sexta-feira, 3 de junho de 2016

Antonio Manuel Alves de Lima: A Elite Cafeeira de São Paulo e o Jardim São Luiz/SP

A SAGA DOS ALVES DE LIMA EM SÃO PAULO

O pai de Antonio Manuel Alves de Lima foi uma das expressões máximas do setor cafeeiro brasileiro, Octaviano Augusto Alves de Lima era filho de Antonio Manoel Álvares de Almeida Lima e de dona Maria Leopoldina Álvares de Lima, e não conheceram outra atividade senão a agrícola. Sofreram revezes e tiveram que reiniciar em novos horizontes. Isso os levou para Buenos Aires, Argentina, onde havia a tradição do mate. Montou no país vizinho o comércio do café, vendido em xícaras a moda brasileira, desconhecido na Região do Prata. Assim nascia a sua marca “Café Paulista – O Melhor do Mundo”. Deste modo o referido mercado argentino passou de sua insignificante importação de 15 mil sacas de café para 600 mil, sem apoio algum do governo brasileiro. Em 1902 o presidente do Brasil, Campos Salles em visita a Argentina do presidente Julio Roca foram em suas “viaturas” puxadas por animais degustar a bebida do antigo lavrador brasileiro o que contribuiu para divulgação maior do produto, tornando-se até distribuidor do café brasileiro, sendo em 1910 uma referência na Exposição Internacional realizada em Buenos Aires. Depois disso diversificou com outros artigos como o cacau da Bahia e Pará, o mate e goiabada paulista.

Alves de Lima, Octaviano. La República Argentina 1906-1907 p.267 - Referência acima cedida gentilmente por Martín Giardelli

(Tornou-se denominação da “Rua Octaviano Alves de Lima”-Pioneiro do Café no Prata-1848-1921, na Marginal direita do Rio Tietê, no trecho que fica entre a Ponte da Casa Verde {era para ser entre a Ponte das Bandeiras} e a ponte da Via Anhanguera, Processo nº 6.814/57; Projeto de Lei nº 601, de 3 de outubro de 1957; informação nº 4.759 da Câmara Municipal de São Paulo, de autoria do vereador Elias Shammass, processo encerrado em 10 de março de 1960)

OS IRMÃOS DE ANTONIO MANUEL E O RAMO DO CAFÉ

Seus irmãos Joaquim  Bento Alves de Lima e Octaviano Alves de Lima tiveram papel fundamental na continuidade dos negócios dos pais da fazenda Ribeirão Fundo, em Tietê. A Fazenda São João, em Capivari, era outra propriedade de Octaviano Augusto Alves de Lima e fazia parte dessa estrutura cafeeira.

Joaquim  Bento Alves de Lima no mesmo seguimento fundou a empresa “Lima, Nogueira Cia” sendo junto com os irmãos, um membro ativo das decisões Automóvel Clube de São Paulo, Clube Comercial, Clube Atlético Paulistano, Sociedade Hípica Paulista, Jockey Club, Clube de Campo Santo Amaro.

Octaviano Alves de Lima[1] além de suas ações junto aos irmãos teve participação efetiva como presidente diretor do “Café Paulista S.A.” que tinha se fixado na Argentina, em Buenos Aires desde 1911, por iniciativa de seu pai Octaviano Augusto Alves de Lima. Foi ainda diretor do Banco Noroeste de São Paulo em 1924-25; sendo depois, em 1928,chefe da missão Instituto Brasileiro do Café. Foi grande produtor de café em Campinas[2], e criou a Cooperativa Central dos Cafeicultores. Tornou-se, desde 1931, proprietário e diretor da empresa Folha da Manhã Ltda (hoje Folha de São Paulo) e Folha da Noite. Foi autor do livro “Revolução Econômico-Social”.
 
ANTONIO MANUEL ALVES DE LIMA: UMA CARREIRA ILIBADA

Antonio Manuel Alves de Lima foi empresário do ramo de café, nascido em 27 de junho de 1873, sendo filho de Octaviano Augusto Alves de Lima e Izabel de Arruda. Fez os estudos primários em Tietê e Capivari, e mais tarde foi enviado para especialização em Altona, Alemanha, onde permaneceu por uma década. 

Casou-se em 1898 com Jullita Prado[3], filha de Martinho da Silva Prado Junior e de Albertina Pinto. Tiveram os filhos Maria Isabel, Jorge, Antonio, Vera e Stella.


O casal fixou residência na Avenida Higienópolis, nº 8, em São Paulo, Capital, onde foi contratado o senhor Manoel dos Santos (avô deste missivista) em 1925, conforme consta em documento expedido pela “Directoria de Fiscalisação do Serviço Doméstico”, como jardineiro da locatária Julitta Prado Alves de Lima! 




Sua carreira foi pautada no ramo da agricultura tendo sido presidente da Companhia Agrícola Guatapará e do Instituto Brasileiro do Café de São Paulo, empossado em 1924, permanecendo no cargo por 30 anos, além de ter sido Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo de 1930 a 1931, com o fim da República Velha.

Tornou-se membro da União Cultural Brasil Estados Unidos; da Sociedade Agrícola do Jóquei e do Automóvel Clube de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Foi condecorado com a Medalha do Mérito Agrícola, concedida pelo Rei da Bélgica, Alberto II.

Por muito tempo manteve moradia na Praça da República nº 77, na esquina da Avenida Ipiranga e com escritório na Rua Barão de Itapetininga, nº 50, em São Paulo.

EDIFÍCIO SÃO LUIZ, nº 77, PRAÇA DA REPUBLICA, SÃO PAULO/SP


RUA BARÃO DE ITAPETININGA, SÃO PAULO/SP

CONDOMÍNIO CASA ALVES DE LIMA-PRÉDIO DE 9 ANDARES COM 248 UNIDADES

Após a morte de sua esposa Julita, em 1945, a chácara de propriedade da família localizada no Jardim São Luiz, à Rua Nova Tuparoquera, 249, era uma zona rural com muitas chácaras, passou a ser denominada “Fundação Julita” a partir de 6 de dezembro de 1951, tendo sua referência pautada no campo social nas áreas da saúde, educação e outros afins.














Antonio Manuel Alves de Lima possuía currículo invejável e de grande virtude, vindo a falecer em 11 de abril de 1969, aos 96 anos de idade. Há em sua homenagem a “Escola Estadual Antonio Manuel Alves de Lima”, situada no Bairro São João, distrito do Jardim São Luiz.



Vide referência e complementos:


ERVILLE LEVI, Darrell. A Família Prado. São Paulo: Editora: Cultura, 1977
SANT’ANA, João Gabriel. Repertório Biográfico e Genealógico Paulista. São Paulo, Press Grafic, 1987



Câmara Municipal de São Paulo, Projeto de Lei nº 601, de 3 de outubro de 1957 de autoria do vereador Elias Shammass.

HILTON, Ronald. WHO’S WHO IN LATIN AMERICA. London: Geoffrey Cumberlege/Oxford University Press. USA: Stanford U. Press (printed)/ The A.N. Marquis Company


O Jardim São João e “seu” João Manecão

Baby Pignatari e Nelita Alves de Lima: Fundação Julita (Jardim São Luiz)




[1] Octaviano Alves de Lima nascido dia 28 de fevereiro de 1883, natural de Tietê, Estado de São Paulo. Filho de Octaviano Augusto Alves de Lima e de Dona Isabell Arruda Alves de Lima. Era casado com dona Anna Telles Alves de Lima e tinha cinco filhos. Foi comerciante e exportador de café em São Paulo e Santos, além de fazendeiro. Dedicou-se ao jornalismo, sendo um dos proprietários, e diretor da Folha da Manhã e Folha da Noite, hoje fundidos na Folha de São Paulo. Em Campinas foi proprietário durante longos anos da Fazenda Chapadão que ganhou fama pela sua cafeicultura, administração e benfeitorias de alto padrão. Constituiu um dos primeiros loteamentos de Campinas, destinando parte da área de sua fazenda para criar o bairro Jardim Chapadão onde se iniciou a venda de lotes e casas a prestações. Numa fase anterior de sua vida, radicou-se em Buenos Aires, Argentina, dedicando-se à indústria e ao comércio tendo sido diretor presidente do café Paulista, empresa fundada por seu pai que foi o primeiro na introdução do café no país vizinho, cujo povo, até então só conhecia o chimarrão extraído do mate e o chá que era importado da Inglaterra. Era fisiocrata por idealismo e adepto da doutrina de Henry George. Faleceu dia 11 de maio de 1972, sendo sepultado no Cemitério da Consolação.

[2] Anna Silva Telles Alves de Lima, esposa de Octaviano Alves de Lima, herdou parte da fazenda Chapadão em Campinas. Nos anos de 1940, seu marido se tornando o único proprietário, a vendeu em 1942 ao Exército Brasileiro para que fosse instalado um quartel.

[3] Julita Prado era filha do dr. Martinho da Silva Prado Junior e de Albertina de Morais Pinto, irmã do dr. Firmiano de Morais Pinto, tendo sido o quinto prefeito de São Paulo, sendo seus pais o alferes Antonio José Pinto e a segunda mulher Francisca Emília de Morais, das famílias tradicionais de Itu e Porto Feliz. Era sobrinha de Antonio da Silva Prado, que foi deputado por São Paulo, Ministro da Agricultura, Ministro dos Estrangeiros, Senador do Império e ainda prefeito de São Paulo em três legislaturas, permanecendo no cargo de 1899 a 1911.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Igreja e o Convento de Itanhaém, SP, em perigo Iminente!

Quem são os responsáveis pelo patrimônio material da Nação?

No papel todas as instituições são bem estruturadas, muito organizadas nos seus setores de fiscalização de atividades referentes ao escopo de suas obrigações perante o que se refere aos compromissos assumidos, e estão pautados por regulamentemos internos que devem ser seguidos na totalidade por comandantes e comandados.
Parece simples assim, mas na realidade tudo que tange a essas normas não são seguidas a risca conforme a pauta destes regulamentos e há dificuldades em se manter o mínimo necessário de metas. Deste modo emperram-se todas as ações que devem ser assumidas pelas hierarquias e cada qual faz o que bem entende com alguma iniciativa que possa proteger o patrimônio histórico brasileiro, tanto que na “ruína” dos bens materiais não há padrão a ser seguido para evitar um colapso, não existindo consenso e aparecem explicações inexplicáveis em tombamentos abandonados em todo território nacional, onde os doutores de academia argumentam, debatem, mas não conseguem prosseguir além da mesa diretora em assembleias constantes.
A Igreja Matriz de Sant’Anna, e o Convento no alto do Morro de Itaguassú em dedicação a Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, cidade fundada em 22 de abril de 1532 por Martim Afonso de Sousa, é um marco muito importante da história do Brasil, do local da presença da ordem dos jesuítas importante na criação de vilas que depois se aventuram pela Serra do Mar penetrando na “boca de sertão” onde fundam mais tarde a primeira “cidade” do interior do Brasil em 1554, que hoje é a maior da América do Sul e leva o nome de São Paulo de Piratininga.
Estes marcos antigos, Matriz e Convento, estão hoje sobre ameaça de riscos provenientes da ação das intempéries, e precisam ser monitorados para que haja o mínimo de convivência dos munícipes e àqueles que porventura buscam essa cidade litorânea como local turístico.



Para isso estes dois locais citados precisam estar em condições de receberem visitas em suas dependências sendo que a Igreja Matriz de Sant’Anna tem ainda a função primordial de celebração litúrgica, mas está com vazamentos constantes em seu telhado, com clara evidência de falta de manutenção preventiva (não interessa somente a corretiva) tendo vazamentos das águas das chuvas, inundando as dependências da nave central, onde voluntariamente pessoas que residem na cidade fazem o esforço para manterem o local para receber os paroquianos.




Há de reforçar nesta missiva que correm perigo também os retábulos laterais da Matriz por conta das infiltrações provenientes de umidade!
Já o Convento e a Ermida de Nossa Senhora da Conceição, está com suas atividades paralisadas, com as portas fechadas para quaisquer visitas, estando a mercê de vandalismos que possam ocorrer por não haver um quadro efetivo para direcionar as atividades do local.




Há de se supor que seria necessário um esforço conjunto entre os poderes civil e religioso para manter as atividades em funcionamento continuo, pois como consta a placa no edifício é um bem material referido como “Patrimônio Histórico Artístico Nacional” e além de receber a referência de bem tombado deve ser mantido com zeladoria para preservação!
Com a palavra o “eminente” Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que é o instituto brasileiro que tem a competência de gestão, proteção e preservação do patrimônio histórico e artístico do Brasil, devendo cuidar dos Patrimônios Nacionais.
(Consta na página da Prefeitura local como sendo a última intervenção na Matriz ocorrida em 1992 e que manteve o local fechado para obras de restauração por 5 anos!)

Vide:

Diretrizes de Tombamento na Cidade de São Paulo


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Cleptocracia:“Governo de ladrões” controlado nas sombras por uma eminência parda

A UTOPIA DO GOVERNO PERFEITO
Na cleptocracia (gr) o Estado é governado por políticas espúrias onde se desviam verbas de bem comum por meios ilegais com super faturamento de fornecimento de produtos para o Estado. Além da arrecadação que sustenta o Estado através de impostos, taxas e tributos há indivíduos que se apoderam da máquina administrativa para uso de benefício subjetivo se aproveitando do cargo que assume para enriquecimento pessoal nítida aplicação de peculato.
Peculato e Malversação
O peculato corresponde ao crime de subtração ou desvio, por abuso de confiança, de dinheiro público ou bens, para proveito próprio ou alheio, por funcionário público que os administra ou guarda com nítido abuso de confiança pública.
Malversação: má administração, má gerência. Apropriação indébita de fundos, valores durante administração de patrimônio alheio, público ou privado.
Eminência parda
Eminência parda é um assessor influente agindo como conselheiro atuando nos bastidores, podendo ter cargo oficial ou não, sendo considerado braço direito de decisões.
Na política, eminência parda é o indivíduo que atua nos bastidores não sendo o governante do país, mas exerce toda sua influência agindo muitas vezes em nome do soberano acéfalo, que age somente através de seus métodos de coação, tendo muitas vezes penetração máxima no poder executivo, legislativo, judiciário além de influência no poder militar, econômico e religioso.

Em seu estágio pleno, o modelo cleptocrático passa a exercer poder máximo da Nação substituindo o Estado de Direito que fica nas mãos de um grupo controlador que se apropria de todas as esferas de poder com adeptos seguidores deste sistema para construir um poder econômico apropriado às suas ações, instaurando a corrupção política rompendo com o equilíbrio da sociedade alterando a ordem do direito e a cidadania.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Imigrantes andarilhos do Mundo na Nova Roma: Uma “cota” miscigenada de gente habita o Brasil

Amálgama de várias culturas: Uma família, e muitas misturas

Vamos lá ver quem somos nessa amálgama incompleta de um povo que se denomina brasileiro:

Sou parte de uma mistura com a “Santa Terrinha”, da Aldeia de Cadima, lá dos lados de Catanhede, Portugal, por parte de mãe.

Pelo lado paterno sou do Nordeste da Itália, de Vêneto e a tez clara. Pois bem os dois grupos se enveredaram pelo Atlântico e aportaram por essas bandas e “estou cá indo”.

Já pelo lado de minha esposa, o pai tinha traços de holandeses, com cabelo crespo, mas que aqui mudou de categoria e ficou “sarará” como diziam.

Sua mãe é afro-descendente, cabelo liso, e sua avó (mãe de sua mãe) era escrava e seu pai tinha origem nos índios do Brasil. Desta mistura veio ao mundo a filha (minha esposa) que tinha tez mais morena que eu e cabelo bem crespo.

Disso resultaram nossos quatro filhos que a genética definiu do seu jeito num modelo nada igual:
Um filho tem tez clara e cabelo e barba crespa ao extremo, o outro é mais claro e tem barba pouca, estilo caboclo, um pouco ali outro pouco acolá.

Uma das filhas é aloirada, puxando pelo lado lusitano, da mistura talvez dos “imigrantes” suevos e visigodos, bárbaros que povoaram a Península Ibérica e completada pela soma daquele lado holandês do avô materno. A outra acredito que venha um pouco da forma dos mouros que “saltaram” Gibraltar, tendo tez mais escura, numa amálgama completada da avó materna de ascendência africana.

COMIDA: GOSTOS VARIADOS

A família não possui gosto homogêneo, e o paladar é bem diversificado, muito diferente. Este missivista, mesmo possuindo sangue europeu, aprecia o sarapatel, buchada, mocotó, peixe, virado paulista bem caipira e tudo com muita pimenta, o que já não agrada o paladar, de três filhos que são voltados a comidas não tão fortes, estando incluindo as pastas italianas, mas sem “regar” a vinho, que a água-ardente “abriu o apetite”. A “moura” por sua vez já gosta de tudo que tem muito vegetal, do palmito apreciado antes do “Achamento” pelos indígenas, suplemento das carnes magras típica dos galináceos que têm que ser salpicados com muita pimenta, daquelas “malaguetas” que ferve não só o paladar, mas faz chorar de ardência.

Já por parte materna a preferência é pela feijoada, uma variante da mistura do sarrabulho[1], além da carne seca, embora não se exclua o churrasco, esse bem tipicamente brasileiro, (embora se possa supor que foi a primeira maneira de coser as carnes em braseiro feita pelo homem das cavernas) degustado com uma bela cerveja bem gelada, embora a cevada seja no Brasil completada com milho, produto farto que insistem em indicar “cereais não maltados”. Dos holandeses nem o costume do queijo adquirimos, mas uma coisa neles apreciamos: o cultivo e o bom gosto pelo colorido das flores.

Tudo isso completado com as frutas tropicais que abundam pelas terras brasileiras e que as frutas de inverno europeu só completam as festas natalinas de fins de ano.

Os doces são bem simples, onde o bolo de fubá, mandioca e coco têm a preferência sem perder o costume do café matutino bem brasileiro.

Desta somatória podemos chegar a consideração que já perdemos a identidade da língua da pátria antiga, com raras exceções, e também não dançamos mais a tarantela e nem cantamos o fado, não festejamos São Nicolau como os holandeses, não vivemos em tabas indígenas e pouco temos dos ancestrais africanos, mas fomos contemplados com o candomblé, somado aos sabores do acará e vatapá nacionalizado.

Enfim no “frigir dos ovos” acontece uma miscelânea interna no organismo que não se sabe o que realmente o que foi ingerido que fez bem ou mal.

Somos ítalo-brasileiros, luso-brasileiros, holando-brasileiros, afro-brasileiros, com adição pelo gosto autóctone das redes e a tapioca, o substituto do pão de trigo, completada com os pescados dos grandes rios caudalosos circulados por canoas.

Não temos mais pertencimento e identidade com a terra natal de origem de nossos antepassados, vivemos e respiramos no Brasil, curtimos o lúdico do samba, frevo, catira, fandango e futebol que mesmo não sendo originalmente brasileiro faz parte da “paixão nacional” de tantos povos e tantas culturas que não sabemos dimensioná-las por completo em diversidades diferenciadas!

Hoje todos nós estamos ainda em um cadinho efervescente dessa miscigenação que Darcy Ribeiro com toda propriedade denominou “Nova Roma” e que alguns insistem, por alguma característica ou uma ideologia tacanha da política, separar-nos entre nós e eles!

Quem são os nós e quem são eles?
A quem interessa a separação desta linda diversidade cultural?




[1] Prato típico português feito com  miúdos de porco e condimentos ("sarrabulho", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 2013, http://www.priberam.pt/dlpo/sarrabulho  [consultado em 03-05-2016].)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Bairro-Jardim Pacaembu e o “Estádio Paulo Machado de Carvalho”

O Início do Conceito de Planejamento Urbano em São Paulo: Cidade-Jardim

A  City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Ltd[1] ou simplesmente Cia. City foi fundada em Londres em 1911. Em 1912 instalava seu escritório em São Paulo introduzindo o conceito urbanístico das “garden-cities” inglesas, aproveitando a topografia e grandes áreas verdes existentes criando padrões de zoneamento diferenciados para a época, elaborando toda uma infra-estrutura como água, luz, esgoto, vias pavimentadas e transporte, diferenciando do conceito implantado até então em São Paulo que recebei as primeiras orientações de um plano diretor, ajudando na elaboração de leis municipais de zoneamento que só viriam a ser implantadas em 1972 dando direção a uma urbanização mais direcionada em São Paulo.

A Cia. City foi a empresa que ditou as normas urbanísticas modernas para a Cidade, com novos conceitos que influenciaram engenheiros e urbanistas que trabalharam sobre suas regras, como o caso de Jorge de Macedo Vieira que ao lado de Barry Parker, arquiteto e urbanista inglês responsável pelos projetos do Jardim América e Pacaembu colaborou e adquiriu vasta experiência profissional no conceito urbanístico da “cidade-jardim” espalhando-se pelo Brasil.

Tudo isso teve início através do urbanista e arquiteto francês Joseph Antoine Bouvard que viera rara São Paulo contratado pelo Prefeito Antonio Prado para elaborar um plano urbanístico para o Vale do Anhangabaú. Regressando a Europa procurou investidores convencendo-os no enorme potencial que se oferecia a nova Cidade. Um a gleba imensa estava aberta para novos empreendimentos e muitas dessas terras estavam com o empreendedores imobiliários locais.

A Cia. City assumiu o compromisso de drenar pântanos e charcos na margem do Rio Pinheiros onde depois se tornaria os Bairros Jardim América, seu primeiro loteamento, seguido dos bairros do Pacaembu[2], Alto de Pinheiros, Alto da Lapa, e outros.

“Inúmeras são as razões que aconselham a construção do lar próprio no Pacaembu”, anunciava a Cia. City em 18 de abril de 1938 o mais novo bairro paulistano. O bairro do Pacaembu já estava na planta da cidade desde 1914 e em 1920 havia somente duas construções no bairro: O Asilo dos Expostos e o Hospital Samaritano. Dentro do plano de urbanização local estava a canalização do Córrego e a Avenida Pacaembu, ocorrido em 1922. O loteamento do bairro do Pacaembu localiza-se no Vale do Ribeirão Pacaembu sendo que a da Companhia City iniciou a partir de 1925 e urbanização 998.130 m² acrescidos de mais 400.000 m², adquiridos da Santa Casa de Misericórdia.

O ESTÁDIO DO PACAEMBU

Da área do Bairro Pacaembu a Cia. City cedeu 76.000 m2 para o governo estadual que repassou à prefeitura. Assim em 1936 começava as obres do Estádio Municipal do Pacaembu[3] conforme projeto do Escritório Técnico Ramos de Azevedo-Severo e Villares.

O Estádio do Pacaembu foi inaugurado em 27 de abril de 1940, com capacidade para acolher setenta mil pessoas, teve a presença do então de Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, do interventor  Adhemar de Barros e do prefeito de São Paulo Prestes Maia.

Dentre os eventos mais importantes da história esportiva do Estádio do Pacaembu, destacam-se como uma das sedes da Copa do Mundo de 1950.

 Outro destaque realizado no Estádio do Pacaembu foi a disputa de parte dos Jogos Panamericanos de 1963 sendo a cidade de São Paulo sede dos mesmos.

O Estádio Municipal do Pacaembu leva hoje o nome do empresário Paulo Machado de Carvalho o "Marechal da Vitória", por ter sido vitorioso nas campanhas das Copas do Munde de 1958 e 1962, como chefe da delegação brasileira.

O Pacaembu contava ainda com a Concha Acústica, usada para apresentações de ópera e música clássica. Ela, porém, foi demolida em 1969 para a construção do “Tobogã”, arquibancada lateral, atrás de um dos gols.

Em 2008, o estádio do Pacaembu ganhou o Museu do Futebol, que, por meio de equipamentos interativos e tecnológicos, conta a história do esporte brasileiro.

O Pacaembu faz parte da história de São Paulo e seu desenvolvimento vertiginoso segue novas tendências dentro de um plano diretor e alterações de zoneamento no século 21.                               


Referências:

O Estado de São Paulo, 18 de abril de 1938

BONFATO, Antonio Carlos. Macedo Vieira: Ressonâncias do Modelo Cidade-Jardim. São Paulo: Senac, 2008

Cadernos Cidade de São Paulo- Estádios, Instituto Cultural Itaú. São Paulo: ICI, 1994



[1] “Conhecida como Cia. City, a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited foi organizada em 1911, com escritórios em São Paulo, Londres e Paris, associando o arquiteto Joseph Bouvard e o banqueiro Édouard Fontaine de Laveleye, ambos franceses, a um grupo de investidores e proprietários de terras nos arredores de São Paulo, integrantes da elite paulista e com acesso franco à cúpula político-administrativa do estado. Cincinato Braga, político paulista, Horácio Belfort Sabino, advogado e proprietário de terras, e Victor da Silva Freire, professor da Escola Politécnica e diretor de Obras Públicas da Prefeitura de São Paulo, estiveram ligados ao início da atuação da Cia. City. Lord Balfour, presidente da São Paulo Railway Co. e governador do Banco da Escócia, também fazia parte da primeira diretoria da empresa. Com os capitais reunidos, a Cia. City comprou aproximadamente 12 km² de terras nas vizinhanças das áreas que já vinham sendo ocupadas pelas camadas altas da sociedade local. Constituída, a companhia iniciou a urbanização de partes dessas terras e a venda dos lotes, entrando no movimentado mercado imobiliário paulistano. Ainda hoje a Cia. City é atuante nesse mercado e seu sucesso derivou, em grande medida, das estratégias inovadoras e bem traçadas que marcaram seus primeiros anos. Estavam entre essas estratégias, por um lado, técnicas de venda a prazo dos lotes, de financiamento da construção das casas e de seleção dos compradores e, por outro lado, a busca de soluções urbanísticas que tornassem diferentes e atraentes seus loteamentos”. (Jardim América, o subúrbio jardim em versão brasileira, TITO FLÁVIO RODRIGUES DE AGUIAR Arquiteto. Doutorando em História, UFMG)

[2] BAIRRO DO PACAEMBU
Localização: Pacaembu - Processo: 23972/85 - Tombamento: Res. 8 de 14/3/91 - Publicado no Diário Oficial do Estado: Poder Executivo, Seção I, 16.03.1991, p. 37/38 - Retificação: Poder Executivo, Seção I, 19.03.91 - Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico: Inscrição nº 23, p. 307, 25/04/1991

[3] ESTÁDIO PAULO MACHADO DE CARVALHO
Localização: Entre as Ruas Desembargador Paulo Passalacqua, Capivari e Itápolis e Praça Charles Miller Pacaembu Processo: 26288/88 - Tombamento: Res. SC-5 de 21/1/98 - Publicado no Diário Oficial do Estado: Poder Executivo, Seção I, 02.04.1998, p. 60 - Livro do Tombo Histórico: Inscrição nº 322, p. 81, 26/8/1998

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Roupa do monge e a Casa do Povo em São Paulo

Vigiar e punir
Ontem (14-4-2016) , fui à Casa (Municipal) do Povo, ao menos falam que ela o é, para assistir a um evento em São Paulo!
Meu asseio era o mais coerente possível de um indivíduo em um país tropical, uma calça de brim surrada, mas inteira, uma camisa básica, um sapato “mocassim” que já andou mais do que esse observador nas transformações da cidade! Não estava com trajes que pudesse ser inconveniente para a ocasião da abertura de um departamento de acervo para pesquisa em história, nada me comprometia que pudesse desabonar este citadino, somando a isto o asseio da barba feita e cabelo cortado!
No cartaz, que insistem em chamar de fôlder, onde anunciava tal evento que, aliás, o Centro muito contribuirá para pesquisas futuras no âmbito de estudo de vereança, não havia menção de alguma vestimenta padrão ou algum rigor à parte.
Corri contra o tempo, pois São Paulo é uma cidade sem previsão e “tudo pára do nada”.
Cheguei ao local esbaforido e o “relógio corria” e quanto mais eu corria mais o tempo andava. Por sorte o evento era no primeiro andar, nem o elevador esperei e “escalei” escada acima adentrando nas imediações do evento, evidentemente que pelo meu atraso, já estava próximo do final.
Havia a minha frente um obstáculo de dois seguranças gentis no trato, e um destes servidores requereu-me informações básicas do tipo inicial de um “pois não”, aonde o senhor vai?
Prontamente respondi que iria ao evento do lançamento do Centro de Memória. Tomei um susto quando o servidor respondeu se eu estava certo onde eu queria ir, pois “achava” que aquele evento não era o que eu estava interessado. Respondi que não estava cometendo nenhum engano e era ao certo aquele recinto mesmo, e, até falei o nome da sala, pois estava documentado com o endereço do local. Enquanto eu expunha, e o tempo corria, o referido segurança media-me com olhar de censura de cima em baixo, sendo que até o jornal que eu segurava ele leu de pronto, e por fim depois dessas réplicas e tréplicas deixou-me passar.
Quase nada consegui ver e na saída deparei-me com o presidente da Câmara todo radiante em seu corte bem aprumado de terno dando entrevista focando o sucesso do evento parlamentar.
Havia uma pequena mesa de “petiscos-padrões”, básicos de todo evento da Casa nas finalizações de quaisquer eventos, e bolachinhas coloridas enfeitavam a referida mesa. Passei de retro, tomei um café em dois goles, meu vício constante, falei com um amigo e sai rindo da roupa deste monge que vos escreve.

Parabéns ao sistema de Segurança da Casa do Povo, afinal “paletó e gravata” faz parte da praxe de aberturas de portas, mesmo que o “sujeito” seja oco em seu interior!!!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A INTRINCADA REDE DAS ARTES DO PÓS-GUERRA E O MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO

Ação e Reação do comércio de valores: direitos e obrigações

Na atualidade vemos estampada na mídia notícias que herdeiros de renomados artistas europeus tentam reaver obras que vieram para compor o acervo do Museu de Arte de São Paulo que teve todo o incentivo de Assis Chateaubriand sendo reconhecido como seu fundador juntamente com o marchand e crítico de arte italiano Pietro Maria Bardi, em 1947.

Sabe-se que muitas obras foram adquiridas em muitas partes da Europa de grandes artistas de várias tendências, por grandes museus mundiais que detém estes acervos em seus catálogos e são objetos de grande valor em exposições, merecendo toda segurança para preservar sua integridade.

Há referências (etiquetas) nas peças adquiridas para o Masp da galeria Flechtheim, mas isso não tira o direito a propriedade de quem as adquiriu. Há de se perguntar quem é o verdadeiro proprietário das obras que questionam os herdeiros na atualidade. Se houve a venda destas obras provavelmente foram feitas transações legais e regulares de comércio entre o vendedor da galeria que diante de uma quantia financeira fez o devido procedimento de constituir uma nota fiscal de venda do produto para que depois o comprador passasse por alfândegas exibindo a legalidade do produto adquirido que se tornaram integrantes do Museu de Arte de São Paulo!

Com uma visão progressista Chateaubriand foi o grande idealizador dos Diários Associados tendo participação ativa no jornalismo Nacional, sendo ainda responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora do país, a TV Tupi e estava à frente destes negócios de arte percorrendo galerias pela Europa que tentava levantar-se da destruição da Guerra.

"Chatô"[1] sabia ser um bem humorado anfitrião, e graças ao seu senso de aproximar pessoas soube angariar para planos futuros as maiores benesses, e deste modo constituiu o acervo do Museu de Arte de São Paulo com seu amigo, marchand e jornalista italiano Pietro Maria Bardi, que dava a diretriz dizendo: 
“Nós temos que passar como dois hunos sobre a Europa devastada pela guerra comprando quadros. A nobreza e a burguesia européias estão quebradas, seu Bardi, quebradas! Se corrermos, vamos comprar o que há de melhor entre os séculos XIII e XVII a preço de banana! A firme convicção de que havia tesouros na Europa à espera de quem tivesse dinheiro na mão nascera da observação do cotidiano de franceses e ingleses, um ano antes. Chateaubriand fizera uma viagem de poucos dias à Alemanha, França e Inglaterra e voltara impressionado com o estrago e a penúria produzidos pela Segunda Guerra Mundial”. 

Um exemplo das relações com o mercado da arte na Europa em carta cabográfica  para o industrial Francisco Pignatari no endereço de sua residência na Rua Haddock Lobo:



"EM MINHAS MÃOS QUADRO VAN GOGH NOURRICE FASE HOLANDEZA CATÁLOGO COM EXPERTISE SCHOELLE CONSULTE INTERESSA CHATEAUBRIAND RESPONDA URGENTE PANAIR BRASIL PLAZA ATHENEE HOTEL PARIS ABRAÇO-PAULO SOLEDADE"

O Brasil assim, com incentivos das elites empresariais formava um acervo dos mais respeitáveis do mundo.

O Museu de Arte de São Paulo foi inaugurado em 02 de outubro de 1947: Conseguiu arrecadar 3 milhões de cruzeiros (moeda vigente no Brasil à época) da fazendeira Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto, do cafeicultor Geremia Lunardelli (de quem se dizia ser "o maior plantador de café do mundo") e do industrial Francisco "Baby" Pignatari, e não teve dificuldades para obter do presidente Dutra autorização para trocar os cruzeiros por dólares - quase 160 mil dólares uma soma considerael para a época. Quinze dias depois, em fervilhante festa a rigor no casarão da família Jafet, na Avenida Brasil, ele "apresentava à sociedade paulista" o produto das primeiras doações para a galeria - que agora já era chamada por todos de Museu de Arte de São Paulo:

Dois Tintoretto, um Botticelli, um Murillo

Um Francesco Francia

Um Magnasco adquiridos em Roma.

Deste modo se iniciava um acervo dos mais respeitáveis do mundo da arte.

QUEM DETÉM O DIREITO A PROPRIEDADE DO BEM PRODUZIDO E ADQUIRIDO? 
 
Bibliografia:
“O Cruzeiro”, edição de 01 de agosto de 1959, número 42, ano 31.

Morais, Fernando, 1946- Chatô : o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras,1994.

Macedo, Ana Macedo de...(et al.). Baby Pignatari: O Centauro de Bronze. Porto Alegre: Metrópole, 2006.

Vide:
Baby Pignatari em Roma: Mecenas do MASP




[1] Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.