terça-feira, 31 de março de 2015

SEMP Rádio e Televisão: FINAL DE UM MARCO INDUSTRIAL EM SANTO AMARO/SÃO PAULO

PIONEIRISMO DA INDÚSTRIA ELETRÔNICA NO BRASIL


A SEMP foi marco de desenvolvimento da região de Santo Amaro, em São Paulo, está sendo desativada e demolida neste início de ano de 2015, para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários. O que representou um pólo das indústrias locais situada na Avenida João Dias, nº 2476, somada a tantas outras indústrias que foram desativadas na região onde nada mais resta do que foi orgulho de desenvolvimento no ápice industrial de Santo Amaro. São Paulo tornou-se uma cidade de serviços e não mais de transformação industrial, o que ocasionou a mudança da SEMP TOSHIBA Amazonas S.A. para a cidade de Cajamar, no quilometro 39,5 da Rodovia Anhanguera, Bairro Jordanesia.
Avenida João Dias, nº 2476

Finda-se deste modo mais um capítulo da desindustrialização de Santo Amaro, São Paulo, refletindo um novo modelo de ocupação destas áreas para a gentrificação e apoderamento de espaços para ampliar cada vez mais a ocupação física pela cidade com o inchaço populacional descontrolado, sem as infra estruturas básicas  para manter a funcionalidade urbana.




Uma história de superação  
           
A indústria eletrônica no Brasil estava ainda em passos lentos quando Afonso Hennel, natural de Curitiba, Paraná, onde serviu o Exército saindo como segundo tenente, sabendo deste modo, como se processava e evolução ocorrida na tecnologia de ponta pelo mundo. Mais tarde Afonso Hennel foi adquirir novos conhecimentos na indústria sueca Ericsson em Minas Gerais. Mais tarde mudou para o Rio Grande do Sul, para formar sociedade com Carlos Rettmann, em 1934, iniciando a importação de produtos eletrônicos pela Rettmann & Hennel Ltda.

Um grande importador era Edward Adler, judeu de origem, que morava em São Paulo. Edward tinha uma “carteira de contatos” com os Estados Unidos e mantinha relações comerciais em vários lugares do Brasil. Um acidente aéreo interrompeu repentinamente essa promissora atividade que surgia no país. A esposa de Edward Adler, senhora Maria Paes de Barros Adler, de família tradicional, sabendo da visão empresarial de Afonso Hennel convidou-o para assumir a empresa do marido e propondo-lhe sociedade na mesma, surgindo deste modo a importadora Hennel & Adler Ltda, com sede à Rua 24 de Maio, no Centro da cidade de São Paulo. A senhora Maria Paes de Barros Adler pouco participava desta atividade e propôs que Afonso Hennel adquirisse sua participação da sociedade. Acertadas as partes envolvidas e com toda essa gama de conhecimento de Afonso Hennel era fundada em 1942 a Sociedade Eletro Mercantil Paulista Ltda, mais conhecida Pela sigla SEMP, e foi incentivada pela industrialização tardia do país e coincidentemente dentro das causas de desenvolvimento apoiada pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, de apoio ao momento beligerante do momento histórico.

 A maior ambição da Semp era fomentar a industrialização local e não importar equipamentos das grandes indústrias americanas e até das européias. Afonso Hennel com seu vasto conhecimento anterior criava a atmosfera acrescida de Know-how suficiente para fortalecer uma indústria de produtos no campo da eletrônica. Em 1943 eram fabricados os primeiros rádios genuinamente nacionais e que receberam o nome de Saratoga, montado com uma miscelânea de peças produzidas artesanalmente, não dando qualidade ao produto. Findada a guerra o mercado abriu-se para a importação de peças o que fomentou melhor qualidade aos produtos eletrônicos e outros bens de consumo. O rádio tornou-se a fonte principal dos meios de comunicação e foi massificado como meio de informação, onde a Rádio Tupi fundada por Assis Chateaubriand era a emissora sintonizada desde 1935, ano de sua fundação[1]. O mesmo  Assis Chateaubriand impulsionaria a transmissão televisiva começada em 18 de setembro de 1950, trazendo dos Estados Unidos os primeiros equipamentos transmissores e 200 televisores.

A SEMP inovou com as transmissões de rádio ao idealizar as baterias energizadas pelo vento (Wind Charger) para abastecer locais longínquos do território brasileiro, de grandes extensões rurais. 
Em 1947, Afonso Hennel juntamente com a esposa Jurema Hennel faz a proposta de enviar o se único filho, Affonso Brandão Hennel, para aprimorar-se nas novas tecnologias ocorridas nos Estados Unidos da América, local dos primeiros contatos para aquisição de peças que eram importadas para a incipiente indústria em franca expansão do pós guerra da engenharia eletrônica.  Affonso Brandão Hennel já estava tendo experiência do comércio da Rua Florêncio de Abreu onde trabalhava na loja de ferragens de Gabriel Gonçalves, nome renomado no varejo comercial.

Com a passagem e o visto de permanência assinado,  Affonso Brandão Hennel decolava do Rio de Janeiro à América onde lhe acompanharia o argentino Joseph Martinez rumo a Nova York, cidade que iria exercer a função de Office-boy de um dos fornecedores da empresa de seu pai, mas já orientado para esforçar-se em conhecer os fornecedores de peças eletrônicas para a SEMP e ainda tinha que se adaptar ao modelo da cultura americana.

No Brasil a Superintendência da Moeda de Crédito, SUMOC (substituída pelo Banco Central, a partir de 31 de dezembro de 1964, Lei 4595) cortou os créditos de importação em 1948, no governo do Marechal Eurico Gaspar Dutra, afetando muito a entrada de linhas eletrônicas no país. Toda essa conjuntura afetou a empresa de Joseph Martinez ocasionando a demissão de Affonso Brandão Hennel. Os Estados Unidos ainda se ressentia dos efeitos da guerra e estava voltada a produção bélica com o advento da Guerra Fria, disputa das duas potências antagônicas no modelo de governar, de um lado os Estados Unidos com seu capitalismo de oferta e do outro lado a União Soviética fortalecida com a vitória da 2ª Guerra com seu modelo socialista. Os empregos estavam escassos e o que de melhor um jovem poderia fazer neste exato momento era ingressar em uma faculdade e se especializar em uma carreira que desse respaldo as atividades do que se propunha fortalecer no Brasil cursando engenharia eletrônica para no futuro fortalecer as raízes da SEMP e a produção no Brasil.

A “performance” do aluno na Universidade de Syracuse, na região dos Grandes Lagos, foi no início de grande dificuldade e se mantinha dentro dos recursos que lhe enviava a família para se manter enquanto estudava. Foi remanejado para o curso de Engenharia Industrial, para num futuro não muito distante reconhecer o “piso da fábrica” com o tino administrativo e gestão somada ao desenvolvimento dos processos de produção. Affonso Brandão Hennel neste ínterim casou-se, e dedicou-se com maior afinco aos estudos e assumia também maiores responsabilidades e no final de 1950 veio ao Brasil visitar os pais sem a esposa.  Neste tempo a SEMP estava ocupando outras dependências na Rua Liberdade, no centro de São Paulo tornando-se a primeira indústria brasileira a montar em aparelho de televisão no Brasil. Somavam-se as vendas de televisores o rádio Capelinha (conhecidos como AC 431 ou PT-76) muito difundido e popularizado pelo país e de grande sucesso até meados da década de 1980.



Affonso Brandão Hennel voltou rápido para os Estados Unidos sendo que seu filho Afonso Antonio Hennel nasceria breve e com o curso universitário a ser concluido. Com as tensões externas da Guerra Fria cada vez mais acirradas e necessitando tomar a decisão de assumir em definitivo os negócios da família resolve retornar ao Brasil em 1953, juntamente com sua família constituída nos Estados Unidos. Neste mesmo ano a razão social da empresa passa a denominar-se SEMP Rádio e Televisão S.A., época que passa a liderar a indústria de rádios e televisores no Brasil e com aproximadamente 150 funcionários. Affonso Brandão Hennel assumiria deste modo o setor de suprimentos da empresa em 1953, ano este que a família aumentaria com a chegada do segundo filho George Antonio Hennel. Suprimentos e matérias primas consumiam 60% dos custos da fábrica, 5% eram destinados aos recursos da mão de obra, e como o Brasil sempre taxou muito alto os impostos o restante ficava para estas finalidades somadas a alguns imprevistos ocasionais.

Novos conceitos de produção aprendidos nos Estados Unidos foram aplicados na linha de produção da Semp aumentando seu poder de produção e eficiência com o mínimo de desperdício. Affonso Brandão Hennel assumiu mais tarde a produção da fábrica, tornando-se gerente da linha de produção. Em 1954 nasce-lhe a filha Cristina Hennel e no ano seguinte é ardoroso defensor da intensificação do segmento de televisores pela SEMP. Outras marcas eram impulsionadas no Brasil surgindo marcas nacionais com ABC, Straus e Zilomag e as importadas como a Philips, Telefunken e Philco e outras tantas que fatiava o mercado interno. Nesta época a demanda de mercado era apenas 5% televisores e 95 % rádios e rádioeletrolas, um misto de toca discos, amplificadores e rádio, tudo acoplado num único aparelho pesado de madeira, pois o advento do plástico para produção de eletrônicos começaria um pouco mais tarde. A empresa, por dificuldade de produção terceirizada, passou a desenvolver também peças de qualidade nas dependências da SEMP, ampliando o quadro de profissionais do Departamento Técnico. O s conflitos de produção eram enormes mais foram, aos poucos, sanados a contento atingindo alto nível de eficiência.

Juscelino Kubitschek assumiria a presidência do Brasil, fundamentando os Planos de Metas a serem alcançados para o desenvolvimento do país, dando impulso a indústria nacional, mas resultou também um descontrole nos orçamentos da União. Neste mesmo ano, Affonso Brandão Hennel passa a acionista da empresa SEMP, revigorando ainda mais o crescimento e a demanda de produtos exigidos pelo mercado e aumentando o faturamento. O advento do plástico somado ao aparecimento dos transistores[2] resultou na produção de rádios portáteis alimentados por pilhas de 6 ou 12 volts e que poderiam ser levados para um lado a outro sem depender de energia elétrica. A mecanização da lavoura provocou um excedente de mão de obra na lavoura que se deslocou para os centros urbanos no final de 1950 e início de 1960. Isso resultou numa oferta menor de empregos em relação à mão de obra excedente no mercado, devido a este êxodo do campo para a cidade. Houve também uma melhoria dos salários, principalmente aquela mão de obra especializada que tanto dependia a indústria de transformação. Affonso Brandão Hennel toma uma decisão em 1965, de se desligar da SEMP e fundar a Manufatura de Produtos Eletrônicos S.A., MADEL, que viria a ser detentora da marca Motorola, mas a experiência durou um curto período de tempo, fazendo-se retornar a empresa anterior, no caso a SEMP. Nova mentalidade foi introduzida na empresa e ao invés de produzir todos os componentes inerentes aos produtos formalizados optou-se por comprar no mercado ao invés de produzir todas as peças dos equipamentos, resultando nisso uma redução de espaço que seria necessário para montagem de produtos. A tecnologia externa criada nas empresas possuía o aporte necessário de financiamento para pesquisar, criar melhorar e renovar o produto, com inovações que atraiam o mercado consumidor. Affonso Brandão Hennel era adepto de optar-se por uma parceria com um grande multinacional para não sucumbir no mercado competitivo mundial. Neste ínterim, criou-se a Zona Franca de Manaus, pelo decreto Lei nº 228, de 28 de fevereiro de 1967, que regulamentava as parcerias de empresas nacionais e estrangeiras e dava impulso à região Amazônica com a criação de pólo de desenvolvimento econômico e social.

Nesta época Affonso Brandão Hennel era vice-presidente da Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica e assumiria como membro da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletrônicos, uma dissidência da primeira e participou ativamente do processo de criação da Zona Franca de Manaus, criada para geração de empregos e frear a devastação da floresta pelo comércio ilegal da madeira. Em 1968 assume o comando da SEMP, pela enfermidade de seu pai, Afonso Hennel e a procura de tecnologia de ponta eram inevitáveis e buscar uma parceria era meta urgente. Em 1972 foi lançada a televisão a cores de 20 polegadas e as portáteis de 14 polegadas. Era o ano também que marcaria a SEMP com a morte de seu idealizador, Afonso Hennel, ocorrido em março de 1972. Era uma hora de reflexão do filho, mas também uma hora de tomar a decisão de buscar uma parceria duradoura, pois a multinacionais já estavam abarcando um quinhão do mercado nacional de televisores com as empresas Mitsubishi, Philips, Sanyo, Sharp, Sony, National (Panasonic).

Affonso Antonio Hennel inicia sua trajetória na SEMP sendo incumbido de estrutura a SEMP para fabricação de televisores na Zona Franca de Manaus, sendo que buscou instalações pré fabricadas no mercado norte americano onde adquiriu um galpão de 8 ml metros quadrados para acomodar as instalações de televisores e áudio, sendo mais tarde ampliada com outro galpão de mesma metragem para a fábrica 2, com instalações de geradores para energia de funcionamento da mesma. 

A solidez financeira da empresa clamava não por investimentos de capitais, mas de uma parceria capaz de fornecer uma tecnologia de mercado competitiva[3]. Surgia deste modo o nome da empresa japonesa Toshiba que tinha interesse de parceria e investir no Brasil e que culminou com uma série de contatos para formatar as cláusulas no ano de 1974 e que se prolongou até longo período de negociações finalizadas e oficializadas a parceria de ambas em 1977, surgindo a SEMP TOSHIBA.

Nota:
Sujeito a revisão sem prévio aviso, conforme interferências externas de colaboradores que possam somar informações úteis para ampliar a gama de dados desta crônica.

Vide mais sobre Assis Chateaubriand:
Baby Pignatari em Roma: Mecenas do MASP

Referências:
AWAD, Elias. Affonso Brandão Hennel: Ensina-me a ensinar. Osasco/São Paulo: Novo Século Editora, 2009.




O ESTADO DE SÃO PAULO, Economia, Especial Telecom, 31 de março de 2015.

CARTAZES: SEMP TOSHIBA




[1] Para incentivar a venda de aparelhos radiofônicos a Corporação Elétrica Westinghouse fundou em 1920 a KDKA, a primeira emissora comercial do mundo e o início da Era do Rádio. No Brasil essas transmissões radiofônicas foram incentivadas pelo médico Edgar Roquette Pinto com a fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. O rádio era então massificado e os aparelhos eram produzidos em grande escala o que barateava o produto.

[2] Em 1948 pesquisadores da Bell Lab, nos EUA, foram os responsáveis para o advento dos transistores, que viriam a substituir as válvulas termiônicas e que transformaria a tecnologia eletrônica e que criaria condições favoráveis para criar circuitos de menor volume, e que abriria novos campos de pesquisa e que daria sustentação para no futuro a criação dos computadores. Foi somado a isto o lançamento em 1957, do Sputinik, primeiro satélite artificial lançado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.  

[3] O campeonato da Copa do Mundo de 1970 foi transmitido via satélite e dois anos após as transmissões eram a cores. As televisões com transmissão digital tipo LCD eram fabricadas a partir de 2006 pela Semp Toshiba em Manaus quando foi eleita a Melhor Empresa do Setor Eletroeletrônico daquele ano.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

“Santo Amaro Sobre Trilhos: do trem a vapor, ao bonde e ao metrô”

Viver e reviver

Deparamo-nos com mais um momento da “historiografia arqueológica” que tanto empolga os "paulistanos santamarenses" e que dá orgulho da Vila de Santo Amaro ser uma das pioneiras na implantação dos trens a vapor em São Paulo, seguido depois pelos Tramway, mas conhecidos por bonde, em referência aos bilhetes de acesso deste tipo de transporte coletivo e atingindo seu ápice finalmente com a chegada da linha 5, Lilás do metrô, ainda sendo implantado na região. Mais de um século separa cada um destes momentos históricos de máquinas com propulsão motriz sobre trilhos.

O TREM A VAPOR

Um lugar longínquo em uma cidadezinha interiorana, de trato caipira, encravada ao sul da capital paulista separava os moradores “botinas amarelas” em quase vinte quilômetros de distância, ligada por uma estrada de ferro construída por um visionário nascido em Bremenhaven, Alemanha, imigrante vindo para o Brasil em 1862, naturalizando-se brasileiro, acreditando em sua nova pátria.

Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, trabalhou para o Império em planejamento urbano. Em 1879 veio para São Paulo, contratado para superar o modelo de urbanismo de cidade do interior existente até então, reformulando conceitos novos de uma cidade moderna. São Paulo possuía uma população à época de 30 mil habitantes, sendo quadruplicada no final do século. Deste modo São Paulo precisava sair de sua condição das construções do improviso da taipa de pilão, sopapos de barro nas paredes ou adobe.

O engenheiro Alberto Kuhlmann construiu a Ferrovia de Santo Amaro, inaugurada em 14 de março de 1886, que após percorrer 19,1 quilômetros, chegou a Santo Amaro a primeira composição ferroviária da “Companhia Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro” dos trens a vapor da empresa alemã Krauss, as locomotivas BN2, financiadas exclusivamente com recursos privados de investidores santamarenses na ordem de 300.000 réis, sem intermediários e usados primordialmente para o transporte de cargas, em uma época em que Santo Amaro supria a capital de São Paulo com aproximadamente 25 toneladas de produtos agrícolas por ano, seguindo o plano de estrutura de abastecimento da cidade de São Paulo, obedecendo a um plano diretor de expansão da cidade em franco crescimento.

O BONDE

 Foi criada a empresa The São Paulo Tramway, Light & Power Co. Ltd. em 1899 para iniciar barragens e sistemas com controle de capital estrangeiro sobre a energia elétrica em São Paulo. A primeira Hidrelétrica de São Paulo foi a Usina de Parnaíba, Rio Tietê inaugurada em 23 de setembro de 1901 (depois denominada Usina Hidrelétrica Edgard de Souza ou Barragem Edgard de Souza).

O primeiro bonde elétrico de São Paulo em 7 de maio de 1900, sendo depois ampliada as linhas de bondes para toda a Cidade de São Paulo, chegando em Santo Amaro em 07 de julho de 1913, região estava ainda com administração própria (fato este desde 1832 a 1935).

A Estação da Ferrovia de Santo Amaro dos trens a vapor tinha parada obrigatória onde hoje se situa a “Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Professor Linneu Prestes”, e que mais tarde foi também utilizada pelos bondes elétricos da Linha 101, com extensão de 31,0 km, inaugurada em 07 de julho de 1913 sobre a administração da "The São Paulo Railway Light and Power Company Ltd.", empresa de capital canadense que havia adquirido a “Companhia Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro”, sendo que as locomotivas a vapor foram desativadas definitivamente em 1914.

Em 8 de julho de 1913 o Correio Paulistano, nº 17.946 (fundado em 1854) anunciava (a circulação foi vinculado anterior a esta data, em 5 de julho):
Linha Elétrica de Santo Amaro
AO PÚBLICO
No dia 7 do corrente será iniciado o serviço de bondes elétricos para Santo Amaro e vice-versa, partindo às 3 horas da tarde, do largo da Sé, o 1º carro de passageiros. A começar do 8 do corrente, os primeiros bondes partirão, junto do Largo da Sé, saindo de Santo Amaro às 8 horas da manhã.
As últimas viagens serão: do Largo da Sé às 10:30 h. da noite e de Santo Amaro às 11:15 h. da noite.
Do dia 8 em diante os carros da linha a vapor não transportarão mais passageiros.
S. Paulo, 5 de julho de 1913

A partir de então o bonde servia o Itinerário desde o Largo (Praça) da Sé, Rua Marechal Deodoro, Praça João Mendes, Rua Liberdade, Domingos de Morais, Jabaquara, Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, atingindo a Avenida Adolfo Pinheiro (não existiam a Avenida Ibirapuera com seu traçado atual e nem a Avenida Vereador Jose Diniz, ambas ainda tinham a denominação de Avenida Conselheiro Rodrigues Alves que seguia seu contorno desde a Vila Mariana até Santo Amaro no encontro com a Avenida Adolfo Pinheiro), seguindo para a várzea de Santo Amaro, com ponto final no Largo São Sebastião, atualmente denominado Largo Bonneville, onde era feito o balão de retorno. Em 23 de dezembro de 1920, foi inaugurado o trecho de 1600 m de extensão à Represa de Guarapiranga, que pretendia ligar o Largo Treze de Maio à Capela do Socorro, atravessando o Rio Pinheiros, pela ponte que a oralidade popular chamava-a de Jerônimo.

O METRÔ

Por que não houve de imediato a substituição da linha de bondes de maior extensão que ligava Santo Amaro até o centro de São Paulo, chegando até a Praça da Sé por uma linha de metrô?
 À época Santo Amaro talvez não fosse à prioridade de crescimento da capital, hoje é a opção de crescimento imobiliário (ocorrido pela desativação industrial) para a cidade crescente initerruptamente e deste modo é necessário um sistema de transporte intensivo como a linha 5 Lilás do metrô e unindo-se a esta a ferrovia da CPTM que liga Osasco ao Grajaú!

Atualmente temos em Santo Amaro uma expansão no sistema de transporte que é tardio, mas se fazia necessário desde muito tempo, pois Santo Amaro estava nos planos da implantação da primeira linha de metrô de São Paulo, suprindo o fim do transporte que era feito por bondes, sendo que foi a última linha desativada na cidade de São Paulo, em 27 de março de 1968, finalizando deste modo o ciclo dos bondes na Capital paulista.

Em 24 de abril de 1968 foi criada oficialmente a Companhia Metropolitana, responsável por expansão de metrôs, para sanar o final do sistema eletrificado que existia em São Paulo pelos bondes, sendo que Santo Amaro seria conforme o plano diretor de então, a primeira linha de metrô a ser implantada em São Paulo. Mas não vingou por interferências políticas escusas e Santo Amaro foi relegada a um segundo plano, sendo suprida em sua imensa área física de 640 km2 pelo transporte coletivo deficitário dos ônibus que assumia o transporte coletivo de massa no expansionismo industrial de cidade de São Paulo. (há de referir-se que a inauguração da Companhia Municipal de Transportes Coletivos, CMTC, ocorreu em 1947)
INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO ADOLFO PINHEIRO

Após mais de 50 anos Santo Amaro entrou nos planos de expansão do metrô, com a linha Lilás, número 5, ligando a periferia, Capão Redondo - Largo Treze de Maio, Estação Adolfo Pinheiro, linha em operação desde o ano de 2002, que recebe ampliação, no início do século 21, até a Chácara Klabin.

Esta é mais uma história fascinante que nos levará um dia qualquer a outra viagem ao tempo por outro sistema de transporte coletivo ainda não idealizado pela engenharia, mas que sem dúvida será implantado também em Santo Amaro, em uma cidade a cada dia sempre dinâmica e renovada!

NOTA:

Deixamos aqui registrado todo o empenho de pessoas que de certa forma contribuíram para que a historiografia das ferrovias e bondes (railway e tramway) tivessem registros minuciosos, além das pesquisas de cunho cientifico e muita abnegação para que perpetuassem fatos e fotos do que agora estamos expondo. Em especial ao saudoso Waldemar Correia Stiel, e mais Ralph Mennucci Giesbrecht, Werner Wana, CarlHeinz Hahmann, Willian Janssen, e tantos outros que muito contribuem para a compreensão deste momento ao longo do tempo e espaço.

Referências:

Correio Paulistano, nº 17.946, 8 de julho de 1913

BOLETIM HISTÓRICO: Eletricidade de São Paulo (vários)

O Estado de São Paulo-Especial, H 9. 25 de Janeiro de 2015 (Convite Para Ver o Fim de Uma Era) 

VIDE:

METRÔ DE SANTO AMARO APÓS 47 ANOS, ENFIM, COM MUITO CUSTO $ !!! http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2010/10/metro-de-santo-amaro-apos-47-anos-enfim.html  


METRÔ DE SANTO AMARO NO SÉCULO 20 E O INTERESSE DO FUTEBOL NO SÉCULO 21 http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2010/07/metro-de-santo-amaro-e-o-interesse-do_9768.html

terça-feira, 18 de novembro de 2014

POR QUEM OS SINOS DOBRAM? ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA!

200 ANOS DA “DESPEDIDA DO ARTISTA” - 18 DE NOVEMBRO DE 1814

A MÃO DE OBRA E AS CONFRARIAS DO BARROCO: OS CONTRATOS COM A IGREJA
Mistérios de Antonio Francisco Lisboa: O Barroco Colonial Brasileiro

Antonio Francisco Lisboa pode ter tido em seus pertences um catálogo das obras de Lorenzo Ghiberti, pois muitas estampas modelo se assemelham nas obras do artista, embora exista uma reelaboração de composição e não simples cópia.

Maneirismo, Barroco e Rococó

Antonio Francisco Lisboa realizou obras no período entre 1765 e 1810 e nos últimos anos de sua vida não realizou trabalhos de relevância. Sua história é marcada por valores daquela época.
Seu pai foi o entalhador português Manuel Francisco Lisboa, que também assumiu a função de mestre de obras e possuía uma escrava de nome Isabel, com quem se relacionou e teve o filho Antonio Francisco Lisboa. Este por sua vez seguiu o ofício do pai com quem aprendeu a arte tendo ainda como orientador o desenhista (aquele que comumente elaborava o “traço” da obra) e pintor João Gomes Batista, completando a formação com o ornamentista e escultor Francisco Xavier de Brito.

Antonio Francisco Lisboa tornou-se escultor e projetista de igrejas.

Policromia de suas obras a cargo de Manuel da Costa Ataíde

Obra sobre Aleijadinho: Rodrigo José Ferreira Bretas, em 1858 colheu relatos de Joana Lopes, nora de Antonio Francisco Lisboa e que originou no documento “Traços biográficos relativos ao Finado Antonio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho”.

Sua nora Joana Lopes descreve-o a Rodrigo Bretas autor do livro “O Aleijadinho”:

“Antonio Francisco Lisboa era pardo escuro, tinha voz forte, fala arrebatada, e o gênio agastado: estrutura baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e testa volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e vasto, a testa larga, o nariz retangular e um tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes e o pescoço curto.”

O ano de nascimento é comumente aceito como sendo 1738 e seu falecimento ocorreu em 1814 como consta em certidão de óbito registrada no livro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias, em Ouro Preto.

No batistério consta: “Aos 29 de agosto de 1730, nesta igreja de Nossa Senhora da Conceição, com licença minha, batizou o reverendo, padre João de Brito a Antonio, filho de Isabel, escrava de Manuel Francisco Lisboa, de Bonsucesso, e lhe pôs os santos óleos, deu o dito seu senhor por forro; foi padrinho, Antonio dos Reis de que fizeste assento. O vigário Félix Paiva”.

O Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) decretou a data de 29 de agosto de 1730 como sendo oficialmente a data de nascimento de Antonio Francisco Lisboa, por esta certidão de batismo ocorrido nesta data e onde consta o nome de Manuel Francisco, sendo que há uma lacuna que não dirimiu por completo a dúvida cronológica deste fato.

Teve orientação do pai, mas foi criado pela mãe. Recebeu instrução básica, pois redigia pareceres técnicos em linguagem correta. Em 1775 nasce-lhe um filho no Rio de Janeiro com a crioula forra Narcisa da Conceição, recebendo o nome do avô Manuel Francisco. Foi processado pela mãe do menino em 1776. Em 1804 no censo de Vila Rica arrola seus dependentes a nora de 34 anos, o filho de 29 e um neto de um ano de idade. Morre em casa de Joana Lopes, esquecido de amigos e família.

PAPI, Luiz F. . O Aleijadinho: Anjo e Bruxo do Barroco. Rio de Janeiro: Cátedra,1983.
ANDRADE, Mario de. Aspectos das Artes Plásticas no Brasil. São Paulo: Livr. Martins ED/MEC,1975.

Antonio Francisco Lisboa ganhou manumissão[1] na época do nascimento, liberto na pia batismal sendo a criança denominada “forra de pia”, onde normalmente fazia-se o pagamento de certa quantia, em geral o pai ofertava, ou, o padrinho escolhido pela mãe fazia essa função.
Manuel Francisco Lisboa da Costa Lisboa, pai de Antonio Francisco Lisboa, homem de boa conduta perante a sociedade, porém não hesitou em se concubinar nos trópicos, regra geral na época, inclusive entre o clero que deveria seguir as regras rígidas do Concílio de Trento, onde longe da vigilância se permitia as quebras de regras sujeitas aos códigos civis e eclesiásticos.

Porfiría

O químico e médico Paulo da Silva Lacaz em 1971, da Universidade Federal do Rio de Janeiro realizou a primeira exumação de Antonio Francisco Lisboa e observou que os ossos possuíam uma cor castanho-avermelhada, típica de portadores da porfiría que criam lesões cutâneas e que em estágios avançados podem causar mutilações.
Em matéria vinculada no jornal Folha de São Paulo, de 30 de março de 1998 consta a exumação realizada em 16 de março para estudos coordenados pelo  dermatologista Geraldo Barroso de Carvalho.Nesta exumação ventilou-se a hipótese de outros elementos químicos no organismo do artista proveniente de sua atividade com texturas de pigmentos variados usados em suas obras.

Quanto ao falecimento o mesmo ocorreu em 18 de novembro de 1841 em sua cidade natal de Vila Rica, atual Ouro Preto, quando o ciclo minerário já tinha se esgotado. Esta certidão de óbito foi registrado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias.

Oficial Mecânico

Os artífices de cultura popular que produziam obras de cunho manual eram diferenciados daqueles e até inferiorizados em comparação com aqueles considerados de artes liberais que produziam literatura e estavam entre aqueles da elite colonial de valores europeizados. Ao grupo popular eram inseridos os portugueses sem vínculo familiar que se aventuravam pelo Brasil, os degredados, negros alforriados e índios.
As Corporações de Ofício muito comum na Europa entre os construtores de castelos e igrejas são na Colônia abarcados em grupos de trabalhadores que incorporam as irmandades.

O projeto da obra de construção e acabamentos eram elaborados por projeto delineado e denominado “risco”. Eram traçados rústicos, manuscritos da obra com seus vários detalhes correndo por conta e risco da obra ao contratante. O autor da obra geralmente não aparecia no contrato das partes.
Antonio Francisco Lisboa o escultor do barroco brasileiro assume outras qualificações como os ofícios de carpintaria, entalhador e escultor. Na Igreja da Ordem 3ª de São Francisco de Assis em Ouro Preto ele assume múltiplas funções, pois a obra pertence-lhe por inteiro.

Antonio Francisco Lisboa transporta o triunfo da arte transformada como um modelo feudal da Cidade de Ouro Preto (Vila Rica) encravada em seus montes, repleta de igrejas e ruas estreitas. A arte do artista sublima o barroco americano diferenciado nos traços mulatos de suas figuras, mistura de raças nos traços de anjos gorduchos. Edificando-se a cidade enraíza-se a arte barroca, entalhados com golpes dos formões e goivas penetrantes na talha produzida.

Antonio Francisco Lisboa teve bons rendimentos chegando a possuir três escravos e uma escrava. Dado a doença ficou deformado ao ponto de seu escravo chamado Maurício ter tentado se matar com a navalha ao ser adquirido por um “amo tão feio”.

MOURA, Clóvis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil. São Paulo: Editora USP, 2004.

Manoel da Costa Ataíde foi pintor responsável pela policromia, aplicação de cor sobre madeira em muitos trabalhos de Antonio Francisco Lisboa, inclusive o teto da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto.
Antonio Francisco Lisboa, cognominado de Aleijadinho, aparece em documentos da época como:

Aparelhados, carpinteiro, entalhador, imagineiro (escultor de imagens de madeira), construtor, autor de riscos (projetos de arquitetura) e prestador de serviços de louvação (averiguação se a obra pronta correspondia ao projeto original).

A projeção social estava circunscrita ao “encomendante” da obra contratada, que ara o indivíduo ou corporação que contratava o artesão, que era o artista que no século 18 não possuía o costume de assinar suas obras.

Todos os registros de nascimento, casamento e óbito eram feitos nas igrejas católicas. Em 1890, com o advento da República, por decreto, foi retiradas todas estas prerrogativas da Igreja, inclusive sua sustentabilidade do padroado, com a extração do poder político e econômico, sendo que era o Estado quem administrava a Igreja, inclusive determinando politicamente os seus representantes sendo que os padres tornaram-se funcionários públicos do Estado e dependentes do modelo vigente governante. A partir da República instituída em 15 de novembro de 1889 o Estado assumiu todo e qualquer registro ocorrido em solo brasileiro, dando origem aos cartórios de registros.

Os escultores, entalhadores ou pintores não recebiam “cartas de habilitação” no Brasil, considerando que a profissão era mais uma arte do que “ofício mecânico”, inclusive eram dispensados do imposto profissional.
Em Portugal a profissão de “oficiais mecânicos”foi codificada pelo licenciado Duarte Nunes de Leão, em 1573. Os ofícios eram registrados pela “Casa dos Vinte e Quatro”, representados por um juiz sob controle da Câmara Municipal que fornecia a carta de habilitação, sendo que havia a convocação pelo juiz que fornecia os plenos poderes de direto ao exercício da profissão definitiva. Tal órgão jamais existiu no Brasil!

Em contrapartida esses ofícios no Brasil agrupavam-se em confrarias para proteção daqueles que exerciam a profissão e que exerciam pressão exigindo que os juízes doa marceneiros e pedreiros inspecionassem as obras em andamento da cidade, exercendo a função de peritos assumindo as responsabilidades de função. As irmandades tomaram deste modo o sentido corporativo onde acabou-se regulamentando  o “ofício mecânico” por força de Cata Régia de 3 de dezembro de 1771.

Depois do Erário Real eram as Irmandades aquelas que mais arrecadavam o ouro advindo da lavra, sendo que esta arrecadação eram dirigidas aos padres locais que confiavam as construções  sacras, pois a sociedade imbuída de sentido religioso, erguia aos Céus, Igrejas, para perpetuarem os nomes dos “ofertantes”, em agradecimento a Deus pelas benesses de fartura e riquezas.

Lista de Artesão que forneciam Mão De Obra para a Arquitetura Barroca  

01-  PEDREIROS
02-  CANTEIROS (entalhadores de pedras que faziam as cantarias)
03-  REBOCADORES ( em pedra ou gesso)
04-  CARPINTEIROS
05-  CARAPINAS (marceneiro do serviço bruto, sem esmero artístico)
06-  MARCENEIROS
07-  EBANISTAS (quem trabalhava com mobílias)
08-  ENTALHADOR (escultor em madeira)
09-  IMAGINÁRIOS ou ESTATUÁRIOS (criavam imagens)
10-  FERREIROS
11-  SERRALHEIROS
12-  LATOEIROS (trabalhavam chapas de metal)
13-  OLEIROS (trabalhavam o barro)
14-  LADRILHEIROS
15-  TELHEIROS ( telhados em geral)

Mestre de risco é uma qualidade não um ofício. A ele cabia fornecer a planta(risco) e o desenho com detalhes (traço) de uma construção além de fiscalizar a obra. O mestre de obres executava conforme o “risco” apresentado para a obra contratada. O “risco” era executado por qualquer pessoa que tivesse conhecimento de arquitetura, sem exigências acadêmicas.

Os riscos em Minas Gerais ou as talhas em madeira eram fornecidos por pedreiros, caso freqüente, carpinteiros caso de Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, entalhadoras, caso do próprio Aleijadinho, pintores, como Manuel da Costa Ataíde que fez o risco do altar mor da Igreja do Carmo de Ouro Preto, ou por padres como por exemplo pela Ordem Terceira de São Francisco de Mariana, através do padre José Lopes da Rocha, ou feita por alguma comissão empossada para a obra que era necessária construir.

Os engenheiros, militares e técnicos em geometria por vezes forneciam os “riscos” das igrejas, sendo que no século 17 eram os que a arte de construir e calcular.

Os decretos reais proibiam ocupar cargos de importância sendo considerados “infames” pela raça ou crime aos judeus mouros, cristãos novos, degredados, ciganos, mulatos livres, mulatos de capote, termo este que se referia aos pardos livres que podiam se vestir como brancos. Há de se referir que na época colonial era melhor ser negro, tendo como referência a epiderme do que ter uma cor mulata, da miscigenação entre europeu e africano, sem distinção da etnia de pertencimento, sendo o mesmo excluído por ambas, não fazendo parte da cultura de nenhuma delas.

O trabalho intelectual (de fornecer o “risco”) tinha conotação menor do que o trabalho manual. Exemplos:
Paga-se 32 oitavas de ouro para José Pereira dos Santos pelo risco de São Francisco de Mariana em 1762.

Mesma soma em 1762 para Tiago Moreira, pelo Carmo de Sabará.

50 oitavas para  Manuel Francisco Lisboa, pelo Carmo de Ouro Preto, em 1766

60$000(sessenta mil réis) para Antonio Francisco Lisboa em 1774 pelo risco de São Francisco, de São João Del Rey. 15 oitavas pela capela mor de São José de Ouro Preto, EM 1772/1773. 14$000(catorze mil réis) pela porta de São Francisco de Ouro Preto, em 1771. 24$000(vinte quatro mil réis) pelo risco do altar mor de São Francisco de Ouro Preto, em 1778/79.

10 oitavas, pago a Manuel Francisco de Araujo pelo frontispício do Rosário de Ouro Preto, em 1784.

6$000(seis mil réis) pelo risco do altar mor do Carmo de Ouro Preto, para Manuel da Costa Ataíde, em 1813.

17$000(dezessete mil réis) aos dois louvados da obra de São Francisco de Ouro Preto, A José Pereira Arouca e Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em 1794.

O pagamento era feito em pó de ouro, à razão de 1$200 por oitava. A oitava era a subdivisão do marco, que por sua vez se dividia em 32 vinténs.
¼ de oitava= 8 vinténs
½ de oitava= 16 vinténs
¾ de oitava= 24 vinténs
1 inteiro de oitava= 32 vinténs

1 vintém de ouro valia 37,5 réis e era usado para comprar um vintém de ouro(unidade de massa) na região de Minas Gerais.

1 oitava correspondia a 1/8 da onça=3,585 gramas=1dracma(1 oitava correspondia a 1$200 réis)

1 onça(medida inglesa) corresponde a 28,6848 gramas

1 arrátel=14 onças=2 marcos=401,52 gramas

1 marco=229,478 gramas=8onças

1 libra=453 gramas

1 cruzado de ouro valia 400 réis e 1 cruzado de prata valia 480 réis(PRATA era referência de maior valor)

No reinado de Dom João V (1706 a 1750) o cruzado de prata valia 480 réis, o tostão 100 réis e o vintém 20 réis.

A oitava de ouro valia em Minas Gerais:
Até 1725=1$500 réis
De 1º de fevereiro de 1725 a 24 de maio de 1730=1$200 réis
De 1730 a 4 de setembro de 1732=1$320 réis
De 1735 a 1751=1$500 réis
De 1751 a 1823=1$200 réis
In: Zemella. O Abastecimento da Capitania das Minas Gerais no Século XVIII, P.146
SILVA, Flávio Marcos da. Subsistência e Poder –A Política de Abastecimento Alimentar nas Minas Setecentistas. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

O autor do “risco” nem sempre era o contratante do serviço e poderia haver por parte do mestre de obra alguma alteração de projeto no decorrer da empreitada, por alguma dificuldade de execução inerente a realização elaborada no “risco”, por ser de difícil execução.

O mestre poderia assumir a obra como arrematante, ora como louvado[2] e ora como mestre de obras e que vindo muitas vezes de Portugal para assumir a função estavam enquadrados pelo Regimento de Ofícios Mecânicos e tinham a qualificação em mãos pela Carta de Usança, que lhe proporcionava a qualificação  e plenos poderes de execução de obra.

Caso típico de obra “a duas mãos” é a Igreja de São Francisco de São João Del Rey que foi projetada por Aleijadinho e alterada no risco original por Francisco de Lima Cerqueira, artista português, vindo ao Brasil em 1771.

Os mestiços culpados da “infâmia de mulatos” não usufruíam da licença, pois não possuíam documentos comprobatórios de seu ofício. Caso típico era Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que se subordinava a alguém na execução da sua própria obra, pois sua condição de mulato lhe proibia de assinar contratos, pois os “Livros dos Termos” somente poderiam constar assinatura de homens brancos, e ele só poderia ser acolhido, como foi, por uma irmandade, uma confraria corporativa, e da qual fez parte na Irmandade de São José.

Curiosamente é que as obras romanas e gregas, não consta o nome do autor, pois Cesar era sempre maior que tudo, inclusive o artista da obra, que não passou seu nome para a posteridade em sua grandeza artística. Isto também se perpetuou em obras barrocas, talvez por ser a obra menor que a Divindade pela qual foi contratado reproduzir, um imperativo onde o indivíduo autor da obra não “marca” seu registro na obra realizada, o que no instante contemporâneo muito dificulta o reconhecimento da obra de arte. 

Antonio Francisco Lisboa tinha a responsabilidade do conjunto da obra cabendo aos seus escravos e ajudantes fazer o desbaste grosso da madeira, pois ao que parece o vigor das linhas por vezes tem conotação de entalhe de outras mãos não tão habilidosas que pouco ou nada entendiam de anatomia, mas usaram o cinzel preliminar para rasgar os veios da madeira.

Antonio Francisco Lisboa teve a seu cargo o escravo e discípulo Justino Ferreira de Andrade que o abandonou quando se agravou a doença, (diagnosticada como lepra nervosa por René Laclette) do mestre quem cuidou dele foi a parteira e nora Joana Lopes. Aleijadinho transformou o barroco jesuítico no barroco colonial brasileiro, moldando a esteatita (e saponita) conhecida como pedra sabão abundante nas montanhas de Minas Gerais, e que foi usada como matéria prima de suas obras, substituindo o mármore Lioz[3] de Portugal.

Quando Antonio Francisco Lisboa foi para Congonhas do Campo, Minas Gerais, ela já estava doente havia 15 anos e a deformidade física fazia com que seu escravo Maurício amarrasse em seus punhos o martelo (macete), buris, goivas e raspadeiras.

Foram seus “iluministas[4] o pintor Francisco Xavier Carneiro e Manuel da Costa Ataíde. Muitas obras não receberam camada de tinta, o que dá para observar todo o drama do autor nos entalhes da peça.

“Aos 18 de novembro de 1814, faleceu Antonio Francisco Lisboa, pardo, solteiro, de 76 anos, com todos os sacramentos, encomendado e sepultado em cova da boa morte, e para clareza fiz passar o assento em que assino. O coadjutor José Carneiro de Moraes”. (Registrado no livro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias)
                                           



[1] Liberdade que o senhor da ao escravo, no caso o pai(senhor) alforria o filho(escravo)
[2] Louvado: termo usado para quem exercia a função de entalhador, escultor, arquiteto, marceneiro e perito.
[3] Mármore de Lioz: Em carta do padre Simão Vasconcelos consta que “a principal da cantaria dos arcos portadas, tribunas, etc, viesse lavrada do Reino, aonde há muitos oficiais que brevemente o podem fazer e vir por lastro dos galeões, que cada ano vem a esta Baia”. Muitas peças entalhadas deste mármore foram carga de Portugal para o Brasil e que tinha como carga de retorno madeira, açúcar, algumas especiarias da terra e ouro.O material a que se refere o padre Simão era um mármore denominado Lioz, que ornamenta muitas igrejas construídas no Rio de Janeiro, Bahia, Recife e em Belém do Pará.
[4]ILUMINURAS: pinturas de cores vivas e de grande realce, primeiramente representadas em livros manuscritos da Idade Média