com ele. Assim foi submetido a julgamento pela Inquisição, perdendo todos os seus bens, confiscados que foram pelo Santo Ofício, mesmo não se comprovando crime que tenha perpetrado. Esteve preso por cinco anos em Setúbal, Portugal. Em 1627 foi libertado e retornou ao Brasil, conseguindo uma carta de sesmaria para um terreno nas cercanias de São Paulo, em área onde é hoje o município de Cubatão, por volta de 1628, local onde passavam diversos ribeirões e córregos e era praxe o pagamento de pedágio ao proprietário quando alguém precisava transpor as águas em viagem. Os jesuítas para aumentar suas rendas nos pedágios e na exploração das terras em Cubatão, conseguiram nova expropriação de sua sesmaria e de inúmeras outras propriedades vizinhas, resultando perda de todos os seus bens em 1628. Morreu em São Paulo em 30 de outubro de1638, deixando testamento no qual distribui o que sobrou de seus pertences para seus familiares.

Capitão João Pais (ou Paes) genro do Capitão-Mor Martim Fernandes Tenório de Aguillar[2]

O Capitão João Pais era filho de Maria Pais e foi inventariante da mãe com testamento em 1616 e foi inventariada em São Paulo, tendo sido casada com André Fernandes estando viúva também de seu 2º marido, Juan de Sant’Ana, castelhano, falecido abintestado[3] no sertão em 1612, sem geração desse matrimônio. Fez no testamento disposições pias e determinou sepultura no Convento de Nossa Senhora do Carmo, com o acompanhamento do vigário e dos irmãos da Santa Casa de Misericórdia. No inventário declarou-se um sítio em “Virapoeira”, roças, casa de taipa de pilão na vila, etc...

Tiveram quatro filhos:
1 - André Fernandes
2 - Jerônyma Fernandes
3 - Cap. João Pais
4 - Izabel Fernandes

O capitão João Pais nasceu em São Paulo por volta 1580 e casou-se na Vila de São Paulo pela primeira vez por 1607 com Luiza da Gama, nascida antes de 1584, em Portugal. Luiza da Gama teria vindo com o pai Francisco da Gama, com a mãe e o irmão Francisco da Gama, o moço, falecido em 1600.
João Pais falecida a esposa em 1615, com testamento e codicilo[4], fez disposições pias e determinou sepultura na igreja de Nossa Senhora do Carmo, como irmã da Ordem do Carmo.
Casou-se pela segunda vez, com Susana Rodrigues, a Moça, nascida em 1597, filha do Capitão Martim Rodrigues Tenório de Aguilar, natural da Espanha, pessoa da governança de São Paulo.
Suzanna Rodrigues entre 1616 e 1619 estava já casada com João Pais e tiveram os descendentes:
Anna da Veiga Pais
Antonio Paes
Sebastiana Rodrigues Pais
Martim Rodrigues Tenório de Aguilar
João Paes Rodrigues
O Capitão João Pais exerceu na Câmara de São Paulo os cargos de almotacel[5] em 1624, vereador em 1625, 1635, 1644, 1648, 1651 e juiz ordinário em 1657.

A DESCENDÊNCIA DOS “BORGA GAT(T)O” EM SANTO AMARO

BELCHIOR DE BORBA GATO, GENRO DE CORNÉLIO ARZÃO.

Os Borba Gato são originários da Ilha Terceira, nos Açores, sendo Belchior de Borba Gato (e não Balthazar como referido em outras publicações) e seus sobrinhos Manoel e João, casaram-se com as netas do bandeirante Martim Rodrigues Tenório, e se estabeleceram na região de Santo Amaro, ao sul da Vila de São Paulo.
Belchior já estava na Vila de São Paulo em primeiro de abril de 1628. No inventário dos bens de Cornélio de Arzão feito pela Inquisição, assina-se como forasteiro, isto é, recém chegado. No inventário que se fez por morte de Cornélio Arzão em 30 de outubro de 1638, Belchior de Borba Gato estava casado com Ana Rodrigues de Arzão, filha de Cornélio Arzão e Elvira Rodrigues.

Belchior aos 23 de outubro de 1639 recebeu termo de juramento para ser arrumador de terras.
" Neste estado se achavão as Minas de ouro de São Paulo ate o tempo da glorioza e feliz acclamação o Sr. Rey D. João o 4º. a quem os camaristas de S. Paulo mandarão render a sua reverente, e humilde odediencia, pelo dous enviados desta honrosa conducta Luiz da Costa Cabral, e Belchior da Borba Gato, que conseguirão aventura de beijar a Real Mão do seo Principe Soberano, e natural Senhor, a quem os Camaristas declarão, que os certoens da Capitania de S. Paulo erao ricos de haveres encobertos eficavao dispostos os Vassallos Paulistas a penetrarem-os para os descobrimentos de ouro, e prata, porque esperavam, que S. Magestade tivesse nesta America outro Potocci[6], como a Coroa de Castella; (....)"

Belchior de Borba Gato e Anna tiveram os filhos abaixo, com descendência parcial indicada por Silva Leme,:
Belchior de Borba Gato , o moço     
Lucas de Borba Gato                        
Balthazar de Borba Gato                   
Maria / Beatriz de Borba                   

João de Borba Gato, genro do Capitão João Pais e Susana Rodrigues

Nascido por entre os anos de 1615 a 1620, na Ilha Terceira, Portugal. Casou-se com Sebastiana Rodrigues Paes, filha do Capitão João Pais e Susana Rodrigues, a Moça, irmã de Elvira Rodrigues, esta sogra de Belchior de Borba Gato. Sebastiana nasceu depois de 1625 e faleceu em dezembro de 1669 em São Paulo

No Arquivo do Estado de São Paulo existe o inventário da Sebastiana Rodrigues Paes datado de 03 de agosto de 1670 com seu testamento feito em 15 de agosto de 1669, com declaração do tabelião em 22 de agosto de 1669 e dado o cumpra-se em 9 de dezembro de 1669.

O auto de inventário foi feito em 08 de março de 1670 na casa do viúvo João de Borba Gato, na Vila de São Paulo, capitania de São Vicente, assinado por Manoel Pacheco Borba porque o viúvo João de Borba estava completamente cego desde pelo menos 1662.

Em seu testamento, datado de 15 de agosto de 1669, Sebastiana declara ser natural da Vila de São Paulo, filha do defunto João Paes e de Suzana Roiz (ou Rodrigues) já defunta, sendo casada com João de Borba Gato e nomeia seus seis filhos. Pediu para ser sepultada na Matriz envolta no hábito de São Francisco, “na cova de meu pae e mãe”. Entre seus bens declara fazenda, casas, etc e "um sitio com duas casas de taipa de pilão que compramos do  defunto Belchior de Borba”.

João de Borba possuía casas na Vila de São Paulo, “defronte à porta do Convento de São Francisco” que oferece em fiança no inventário de Bento Pires Ribeiro com o aval de João Paes, em 1671. 

Sebastiana Rodrigues Paes, (filha de João Paes com Suzana Rodrigues filha de Martim Rodrigues Fernandes Tenorio de Aguillar)  esposa de João de Borba Gato tiveram seis filhos, nomeados no testamento e arrolados em 1670 no inventário materno:

Capitão Manoel de Borba Gato, com 21 anos

Maria de Borba, casada

Suzana Rodrigues Borba, com 16 anos.

Paula ou Paulina de Borba, com 14 anos, nascida por 1656, comparece como madrinha em alguns batizados em Santo Amaro, SP.

Ana de Linhares, com 12 anos em 1670. Casou-se com Antonio Álvares Machado e tiveram filhos batizados em Santo Amaro, onde Antonio faleceu por 1700 e Ana manteve casa aberta com servos e administrados até 1706.

Isabel, com 3 anos em 1670, sem mais notícias


Tenente General do Mato Manuel de Borba Gato

Manuel de Borba Gato, personagem fundamental na descoberta, conquista e povoamento das minas, é sempre citado nos tratados das bandeiras paulistas, nos estudos sobre a Guerra dos Emboabas administração das Minas do Rio das Velhas, nem sempre com dados muito precisos. Com a segurança que nos dá o inventário de sua mãe, podemos afirmar que o bandeirante nasceu em São Paulo em 1649, já que tinha 21 anos na abertura do inventário em 1670. Nada indica que já fosse casado, era provavelmente ainda solteiro.

Casou pouco depois com Maria Leite[7], filha de Fernão Dias Paes, o Caçador de Esmeraldas, e Maria Garcia Rodrigues Betting.(ou Betim) Em 1674, já casado, partiu com o sogro, cunhado e mais bandeirantes na grande bandeira organizada por Fernão Dias Paes, que durou 7 anos embrenhando-se nos sertões das Minas Gerais. Basta lembrar que, em decorrência do assassinato do fidalgo emissário da Coroa portuguesa Dom Rodrigo Castel Branco[8], que viera a mando da Metrópole, obrigou Borba Gato a se esconder pelos sertões, vivendo com os índios em exílio forçado.

Passado o incidente e conseguindo anistia, Manoel de Borba Gato voltou em definitivo para as minas do Rio das Velhas, Minas Gerais, para onde levou a família. Um escrito de meados do século XVIII, abaixo referido , assim relata o acordo feito entre Manoel de Borba Gato e Artur de Sá pelo qual obteve perdão pelo assassinato de Dom Rodrigo Castel Branco em troca da descoberta de minas de ouro:

“Lançou-se como humilde rato o Gato aos pés de seu benfeitor, agradecendo a promessa de perdão, suposto sempre receoso, por ser condicional; mas animado da certeza com que cumpriria a condição, manifestando o ouro que tinha descoberto no Rio das Velhas .... que sempre teve oculto, por alta providência do céu, para lhe servir de livramento naquele tempo”.


Esta crônica está sujeita a interferências de quem assim o desejar para melhor compreensão deste momento histórico! Foram feitas sinalizações para que o estudo fosse dirigido de maneira a evitar ambiguidade no entendimento de passagem com toda a rede genealógica!

Referências e fontes:

M.E. de Azevedo Marques, Província de São Paulo, Editora Itatiaia e Editora USP,1980
Francisco de Assis Carvalho Franco, Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Martins Editora e EDUSP.
Cúria Metropolitana de São Paulo
Inventários e Testamentos- publicação do Arquivo Publico do Estado de S.Paulo
Registro Geral da Câmara de São Paulo
Revista do Instituto Heráldico - Genealógico
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
Luiz Gonzaga da Silva Leme, Genealogia Paulistana.
Afonso de E. Taunay, Relatos Sertanistas, EDUSP, 1981
POVOADORES DE SÃO PAULO – (Primeiras gerações) Revista da ASBRAP n° 6

Vide mais em:

A FÁBRICA DE FERRO NO MORRO DA BARRA DE SANTO AMARO – SÉCULO XVII – UMA INDAGAÇÃO





[1] (“O engenho de Ferro começou a fundir quinta-feira a 16 de agosto de 1607 ao qual possuíram por nome Nossa Senhora de Agosto que é a Assunção Bendita e seu dia 15 do dito mês”
Diogo de Quadros era provedor das minas, tinha poucas posses e ia devagar com o projeto, mas acabá-lo era importante, pois ali havia muito metal de ferro. O equipamento era composto de dois malhos de 175 quilos, duas argolas de mesmo peso, duas chapas cada de 30 quilos e duas de 60 quilos. Tudo perfazendo a soma de investimento de 36 mil réis. Não havia mão de obra especializada, e era tudo lento, demorando quase dois anos para sua implantação. A produção tornou-se dispendiosa, o ferro era produzido a custo de 4 mil réis o quintal, quando valia só a metade. Queixava-se Diogo de Quadros da baixa produtividade dos “índios maramomís” na produção de carvão e o serviço não se desenvolvia como “Sua Majestade” pretendia, perdendo seus reais quintos, imposto da produção efetiva.)

[2] (Vem esse bandeirante registrado por Silva Leme como Martim Fernandes Tenório de Aguilar (Inventários e Testamentos – II, 5 e segs. – Atas, cit., II, 217. – A. Taunay – História das Bandeiras – I, 185-190. – Roque Leme da Câmara – Nobiliarquia Brasiliense – Rev. Inst. Hist. São Paulo – XXII, 210)

[3] Abintestado: diz-se daquele que morre sem deixar testamento.

[4] Codicilo é ato jurídico  de última vontade, em que a pessoa antes de morrer, escreve de próprio punho como gostaria que fosse seu enterro ou destina determinado valor para o patrocínio do mesmo.

[5] Almotacel: Inspetor dos pesos e medidas e da fixação dos preços dos gêneros alimentícios.

[6] Cerro de Potosi, na atual Bolívia, de onde a Espanha retirou grande quantidade de prata enviada à Europa.

[7] Da união, nasceram três filhas que casariam com portugueses provenientes do Reino, aliás, três Franciscos: Francisco Tavares, Francisco de Arruda, Francisco Duarte de Meireles

[8] O Rei o nomeou pelo alvará de 14 de julho de 1673  fazendo mercê do foro de fidalgo da Casa Real por serviços que ia prestar nas minas do Brasil. Foi ainda nomeado administrador-geral das minas.