segunda-feira, 15 de outubro de 2012

CASA BANDEIRISTA DO ITAIM BIBI: UM PARTO DO SÉCULO 18 AO 21

“São Paulo” tem vergonha de seu passado de taipa!


Parece que o sistema imobiliário quando pretende uma área de real valor imobiliário não mede esforços para adquiri-lo, independentemente onde esta gleba esteja de preferência em lugar enobrecido com o tempo por esforço único de seus antigos moradores que fizeram aquele espaço tornar-se valioso.
A luta dos “itahyenses” antigos, fora algo surpreendente muitas idas e vindas a órgãos como o estadual CONDEPHAAT, (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e o municipal CONPRESP, (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e ajustes de termos vários de preservação perante compromissos com o Tribunal de Justiça e o Ministério Público de São Paulo.
Hoje duas torres enormes de19 andares cada um, “olha” do alto a imponente Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Itaim[1]-Bibi da Construtora Brookfield. Ainda faltam alguns ajustes assumidos de melhorias das malhas viárias do entorno, mas isso, perante o grandioso empreendimento é coisinha “micha”. A mega construção fica no quadrilátero entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima, fachada principal nº 3.477 a 3601, e as Ruas Horácio Lafer, Aspásia e Iguatemi.
O empreendimento se sobressai com imponência com seus 70 mil m² de área construída e que tem o valor estimado de aluguel em 2012 de R$ 200,00 o m² sendo que no meio há uma das denominadas casas bandeiristas do século 18, bem no meio das duas torres, algo surrealista, pois faltou pouco para nada disso existir, pois “São Paulo” tem vergonha de seu passado de taipa!
Tudo isto implantado em uma área de 19 mil sendo que restou  aproximados mais de 700 para a Casa Bandeirista com seu entorno de “quintal” perfazendo no total 2000 m², ou seja aproximados 10% da área total. O restauro coube Brookfield Incorporações e ao Grupo Victor Malzoni dono do empreendimento.
Casa Bandeirista – passou a denominar um modelo de moradia específica do planalto paulista, diferente das habitações rurais do mesmo período de outras localidades do Brasil.
Isto será “os restos mortais” deste espaço que antes comportava  construção do século 18, que por estar próximo ao rio Jurubatuba (atual Pinheiros) possuía mata nativa circundante de origem da Mata Atlântica.
 Havia neste local quando da colonização o aldeamento da tribo do cacique dos guaianases, Caiubi, irmão do cacique Tibiriçá, e de Bartira casada com João Ramalho, que consentiu ser instalado o Colégio de Piratininga, o centro de São Paulo.
 Com o desenvolvimento local estas terras passaram a fazer parte de alguma sesmaria tendo como primeiro registro da casa e venda da mesma para Dona Joaquina Duarte Ferraz com escritura de 19 de abril de 1858 que o vendeu a Carlos Ablas que depois transferiu para João Ribeiro da Silva em 30 de abril de 1864. Este último falido foi passado a gleba em 20 de dezembro de 1882 para o doutor Antonio Pinto do Rego Freitas, sendo por inventario depois passado para sua esposa e depois ao seu genro Bento Ribeiro dos Santos Camargo que repassou a área de 120 alqueires ao general José Vieira Couto de Magalhães, em 1896, último presidente da Província republicana de São Paulo. Seu filho José Couto de Magalhães herdou a área e fez reformas e falecido a propriedade foi arrematada em hasta pública, sendo que os familiares tinham preferência. Foi arrematada,em 1907, pelo médico Leopoldo Couto de Magalhães, (irmão do José Vieira Couto de Magalhães) aumentando a área para 148 alqueires acrescida a sua propriedade anterior. 

Entre os herdeiros de Leopoldo Couto de Magalhães que feita a partilha em sete glebas coube ao filho Leopoldo Couto de Magalhães Junior, apelidado de "Bibi" as terras no valor de 62:564$213,fazendo o loteamento desta extensa chácara, denominada por Itaim-Bibi, sendo a venda completada em 1914. Com problemas financeiros, seu filho Arnaldo Couto de Magalhães disponibilizou a casa para aluguel, assim foi sede do Abrigo de Santa Maria, entre 1918 e 1921. A edificação foi adquirida pelo médico Brasílio Marcondes Machado, em 1922, tornando-se a sede do Sanatório Bela Vista conhecido por receber e tratar doentes mentais cujas atividades se encerraram em 1980, pois o local havia sido adquirido em 1977 pela empresa Comercial Bela Vista S/A, que se tornou proprietária do imóvel.
Em 20 de julho de 1980, o grupo liderado por Naji Nahas & RMC Finança Investimentos S.A, adquiriu o terreno, havendo um processo requerido ao Condephaat impetrado pela associação mobilizada do bairro para tombamento[2]. Em 1995 foi usada a área para funcionar um estacionamento que prevaleceu até 2007.
Hoje o que antes fora apenas um posto avançado dos jesuítas que implantavam “missões religiosas” tornou-se de grande valor econômico e imobiliário sendo o terreno mais caro por m² já vendido avaliado em São Paulo. O terreno foi comprado de empresas portuguesas (Blue Stone e Sociedade  Vendome Empreendimentos e Participações Ltda), que representavam investidores do Catar, país do Oriente Médio. (em fevereiro de 2008 era anunciado: “um terreno de 20 mil metros quadrados, arrematado esta semana por nada menos que R$ 500 milhões pelo fundo inglês de investimentos McCafferty. É o mais caro pedaço de terra já vendido em São Paulo - o preço por m² chegou a R$ 25 mil. No local será erguido um hotel de luxo da rede Four Seasons, o primeiro da marca no País”.)
As obras começaram em junho de 2008 e findam-se em outubro de 2012 os edifícios corporativos do consórcio formado por Brascan Residential Properties, Company e o Grupo Malzoni.






Bibliografia
Sede do sítio Itaim: História de uma ruína Folha de São Paulo de  12/12/2007
Claudia dos Reis e Cunha. Patrimônio bandeirista paulistano métodos e critérios de preservação.VITRUVIUS 119.01 ano 10, nov 2011

Associação Grupo Memórias do Itaim Bibi e Centro de Referência da História do Bairro do Itaim Bibi/SP
Terreno de R$ 500 milhões terá hotel de luxo em SP-29 de fevereiro de 2008 O Estado de São Paulo
LOPES, Helena de Queiróz Ferreira. TOLEDO, Vera Lúcia Vilhena de.Itaim-Bibi. São Paulo:Departamento do Patrimônio Histórico, 1988


[1] Ita-i, do tupi: pedra pequena, seixo de rio.

[2] SEDE DO SÍTIO ITAIM- Rua Iguatemi, 9 - Itaim
Processo: 20640/78      Tomb.: Res. 46 de 13/5/82      D.O.: 21/5/82
Livro do Tombo Histórico: Inscrição nº 225, p. 62, 19/1/1987
As referências mais precisas do Sítio Itaim remontam a 1846, quando pertenceu a Anna Joaquina Duarte Ferraz. Em 1896, após sucessivos proprietários, foi adquirido pelo general Couto de Magalhães que ampliou o seu patrimônio comprando terras à sua volta. Por volta de 1915, seu sobrinho, Leopoldo Couto de Magalhães, apelidado de "Bibi", iniciou o loteamento da área. Após sediar o Abrigo de Santa Maria, entre 1918 e 1921, a edificação foi adquirida pelo médico Brasílio Marcondes Machado, em 1922, tornando-se a sede do Sanatório Bela Vista, cujas atividades se encerraram em 1980.
Construção típica de meados do século XVIII, em taipa de pilão, conservava, até à época do seu tombamento, características do seu partido original. Atualmente, encontra-se em ruínas. Fonte Maria A. G. de Decca e Vilma L. Gagliardi


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Circuito de Itapecerica / SP

Berço do pioneirismo Automobilístico brasileiro


A cidade de São Paulo possuía em 1908 uma população de  400 mil habitantes e crescia vertiginosamente. A época o Secretário da Justiça e Segurança Publica, Washington Luis, adepto do “novo” sistema de transporte o automóvel, descobria trajetos passeando de um lugar a outro chegando a Santo Amaro seguindo depois para Itapecerica, (que ganharia o nome Serra em 1944) e depois M’ Boy (Embu das Artes) atingindo A Vila de Pinheiros, na capital. Entra em contato com o prefeito Barão Raimundo Duprat que autoriza restauro de algumas vias e caminhos de São Paulo, pois esses caminhos antes eram de difícil acesso e pela precariedade dessas estradas que vez ou outra os veículos eram rebocados por juntas de bois para saírem dos atolamentos. Deste modo, por insistência de Washington Luís implantou-se o Circuito de Itapecerica com apoio do secretário da agricultura Candido Rodrigues e do engenheiro Clóvis Glicério que possuía conhecimentos adquiridos nos Estados Unidos em manutenção de sistemas rodoviários, sendo que a cidade de São Paulo ganhava ao mesmo tempo, também, novos calçamentos.
Palacete Matinico Prado-início do século 20
Palacete Matinico Prado-início do século 21

Em 1908 reúne-se em uma das salas da casa de Martinico Prado, no antigo Largo do Rosário, atualmente Praça Antonio Prado, os senhores Antonio Prado Junior, Silvio Álvares Penteado, José Paulino Nogueira Filho, Numa de Oliveira, e Clóvis Glicério para ouvirem Washington Luís, para inserirem um sonho de implantar uma corrida de automóveis em São Paulo.

Em 11 de junho de 1908 é fundado Automóvel Clube de São Paulo, para reunir o comitê para organizar a primeira corrida automotiva da América do Sul. Faziam parte do grupo neste dia os senhores Antonio Prado Junior, Silvio Álvares Penteado e Clóvis Glicério, com o intuito de ser marcada a data 14 de julho, em homenagem a data comemorativa da Festa da Federação de França, pátria mãe do automobilismo.
Elaborou-se o regulamento da prova onde constava:

1-Inscrições: Feitas na sede provisória do Automóvel Clube de São Paulo, casa de Martinico Prado, sala nº 7.

2-A inscrição será feita pela soma de 50$000 para motocicletas e 100$000 para todas as categorias de automóveis.

3- Categorias:
A - Motocicletas;
B – Voiturettes[1], veículos leves de 8 a 9 cavalos;
C – Automóveis com alésage (diâmetro dos cilindros) de 119 mm que compreende motores de 20 a 30 cavalos de potência;
D - Automóveis com alésage de 120 a 125 milímetros que compreende motores de 40 cavalos de potência;
E - Automóveis cujo alésage excede 125 milímetros com motores de 45 cavalos de potência;
As inscrições por cada veículo foi de 25$000(réis) e por motocicleta apenas 10$. No Parque Antártica havia uma numerosíssima platéia que pagava 2$000(réis) para assistirem a largada do evento. Havia ainda na antiga Galeria Cruzeiro e Galeria de Cristal venda de “poules” de apostas acumuladas. 

A GRANDE CORRIDA: 26 de julho de 1908

Todos confluíam para o mesmo ponto, os bondes elétricos estão apinhados de passageiros, da Lapa, Perdizes e Barra Funda os moradores resolvem irem a pé ou de bicicletas. Os mais abastados usam seus veículos motorizados de marcas variadas, francesas, alemãs, italianas, inglesas e americanas. Entre eles dois motorizados chamam a atenção dos transeuntes: um é o “touring tour” da Light and Power, o único automóvel elétrico de São Paulo, com potência de 15 cavalos; o outro é o Dumont, o único veículo do mundo que leva na marca o nome do ilustre brasileiro, lançado pela Columbus Motor Vehicle Co. de Columbia, Ohio. Pertence à empresa Ferreira & Saraiva, de São Paulo, é um “phaeton” de 24 cavalos de potência. Muitos não possuem condições para ver a largada da prova assim eles se deslocam ao longo do circuito, principalmente pela Avenida Paulista e Municipal, atual Doutor  Arnaldo, e na Rua Cerqueira Cesar, hoje a Rua Teodoro Sampaio, em direção a Pinheiros, na saída da cidade de São Paulo. Tudo isso é controlado por um contingente elevado de 450 homens do 1º Batalhão da Força Pública no percurso da cidade, auxiliados pelos corneteiros que ficam em locais de maior influência de populares que tocam anunciando a passagem de cada corredor da prova.
No trajeto estão postados auxiliares da prova com bandeiras de emergência sendo a amarela para sinalizar eventuais perigos eminentes onde cada piloto deve diminuir a marcha, e não se pode tentar a ultrapassagem, as bandeiras vermelhas é sinal de parada imediata e as bandeiras verdes sinaliza campo aberto sem perigo algum, copiando o primeiro “rally” de Targa Florio, na Itália, em 1906.
O abastecimento seria feito antes da largada e os tanques teriam combustível suficiente para o percurso idealizado, mas mesmo assim haveria latas de gasolina das companhias de petróleo francesas e americanas com o custo aproximado de 450 réis o litro.

O circuito era apresentado como um itinerário fechado, sendo o ponto principal na capital paulista, e que tem como principais pontos de passagem a cidade satélite de Santo Amaro, a de Itapecerica, o Convento-Igreja do Embu, e o prospero bairro de Pinheiros. O trajeto de pouco mais de 70 quilômetros e os melhoramentos implantados serão para os inscritos do evento “um passeio predileto para os automobilistas e motociclistas”. 

Em 26 de junho de 1908 seria preparado o primeiro rally de automóvel competitivo em São Paulo, corrida esta idealizada pelo Automóvel Clube de São Paulo, e seria o grande fato de comentários das rodas sociais. A aglomeração estava concentrada nas avenidas Paulista, Rua Taylor e Avenida Antarctica.

Tudo preparado para a 1º prova automobilística da America do Sul, os juízes Plínio da Silva Prado, Luís Fonseca e Francisco Gama Junior estavam a postos além dos cronometristas Edgard Conceição, Mário Cardim, Guilherme Rubião e Antonio Pederneiras estavam com  seus tempos acertados para o início da prova, e a largada será dada pelo presidente do Automóvel Club de São Paulo, Antonio da Silva Prado e que será iniciada as 12 horas e 55 minutos por George Haentjens, com o seu Lorraine Detrich, de 60 cavalos,o único carro inscrito na categoria E, com mais de 45 cavalos. Às 13:00 horas partiu Gastão de Almeida com outro Lorraine Detrich, categoria D, de 40 cavalos. Deste modo parte um a um com uma defasagem de 5 a 8 minutos, dependendo da categoria, tempo suficiente para assentar a poeira levantada por cada veiculo que partia na disputa. Quando o último voiturette se prepara para partir, estando no volante Ferrucio Olivieri, no Lion Pegeuot, categoria B, ouve-se o barulho do motor do carro de 60 cavalos,  o Lorraine Detrich de George Haentjens, que entra no Parque Antártica, terminado a prova as 14 hora, 26 minutos e 56 segundos, fazendo o percurso em 1 hora, 31’ e 55”, percorrendo 75 quilômetros  com um velocidade média de 48 Km e 900 metros.
Por ultimo saem as motocicletas Griffon de Eduardo Nielsen e Procópio Ferraz. Havia uma terceira de João Rosas, mas que resolve não correr. Assim todos saíram para a competição.São 14 horas e 34 minutos.

Das peripécias de nossos pilotos ainda tiveram que enfrentar dificuldades não previstas como o furto de um pneumático do senhor Alípio Borba. O senhor Oswaldo Sampaio teve dificuldades com seus pneumáticos, mas completou o circuito do Itapecerica em 2 horas, 41 minutos e 54 segundos!
O senhor Ricardo Vilela teve complicações com sua bomba d’água e na cidade de Itapecerica da Serra interrompe4u sua participação por aquecimento excessivo dos cilindros.

Todo o circuito para evitar surpresas desagradáveis foi percorrido pelos responsáveis da prova supervisionados pelo coronel Bento Canavarro por ordem da diretoria do Automóvel Clube de São Paulo que através de congratulações ofertou banquete ofertado aos membros do Automóvel Club do Brasil, em estima aos concorrentes fluminenses. Tal recepção foi presidida pelos senhores Ramos de Azevedo, representando o Automóvel Clube de São Paulo, do qual é vice-presidente, sendo ladeado pelos senhores Washington Luis e Aarão Reis, acompanhado pelo prefeito municipal interino Barão Raymundo Duprat, sentida a ausência do dr Antonio Candido Rodrigues, e uma comitiva representativa seguidos dos senhores Hernani Pinto, Joaquim Prates, Luiz Fonseca, Antonio Prado Junior, Luiz Prado, Gastão de Almeida, Numa de Oliveira, Aarão Reis Filho, Oswaldo Sampaio, Sá Rocha, representante do “Correio Paulistano”, Rocha Gomes, do “Diário do Comercio”, do Rio: dr Eduardo Faria e A. Bommer. A esquerda do dr. Washington Luis, estiveram a cerimônia os senhores S.  Moraes, José Paulino Nogueira Filho, Sylvio Penteado, dr Clóvis Glicério, dr. Paulo Prado, Alípio Borba, Alexandre Mendonça, G. C. Alexanderson, Plínio Prado, Procópio Ferraz, Mario Cardim, José Prates, E. Nielsen, F. Olivieri e F. Otte. Seguia a este banquete orquestra com peças muito bem escolhidas.

O senhor Rocha Gomes, em nome da imprensa do Rio e São Paulo brindou a prosperidade dos dois clubes e que foi seguido de um blinde a São Paulo na pessoa do Dr. Washington Luis e ao Barão Raymundo Duprat . Seguiu-se depois brilhante comitiva a via férrea da Light para assentar-se em carro de luxo, o mais importante carro da estrada de ferro, partido às 9:30 horas da estação.

O presidente de São Paulo, Antonio Prado, estando em viagem a Europa, enviou congratulações ao evento da corrida para o Automóvel Club de São Paulo
.
Quadro dos concorrentes à primeira corrida de automóveis-Circuito de Itapecerica

Nº1 George Haentjens, auto Lorraine Detrich, categoria E, mais de 45 cavalos.
Nº2  Gastão de Almeida, auto Lorraine Detrich, categoria D (Rio de Janeiro)
Nº4 Sylvio Penteado, auto Fiat, categoria D-
Nº5  Osvaldo Sampaio, auto Fiat, categoria D
Nº6  Alípio Borba, auto Diato Clement, categoria C
Nº7 Jordano laport, auto Renault, categoria C (Rio de Janeiro)
Nº8 Paulo Prado, auto Berliet, categoria C
Nº9 Luís Moraes, auto Bayard Clement, categoria C (Rio de Janeiro)
Nº18 B. Fúlvio, auto Diato Clement, categoria C
Nº19 Frederico Otto, auto N.A.G., categoria C (Rio de Janeiro)
Nº11 Antonio PRADO Júnior, auto Delage, categoria B
Nº12 José Prates, auto Lion Pegeuot, categoria B
Nº14 Ferrucio Olivieri, auto Lion Pegeuot, categoria B
Nº15 Procópio Ferraz, motocicleta francesa Griffon, categoria A
Nº12 Eduardo. Nielsen, motocicleta francesa Griffon, categoria A 

Todos estavam equipados com pneumáticos Pirelli.

Depois de um trajeto pelo leito empoeirado com rampas e curvas o Sr Prado Junior completava todo o circuito em “apenas” 2 horas e 10 minutos, numa “voiturette” (barata) da marca francesa  “Delage”.
Era um verdadeiro frenesi quando Sylvio Penteado passava com velocidade impressionante para a época de mais de 50 Km/h, de volta do circuito e se aproximava do cruzamento da Avenida Paulista co a Rua da Consolação, em direção ao Hospital de Isolamento (Emilio Ribas denominação desde 1932 e fundado em 1880) em direção a Rua Taylor. Era seguido por George Haentjens e Gastão de Almeida ases da melhor estirpe do momento, desciam o vale em fantástica velocidade e aonde o senhor Gastão de Almeida vinha com chances de vencer, pois em Santo Amaro mantinha uma diferença de 5 minutos em relação ao segundo colocado Sylvio Penteado. Seu carro vinha com problemas no deposito de óleo do Lorraine Detrich e por este motivo foi obrigado a parar. Superou o problema e completou o percurso com o tempo 1h 57min 45seg, chegando às 14 h 57min 45seg
Outro exemplar Delage Voiturette
 Fiat do Conde Sylvio Penteado no Circuito de Itapecerica em 1908

Na corrida, que teve início no Parque Antártica, tomaram parte somente amadores, cujos prêmios eram objetos de arte e medalhas. Coube ao Fiat do Conde Sylvio Penteado, na classe D, a categoria de maior força, lograr o mérito de ganhar a prova com o tempo de 1h 30min 05 segundos.

Houve toda a estrutura compatível a um grande evento sendo a competição assessorada por um serviço médico chefiado pelo doutor Arnaldo Vieira de Carvalho. 

Resultado da prova:

Categoria A (motocicletas)
1) Eduardo Nielsen (SP) - Griffon 1:54':48"
2) Procópio Ferraz (SP) - Griffon 2:42': 00"
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Categoria B (voiturettes de 8-9hp)
1) Antonio Prado Júnior (SP) Delage 2:05':15"
2) Ferrucio Olivieri (SP) Lion-Peugeot 2:05':15"
3) José Prates (SP) Lion-Peugeot 2:30':33"
4) Alípio Borba (SP) Diatto-Clément 2:05':53"
5) Frederico Otto (RJ) NAG 2:18':55"

Categoria C (20-30hp)
1) Jordano Laport (RJ) Renault 1:45':04"
2) Paulo Prado (SP) Berliet 1:51': 28"
3) Alípio Borba (SP) Diatto-Clément 2:05': 53"
4) Frederico Otto (RJ) NAG 2:18':55"
5) Luís Moraes (RJ) Bayard-Clément 2:49':23"

Categoria D (40hp)
1) Sylvio Alvares Penteado (SP) Fiat 1:30':05"
2) Gastão de Almeida (RJ) Lorraine-Dietrich 1:57':45"
3) Oswaldo Sampaio (SP) Fiat 2:41':54"

Categoria E (mais de 45hp-ÚNICO COPETIDOR DESTA CATEGORIA)
1) Jorge Haentjens (RJ) Lorraine-Dietrich 60hp (walk-over) 1:31':55"


Bibliografia:
CIRCUITO DE ITAPECERICA - A GRANDE CORRIDA O Estado de São Paulo de 28 de julho de 1908
CIRCUITO DE ITAPECERICA - O Estado de São Paulo de 28 de novembro de 1952
O Estado de São Paulo de 27 de julho de 1908 (TABELA)
Vergniaud Calazans Gonçalves, "A Primeira Corrida na América do Sul", Ed. Empresa das Artes, 1988, São Paulo.
Dois cineastas fizeram imagens deste evento, um deles era G. Sarracino e o outro Antonio Leal. Atualmente as reproduções (fotogramas) são usadas para ilustração deste momento histórico.


[1] Os voiturettes eram veículos leves dotados de motor de baixa potência, geralmente para duas pessoas e usado em caminhos difíceis, que foram usados em competições de rua, sendo mais barato do que os carros maiores. Os fabricantes construiam chassi mais leve, dando aos voiturettes capacidade para instalção de maiores motores de competição, embora os mesmos ainda possuiam baixa potência. Anterior ao Circuito de Itapecerica houve quatro eventos de voiturette em 1908, dois na Itália (ganho por Lion-Peugeot do Guippone e duas na França, o Grand Prix des Voiturettes, vencido por Delage do Guyot e o Coupe de L'Auto, que  admitia desde então carros de quatro cilindros, restringindo o seu tamanho de pistão em 65 mm e novamente impôs limites de peso máximo até 650 kg.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ÚLTIMA TRINCHEIRA PARA POUPAR O REI

A Micro e a Macro História da Pátria Armada

Debruçando diante da história, quando anteriormente tantos já o fizeram, e deram subsídios para deleitar-se com algo capaz de nos levar as consequências analíticas dos fatos ocorridos no passado e que reflete na atualidade consequências, sabendo-se que o tempo do “presente é o passado mais recente”.
Vamo-nos defrontando com escombros arqueológicos da historiografia e que precisa ser decifrada por um indivíduo em sua contemporaneidade.

A história gira diante de feitos subjetivos de quem possui o controle da “macro história”, distinguida por ser esta que detém o poder de escrevê-la e documentá-la e fazer dos fatos algo de concreto de historiografia, embora resulte dentro dessa “macro história”  algo mitológico, do herói invencível que necessita do sujeito da “micro história” para sobreviver, o povo em sua plenitude.
Este ser anônimo da história é responsável para sustentar o mito heróico da epopéia que se quer como resultado, retirando disto as idéias que deverá dar todo o conceito de motivação de defender uma bandeira e que por motivos vários (língua, costumes, ritos, e outros) se denominam nação.

Tudo isto esta embasada nas condições que se apresentavam à época em que se constituiu todo o efeito mítico e que foi a causa de perpetuar pelo tempo as glórias de determinada civilização, num âmbito de vários fatores que somados as circunstâncias de então causa ação e reação esperada pelo poder.
Destas somatórias culminam os feitos de heroísmo de alguém que se sobressai da multidão, não por méritos, mas por controle de poder com direção de comando de general que usa deste poder para insuflar a massa e extrair aquilo que comumente se requer em benefício na batalha, e que causa comoção pelas emoções que aquele instante requer dos “filhos da pátria”.

Depois da luta derradeira e dos aguerridos combates da última trincheira, nasce um exacerbado exagero de ter a pátria como aquela que pode nos acolher como mãe, mas que infelizmente caí-se nos braços da madrasta, depois da batalha na última fronteira, o poder dita às regras do que deve ser exposto pelo vencedor, com seus feitos e suas glórias, esquecendo-se que houve aquele que selou o cavalo do general, preparou a cozinha de todo o contingente para que tudo ocorresse dentro das necessidades básicas de cada um que foi ao front, desarmado no instante derradeiro para as armas não se virarem contra o próprio rei.
O vencedor irá extrair do vencido o butim da derrota e aos seus filhos que a defenderam receberão o soldo do desprezo. Os reis, por sua vez, receberão o valor que não merecem, pois somente assinarão o armistício por formalidades, pois jamais foram lutar na frente de batalha não cheiraram o fedor de urina na última trincheira onde muitos morreram para poupar o rei!

Édito futuro: Na próxima batalha que vá o rei e seu séquito à frente da trincheira!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Julio Guerra: “Profissional Amador”

Centenário da Trajetória do Artista de Santo Amaro

Julio Guerra, nascido em 20 de janeiro de 1912, filho de Narciso Guerra e Maria Fenucci  Guerra. Residiu na Rua da Palha, nº 6, atual Paulo Eiró. Os assentos foram registrados por “Officio de Escrivão de Paz Tabelião Official da Comarca de  Santo Amaro”, assim deposto:
“Aos vinte dias de janeiro de mil novecentos e doze, nesta cidade de Santo Amaro, em meu cartório compareceu Julio José Guerra e me declarou: Que hoje às dez horas da manhã, em uma casa desta cidade, à Rua Paulo Eiró, número seis, nasceu uma criança de sexo masculino que terá o nome de Julio. É filho legitimo de Narciso Guerra, negociante e de Maria Fenucci Guerra; ele natural desta cidade onde casaram e residem e ela natural de Lucca, Itália. São avós paternos Antonio Augusto de Miranda Guerra e Dona Innocencia Clara de Oliveira e maternos Lourenço Fenucci e Annabéla  Fenucci. Nada mais declarou e assina este termo com as testemunhas. Eu, Octavio Machado, escrivão de paz o escrevi. (a.a.) Julio José Guerra : : Luis Vieira Branco : : Juvenal Luz. À margem na coluna destinada  a averbações a seguinte averbação: “ Com o nome de Julio Guerra, casou-se hoje neste cartório com Benedita Hessel, que usará o nome  Benedita Hessel Guerra, conforme termo nº 1080. Santo Amaro, 19 de maio de 1938”. Este documento foi subscrito, conferido e assinado pelo Oficial Maior Lourenço Sgarbi.

Seu pai mantinha um bar situado no Largo 13 de Maio, nº1, com telefone nº 93, bem no centro de Santo Amaro, que, aliás, mantinha ""mesa com velho balcão de bilhar".

O criador e a criatura: Autor e Obra
Em 1930 matriculou-se no Curso de Pintura de Belas Artes de São Paulo. Em depoimento ao amigo Almario citou: “No meu tempo da Escola de Belas Artes[1], de vez em quando eu dava uma chegada ao atelier do Rebolo, que ficava na Praça da Sé, e era formado pelo (Palacete) Santa Helena, próximo a Escola” [2].

Sempre elevou o nome de seus mais ilustres mestres, jamais os esqueceu,  sendo discípulo em escultura de Amadeu Zani (Amedeo Zani)[3] e Nicola Rollo[4].
GERMANA -AUTOR: AMADEU ZANI- BRONZE-1910 - PINACOTECA

PALÁCIO DAS INDÚSTRIAS CARRO DO PROGRESSO-NICOLA ROLLO
(Parque D. Pedro/SP)

Colou grau em 1938, ano em que se casou com Benedita Hessel. Obteve o premio para especialização no exterior, e em 1942 foi convidado por Victor Brecheret[5] para colaborar no Monumento ao Duque de Caxias.
MONUMENTO A DUQUE DE CAXIAS: COLABORAÇÃO DE JULIO GUERRA

Estes mestres trouxeram sua maior arte da imigração da Itália, uma escola de respeito mundial e tornaram mestres na arte da escultura e moldagem de fundição em bronze.

Em 1946, na capital argentina houve um banquete no Automóvel Club de Buenos Aires oferecido pelos artistas argentinos e embasado pelo embaixador do Brasil, ministro Furks, para promoção da exposição onde estavam presentes Julio Guerra, Joaquim da Rocha Ferreira e Juan Batista Ferri. Expôs no Atheneu de La Boca. Em 1947 segue para a Europa, fixando-se em Roma trabalhando no ateliê da Via Marguta.

No XV Salão Paulista de Belas Artes de 1949 foi apresentada a escultura “Nativa”, escultura em gesso patinado 1947,(acima) atualmente peça pertencente a Pinacoteca de São Paulo. Neste mesmo Salão foi premiado em 1941, 1943, 1946, 1950, 1953 e 1959.
A “Mãe Preta” colocada próxima a igreja do Rosário, no Largo Paissandu, foi obra idealizada para comemorar o Quarto Centenário de São Paulo. Há outra Mãe Preta reproduzida por pedido da Prefeitura Municipal de Campinas.
Julio Guerra sempre recebeu honrarias em bienais além de possuir a obra exposta “Mulher com Criança” no Museu de Arte Contemporânea de Figueira da Foz, em Portugal.
A Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública, Conselho de Orientação Artística de São Paulo, fazia saber através de oficio nº 1177, datado de 27 de novembro de 1942, lavrado os seguintes termos:
Tenho a grata satisfação de levar ao conhecimento de V.S., Conselho de Orientação Artística de São Paulo, reunido em sessão nº 90 de 27-11-1942, deliberou aprovar, fosse indicado o nome de V.S., para membro da Comissão Organizadora do 9º Salão Paulista de Belas Artes, no termos do artigo 6º do decreto nº 7106 de 12 de abril de 1935, e Decreto nº 12611, de 31-3-1942.

Deste honroso convite outros se sucederam para integrar as futuras comissões honraria repartida com renomados nomes da época para integrar as comissões de seleção de Secção de Escultura, assinatura do então do Secretário e Membro do Conselho de Orientação Artística de São Paulo, Carlos A. Gomes Cardim Filho.

O professor Julio Guerra assentou cátedra na Escola de Belas Artes de São Paulo, fundada em 23 de setembro de 1925, em Desenho do Gesso e do Natural e Modelagem e tendo com seu diretor o professor Lázaro de Freitas.

Em matéria da Revista Interlagos de 1951, era registrada e apresentada na 16ª exposição na Galeria Prestes Maia, Salão Almeida Junior, com presença do senhor governador Lucas Nogueira Garcez, a obra Iguatinga.

CONVITE: Membro de Comissões de Arte Moderna

Em oficio de 10 de outubro de 1952, nº 1976, a Secretaria de Estado dos Negócios do Governo, Serviço de Fiscalização Artística, Praça da Luz, nº2, São Paulo, rezava os seguintes termos:
“Tenho a grata satisfação de levar ao conhecimento de V.S., que por ato do Senhor Secretário de Estado dos Negócios do Governo de 9-10-1952, publicado no Diário Oficial de 10-10-1952, foi V. S. designado para Membro da Comissão Organizadora do II Salão Paulista de Arte Moderna, conjuntamente com os Senhores: Francisco Matarazzo Sobrinho[6] (Presidente), Clovis Graciano, Arnaldo Pedroso D’ Horta e Dr Abelardo de Souza”.
Este documento foi firmado pelo então Diretor Encarregado do Serviço de Fiscalização Artística, Sr Oswaldo Lacerda Gomes Cardim..
Em 24 de novembro de 1961, no oficio nº 2269, havia a seguinte proposta:
Ilmo. Sr.
Escultor Prof. A Julio Guerra
DD. Membro da Comissão do Monumento ao  Apóstolo São Paulo, no Morro do Jaraguá.
Venho comunicar V.S., que ficou marcada uma reunião da Comissão do Monumento ao   Apóstolo São Paulo, no Morro do Jaraguá, do qual V.S. é digno Membro, para o dia 28 do corrente, terça feira, às 15 horas, na sede do Serviço de Fiscalização Artística,à Praça de Luz, 2, de acordo co a respeitável Resolução nº 1297, de 9 de outubro de 1961, do Excelentíssimo Governador do Estado, publicado no Diário Oficial de 10-10-1961.
Este documento tinha a assinatura do  Diretor Encarregado do Serviço de Fiscalização Artística, Sr. Oswaldo Lacerda Gomes Cardim.
“Barbeiro Anédes”, na Biblioteca Prestes Maia(antiga Presidente Kennedy)
Don Anédes Nemendes de Aragóia Y Navaja:
Ex Barbeiro da Real Casa de Bascelar-1850-1930

Criou o personagem “Barbeiro Anédes”, um tipo popular, filósofo que fazia arranjos em seu bandolim de músicas espanholas. Este ilustre personagem parece ter vivido pelos arredores de Santo Amaro na segunda metade de 1920, com sagacidade irônica e pessimista e mesmo sendo um profissional em sua arte de barbeiro tinha um caráter amador, deixando o preço do corte a vontade do cliente.

ATELIÊ DA CONSTRUÇÃO DE BORBA GATO:AV. JOÃO DIAS-SANTO AMARO/SP


“Quanto mais xinga, mais promove. O importante é a xingação. O que não pode é haver é a indiferença”.(Julio Guerra).

Obra Tumular no "Campo Santo de Santo Amaro": Elizeu Schmidt
Jesus Cristo deitado, afagado por Maria

Santo Amaro possui o maior acervo a céu aberto das esculturas do artista Julio Guerra, que este espaço não comportaria, urge conservá-las!

Aceita-se a critica da crônica para aproximar o objeto do sujeito em estudo!


Bibliografia:

Catálogo: Um Modernista Marginal- Exposição realizada na Pinacoteca do Estado, 22 de outubro a 13 de novembro de 1994.

Paulistania, (órgão oficial do Clube Piratininga) ano 1961, nº 65

O Santo Amaro. São Paulo, Santo Amaro, fevereiro de 1950

Créditos: Maria Hessel Guerra Sanches e família

Revista Interlagos, 1951



[1] Em 23 de setembro de 1925, foi fundada a Academia de Belas Artes de São Paulo, por Pedro Augusto Gomes Cardim, artista ativo na vida artístico-cultural de São Paulo no início do século XX. A Academia dividiu o mesmo prédio com a Pinacoteca do Estado de São Paulo até a década de 80, quando a Faculdade de Belas Artes mudou-se para a Vila Mariana.
[2] Ali teve início o Grupo Santa Helena, que Mário de Andrade chamou este grupo de "artistas proletários", pois o local era frequentado por operários de bairros pobres.
[6] Responsável pelos festejos do IV Centenário de São Paulo