segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

OS TERRATENENTES DO BRASIL (09): O PREÇO DA OPRESSÃO

O CAPITÃO-MOR E O GOVERNO GERAL DO BRASIL

A atividade do tráfico negreiro inicia-se oficialmente em 1559, quando a metrópole portuguesa decide permitir o ingresso de escravos vindos da África no Brasil. Antes disso já ocorriam no Brasil transações envolvendo escravos africanos, sendo a escassez de mão-de-obra um dos principais argumentos dos colonos.

O mais antigo registo de envio de escravos africanos para o Brasil data de 1533 quando Pero de Góis, Capitão-Mor da Costa do Brasil, solicitou ao Rei a remessa de 17 negros para a sua capitania de São Tomé, Paraíba do Sul em Macaé.

Catarina da Áustria oficializou o tráfico de escravos para o Brasil que acontecia na prática: O comércio de escravos oriundos da África, antes dominado pelos africanos e árabes, fazia parte dos resgates de cativos, prática comum de escravizados e libertados durante o reinado de Dom João V, e revela que era lucrativo cambiar mão de obra até de grupos oriundos do Brasil que chegaram a ser capturados e vendidos para o mercado africano, através dos árabes que controlavam já boa parte deste comércio ao norte da África, e que passa a ser também dominado também por europeus no Atlântico e Pacífico.

O Alvará de 29 de Março de 1559, de Dona Catarina de Áustria, regente de Portugal, mediante certidão passada pelo Governador Geral, “autorizava cada senhor de engenho do Brasil, mediante certidão passada pelo Governador Geral, a importar até 120 escravos do Congo, pagando apenas 1/3 dos direitos”, vindo oficializar o que era feito na prática.

Os escravos africanos que os portugueses comerciavam, no começo passavam por Portugal, onde uma parte menor era levada principalmente por via marítima, para outros países europeus e outra parte destinava-se ao Brasil e as ilhas portuguesas do Atlãntico. O tráfico de escravos para o Brasil não era exclusivo de comerciantes europeus, mas uma atividade feita por uma rede intricada de interesses de vários controladores, inclusive os pumbeiros, mestiços livres e também ex-escravos, que não só se dedicavam ao tráfico de escravos como controlavam o comércio costeiro, no caso de Angola, para fazerem o papel de mediadores no comércio de escravos da África Atlântica.

A partir de 1550, o Governador-Geral do Brasil, Tomé de Souza, estimula a importação de africanos e, em 1557, chega à Bahia uma caravela vinda de São Tomé, importante centro açucareiro, com escravos da África

Em 1591 o preço dos animais em Pernambuco era de 30.000 reis para uma junta de bois, 10 a 12.000 reis para uma vaca, 15 reis para um porco, 3 a 4 reis para um carneiro, 1 real para um peru e 6 a 7 tostões para uma galinha.O investimento total dos senhores de engenho e lavradores, poderia atingir 25% em mão de obra e a cotação dos escravos negros era feita conforme o sexos, a idade, a origem étnica e aptidões, sendo mais valorizados os crioulos, aqueles nascidos no Brasil, os ladinos, já aculturados com o modelo do colonizador, e, por último os boçais, recém chegados da África. A classificação por idade respeitava o seguinte critério: o velho; com mais de 35 anos, o barbado; entre 25 a 35 anos, a peça; homem de 15 a 25 anos, molecão ou molecona; entre 8 a 15 anos, moleque ou moleca; inferior a 8 anos, as crianças de peito eram incluídas no preço das mães. O Preço era de 22.000 reis para uma peça, 12.000 reis para um velho e para um moleque ou moleca, 44.000 reis para e molecões ou 3 moleconas.

Era um comércio lucrativo ao investidor do açúcar branco cobiçado na Europa, produzido pela negra e injusta escravidão que manchou o Brasil, que não consegue perder as amarras destas correntes do passado para escrever com liberdade sua história.

sábado, 9 de janeiro de 2010

OS TERRATENENTES DO BRASIL (08): A IGNOMÍNIA DA ESCRAVIDÃO

A COSTA OCIDENTAL DA ÁFRICA E OS AFRO-BRASILEIROS

“Os negros do Brasil trazidos principalmente da costa ocidental da África, foram capturados meio ao acaso nas centenas de povos tribais que falavam dialetos e línguas não inteligíveis uns aos outros. A África, era, então, como ainda hoje o é, em larga medida, uma imensa Babel de línguas. Embora mais homogênea no plano da cultura, os africanos variavam também largamente nessa esfera. Tudo isso fazia com que a uniformidade racial não correspondesse a uma unidade lingüístico-cultural, que enseja uma unificação, quando os negros se encontraram submetidos todos à escravidão” (RIBEIRO, p.114; 115)

Com a liberação da metrópole portuguesa em enviar escravos para o Brasil a partir de 1559, foram tomadas algumas providências para evitar levantes como os ocorridos anteriormente em São Tomé e Príncipe, na fase exploração da cana-de-açúcar que a partir de 1493 é intensificada com mudas transladadas da Ilha da Madeira e o deslocamento de escravos provenientes do continente africano.

“Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro- mercador africano de escravos- para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partia em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro” (RIBEIRO, p.116)

Os Angolares das Ilhas São Tomé e Príncipe

A partir de 1520 as Ilhas São Tomé e Príncipe tornam-se os maiores produtores de cana de açúcar do mundo. Portugal houve por bem enviar as ilhas um único grupo lingüístico; os Angolares. Eram escravos adquiridos de uma mesma tribo de Angola, apresentando a mesma língua, características raciais uniformes e tinham uma estrutura militar que lhes permitia organizar assaltos do tipo de guerrilhas. Se pertencessem a tribos diferentes, não se conceberia que no curto espaço de tempo já estivessem miscigenados a tal ponto de se comunicarem num idioma único. Os Angolares se entendiam num mesmo idioma semelhante ao Quimbundo, a língua franca dos povos das regiões do interior de Luanda, em Angola, adquiridos por mercadores de escravos europeus e árabes. Além disso, tinham características físicas assemelhadas aos grupos dos Negros Mussorongos, tribo do noroeste de Angola, mestiçados com outros Bantos e que estariam já presentes na ilha para intensificar a produção a partir de 1540. .(GALLARÍN, Consuelo Garcia. Vocabulário Temático Y Característico de Pío Baroja. Madri: Editora Verbum, 1991).
Em julho de 1595 um escravo que pertencia a um capitão-do-mato, de nome Amador sublevou com um enorme contingente de escravos organizandos de forma militar, combateu os colonos valendo-se da fuga de guerrilha, conseguindo libertar a maior parte do território e, inclusive, a administração colonial localizada na capital. Devido ao menor poderio bélico e à traição de alguns membros. Amador foi capturado e morto em janeiro de 1596.[1]

O Modelo Usado no Brasil

Devido ao fato ocorrido em São Tomé e Príncipe os escravos que fariam parte das levas que viriam ao Brasil foram divididos em grupos diversificados.[2]

*As culturas sudanesas vieram para o Brasil dentro dos grupos: iorubá,denominados nagô, depois os dahomey reconhecido como jêje, e por último os fanti-ashanti como sendo os minas.

**Depois houve outro grupo que eram originários de Gâmbia, Serra Leoa, Costa da Malagueta e Costa do Marfim, trazendo a cultura africana islamizada, principalmente os peuhl, os mandingas e os haussa do norte da Nigéria conhecidos na Bahia como negros malê[3] e no Rio de Janeiro como alufá.

***Um terceiro grupo era integrado por tribos bantu (banto) formado das estruturas congo-angolês vindos de Angola (angolas, congos, cambindas, benguelas e outros). e da contra-costa, da região de Moçambique.

“A diversidade lingüística e cultural dos contingentes negros introduzidos no Brasil, somada as essas hostilidades recíprocas que eles traziam da África e a política de evitar concentração de escravos oriundos de uma mesma etnia, nas mesmas propriedades, e até nos mesmos navios negreiros, impediu a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano.
Encontrando-se dispersos na terra nova, ao lado de outros escravos, seus iguais na cor e na condição servil, mas diferentes na língua, na identificação tribal e freqüentemente hostis pelos referidos conflitos de origem, os negros foram compelidos a incorporar-se passivamente no universo cultural da nova sociedade.” (RIBEIRO, p. 115)

A Bahia era o principal porto de entrada dos escravos africanos, principalmente das etnias jalofa, mandinga, fula, mossi, haussa, bantos. Este atividade gerou novo tipo de comerciante, pois o tráfico negreiro era altamente rentável e durante séculos foi o mais lucrativo empreendimento colonial. Os capatazes foram aqueles de maior relação e de certa forma ensinavam aos escravos o português rude do trabalho e com que aos poucos assimilaram para prover alguma comunicação inicial de relacionamento nas áreas do engenho da cana de açúcar e posteriormente nas minas auríferas.

Os vários grupos provenientes de várias regiões da África foram integrados na proto célula lusa-tupi, onde foram se adaptando-se a uma outra realidade inteiramente desconhecida, aprendendo a plantar outro tipo de cultura e a cozinhar os alimentos da terra como mandioca, milho, e a colher palmito de palmeiras que originou alguns pratos básicos da culinária como bolo de milho, empadas, cuscuz, tapioca, completada a alimentação com peixes variados. Tudo isso foi sendo incorporada do grupo nativo indígena onde assimilaram certos nomes que faziam parte do universo religioso local que usavam em cultos aos espíritos o uso do tabaco e o cauim, bebida fermentada da mandioca.

“Nos dois casos, o engenho e a mina, os negros viram-se incorporados compulsoriamente as comunidades atípicas, porque não estavam destinados a atender as necessidades de sua população, mas sim aos desígnios venais do senhor. Nelas, à medida que eram desgastados para produzir o que não consumiam, iam sendo radicalmente desculturados pela erradicação de sua cultura africana.” (RIBEIRO, p. 115)

Esses negros que falavam um português trôpego desempenhavam as tarefas pesadas na divisão do trabalho, no engenho ou na mina, pois o índio devido as perseguições impetradas pelos capitães do mato, predecessores dos bandeirantes paulistas, através das “guerras justas” exterminaram nações inteiras e preá-los tornou-se coisa rara. Deste modo com a introdução da mão de obra escrava suprimiu-se essa deficiência, e deste modo integrava-se novo elemento a uma sociedade que se formava de outras culturas com técnicas de trabalho existentes por parte do colonizador europeu, que deveriam ser aceitas como normas e valores pelo contingente africano, submetido ao pedra de moer, o mó aculturativo da escravidão, perdendo-se o modelo das origens, desafricanizando-os.

“O surgimento de uma etnia brasileira, inclusiva, que possa envolver e acolher a gente variada que aqui se juntou, passa também pela anulação das identificações étnicas de índios, africanos e europeus, como pela indiferenciação entre as várias formas de mestiçagem, como os mulatos; resultado de negros com brancos; caboclos; resultado de índios com brancos; ou curibocas; resultado de índios com negros”. (RIBEIRO, p. 133)

Demonstra-se que uma nova condição de pertencimento formou-se a partir de um novo modelo de agrupamento, com novos elementos que formam uma outra identidade coletiva.
“A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjuraram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos” (RIBEIRO, p. 120)

Bibliografia:

RIBEIRO, Darcy.O Povo Brasileiro- A Formação e o Sentido do Brasil, in Moinho de Gastar Gente. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob oregime patriarcal. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1973.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: Decadência do Patriarcado Rural e
Desenvolvimento do Urbano. Rio de Janeiro: Record, 2000.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

PRADO JR., Caio. Evolução política do Brasil: colônia e império. São Paulo:
Brasiliense, 1987 [1933].

RAMOS, Arthur. A Aculturação Negra no Brasil. São Paulo: Ed. Comp. Nacional, 1942.

RAMOS, Arthur. O Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Graphia Editorial , 2001.

BASTIDE, Roger. O Candomblé da Bahia. Companhia das Letras, São Paulo, 2001.

RAMOS, Arthur. A Mestiçagem no Brasil. Editora EDUFAL, Rio de Janeiro.
RODRIGUES, Nina. Os Africanos no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932.

[1] O herói é uma construção ideológica, onde há um grande número de intrincados processos e acontecimentos na História. Portanto, o "herói" ou grande personagem deve ser observado e estudado no foco do conceito da idiossincrasia(mistura de fatos), logicamente dentro dos processos de acontecimentos sociais que estão em volta.

[2] “Esta imagem é reforçada pela insistência numa diversidade lingüistica africana e nas hipóteses improváveis da história brasileira de que os escravisadores colocavam africanos de origens diferentes na mesma fazenda e nas moradias para evitar a comunicação entre eles e, portanto, evitar a possibilidade de rebeliões. Indo à realidade africana lingüistica, temos que notar que todas as línguas provem de apenas quatro matrizes lingüisticas. Que no continente africano, hoje como no passado, diversas línguas são compreendidas por povos diversos. Ainda mais que, existem línguas como o Árabe e o Suarili que são faladas em quase todo o continente.” Pensamento de Henrique Cunha Júnior, professor da Universidade Federal do Ceará, em “ O Ensino da História Africana

[3] Revolta dos Malês ou a Revolta dos Escravos de Alá, foi um levante na cidade de Salvador, em 1835, capital da então Província da Bahia Consistiu numa sublevação de escravos africanos das etnias hauçá e nagô, de religião islâmica, com propostas para libertação dos demais escravos africanos. O termo "malê" deriva do iorubá "imale", designando o muçulmano.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

OS TERRATENENTES DO BRASIL (07):POVOAMENTO A TODO CUSTO

O “QUINTO DOS INFERNOS”
Tem-se diante da historia certas lacunas que às vezes não são preenchidas devido à falta de cuidados com documentos que forneceriam subsídios para a compreensão de determinado período, mesmo uma fração, um pequeno recorte do que representou um dia as estruturas da formação do povo brasileiro, e ainda se busca constantemente uma identidade que seja representada por todos, índios, portugueses, africanos.
Que não seja a identidade do Brasil a do quadriênio das copas do mundo, onde a população sai às ruas para comemorações entusiásticas em verde e amarelo, por vezes o azul de menos constância, e todas as etnias abraçam-se festivamente congratulando-se com orgulho de pertencer como legitimo torcedor da seleção Brasil, esquecendo-se das agruras passadas e as recentes da falta de oportunidade e da discriminação por parte do poder do Estado.
Nossa história possui nodoas que marcaram pela força excessiva exercida pelos antigos coronéis de engenho que nada tinha a ver com estruturar a pátria na liberdade, fraternidade e igualdade das idéias revolucionárias que tentavam por um fim as hegemonias imperiais, e o Brasil ficou no julgo destes terratenentes, e permanece a ter influências macabras e maléficas deste quadro imposto pelo poder, onde há sempre uma evolução tardia dos movimentos libertários, onde estes coronéis soltam as rédeas em conta gotas para não perder o controle sobre a massa populacional, sempre dividindo o povo para melhor dominá-lo.

O Brasil era o “quinto dos infernos”, anterior a derrama do rei, era os infernos que somente os degredados, piratas, desocupados, mimetizes e outras levas sujeitadas e aventureiras se promoviam em aceitar a incumbência de a ferro e fogo povoar estas terras, o paraíso perdido, da terra sem mal, dos nativos aqui existentes, verdadeiros descobridores que chegaram antes das caravelas, mas que não aceitaram o julgo da escravidão e foram exterminados em toda America Latina.

Do lado oposto da costa do Brasil, dividida pelo Atlântico, estava a África, também pouco explorada ao sul com grupos heterogêneo formados por nativos que pelo intercâmbio anterior com os portugueses foram escravizados anteriormente para uso como mão de obra nas plantações de cana de açúcar na ilha de São Tome e Príncipe, no Golfo da Guiné, que após a decadência açucareira tornaram-se entrepostos de escravos para o Caribe e para o Brasil.

A exploração intensiva da cana de açúcar desde o século 15 gerou exigências maiores de mão de obra, sendo responsável pela maior fenômeno migratório em escala mundial que teve por palco o Atlântico: a escravatura de milhões de africanos iniciada em 1559 por Alvará de 29 de Março de 1559, de Dona Catarina de Áustria, regente de Portugal, autorizando a cada senhor de engenho do Brasil, com certidão reconhecida pelo Governador Geral, a importar até 120 escravos. Assim iniciava-se a maior Diáspora entre o continente africano e as recentes e desconhecidas Américas, onde o Brasil, ao sul do continente, seria comandado por terratenentes apoiados pelos hegemônicos impérios europeus, entre os mais atuantes, Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda e França com exclusividade dos mares, manchando o solo verde das matas, amarelo do ouro e azul do céu com a cor rubra do sangue da escravidão, que maculou o solo da terra e seus filhos no julgo eterno do poder das ditaduras eternas e escravizantes do povo brasileiro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

OS TERRATENENTES DO BRASIL (06): IDENTIDADE MOURISCA

OS NATURAIS DA AMÉRICA

Os naturais, que os invasores pejorativamente denominaram “negros da terra” era um novo elemento que precisaria ser incorporado e ser “adestrado” aos interesses da posse local e que forçosamente faria parte nesta teia histórica, de uma urdidura complexa, fazendo parte da miscigenação com os elementos aportados no Brasil.

O modelo e o sentido de vida para os primeiros habitantes da América lusa era outro e diferente do europeu, sendo a terra aliada a sua auto-suficiência em um processo integrado à natureza da “Terra sem Mal” sem os cercamentos de posse. Este encontro trágico para os autóctones criaram-se matizes diferenciados com este elemento desconhecido e que por um erro histórico do Ocidente convencionou-se denominá-los como habitantes das Índias, portanto denominados índios, falha jamais alterada pela historiografia.
Como fatores determinantes apresentados por cada lado, do dominado e do dominante, houve novo modelo de condição transformadora com outras possibilidades desconhecidas que alteraria e deformaria a gênese da Pindorama, que seria rebatizado por Brasil.

O negro da África nortista, já estava presente na cultura Ibérica, na transposição mourisca, de cor acobreada, proveniente da mestiçagem entre árabes e africanos, o mouro da Mauritânia com sarracenos dos desertos, vindos através de um nomadismo da Síria e Arábia.
Mouriscos eram todos aqueles que deslocavam em caravanas provenientes da Arábia, África e Península Ibérica. Uma nova caravana foi iniciada em direção ao “deserto do mar” e será responsável pelo “ACHAMENTO” de uma nova e surpreendente civilização, algo que não tinha nada haver com a “superioridade” do eurocêntrico.

Os primeiros ibéricos eram de castas das fimbrias da Europa, sendo uma mistura somada de recessivos genéticos e valores ligados a ocupação de vários povos bárbaros empurrados constantemente para a ponta do final do império romano, que constituíram os íberos, formação esta que não predominava a origem do “sangue azul” das dinastias continuístas da Europa. De tudo isto resultou a uma latinidade mestiça, sem “pureza romana” latina, impregnada em cada elemento rude que já havia sido formado por variantes genéticas por casamentos compondo misturas originadas por outro modelo transformador nos vernáculos e costumes[1] existentes ao longo do domínio romanos.

Estas etapas determinadas como evolução estavam impregnada de adaptações e ajustamentos às novas condições apresentadas, numa negação do vencido em favor do modelo do vencedor. Este é um campo fértil de análise e de possibilidades investigativas na busca da identidade formadora da América, como modelo distinto entre Castela e Leão e o reino de Portugal, mas mesmo representando impérios distintos ambos eram dominantes e interessados em apoderarem do serviço do exclusivo mercantilista europeu[2], domínio anteriormente exercido por genoveses e florentinos, e que a partir do século dezesseis será fortemente exercido por ibéricos e sua mestiçagem.

Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária.
[1] Videiras e oliveiras, únicas alternativas de intercâmbios de rotas comerciais forjaram costumes macerados nos lagares dos vinhos e azeites europeus, considerados primordiais na alimentação européia.
[2] Vide “Convergencia y Especificidad de Los Valores de América Latina y El Caribe”, In Avaliação Questão 1,Tópico “Submissões”

OS TERRATENENTES DO BRASIL (05): EM BUSCA DE IDENTIDADE

Processo de Formação

Na introdução do livro “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, tem-se uma singular determinante de cada raça aportada no Brasil, que compreende um novo elemento que já não é nem uma raça européia nem outra raça qualquer, mas uma nova estrutura amalgamada com anomalias próprias de toda deformação bárbara, uma Nova Roma.
Deu-se choque de latinização somada a um barbarismo pré-existente na formação da raça na Península Ibérica, formada por visigodos (godos nobres!), alanos e suevos misturados com autóctones da península, todos agentes transformadores.
A gênese fora, deste modo, interrompida por um hibridismo transformador, um novo elemento de uma complexa rede de intercâmbios, culminantes num novo modelo mestiço.

Mais tarde essa estrutura foi novamente transformada com a penetração de nômades vindos em direção a península cruzando pelo continente d’África através do estreito de Gibraltar, porta de entrada do Atlântico para o Mediterrâneo, ou saída, e não somente constituídos de árabes numa expansão da doutrina do Islã, mas um grupo coeso de certa hegemonia econômica-político-militar, com unificação de idéias, num sincretismo, fundindo elementos culturais diferentes, com domínios bem definidos que se deslocavam do Oriente Médio pelo litoral africano. Estes ismaelitas[1], com preceitos definidos pela formação de descendência semita, antigo historicamente, expandia-se entrando em contato com povo berbere da África e nestes deslocamentos forjaram um novo modelo sócio cultural. Estruturou-se nova linhagem, nesta complexa rede formadora, que destoa o modelo atual eugenista[2] de pureza das raças depurante, fundidos num cadinho efervescente borbulhante de raças diversas com trocas, sujeições e acertos.

Darcy Ribeiro debruça neste imaginário, emaranhado de situações que já é um processo na Europa e as circunstâncias forneceram subsídios suficientes de continuísmo, redefinindo elementos novos, que misturados darão nova substância, diferente de suas matrizes originárias, nova estrutura, o americano amalgamado, detentor de nomes diversificados e pejorativos, referências da articulação de domínio.

“O tema que me propunha agora era reconstruir o processo de formação dos povos americanos, num esforço para explicar as causas de seu desenvolvimento desigual”. (Darcy Ribeiro)

Deste resultado miscigenado do povo ibérico, fruto de uma amálgama preliminar, proveniente da relação em um determinado espaço geográfico, e um tempo definido, dará um grande passo para a expansão de domínios, jamais tentado por grandes povos navegantes da antiguidade: Atravessar mar aberto, navegar sem ilhas como era o costume do Mediterrâneo, para se aventurar num novo modelo de navegação, mudando de um sistema de cabotagem, de paradas constantemente em pontos de apoio, para um deslocamento rumo ao desconhecido, sem apoio constante de portos. Deste continuísmo expansionista dos “antigos romanos”, encabeçados por Portugal, fizeram-se senhores dos mares, não mais o “Mare Nostrum” fechado do Mediterrâneo, mas um mar de possibilidades abertas: o Atlântico.

[1] Descendentes de Abraão, “Pai das Gentes”, com sua escrava Agar, egípcia, e que foi despedida por sua ama Sara, que mais tarde legitimou a descendência de Israel dando a luz a Isaac. GENESIS, capítulo 16.
[2] Os progressistas perseguem o modelo da perfeição, adeptos incontestáveis da eugenia que teve seu apogeu de pesquisa na 2ª Guerra, (que não se sabe por que segunda e não milésima) financiada pela organização FUNDAÇÃO ROCKEFELLER e controlados por sistemas de processamento de dados da IBM.

sábado, 26 de dezembro de 2009

OS TERRATENENTES DO BRASIL (04): O MERCADO DE ESCRAVOS

DIÁSPORA NEGRA E OS AFRO-BRASILEIROS


Afinal, o que acontecia com o continente africano à época das navegações marítimas em sua vasta costa, que se permitiram uma diáspora sem precedentes de deslocamento de escravos por terras distantes da África?

As disputas internas na África aconteciam constantemente e para evitar uma insurreição os guerreiros vencedores preferiam negociar os adultos do sexo masculino para evitar conflitos futuros e abasteciam o mercado das Colônias com a mão de obra necessária. O pagamento era feito por mercadorias como aguardente, fumo, vinho, tecidos e alguma munição para dar um poderio maior ao aliado africano deste comércio que revertiam benefícios extraordinários aos controladores destas rotas no Atlântico.

Poucos africanos eram capturados para serem usados na própria África, mas para serem deportados em uma viagem sem volta, a não ser esporádicas voltas financiadas quando se elaboraram leis de proibição do uso da mão de obra, como exemplo de segunda deportação de volta ao continente africano foi a criação da Libéria, país criado por força de influência da América do Norte que promoveu o retorno subsidiando a volta para se ver livre de um contingente de ex-escravos que muito fez para o expansionismo dos Estados Unidos e foram descartados recebendo salvo conduto para retornarem a África, pela política externa da época, avalizada pelo expansionismo econômico da Inglaterra que buscava novos mercados de consumo para sua revolução industrial, implantado por novo modelo de produção.

O Brasil por sua vez desrespeitou todas as imposições internacionais e somente considerou os escravos livres após o governo imperial brasileiro comprometer-se a quitar despesas de aquisição por parte dos terratenentes de investimentos neste comércio insuportável, tanto que elaborou leis como paliativos anteriores a liberdade irrestrita com aval da precária justiça da época controlada por bacharéis formados na Europa, e mais tarde em Recife e São Paulo, com as academias de Direito, que viam na lei o modo de sustentar os interesses de seus mecenas que promoveram seus estudos acadêmicos, protetores ligados por laços familiares.

O poderio bélico das nações européias não deixou tempo de conformação de reinos estáveis na África que foram controlados por holandeses, ingleses, espanhóis, franceses e portugueses que lutavam entre si para maior hegemonia de controle deste comércio escravista de alto rendimento econômico, abrindo precedentes da formação de um mercado negro de contrabando de pessoas. Usaram uma tática fomentada pelas grandes potencias até em dias atuais: dividir para dominar. A Inglaterra somente se preocupou em rever sua posição quando abastecendo o mercado da Caribe deparou com a derrota da França em 1804 no Haiti. Todas as potências ficaram de sobressalto para evitar problemas de mesma envergadura em outras colônias, tendo os terratenentes do Brasil Colonial e depois Imperial, acirrado o controle do sistema escravista para evitar levantes, e os que sublevaram foram sufocados.

O abandono e a condição precária na Colônia fez com que as estruturas de resistência aos costumes do povo perdesse sua identidade com o continente africano, inclusive a língua original, mesclando outros valores miscigenados com povos locais dando origem aos cafuzos e caboclos, numa mestiçagem nativa que distanciou o modelo original, criando deste modo uma nova maneira de expressão com os recursos naturais da terra, ficando parte da cultura em ritos religiosos associados à música, numa mistura de valores incorporados a nova terra, não mais as origens da África, mas outro local que era o continente americano, que infelizmente foi construído por escravos controlados pelas senzalas dos grandes latifúndios dos terratenentes apoiados pelo rei de Portugal e o imperador do Brasil, originando novo modelo de estrutura e costumes incorporados pelos afro-brasileiros.

OS TERRATENENTES DO BRASIL (03): NEGROS DA TERRA

POVO-NAÇÃO E A LIMPEZA ÉTNICA

Se há duvidas quanto à limpeza étnica em terras da America tanto espanhola quanto portuguesa, através das guerras desiguais entre nativos e conquistadores, promovidas pela “guerra justa”, na visão européia, para “apoderamento” de terras, basta reverem o modelo empregado pelo “achamento e conquista” da terra no Brasil Colônia.

Em nome do rei os nativos denominados “negros da terra” foram perseguidos e assassinados provocando o extermínio de muitas nações existentes, no lado da colônia portuguesa, que atualmente os signatários do governo brasileiro, não admitem considerar o termo “nação” alegando que poderia haver retaliação no território e alegando soberania nacional, determinam as poucas nações restantes após o holocausto dos nativos, como territórios de etnias, com medo de uma balcanização, fomentando interesses de criar outros Estados livres no Brasil, única nação possível em um único território. O modelo de cultura destes “povos-nação” era diferente daquelas conhecidas na Europa, pois possuíam sua própria cultura, danças, objetos próprios, sua língua, um território de ação comunitária diferenciada do poder de posse, suas moradias em círculos que representavam também o sentido religioso entre eles, ou seja, uma identidade própria.

Nesta Terra Sem Mal, os portugueses se aproximaram com presentes de quinquilharias para haver uma maneira de serem aceitos em um primeiro contato, e disto extraírem informações úteis para benefício de domínio futuro. A ingenuidade de homens e mulheres que foram os reais possuidores desta terra Pindorama, e que o sistema eurocêntrico ousou chamar de índios sem ser aqui a Índia desejada das especiarias, estes naturais espantaram os colonizadores por serem desnudos de qualquer pudor, próprio dos conceitos europeus que viram nisto um atraso e que poderia ser facilmente amansados através de uma catequese pelos interesses em nome do rei, que usando do meio civilizatório europeu queria usufruir desta força de trabalho escravizando-os para o início de uma lavoura aos moldes destrutivos das florestas e uma tentativa incipiente da pecuária além de usá-los como força de combate contra outras nações européias e concluir a exploração invadindo o que seria pela jurisprudência de então terras pertencentes a Espanha

Tanto os colonizadores quanto o sistema de catequese implantado pela igreja através dos jesuítas só tinham um objetivo: recorrer a uma mão de obra disponível naquele momento, com um custo mínimo. Por seu lado os nativos não se sujeitavam ao modelo de escravidão, sujeitando-se em perder sua liberdade de ir e vir quando bem entendesse através das matas, rios, montanhas. A liberdade era a essência do viver do autóctone. Evidente que os conflitos entre os dois modelos de escravidão diferenciados entre “colonos preadores” e “jesuítas catequizadores” entraram em conflito, causando até em expulsão da Companhia de Jesus do território da Colônia de Portugal em 1759, preferindo a Coroa Portuguesa o modelo de exploração predatória do colonizador que usava a força militar para sujeitar os nativos “negros da terra”. A Terra Sem Mal se tornou local de disputas sangrentas, embora desiguais no armamento bélico, os nativos não se sujeitaram aos interesses europeus preferindo a morte a perder a liberdade, escravos jamais, e por isso houve o extermínio em massa da população local, que defendia a sua condição de homens livres, antes mesmo da Revolução Francesa, em nome da liberdade, promovendo deste modo um verdadeiro holocausto silencioso por parte de uma força militar formada pelo barbarismo ibérico que a historia esconde por considerar os exploradores heróis nacionais.

OS TERRATENENTES DO BRASIL (02): NOVOS BÁRBAROS

OS BÁRBAROS CHEGAM À AMÉRICA

A Herança do Brasil faz parte de uma estrutura do sofrimento dos povos perseguidos, que em um momento na história, os ibéricos passaram de perseguidos da Europa a condição de algoz de povos da América, pilhando-os como butim de guerra, produto de roubo daquilo que fazia parte de outro modelo e a não aceitação do outro.
Quando assumiram serem donos das terras do continente, dividiram os primeiros latifúndios através das capitânias do lado português. Não houve um interesse imediato pela posse, mas quando perderam possessões nos caminhos das Índias, começara os “novos bárbaros ibéricos” a incentivar os cativos a cultivar a terra e dela extrair a riqueza necessária para sustento da ganância da Metrópole.

O produto de grande valia era o açúcar que recebia nos portos da Europa elevados lucros. Portugal e Espanha intensificaram aprisionar nativos para trabalharem para El-Rey. Do lado espanhol conseguiram pela força da conquista militar, algum sucesso por haver entre os povos a mitra, um trabalho servil usado no vasto território inca, mas os nativos do lado das “terras baixas”, como eram chamadas as localidades do Brasil, não estavam neste estágio de consentirem serem aprisionados e servir um senhor desconhecido.

Os nativos eram nômades nunca havendo sedentarismo porque viviam em deslocamentos constantes, e não formavam vínculo de permanência de posse local. Certas localidades tinham um valor sagrado onde lembravam os antepassados que um dia passaram a formar aquela nação. Os portugueses prearam nativos penetrando em território espanhol, invadiram terras além de suas fronteiras no afã de descobrirem riquezas extraídas das minas, e que fazia a Espanha uma das mais ricas nações com a prata de Potosi, na atual Bolívia. Não tendo o sucesso da Espanha, e sendo um país relativamente de poucos braços para fomentar a empreitada expansionista, assumiu a Metrópole como exclusivo metropolitano a aquisição de africanos aprisionados por guerras internas entre etnias locais ou através dos árabes que vendiam escravos africanos como cativos de guerra aos portugueses.

Deste modo as levas de mão de obra escrava das costas litorâneas de África adentraram no Brasil para fazer parte de uma estrutura de desenvolvimento precário e arcaico. Evidente que o ponto mais próximo com a Europa era Pernambuco com cabotagem em Fernão de Noronha, de onde se comandava o fluxo econômico tanto da mão de obra escrava quanto o açúcar, produto valiosíssimo da época. Há de se dizer que do lado espanhol no continente americano do sul, pouca mão de obra escrava africana foi empregada, preferindo-se aprisionar os nativos e obrigá-los a trabalhos forçados através da mitra, e somente nas ilhas Caribe houve um fluxo considerável de mão de obra escrava vinda da África para trabalhar em canaviais dos “senhores de engenho”.

OS TERRATENENTES DO BRASIL (01): OS LATIFUNDIÁRIOS DA AMÉRICA

A FORMAÇÃO ÉTNICA DA PENÍNSULA IBÉRICA

Parece existir certo modelo de influências que não perdem o visgo em manter certos privilégios e quanto possível mantê-los vitalícios, mesmo quando o titular já não faça parte dos vivos. O que há de admirar-se são os privilégios decorrentes que sobrevivem ao longo do tempo, mesmo quando não cabem mais títulos de nobreza eles subsistem no mundo contemporâneo, considerado excelência de modernidade as transformações ocorridas pelos séculos afora.

O Brasil e sem dúvida exemplo claro do que mais tarde iriam resultar os filhos dos conquistadores nascidos nas Colônias, mazombos, que antes se haviam misturados na Península Ibérica com vários outros povos constituídos de fugitivos acuados pelo poderio do Império Romano, que na fuga adentraram-se por inúmeros marcos divisórios de fronteira numa desenfreada corrida para o mais extremo da Europa, formando deste modo Espanha e Portugal. A Península Ibérica era o último reduto dos fugitivos acuados, um retalho de grupos amontoados em povoados para formar uma resistência tenaz e manter a vida.

Algumas outras “turbas” em movimento pela Europa enfrentaram os poderosos guerreiros romanos, detentores do arsenal moderno de guerra da época. Eram os Godos, visigodos e suevos que ousaram furar este bloqueio militar e uniram-se aos montanheses locais, resultando uma rudeza identificadora que marcou a tenacidade deste local ainda pouco explorado. Mais tarde entravam pela África, pelo ponto mais próximo do Marrocos, com o Estrito de Gibraltar, árabes acostumados em viver com o mínimo necessário para a subsistência, homens do deserto, rudez no trato, ávidos pela conquista penetraram na Europa ao sentido contrário das primeiras levas que somente deslocavam-se dentro do continente europeu, fincaram outro modelo de identidade que não o habitual conhecido através do modelo romano.
Evidentemente que estes ingredientes foram fundidos num grande cadinho com todos os povos, misturando-se entre si formando uma “amálgama de povos” que no todo não apresentavam mais nem uma e nem outra identidade das características originais, mas outra formação resultante de uma fusão que não houve como interpretar o resultado deste novo subproduto e que forjou o modelo étnico da Península Ibérica.
Neste subproduto estavam presentes as características do meio, a localidade geográfica, determinante causa pela vontade de conseguir a todo custo manter o essencial que é lutar para a preservação da espécie. Um povo que era uma mistura de tudo quanto se cruzou pela Europa e o continente africano com a presença árabe constituiu deste modo, a “ponta” da Europa, a Península Ibérica, formada por fugitivos na última condição de manter-se sem serem atirados ao mar. Conseguiram-se suplantar as adversidades e sair rumo ao Mar Mediterrâneo e aventurar-se como último recurso em mares nunca dantes navegados, que na época assim se pensava ser o Atlântico completado pelas aventuras do Pacífico em busca do mercantil.

Estava aberta a fronteira das conquistas ultramarinas, de um povo forjado a ferro e fogo, embrutecido, atarracado a terra, única riqueza mensurável de então e de onde extraíam o sustento, iriam tornar-se navegantes e fincar bandeira em nome da cruz, e em nome dela martirizar povos ainda desconhecidos, em terras ainda não exploradas, que num primeiro contato assumiriam a estratégia do pacificador até conhecer as fraquezas dos nativos, e a partir deste momento fazê-los escravos, ou como sentença última se necessário exterminá-los e assumir a posse local.

Estes homens sem preparo no trato de relações entre pensamentos contrários ao europeu promoveram as maiores barbáries contra os povos locais, atrocidades de extermínio, carnificina em nome do poder, em troca ganharam as honras do rei com paga de bons serviços prestados em guerras justas, foram agraciados como “terratenentes”, os primeiros latifundiários da América.

sábado, 19 de dezembro de 2009

SONHOS E MORTALHA NO PAÍS DA ILUSÃO

SONHOS E MORTALHA NO PAÍS DA ILUSÃO

Eu tinha um amigo, aliás, o seu tio, o seu pai, antes dele ter nascido, já faziam parte de minhas relações de amizade. Eram nipônicos. São antigos no bairro Jardim São Luiz, periferia paulistana onde começaram a trabalhar no ramo de fotografias, e tornaram-se os precursores desta arte nesta insipiente localidade, registrando muitas atividades alegres das pessoas humildes, como casamentos, batizados, festas de formatura, enfim tudo que era relacionada com eventos pessoais, formais e informais, não escapavam de suas objetivas.

O Brasil, infelizmente não oferece oportunidades reais de crescimento, não para ficar rico, mas fazer com que as pessoas se sintam felizes, e queiram realmente desenvolver o sentimento de patriotismo, gostar do lugar em que nossos antepassados acreditavam ser um paraíso. Mas como cortar as amarras de sua escravidão se já possui o fado e o fardo de ter nascido escravo?

Muitos navios de muitos países nos séculos 19 e 20 singraram os mares e vieram para a "Terra da Ilusão". Aqui constituíram novas famílias, foram se misturando, mesmo quando perseguições eram feitas por ideologias bizarras, um policiamento desqualificado encarcerou pessoas que mal sabiam por que estavam sendo perseguidos. Muitos não podiam voltar para seus países de origem, e amargaram uma "desestrutura" abandonados no meio de florestas, sem recursos, mantendo-se com a força dos braços, mas não desistiram, pois era a única alternativa que possuíam.

O país "demo-crático" nunca se interessou em saber o quanto de qualidade possuía numa mistura de povos, e a dura vida do campo cavoucado como enxada tirou o sustento e sobrevivência destas pessoas.

O tempo passou muitos bisnetos, netos, filhos, sobrinhos foram trabalhar nos países de seus antepassados, que foram destruídos por guerras sucessivas, mas conseguiram tornarem-se respeitáveis como países sérios, ao contrário desta grande terra, que linda por natureza, possuem planejamentos narcisistas de governantes, que jamais pensam em forjar um país realmente Grande, nunca incentivando as pessoas para que possam desenvolver e a tornar o lugar onde vivem em um lugar propício e aprazível para se viver, onde o extrativismo descontrolado e sem planejamento formam desertos irrecuperáveis na natureza e na alma. Nossa maior meta é criar gado e plantar a exigências do mercado externo, onde as terras são grandes latifúndios controlados por uma elite arcaica.

Muitos filhos e netos de imigrantes do passado fizeram o caminho inverso e emigraram pelos aeroportos, e quem sabe até alguns se aventuraram e fizeram o uso do meio de transporte de seus antepassados usando os navios, hoje grandes transatlânticos marítimos. No meio desta massa, que foram tentar outra vida na terra dos seus antepassados estavam os Furukawa, que levou de volta um sonho de conseguir uma vida melhor. A vida em terra estrangeira é dura, os costumes, a língua, enfim uma série de dificuldades, mas com esforço se ajudaram mutuamente e cresceram e fizeram o Japão crescer, mas o que queriam era fazer a terra onde viviam desenvolver-se, mas ela não lhes dava oportunidades, estava entregue as especulações capitalistas que também culminou repentinamente por uma falsa economia embasada em papéis bancários, nunca dinheiro justo do trabalho, mas um dinheiro especulativo fez o capitalismo falso ruir, e muitos tiveram que voltar para casa, onde sempre pensaram em ficar. Os frutos do trabalho lhes renderam uma vida mais estável, adquirindo bens para uma vida sustentável, uma casa, alguns carros, motos, de última geração da indústria automobilística estrangeiras foram adquiridas no Brasil, nunca um produto desenvolvido com tecnologia própria, mas equipados pelas montadoras em uma globalização de controle do trabalho e renda, uma real condição de subdesenvolvimento.

O país "bonito por natureza" recebia estes dólares suados deste povo, taxando-os com tributos gigantescos, embora a economia falsa do país sustentada pelo poder econômico e político, oferecia aquisição de bens com facilidades cambiais, os bancos ávidos ofereciam taxas de juros baixas para aquisição de bens e muitos caíram nesta teia que se apresentava como uma coisa vantajosa, mas que queria chamar para si o recurso trazido para as fronteiras internas. O banco é o símbolo do capitalismo, pois nada produz, mas como um agiota ganancioso manipula todo mercado financeiro, uma fonte lucrativa com o mínimo esforço, ou melhor nenhum, pois detém as rédeas do mercado, nunca corre riscos de produção mas toma para si boa parte dos dividendos.
Os jovens foram os mais susceptíveis aos interesses capitalistas, e adquiriram veículos de grande potência, impróprias as estradas brasileiras, regidas por leis onde o acidente de trânsito é condicionado a existência da culpa, mas sem intenção de matar!!!
Assim em um cruzamento encontraram-se dois jovens, com suas potências pessoais e também motorizadas, e colidiram-se, ceifando a vida no seu momento mais sublime, o da juventude. O automóvel, servindo-se de uma carapaça como os antigos cavaleiros medievais, lançou a motocicleta de meu amigo Ronie Cray Takeshi Almeida Furukawa no asfalto frio, onde todas as probabilidades de salvamento foram insuficientes, pois o corpo do jovem arrastou-se até atingir um obstáculo, precipitado em movimento pelo impacto.
Muitos falam um termo muito usado "fatalidade", conceito vago que esconde outros fatores, que muito debatem em acaloradas palestras, mas não encontram solução, para evitar que um jovem tire a vida de outro jovem!
Meu amigo, um coração enorme, sempre pronto a servir quem estivesse em dificuldades, foi embora. Deus o ampare em seus braços com festa no céu, que sei agora que há mais um inocente olhando por todos nesta terra inoportuna.

Seu sonho era ser disc jockey, transmitir alegria! Descanse em paz, ei, ei, ei, DJ Ronie Cray!!!