quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A INTENDÊNCIA[1], A RETIFICAÇÃO DO TAMANDUATEÍ E A ILHA DOS AMORES

AS TERRAS DEVOLUTAS PAULISTANAS E SUAS VÁRZEAS

São Paulo por natureza possui uma grande bacia hidrográfica que se espalhava em torno da cidade. Vemos que o núcleo indígena onde estava assentado o aldeamento do cacique Tibiriçá, anterior a fundação do colégio jesuíta onde se iniciou as bases da primeira Vila na Boca do Sertão, esta baseada e entre rios que se espalha no vale Anhangabaú, Tietê e Tamanduateí, além de pequenas artérias de sustentação do sistema hídrico. Esses rios possuíam áreas de transbordo em períodos das cheias: as várzeas. Quando o núcleo central começava a ter um adensamento foi necessário transpor as barreiras desses rios e passar ao outro lado criando núcleos menores. A cidade de São Paulo duplica sua população de 1872 a 1890 passando de 30 mil habitantes para 60 mil. Urgia, agir, pois a ocupação era totalmente irregular e desordenada.

João Theodoro Xavier de Matos do partido conservador foi nomeado pelo imperador Dom Pedro II,em 11 de dezembro de 1872, para presidência da Província de São Paulo, tomando posse em 21 do mesmo mês. Consta ter sido um grande administrador, ganhando a cidade de São Paulo impulso notável, estimulando fazendeiros e capitalistas a expandir seus negócios no oeste paulista, mas manter suas residências próximas das demandas cafeeiras da bolsa implantadas na cidade, vendo-se próximos desse escoamento de produção.

Torna-se um divisor entre um momento que a cidade provinciana, recebendo ares modernos e de grande produtora do setor cafeeiro. São Paulo necessitando de espaço para seu crescimento urbano cria através de seu administrador João Teodoro, novas áreas de expansão ligadas por vias de acesso entre a parte alta e baixa da cidade, saneamento básico de água e esgoto, cria a Caixa Econômica (Imperial) e lança a pedra fundamental para a construção do monumento a Independência no Ipiranga. 

Affonso d’Escragnolle Taunay enaltece sua importância histórica para a Cidade de São Paulo e reforça ainda: “Acontecimento de maior relevância veio a ser a instalação solene a 3 de fevereiro de 1874 do tribunal de Relação de São Paulo, formando a corte constante de sete desembargadores. Assim a justiça paulista ganhava um tribunal de segunda instância, para julgar recursos contra decisões dos juízes do Direito das Comarcas das Províncias”.

As tendências do sistema urbano paulistano estavam voltadas pelo modelo de ajardinamento, bulevares, além de uma arquitetura estética que muito abarcou do modelo europeu. Nas estações ferroviárias, foram implantados o sistema dos ingleses, definido como “square”. Deste modo o sistema “square” de ajardinamento foi usado para o modelo urbanístico de praças da cidade, sendo implantados coretos, quiosques, ornamento de fontes com cascatas, além de abertura e ampliação de vias públicas dotadas de paralelepípedos no calçamento das mesmas e ampliando os antigos largos dando-os novas formas, como o Largo dos Curros, que depois recebeu o nome de Praça da Republica, com o advento desta. O Largo da Sé, e outros tantos.

São Paulo possuia em seu código de posturas núcleos inspirados em princípios da legislação de terras de 1850, apresentando um centro com lotes urbanos rodeados por terras que se dividiam em lotes agrícolas. Muitas propriedades foram concedidas ao longo da estrada para Santo Amaro e o Caminho Velho. Ainda era indefinido o sentido da direção do Gasômetro. A indefinição foi prolongada até 1875 quando a Província de São Paulo teve aprovadas pela assembleia, os recursos para obras onde datas (terrenos) não se recebiam mais por cartas, pois as grandes levas de imigrantes já adquiriam por pagamento de foro anual (aforamento) que já estava em vigor no código de posturas de 1875, que previa cobrança pela outorga da carta de datas. Pelo decreto 528 de 28 de junho de 1890 houve a regulamentação dos burgos agrícolas, num afastamento do núcleo central determinando os subúrbios de prestação de serviços agrícolas e pastoris.

Dividiu ainda a comarca judiciária da capital, em ato de 12 de fevereiro de 1874, em dois novos distritos, a saber:


1º distrito: Sul da Sé; Brás; Penha; Conceição de Guarulhos; São Bernardo e Santo Amaro.


2º distrito: norte da Sé; Santa Ifigênia; Consolação; Itapecerica, Parnaíba e Juqueri.

Combateu as doenças contagiosas que assolava pela Província, caso mais urgente da varíola, criando o Instituto Vacínico em 28 de dezembro de 1874; Implantou ainda a Guarda Urbana, predecessora da guarda civil. Depois de um mandato de 3 anos, após governar a capital até 29 de maio de 1875, retornou a lecionar na Faculdade de Direito de São Paulo e  assumiu o posto o novo presidente da província o Dr. Sebastião José Pereira.

Outros governantes vieram e mantiveram a mesma política de crescimento, tentando manter o urbanismo implantado, se não amplia-lo, ao menos conservá-lo na cidade, e um intendente de obras assumiu o compromisso de dar nova diretriz para São Paulo. 

Foi Pedro Augusto Gomes Cardim, anteriormente diretor do Correio Paulistano, como vereador, era intendente de obras de São Paulo quando da realização da “Planta Geral  da Capital” em 1897 e da regulamentação do loteamento de Higienópolis. Foi um dos fundadores do Conservatório Dramático e Musical e o principal idealizador, em 1925, da Academia de Belas Artes de São Paulo, tendo sido seu primeiro diretor. Este currículo deu-lhe capacitação para se tornar o Intendente de Obras do presidente(governador) de São Paulo, o dr. Manuel Ferraz de Campos Salles[2].

Com determinação deste planejamento, definindo os arruamentos implantou a Vila Gomes Cardim[3], apropriadas por Ricardo Medina que as loteou, visando discriminar as terras devolutas em posse por concessão para dela obter recursos através da cobrança de foros ou rendas e laudêmios, taxas de transferência de títulos. Assim a Câmara definia procedimentos para preços sobre o uso da terra. Pela lei 323 de 22 de julho de 1895, o Estado de São Paulo determinava que as Câmaras municipais arcassem com as despesas unicamente de medições e demarcações feitas por engenheiros do Estado, definindo por um projeto lei 37 que a ação estava diretamente ligada à expansão da cidade aproveitando terras devolutas disponíveis, exigindo a organização de um Plano Geral da Cidade, definindo ruas, avenidas, parques, jardins, mercados, fontes, canais, pontes, cemitérios, viadutos, retificações ou transformações de terrenos e outras demais obras que se fizessem necessário. Deste modo era criada a Lei 264 de 20 de agosto de 1896, criando a Comissão Técnica de Melhoramentos[4], subordinada à intendência de Obras, assumindo o levantamento topográfico e os planos de nivelamento e alinhamento de ruas para expansão do perímetro urbano em áreas pouco habitadas. A “Planta Geral da  Capital de São Paulo”, de 1897, publicada no ano de 1898 é apresentada pelo presidente da Câmara, coronel Antonio Proust Rodovalho, em discurso de 7 de janeiro de 1899:

“...a recente publicação da planta da capital pela intendência de obras foi um passo dado para chegar-se à perfeita averiguação da área ocupada por essa cidade, bem  como dos terrenos de propriedade da Câmara, os quais, em zonas inteiras, são mal conhecidos, conforme disse, em seu relatório a Comissão Técnica de Melhoramentos”.(do relatório apresentado à Câmara Municipal pelo intendente de Obras, Dr Pedro Augusto Gomes Cardim, em 1897)

A lei de 1895 e as demarcações resultantes da planta definida de 1897 deu-se de maneira a que medidas legalizassem posses e de títulos de glebas de terras e estipulava o que era terras do patrimônio municipal e um maior controle administrativo visando um planejamento urbanístico maior para a cidade de São Paulo.

Os mais desfavoráveis eram deslocados em regiões ribeirinhas, inundáveis durante o período das chuvas, e muitas destas terras foram adquiridas pelas companhias ferroviárias para ampliação de suas malhas ferroviárias e que também atrairia as primeiras indústrias seguidas das moradias populares da massa trabalhadora, por vezes construídas pelas próprias companhias. Isso ocorreu no Brás, Pari, Mooca (cujos terrenos alagadiços de várzeas já estavam sendo distribuídas aos imigrantes em 1876). 

Com a expansão cafeeira fica nítida a necessidade de um modelo que conduzia com o escoamento da produção paulista que forçosamente escoava-se do interior pelo sistema de ferrovias até alcançar o porto de Santos. 

Antes de existirem locais de recreação a cidade tinha como seus maiores atrativos os seus rios onde se praticavam regatas, pratica de natação e pesca. Deste modo foram aparecendo alguns pontos de preservação da área nativa, como o Jardim da Luz, o Horto do Ipiranga e o da Cantareira. São Paulo necessitava ampliar em direção as suas várzeas, e assume espraiar-se pelos lados da ladeira do Carmo, retificando o rio que parece um empecilho, dono da várzea onde se situa seu Porto Geral, o Mercado na Rua Municipal, depois General Carneiro, a Ladeira do Carmo, depois denominada Rangel Pestana, com as águas margeando a Rua 25 de Março, que possuía uma beleza natural e uma Ilha de encantos, constituída pelo rio Tamanduateí, entre a Rua General Carneiro e a Ladeira do Carmo: A ILHA DOS AMORES, que em 1870 teve seus alagados aterrados por ordens de João Theodoro Xavier de Matos!

FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo: EdUSP, 2005.

TOLEDO, Benedito Lima. São Paulo três cidades em um século. São Paulo, Duas Cidades, 1981.

SIMONI, Lucia Noemi. A Planta da Cidade de São Paulo de 1897: uma cartografia da cidade existente ou da cidade futura. III Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica. Ouro Preto, 10 a 12 nov. 2009.
http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/i-1897.htm

PLANTA GERAL DA CAPITAL DE SÃO PAULO Organisada sob a direcção do Dr Pedro Augusto Gomes Cardim – 1897 –Escala de 1:20.000.

OLIVEIRA, Fabiano Lemes de. Modelos Urbanísticos Modernos e Parques Urbanos: As Relações entre Urbanismo e Paisagismo em São Paulo na Primeira Metade do Século XX. Tese Doutorado, março 2008.

CAMPOS, Sérgio Romanello. Bridi, Carmen Lúcia. Dr. João Teodoro Xavier. Presidente da Província de São Paulo. Edição da Câmara Municipal de Mogi Mirim. Outubro de 2002.

BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição, Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914. São Paulo: Editora: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

Plantas antigas da cidade encontram-se para download no site da prefeitura:


[1] O responsável pelo poder executivo municipal chamava-se intendente e a prefeitura, intendência, uma divisão territorial administrativa, cujo governante é o intendente. O intendente foi um sistema de organização de origem francesa com a missão primordial de fomentar o desenvolvimento econômico possuindo as atribuições de justiça, polícia e finanças. Haviam funcionários às suas ordens denominados “tenentes letrado”, com caráter diretamente ligado aos subalternos do rei e exerciam suas funções em áreas territoriais que correspondiam a província (ou “corregimientos”, organização castelhana), assumindo ainda o direito de nomear “partidos ou distritos”, chamadas de subdelegações)

[2] Natural de Campinas formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco em 1863. Republicano histórico, subscreveu o Manifesto Republicano em 1870, sendo também um dos realizadores da Convenção de Itu (1873). Como deputado provincial teve três mandatos: 1868/1869; 1882/1883 e 1888/1889. Em 1885 foi deputado geral. No Governo Provisório da República, em 1889 foi Ministro da Justiça. Antes do seu primeiro mandato foi Senador da República, entre 1890 e 1896. Seu mandato transcorreu de 01 de maio de 1896 a 31 de outubro de 1897, afastando-se para candidatar-se à Presidente da República. Combateu novas epidemias de cólera e febre amarela no Estado. Em sua gestão começou a operar em São Paulo o grupo canadense Light and Power, explorando inclusive os bondes elétricos em substituição aos puxados por burros. Reestruturou a Força Pública, zelou pelo ensino. Como Presidente da República (1898/1902) saneou as finanças, consolidando todas as dívidas numa só, num acordo realizado em Londres. Depois disso, voltou a ocupar o cargo de Senador da República entre 1909 e 1913. Foi, ainda, embaixador na Argentina entre 1911 e 1912.

[3] A Planta de 1897 reflete muito bem tudo o que vimos descrevendo. Confeccionada por ordem do Intendente de Obras o advogado Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim (1864-1932), parece ter sido elaborada, no entanto, para atender mais os interesses particulares do intendente do que o interesse público. O que adivinhamos por trás da execução desta carta são os supostos negócios de Gomes Cardim, provavelmente preocupado em convencer eventuais compradores de que o loteamento de sua propriedade, denominado Vila Gomes Cardim, estava situado numa região já bastante desenvolvida, entre a 5.ª e a 6. ª parada da Estrada de Ferro Central do Brasil. Conforme análise do Arquivo Histórico de São Paulo, http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/i-1897.htm, acessada em 28 de setembro de 2008.

[4] Pela Lei 334, de 10 de janeiro de 1898 foi extinta a Comissão, termo assinado pelo intendente Pedro Augusto Gomes Cardim e o diretor Antonio Leal Stott.

São Paulo dos Campos de Piratininga ou São Paulo das Várzeas do Tamanduateí?

A VÁRZEA DO CARMO E A ILHA DOS AMORES

O rio de Piratininga, aliás, uma indefinição não do termo, mas do local, sem definição precisa a qual rio é a referência, estava no caminho de São Paulo dos Campos de Piratininga, era um rio fértil na várzea, de fartura de peixes era constante, alimentava a aldeia do cacique Tibiriçá, soberano do alto do planalto, via as terras de seu povo perder de vista. Outro rio recolhia as águas do Tamanduateí após longa jornada de 35 quilômetros, acolhendo sua foz, era o rio Tietê, este de suma importância, que muito contribuiu para a penetração pelo interior do Brasil, primeira “estrada” tinha sua corredeira indo ao encontro do rio Paraná. 

Para alimentar essas grandes artérias eram necessárias pequenas veias de sustentação, e uma delas corriam ao encontro do Tamanduateí, que do vale do planalto se via o Anhangabaú. Para os autóctones, recebiam as benesses por gerações e tudo estava dentro de uma lógica natural: os rios, suas margens férteis e inundáveis quando as estações exigiam um maior fluxo de água, uma vegetação de retenção, ou comumente denominada nos dias atuais de matas ciliares, enfim a natureza se encarregava de suprir o necessário.

Evidente que do modelo importado europeu, de grandes concentrações populacionais resultava aglutinar um maior número de pessoas num espaço único, resultando o modelo de cidades que se agigantou ao longo do tempo. No caminho estavam os rios e suas várzeas, usados por tropeiros e lavadeiras. Consta que o rio Tamanduateí teve sua primeira interferência de curso entre 1782 a 1786, aproveitando um pequeno desvio de si mesmo criou-se seu primeiro desvio, e que depois foi uma constante num modelo de retificação para o “apoderamento” do espaço “vital humano”. Em 1810 a várzea ampla da baixada do planalto teve um aterro significativo na Ladeira do Carmo, atual Rangel Pestana, influindo no sistema de navegação do rio. Em 1848 novas obras sem levar em consideração os transbordos naturais nas margens, foram realizadas e então o rio deu sua primeira resposta na década de 1850, uma grande enchente, ou talvez apenas assumisse o espaço “vital do rio”.

Havia chegado ao Brasil, um agrimensor natural de Krefeld, Prussia que mudou o modelo da cidade de São Paulo, planejando e construindo pontes e estradas, e para “enxergar” todo este espaço foi responsável pela Primeira planta de São Paulo, datada provavelmente de 1841, cita o "Caminho para a Mooca", no bairro do Brás. (“Mapa da Cidade de São Paulo e seus Subúrbios”, cópia de 1918 de uma planta de autoria de Carlos Abraão Bresser datada de 1841-original desaparecido)

Além disso, foram elaboradas e ou reconstruídas:

Ponte do Carmo, primeira ponte construída sobre o rio Tamanduateí ligando a Ladeira do Carmo ao aterrado do Brás, sendo sua estrutura em granito e arcada. Provavelmente já existisse uma Ponte do Carmo, ou Ponte do “Franca e Horta”, nome do Capitão Geral da Capitania de São Paulo,  António José da Franca e Horta e foi construído sobre o rio Tamanduateí, foi construída na primeira década do século 19, fazendo a ligação entre a ladeira do Carmo e a região do Brás.
Ponte de Sant'Anna, uma das primeiras pontes construídas sobre o Rio Tietê.
Canalização e Alinhamento do Rio Tamanduateí - suprimiu-se uma imensa área da várzea original, que aterrada deu origem a bairros e ruas, como a rua Vinte e Cinco de Março.
Retificação do Curso do Rio Tietê
Traçado de São Paulo para o Serviço de Gás – com estudos e croqui arquivado no Museu Paulista (Ipiranga), de uma cidade que passava a produzir em um Gasômetro suas demandas e tentando suprir as necessidades de combustível, substituindo a lenha como combustível.
Primeiro Matadouro Municipal - construído de taipa em 1849, no bairro da Liberdade, destinada ao abate de animais.
Hotel Palm, sendo talvez a primeira construção paulistana inteiramente de alvenaria e, provavelmente o primeiro hotel paulistano. Projetada em 1851, situada no Largo do Capim, possuía detalhes raros para a época.
Reconstrução da Estrada de Lorena ou estrada nova de Cubatão, depois denominada Estrada do Mar, ligação importante de São Paulo com a cidade de Santos e seu porto. Provavelmente concluída entre 1838 e 1840, quando era presidente da província Rafael Tobias de Aguiar.

São Paulo e a primeira concepção urbanística da cidade

João Teodoro Xavier foi nomeado em 11 de dezembro de 1872, para presidência da Província de São Paulo, tomando posse em 21 do mesmo mês e depois de um mandato de 3 anos, entregou a cidade em  29 de maio de 1875, com um modelo urbanístico que se não ideal, facilitou sobre maneira os governantes futuros.

A administração da província de São Paulo estava a cargo da intendência de João Teodoro Xavier, que ousou penetrar na grande várzea do rio Tamanduateí conhecida como do Carmo, e que viria a ser o Parque Dom Pedro II.

“Pode-se afirmar, sem exagero, ter sido o Dr. João Teodoro Xavier de Matos um admirável urbanizador de São Paulo, quando não se falava de urbanização. Sua ação foi decisiva nesse campo, na sua curta administração ocorrida do final de 1872 a 1875. Ao seu romantismo João Teodoro aliava incomum força de realização. Assim é que a ele se deve a abertura da rua então chamada Conde D’Eu, hoje Rua do Glicério, e que fora antes, “caminho natural” para o Ipiranga, após cortar o bairro do Brás. A João Teodoro também se deve a abertura da Rua do Hospício, que se estendia até a Mooca. Além disso, remodelou o então largo  dos Curros, que depois passou a se chamar largo 7 de Abril e finalmente a Praça da República. Tornou mais poético o chamado Morro do Carmo, melhorou as ruas do Pari e do Gasômetro e chegou a inaugurar em 1874, o edifício destinado a Escola Normal, que se situava entre as ruas da Imperatriz (15 de Novembro) e a do Comércio.

E fez mais: drenou os terrenos encharcados da Várzea do Carmo, na altura do Velho Mercado, e ali fez construir, com o olhar de artista, um recanto realmente poético, que muito agradou à gente da Paulicéia- a Ilha dos Amores.

A ILHA DOS AMORES

Essa ilha ficava próxima a 25 de Março e era formado por um desvio de águas do rio Tamanduateí que passava na várzea. Aos domingos este pedaço de chão gramado que o governador muito queria, enchia-se da fidalga gente paulista que lá ia espairecer suas magoas ou exibir as indumentárias que a vaidade, já atuante naqueles idos, exigia das nobres damas e sinhazinhas faceiras. Além do mais, essa ilha era o ponto preferido para os namoricos que só assim podiam fugir aos rigores das rótulas.

Um grupo de bajuladores cercava sempre o mui ilustre governador de São Paulo, onde quer que se apresentasse. E não falhava dia em que não fossem todos eles ao palácio com seus salamaleques. O palácio era o “casarão da Rua da Bilha” como se dizia. Na esquina fronteira ao edifício uma grotesca de camponesa a deixar cair, do seu púcaro, um tênue fio de água num grande vaso de cimento. Aquela água depois corria pela ladeira Municipal, hoje Rua General Carneiro.

Do punhado do seleto rol faziam parte o capitão Antonio Bernardo Quartim, empreiteiro crônico de todas as obras públicas, o alfaiate Mariano da Purificação Fonseca, ainda um tal de seu Gulartinho, mais um tal nhô Paulo Pica-Fumo e uma senhora que vendia pastéis e café, em tigelinhas em sua própria residência... e que tinha a alcunha de nhá Maria Café e elogiava a criação da Ilha dos Amores, chamando-a de “Céu Verde dos Namorados” embora o povo preferisse chama-la de “Ilha dos Amores do Dr. João Teodoro”.

Em meados de 1890 um surto de malaria colaborou para elaboração de um projeto de Paula Souza e Teodoro Sampaio para mitigar as influências das águas paradas e assim foi sugerida a retificação do rio nesta região e deste “piscinão natural”, a várzea do rio Tamanduateí!

Referências Biográficas:                                            

TOLEDO, Benedito Lima. São Paulo três cidades em um século. São Paulo, Duas Cidades, 1981.

SIMONI, Lucia Noemi. A Planta da Cidade de São Paulo de 1897: uma cartografia da cidade existente ou da cidade futura. III Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica. Ouro Preto, 10 a 12 nov. 2009.

Mapa da Cidade de São Paulo e seus Subúrbios, cópia de 1918 de uma planta de autoria de Carlos Abraão Bresser datada de 1841-original desaparecido

PLANTA GERAL DA CAPITAL DE SÃO PAULO Organisada sob a direcção do Dr Pedro Augusto Gomes Cardim – 1897 –Escala de 1:20.000.

OLIVEIRA, Fabiano Lemes de. Modelos Urbanísticos Modernos e Parques Urbanos: As Relações entre Urbanismo e Paisagismo em São Paulo na Primeira Metade do Século XX. Tese Doutorado, março 2008.

CAMPOS, Sergio Romanello; BRIDI, Carmen Lucia. Dr. João Teodoro Xavier- Presidente da Província de São Paulo (1872-1875) Edição da Câmara Municipal de Mogi Mirim, 2002.

BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição, Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914. São Paulo: Editora: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
OESP 01 de maio de 1961 Matéria: Gabriel Marques

NARDELLI, Eduardo Sampaio. Flashes Urbanos São Paulo em 60 Minutos. São Paulo Editora: SENAC
FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

PLANTAS ANTIGAS DA CIDADE ENCONTRAM-SE PARA DOWNLOAD NO SITE DA PREFEITURA:

sábado, 8 de dezembro de 2012

A CATEDRAL DE SANTO AMARO-REABERTURA 8 DE DEZEMBRO DE 2012

O Carrilhão Ainda Vai Repicar os Sinos da Matriz de Santo Amaro!


Faz  bom tempo que os paroquianos da diocese de Santo Amaro ficaram alijados de seu símbolo religioso, por vários motivos àquela que foi elevada a Catedral em 15 de março de 1989, por intermédio das atribuições competentes do representante Máximo da Igreja à época, Papa João Paulo II, pela bula Constant Metropolitanam Eclesiam, juntamente com as Dioceses de Campo Limpo, Osasco e São Miguel Paulista, desmembradas da Arquidiocese de São Paulo. 
Necessitava a Catedral de Santo Amaro de reparação urgente em sua estrutura física, cabendo antes uma interferência em sua cobertura, para evitar maiores estragos por infiltrações de umidade que deterioraria um conjunto ainda sustentado por uma tecnologia do século dezenove. 
Urgia interferência, tanto porque Santo Amaro desde muito comporta um demanda de veículos ao redor do Largo 13 de Maio, no coração de seu eixo histórico, que, aos poucos foi abalando o entorno que não suportava essa enorme afluência veicular e as escavações metroviárias. Mas a Matriz galhardamente resistiu ao tempo, suportou uma série de transformações ao seu redor até a chegada da linha Lilás 5 do metrô de São Paulo. 
Muita tecnologia de ponta foi usada para essa interferência de modernidade, e com a chegada do metrô, foram feitos estudo de solo, encontrando-se os trilhos da antiga linha de bonde de Santo Amaro, finda em 27 de março de 1968. 

 O setor de arqueologia diante das circunstâncias fez prospecção das várias camadas de solo em conjunto com um departamento terceirizado pelo metrô incumbido da historiografia local, em que este missivista teve o privilégio de participar, embora requerido estes estudos finais, jamais foram disponibilizados estas ações pelo metrô . 
A Matriz de Santo Amaro, sem dúvida, é um símbolo com todo seu arcabouço religioso através destas estruturas que foi reforçado pelo contexto de participação na região de Santo Amaro. Muitos vinham de outras regiões participarem das festas de fervor, como do Divino Espírito Santo, da Santa Cruz, Natividade  e outras mais.
O frontispício da Matriz volta-se imponente a olhar de sua altura para o local indígena de Jurubatuba ou Jeribatiba, donde as primeiras canoas afluíram e aportaram nas margens do rio Pinheiros, num "meme" que a oralidade transmite sendo em 1552, embora sem comprovação, indo depois mais à frente fundar uma das maiores metrópoles do mundo moderno: São Paulo.
 Por ordem de El Rey com aval religioso do jesuíta Manoel da Nóbrega, confirmado por José de Anchieta e com primeira missa feita por Padre Manoel de Paiva. Um dia o noviço José de Anchieta volta com alguns sacerdotes aos campos da "arraial" de Santo Amaro e assim “ batiza” e oficializa a primeira missa de Santo Amaro em 1560!

 Uma pequena vila local de passagem de quem subia a serra do mar ou por ela voltava ao litoral, no seu elevado mais baixo, de aproximados 400 metros, foi parte de um estilo próprio de um caipirismo enraizado do abandono do caboclo nas matas, do matreiro desconfiado, matuto da labuta da enxada, mas que não deixava de caminhar com sua mula e prole “embornada” nos jacás das mulas para orar ao pé dos retábulos  referidos por Miguelzinho Dutra, retábulos esses que um dia tomou o rumo da Capital por ordem de Dom Duarte Leopoldo e Silva para fazerem parte do acervo religioso e hoje conservado no espaço do Museu de Arte Sacra de São Paulo, na “Sala Santo Amaro”, na Avenida Tiradentes, 676, Luz.
 Os vários órgãos governamentais de preservação precisam olhar todo acervo ainda existente, antes que os mesmos se tornem lembranças de uma época, e, que o “tombo” não seja mera referência  documental de secretarias que tenham atribuições de conservação! 
Era anunciado no jornal “Polyanthéa”, em 01 de novembro de 1924, as obras da Matriz de Santo Amaro: Número Consagrado as Festas da Inauguração da Nova Matriz, dando por completado os esforços de uma comissão que “representa o maior monumento de nossa terra, estão concentrados os sentimentos mais íntimos e puros da população”. 
Muitos elogios se poderiam elencar neste espaço, mas não cometendo injustiças da falta de evocação de um ou outro que muito contribuiu para que pelas portas novamente entrasse “A Luz”, fazemos aqui um menção de agradecimento aos santamarenses natos e aqueles que  são de coração e que encontraram neste rincão, de boca de sertão, primeira entrada do “sertão paulista” um acolhimento digno onde o pertencimento é marca registrada e deve ser mote de quem em Santo Amaro vive! 
As duas obras de vulto no restauro da Matriz de Santo Amaro foram feitas com datas definidas em 1924(documentos da época) e agora em 2012, no dia da Imaculada Conceição, numa distância  de 88 anos e que ainda há de ser completada com o carrilhão repicar os sinos no campanário em sinal da presença  da Fé dos botinas amarelas!