quinta-feira, 31 de julho de 2014

Joaquim Gil Pinheiro, da Freguesia de Alcaide para Embu das Artes, São Paulo

Biografia resumida de Joaquim Gil Pinheiro




BUSTO EM MÁRMORE GIL PINHEIRO 

Joaquim Gil Pinheiro nasceu na Freguesia de Alcaide, Fundão, Portugal, em 1855 e emigrou para o Brasil no ano de 1878, onde angariou fortuna notável, como apicultor e fabricante de velas, conhecimento adquirido com muito esforço no Brasil e transferido para Alcaide onde existia a “fábrica” do Lagar da Cera.

LAGAR DA CERA DE GIL PINHEIRO ALCAIDE, PORTUGAL    

Conta Joaquim Gil Pinheiro, no prefácio p. 5, do Livro Primícias: Poema dos Principaes factos da História do Brasil até a sua Independência, editado em 1900, em São Paulo:

“Cheguei ao Rio de Janeiro no dia 3 de junho de 1878, com dois vinténs no bolso, sem recomendações e sem nenhuns conhecimentos; porém, não me foi difícil encontrar hospedagem em uma grande casa comercial da Rua do Ouvidor, na qual não fiquei como empregado porque tencionava vir residir em São Paulo, onde já tinha um conhecido e parente remoto, ao qual escrevi, partindo para esta cidade em 21 do mesmo mês, e logo que aqui cheguei fui para a fábrica de velas de cera (em Santa Cecília) de propriedade desse meu conhecido e parente, onde me hospedei, e em poucos dias aprendi a fabricar toda classe de velas de cera, sem que anteriormente as tivesse visto fazer.”

Neste momento Joaquim Gil Pinheiro retira-se para a freguesia de São Bernardo (hoje São Bernardo do Campo) e percorre três léguas, aproximados 17 quilômetros indo pela estrada de rodagem de acesso a Santos e se hospeda em casa de um indivíduo que se tornou seu amigo.

“Como não tinha dinheiro, nem outros meios, dediquei-me à cultura de abelhas, a quis seu proprietário não ligava importância, por não haver quem delas quisesse tratar com medo das ferroadas; e então comprei cem colméias, a prazo de seis meses, e as levei para uma chacarazinha, onde comecei lidar com elas sem nunca ter visto ou saber a maneira e o modo porque eram cultivadas, principalmente aqui onde tinha chegado há poucos meses, mas com elas fui aprendendo, mesmo porque a necessidade me obrigava a assim proceder, e com energia e força de vontade, as quais sempre presidiram todos os meus empreendimentos, ganhei a prática precisa, de modo que elas próprias me ensinaram a cultivá-las. Tanto foram as minhas observações, adquiridas em um ano e meio, que inda hoje, apesar de já terem passado vinte anos, seria capaz de escrever um tratado prático de apicultura, se fosse preciso, e talvez mais explícito (ainda que resumido) do que alguns já publicados, no que respeita ao tratamento, cultivação, preparação de mel e cera, e seus rendimentos e despesas.”
“A fim de tornar bem conhecida a minha indústria de velas de cera, resolvi exibir na Exposição provincial ou regional, que aqui se realizou em 1885, diversos produtos de cera em obra, os quais mereceram ser premiados.”

Joaquim Gil Pinheiro liquidou sua casa comercial denominada Casa Vermelha do Riachuelo em 1891, casa esta fundada em junho de 1881, anexo a uma fábrica de velas e cera, olhando para o futuro para não voltar ao passado!

A este benfeitor ficou a dever-se em Alcaide a exploração e canalização de água para o abastecimento da população, bem como a construção dos chafarizes da praça, em 1914, onde se encontra uma escultura com o seu busto, o tanque dos burros para os animais sedentos e o chafariz do Adro da Igreja.

O Chafariz da Praça, com HERMA de Joaquim Gil Pinheiro, na altura da inauguração. 

Tinha uma gratidão pelo Brasil, onde viveu em São Paulo, e até fixando residência na cidade de M’Boy, atualmente denominada de Embu das Artes, no Estado de São Paulo.
Joaquim Gil Pinheiro com sua máquina fotográfica registrando a história embuense

Tinha apurado senso de observação e diz em “Primícias”, página 10: “não ter cursos científicos nem estudos secundários, mas simplesmente conhecimentos literários adquiridos na vida prática”, sendo um observador e grande estudioso autodidata, que recolhia fontes para idealizar suas obras e ser responsável por trabalhos onde se destacam:

Primícias: Poema dos Principaes factos da História do Brasil até a sua Independência, 1900, São Paulo.     (exemplar da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin- http://www.brasiliana.usp.br/bbd/search?&fq=dc.contributor.author%3APinheiro%2C%5C+Joaquim%5C+Gil )

Roteiro de Lisboa – Histórico, Hidrográfico, Corográfico, Arqueológico e Estatístico, 1905, São Paulo, Brasil.

 Memórias de MBoy, etnográficas, históricas e etimológicas, São Paulo: Empreza Graphica Moderna, 1911.

 Os Dois Carecas, comédia em três atos de costumes portugueses

 Maricas, cena cômica em um ato em três quadros.

Faleceu em Coimbra, em 28 de novembro de 1926, sendo transladado para o Brasil. Os seus restos mortais encontram-se no Cemitério São Paulo, localizado na Rua Cardeal Arco Verde, Bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo, no Brasil.

MAUSOLÉU DE JOAQUIM GIL PINHEIRO, CEMITÉRIO SÃO PAULO

Biografia de personalidades de Alcaide, Fundão, Portugal 
http://www.terralusa.net/?site=108&sec=part5


Embu das Artes no tempo de Joaquim Gil Pinheiro

“A uns 26 quilômetros do Largo da Sé, para o sudoeste desta capital do Estado de São Paulo, por uma mal conservada estrada de rodagem, que fez parte do circuito automobilista de Itapecerica, em uma região empolada por vastos montes de várias alturas, a 900 metros mais ou menos acima do nível do mar, jaz, no planalto do contraforte de uma cordilheira desses outeiros, a povoação de Mboy, entra as ribeiras de Ressaca e de Mboy, que se juntam ao fundo da povoação formando ali a figur de um ângulo. A seguir à junção das duas ribeiras, toma o nome de rio Mboy-mirim, que vai entrar na margem esquerda do rio Mboy-Guassu, tributário do rio Pinheiros, e todos do rio Tietê.” (Pinheiro, p.14)
CHALET  NA RUA DE BAIXO

“Mandei em 1902 construir um pequeno chalet, dentro da povoação de Mboy ou Embu, (hoje denominado Embu das Artes) como alguns moradores do lugar a tratam... E, lá, sem preocupações nem distrações, num sossego abstrato contrario os meus hábitos de homem da lide, resolvi entreter-me com alguma coisa para dar expansão ao meu espírito irrequieto, comecei em princípio de 1910 a iniciar o meu trabalho, na persuasão de algum dia ser útil aos que fizerem história do lugar e aos filhos da terra que se interessem por sabê-la; bem como aos estudiosos amantes da arqueologia histórica, que poderão encontrar alguma coisa em minha resenha que intitulei: Memórias de Mboy” (preâmbulo)

OBRA NO POSTO PARANÁ-EMBU DAS ARTES

Joaquim Gil Pinheiro relata os costumes da região da atual cidade de Embu das Artes que na época tinha toda a exuberância de local “quase virgem” e cercada de matas verdejantes, mas que já havia a preocupação do autor, pois acreditava que esta região seria povoada e que se apagaria grande parte dos costumes da gente da roça por interferência de outros grupos que trariam outros costumes de suas terras de origem.


“A região do Mboy, ainda não explorada nem colonizada, apesar de tão próxima da capital do Estado de São Paulo, devido não só a falta de fácil condução, a que nós da cidade estamos acostumados para comodidade pessoal e material, como a desdém do governo do Estado, descurar desta vasta e fértil zona, talvez por ter muitas outras que lhe merecem mais atenção, quiçá em melhores condições a colonizar, já adaptadas para esse fim, posto que mais distantes da capital, ainda com bastantes falhas por falta de quem as queira habitar, não obstante os grandes favores que o referido governo dispensa aos colonos agrícolas, consignados nas leis do Estado e da União...”
“Apenas existem três estradas de rodagem, que servem em parte esta região, bastante acidentadas, devido à aglomeração de morros por aqueles sítios, hoje mais ou menos estragadas por falta de conserva; a duas das quais apelidaram de “Circuito Automobilista de Itapecerica”. Partem paralelamente desta capital, uma pelo bairro de Pinheiros e Mboy, e a outra por Santo Amaro, até se encontrarem na vila de Itapecerica; por cujo circuito se fez até hoje apenas uma corrida oficial de automóveis...”

O acesso para o sudoeste do Estado era de grande dificuldade por falta de estradas que ligassem a região com vilas mais próximas, inclusive a Vila de Santo Amaro, portanto esse intercâmbio entre lugarejos era de grande dificuldade como cita o autor em sua análise da região a uma “distância histórica” de mais de um século.

CONSTRUÇÃO DA ESTRADA M'BOY -1936

“Não há mais estradas para aqueles sítios, a não ser a que também parte desta capital à cidade de Sorocaba, nas mesmas condições das precedentes, que passa a uma légua mais ou menos da povoação de Mboy; apenas tortuosos caminhos mal feitos e mal cuidados, que às primeiras chuvas se tornam intransitáveis, feitas por moradores vizinhos sem orientação técnica de espécie alguma, os quais se ocupam em tapar buracos com terra, e isso quando obrigados pelas Câmaras Municipais, sob pena de multa ou prisão”.
“As conduções de hoje pro esses caminhos e estradas desde esta capital em pouco diferem com as de há cem anos: carros de bois, tropas soltas e com cargueiros, cavaleiros, manadas de gado de várias espécies, etc.; apenas de longe aparece até Itapecerica, algum automóvel, carro de praça ou aranha (tipo de charrete) em risco de ficarem estragados, devido ao mal estado das estradas, mormente em tempo chuvoso.
O movimento agrícola à beira dessas estradas e caminhos é quase nulo, pois somente se encontram campos, vales, montes, etc.; em estado agreste sem nenhum preparo agrícola, servindo de pasto para animais, sobretudo vacum e cavalar, já principiando por ali o lanígero em pequena quantidade relativa...”
“De longe em longe, se deparam algumas roças de milho, feijão, canaviais de cano doce pra fazer aguardente; sendo de notar que as matas nas proximidades desta capital até Mboy, estão bastante devastadas para lenha e carvão.”

Toda a região que compreendia Santo Amaro, Itapecerica da Serra, Embu das Artes(M’Boy), Cotia e outras vilas próximas eram grandes fornecedores de carvão vegetal para abastecer a cidade de São Paulo, inclusive usavam até a Represa de Santo Amaro, depois denominada de Guarapiranga, para escoar parte desta produção.

“As casas a beira ou nas proximidades desses caminhos, são de pobre aspecto, mal conservadas e mal cuidados os terrenos em volta delas, vendo-se penas perto de algumas, mal tratado pomares de laranjas, pessegueiros, limas, nespereiras e bananas, as demais, quase em geral, espalham-se pelos campos ou à beira do mato perto da água ou lenha.”

Há de se notar que estamos no início do século 20 e o Brasil é exclusivamente formado por terras agrícolas e não tínhamos uma indústria de transformação ocorrida pela “revolução tardia” ocorrida apenas após entre as duas primeiras guerras mundiais, quando os países da Europa no envolvimento beligerante necessitavam de matérias primas e gêneros de primeiras necessidades em suas terras arrasadas pelo conflito.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi idealizada pelo Padre Belchior de Pontes(1644-1719) em taipa de pilão por volta de 1690 nas terras doadas por Catarina Camacha (ou Camacho) em testamento aos padres jesuítas do Colégio de São Paulo (atual Pateo do Collegio- Museu Anchieta/SP). O convento foi anexado à Igreja e parcialmente finalizada pelos idos de 1734 para uso dos padres jesuítas que trabalhavam na catequese dos índios da Aldeia de M’Boy. Atualmente o local abriga vários acervos, como imagens, oratórios e altares de barroco paulista de grande valor histórico feitos por artesãos entre os séculos 17 e 19. Foi tombado pelo IPHAN, em 1939 por pertencer à arquitetura barroca paulista do século 17. Localização: Largo dos Jesuítas, 67 – Centro Histórico de Embu das Artes, Estado de São Paulo, Brasil. 

IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

Foi criado para preservação histórica o “Museu de Arte Sacra dos Jesuítas” de grande relevância em seu acervo bem conservado em suas obras de cunho religioso que se localiza na antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário e antiga residência jesuíta e o “Museu Histórico, Folclórico e Artístico de Embu”, que consta do livro “Embu: Terra das Artes e Berço de Tradições”, de Moacyr de Faria Jordão, da Editora Noovha América, São Paulo, 2004, Capítulo 18, página 149:

“Criado por força de Decreto nº 49307, de 13 de janeiro de 1968, no Governo Abreu Sodré, foi instalado por conta da Prefeitura Municipal em prédio da Rua Andronico dos Prazeres Gonçalves, nº 27, constando de Seção de Folclore dedicada a Gil Pinheiro, Seção de Artes, tendo com patrono Henrique Boccolini, funcionando juntamente com a Secretaria, pela exigüidade do Prédio.”

Em plebiscito realizado em 1º maio de 2005 optou-se pelo nome de Embu das Artes, e não mais somente Embu e sancionado em Lei Estadual 14.537/11. Considerada estância turística do Estado de São Paulo, atualmente possuí aproximadamente 250 mil habitantes, com área física de 70 quilômetros quadrados, ligada pela Rodovias Régis Bittencourt (BR 116), Rodoanel e Raposo Tavares (SP-270) sendo reconhecida por ser expoente de grandes artistas iniciada por Cássio M'Boy e Tadakiyo Sakai, Mestre Assis, Solano Trindade, pioneiros que somaram outros nomes de referência no campo das artes.( Jordão, Editora Noovha, p. 11)

Referências:

Pinheiro, Joaquim Gil. Memórias de Mboy- etnográficas, históricas e etimológicas. São Paulo: Empreza Graphica Moderna, 1911.

Pinheiro, Joaquim Gil. Primícias: Poema dos Principaes factos da História do Brasil até a sua Independência, 1900, São Paulo.

Freguesia de Alcaide, Fundão, Portugal- http://www.terralusa.net/?site=108&sec=part4



Visita ao Cemitério São Paulo, localizado na Rua Cardeal Arco Verde, Bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo, no Brasil.

Jordão, Moacyr de Faria. Embu: Terra das Artes e Berço de Tradições. Editora Noovha América, São Paulo, 2004.

Jordão, Moacyr de Faria. O Embu na História de São Pulo. 2ª edição revista e aumentada, São Paulo, 1964.

Prefeitura de Embu das Artes - Rua Andronico dos Prazeres Gonçalves, 114 - Centro
Estado de São Paulo - Brasil - CEP:06804-200



Vide:
Joaquim Gil Pinheiro e a Doação à Prefeitura de São Paulo
http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2015/07/joaquim-gil-pinheiro-e-doacao.html


Negrito do texto foi por conta do missivista do blog. Esperam-se as críticas da crônica para aproximarem-se os fatos da realidade no tempo e espaço!

2 comentários:

Mendes Matos disse...

Belo trabalho, caro Amigo Carlos Fatorelli. Também fiz um caderno sobre Joaquim Gil Pinheiro, personagem que ainda figura na memórias dos alcaidenses. Há uns anos, falei com descendentes de familiares do «Pinheirinho», como é conhecido. Sou o autor do blogue «alcaide-aldeia da Gardunha. Já tenho dado elementos para pessoas do Brasil.

Francisco César Lino disse...

Parabéns pelo seu trabalho, sou parente de JGP e tenho no arquivo documental da família registos muito interessantes. Em 1976 estive em S Paulo e claro envolvido com o espólio de JGP. Abraço Francisco Lino - Fundão - Portugal