sábado, 3 de agosto de 2013

A Construção de um Mercado Municipal na Vila de Santo Amaro

Um entreposto de mercadorias dos arrabaldes de Santo Amaro

“...Pelo cidadão Presidente foi apresentada a indicação do teor seguinte: Considerando que a falta de um mercado nesta Vila, torna-se vexatória aos seus habitantes, mormente a classe menos favorecida da fortuna. Considerando que dessa falta resulta o monopólio dos gêneros de primeira necessidade que são vendidos pelos produtores aos comerciantes, por atacado, com grave prejuízo do varejo franco ao povo. Considerando que a construção dos mercados não se torna onerosa ao cofre Municipal, antes é ao contrário uma fonte de renda para o Município. Indico para que a Câmara, se estender em sua alta sabedoria, chame concorrentes para esta obra de acordo com a planta, perfil e demais estudos que nesta data tomo a liberdade em submeter a apreciação da Câmara.
Sala das sessões em três de abril de mil oitocentos e noventa e três. Carlos (da Silva) Araújo. Posta a votos a indicação foi aprovada, ficando o cidadão intendente encarregado de chamar concorrentes para a referida obra.”

O edital da obra foi publicado em 5 de maio de 1893, assinado pelo então intendente Municipal, Luiz Gonzaga de Miranda Guerra, e sua construção iniciada em 15 de julho de 1896, cabendo a obra ao empreiteiro Alfredo Formigoni, sendo o contrato celebrado com a Câmara Municipal da Vila de Santo Amaro representada pelo intendente capitão Baptista da Luz Mendes pela quantia de nove contos quinhentos e trinta e oito mil réis (9:538$000)  recebidas em “quatro prestações”. A área do edifício será de 17,00 metros x 17,00 metros, com baldrame reforçado assim com as paredes e a sustentação do telhado de “boa madeira” que terá ainda oito pilares, mais tarde alteradas, que complementa o alpendre com caimento do telhado em duas águas com telhas fornecidas pelo fabricante Andrea, industrial residente na Vila. As portas internas serão lisas com 1,10m x 2,50m, e as externas 2,20 x 3,40m, abrindo em duas folhas, com janelas de 1,10m x 1,00, sendo as madeiras de canela, cedro ou outra de igual duração. Toda a construção para a “feitura” estará a cargo da “Marcenaria MontAmaro e Irmão”. O acabamento será em reboco que depois serão caiadas. Foi previsto ainda uma bomba de poço para abastecer o mercado de água potável.
Localizado na atual Praça Doutor Francisco Ferreira Lopes, anteriormente denominada de Largo São Benedito e Praça do Mercado, denominação essa efetuada em Ata da Câmara Municipal da Sessão de 31 de novembro de 1896, tem em todo seu aspecto uma estrutura reforçada por colunas em seus dois alpendres.

Dava o construtor como garantia do serviço um terreno na Rua Liberdade, atual Rua Irineu Marinho, na Vila de Santo Amaro, somado a oito mil tijolos e duas mil telhas existentes no dito terreno. O contratante nomeou seu fiador idôneo o senhor Cenerino Formigoni que juntamente com Alfredo Formigoni aceitaram a empreitada, sendo as testemunhas do referido contrato os senhores José Alves Alvim e José Pereira da Paula.

Com o desenvolvimento da área agrícola e a comercialização de cereais e madeira, carvão, foi acelerada a construção do mercado, pois recorriam produtos de municípios avizinhados como Itapecerica e M’Boy, o atual Embu das Artes e Cotia. Tudo isto colaborou anteriormente para a “exportação” de mercadorias para a cidade de São Paulo através de linha a vapor inaugurada oficialmente em 14 de março de 1886.

Toda a atividade econômica afluía para o centro do Largo da Bola, o atual Largo Treze de Maio, sendo o escoamento para São Paulo através da Rua Tenente Adolfo, a atual Avenida Adolfo Pinheiro. Foram tomadas medidas relacionadas ao abastecimento urbano e a saúde pública, pois em 1889 houve um surto de varíola que obrigou os governantes adotarem certas medidas de higiene pública, exigindo qualidade no abate de reses, melhorias e construção de hospital e estudos de abastecimento de água para a população. Isto gerou a necessidade de um mercado local já pronunciado pelo intendente Luiz da Fonseca Galvão em sessão de 2 de abril de 1890 que julgava conveniente a necessidade de um mercado no centro da Vila, que posto em votação foi aprovado.

Antes funcionava o modelo das “Casinhas”, comuns no Brasil colonial e logicamente na Capital paulista. Eram pequenos comércios, “portas de venda” de gêneros alimentícios nas ruas de São Paulo, inclusive uma rua foi denominada Rua das Casinhas, depois chamada de Rua do Palácio e finalmente Rua do Tesouro, que fechava o triângulo pela Rua Direita, São Bento e Rua da Imperatriz, que depois da República passou a ser denominada de “15 de Novembro”.

Santo Amaro expandia-se de forma diferenciada aos outros municípios paulistas que a partir de 1870 consolidavam a cultura cafeeira, somada a produção de algodão para o Oeste paulista, e ampliava as colônias imigratórias.

Santo Amaro não era produtora nem de café e algodão para o mercado externo! Era abastecedor da cidade de São Paulo e parte de um subúrbio de produção rural.

A primeira iniciativa de um centro abastecedor foi criar um Mercado Provisório na Vila de Santo Amaro em 1894, tendo como zelador Horácio Bertholdo de Andrade Vasconcellos, regulamentada pelo Código de Postura Municipal que já havia prenunciado na sessão de 2 de abril de 1890 através do intendente Luiz da Gouveia Galvão a “necessidade de um mercado nessa Vila” e implantada com aprovação da Intendência de Obras do governo do Estado em 25 de junho de 1890, sendo proposta a sua localização no Largo Municipal situado no trajeto para a região de Itapecerica da Serra, entre as ruas Direita, hoje Capitão Tiago Luz, onde estava situada o maior número de casas comerciais e Rua da Palha, atual Rua Paulo Eiró, ligação do Largo (praça) Municipal ao Largo da Matriz. Foi deliberado em 2 de setembro de 1894 alugar a casa de José Antonio Marianno Baretto por vinte cinco mil réis mensais.(25$000) lavrado o contrato com a intendência.

A inauguração do Mercado Municipal tem como data presumível o dia 23 de maio de 1897, quando foi expedido um recibo de 15$000 réis para “foguetório para a inauguração do mercado”, assinado por Amaro Antonio da Silva, sendo então o Largo São Benedito denominado de Praça do Mercado, que somado ao Largo Municipal, que passou a ser, a partir de 7 de maio de 1894, Praça Marechal Floriano Peixoto, acesso ao Largo da Estação, próximo a atual Praça Santa Cruz, onde estavam todas as atividades comerciais do local, sendo que os produtos produzidos em Santo Amaro alcançavam o mesmo preço dos de mercado da Capital, disto resultando o montante de tributos da arrecadação do Município de Santo Amaro.



“É EXPRESSAMENTE PROIBIDO O EXCESSO DE VELOCIDADE BEM COMO ABRIR O ESCAPAMENTO DENTRO DO PERÍMETRO URBANO”
(dizeres da placa)

Na cerimônia de inauguração do Mercado Municipal, além do afluxo da participação popular, estiveram presentes ainda o padre Luiz Bittencourt e um séquito municipal recém-eleitos, a saber: Benedito Branco de Miranda, coronel Luiz Schmidt, capitão Felix Avelino de Moraes, Amaro Antonio de Oliveira e Silva, Tenente Coronel Carlos da Silva Araújo e Amaro Vieira de Moraes.

A “exportação da madeira, uma das principais fontes de riqueza popular também criava o problema da devastação das matas”. É o momento que a demanda sofre taxação sobre a fabricação de carvão, muito consumido pela cidade de São Paulo abrindo ainda o mercado como modelo de feiras livres de madeira, gêneros alimentícios e manufaturados como tecidos, arreios de montaria, ferragens, louças, bebidas, nos terrenos próximos a estação da The São Paulo Tramway, Light and Power Co Ltd. que impulsionava estas relações através do transporte ferroviário.

O terreno supracitado foi concedido para a “Companhia Carris de Ferro São Paulo a Santo Amaro”, do idealizador da mesma, o engenheiro alemão Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, naturalizado brasileiro e conhecido por Alberto Kuhlmann (foi deputado pelo PRP e participou da constituição paulista de 1891) em sessão realizada pela Câmara Municipal de 5 de outubro de 1885, e que mais tarde foi administrada pela The São Paulo Tramway, Light and Power, quando desativou por completo a “Companhia Carris de Ferro São Paulo a Santo Amaro” no  ano de 1913. Hoje no local, onde se localizava a antiga estação, está implantada a Escola Municipal Professor Linneu Prestes, com frente voltada para a Avenida Adolfo Pinheiro, 511, somado ao antigo pátio da Eletropaulo hoje área da expansão da linha 5, a Lilás do Metrô, compreendendo as duas ruas paralelas, Padre Anchieta e Conde de Itu.

Em 30 de abril de 1903 foi contratado o empreiteiro Francisco de Bonni para que deste modo o mercado sofresse as primeiras intervenções em obras de reformas devido à pujança da cidade de São Paulo que influenciava sobre maneira o desenvolvimento da Vila de Santo Amaro, onde foi implantada a primeira experiência da Colônia Paulista, quando chegaram em 1829 os primeiros colonos alemães na região.

O Mercado Velho, como comumente ainda se denomina o local, onde por décadas se promoveu a concentração da produção agrícola de uma lavoura local que produziam em seu espaço rural abundância de legumes, milho, feijão, mandioca, batata, e de pequenas criações, além de uma produção fabril de mobília e arreios denotando existir gado, o que urgia também a necessidade de um Matadouro, oficializado na Câmara Municipal da Vila de Santo Amaro em Sessão de 14 de janeiro de 1890.

Um Novo Mercado Municipal

Após mais de meio século de préstimos a construção de um novo mercado municipal, em rossio, para pastagem de animais, iniciado em 1954, à Rua General Osório, atual Rua Ministro Roberto Cardoso Alves, número 359, na confluência da Rua Padre José de Anchieta, próximo ao Cemitério de Santo Amaro (fundado em 1856), mercado este que custou aos cofres públicos a importância de $ 7.827.075,40 cruzeiros e foi inaugurado em 13 de novembro de 1958.

Deste modo o antigo mercado, que tanto contribuiu para o desenvolvimento comercial de Santo Amaro, perdeu sua função mercantil, mas teve o reconhecimento como bem cultural e patrimonial apresentado no início de 1970 por Lúcia Piza Figueira de Mello Falkenberg e concretizado em 21 de setembro de 1972, com a inscrição no livro de Tombo Histórico do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, CONDEPHAAT, processo nº16705/70, com Tombamento em 21 de setembro de 1972, publicado no Diário Oficial em 22 de setembro de 1972, inscrição nº66 no Livro de Tombo, página 6, de 4 de outubro de 1972.



No Mercado Municipal onde se promoviam um grande afluxo de comércio, na década de 1960 se tornou Depósito Municipal da Divisão de Parques e Jardins incorporando após a sede do “Grupo de Escoteiro 9 de Julho” e depois acolheu o acervo do “Museu Folclórico” , seguido pelo “Centro de Atividades de Comunicação e Expressão”, CACE, e, na atualidade  abriga a “Casa de Cultura Manoel Cardoso de Mendonça” situada na atual Praça Praça Doutor Francisco Ferreira Lopes, 434.

O QUE FOI FEITO DO MUSEU FOLCLÓRICO DE SANTO AMARO E SEU ACERVO?



A dinâmica da história é surpreendente, por vezes parecem incontroláveis as interferências humanas, que por outro lado também, com todo o arcabouço armazenado, insiste em persistir como legado das transformações ocorridas no espaço ao longo do tempo, como um marco a dizer para as gerações seguintes:

“Mesmo com toda a autodestruição capital, eu persisto em existir, e sou o Mercado do mercador, independente do que ele mercantilizar”!

Todas e quaisquer informações que possam somar ao assunto serão de bom alvitre e podem ser postadas em comentários no blog.

REFERÊNCIAS:

PASSAGLIA, Luiz Alberto do Prado. Mercado Velho de Santo Amaro. São Paulo: Registros 2. Publicação do Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria do Município de São Paulo. 1978.

RODRIGUES, Marly. A Instituição do Patrimônio em São Paulo-1969-1987. http://www.mem.com.br/Imagens_do_passado.pdf

GAZETA DE SANTO AMARO de 30 de março de 1961



Atas de Santo Amaro: Revistas do Arquivo Municipal

Revista de Assuntos Sociais e Culturais “Interlagos, set. 1961. Nº. 20 ano 11.

Fotos antigas: Departamento do Patrimônio Histórico Municipal de São Paulo.

Santo Amaro, Interior Urbano:

terça-feira, 16 de julho de 2013

ALTARES DE SANTO AMARO e o MUSEU DE ARTE SACRA DE SÃO PAULO

“RETÁBULOS PEREGRINOS”

No hodierno os vínculos da História de Santo Amaro com a sua origem caipira, vão, aos poucos, perdendo suas características. A linha 5 do metrô amplia-se pela região sul de São Paulo, expandindo-se para a chácara Klabin, transformando toda a região. A Matriz de Santo Amaro, marco símbolo, tornou-se diocese desmembrada há 20 anos da Arquidiocese de São Paulo, está em recuperação em suas pinturas sacras e na alvenaria e reboco.


Logicamente a amplitude de estudos de uma parte da historiografia adormecida atingiu trabalhos de outros pesquisadores anteriores que registraram retábulos expostos no Museu de Arte Sacra e representados na arte de Miguelzinho Dutra, além da imagem de Cristo crucificado em marfim e algumas peças religiosas em prata, como os ostensórios, auréola, e as imagens sacras, inclusive de São Bento, expostos na Sala Santo Amaro, no Museu de Artes Sacras de São Paulo.
ACERVO DO MUSEU DE ARTE SACRA DE SÃO PAULO

Ao Mosteiro da Luz dos Campos do Guaré, em 1603 foi trazida a imagem de Nossa Senhora da Luz, às margens do Rio Anhembi nos Campos do Guaré, hoje Bairro da Luz.

Em 1918, D. Duarte Leopoldo e Silva, para perpetuar e conservar o acervo reuniu objetos sacros pelo interior de várias paróquias de São Paulo pela sua freguesia e enviou peças sacras ao extinto Museu de Arte Sacra da Cúria Metropolitana, permanecendo no local até 1970.

Este acervo foi sendo formado e ampliado com peças dos séculos 17 e 18, muitas até do interior do Brasil, sendo considerado um dos mais completos museus do país no gênero, compondo de aproximadamente 1.500 unidades, ampliado ainda com doações particulares e de aquisições de provimentos do Conselho Estadual de Cultura.

O Museu de Arte Sacra foi celebrado entre o Governo do Estado e a Mitra Diocesana de São Paulo pelo Decreto de 28 de outubro de 1969 onde foi criado o Museu de Arte Sacra de São Paulo, onde se acolheu o acervo no Mosteiro da Luz (dos Campos do Guaré).

Coube ao Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Agnelo Rossi a empreitada do assentamento de caráter permanente, pois o acervo era apresentado em exposições itinerantes desde os tempos de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta.

A REFORMA DA MATRIZ DE SANTO AMARO


A antiga Matriz de Santo Amaro, erigida em 1686, aparece em desenho* de Miguelzinho Dutra, feito na década do ano de 1840 representada com a torre do campanário separada do corpo da igreja, comum no primeiro período colonial. (Vide nota: carece de fonte)

“Dois documentos reveladores: Quanto ao processo de “destruição” e reconstrução por que passa(va) a igreja, vemos que em agosto de 1903 é aprovada por unanimidade a proposta de reforma de Alfredo Formigoni. Encontramos, de 1911, um inventário pormenorizado elaborado pelo pároco da igreja, datado de julho, ocasião em que arrola imagens da Paróquia, colocando em primeiro lugar aquela da devoção da cidade, Santo Amaro, entre outras, como a de São Benedito e São Bento, a penúltima mencionada por Mário de Andrade e a última registrada na foto enviada ao IPHAN em 1937.


O curioso é que ao realizar este inventário da igreja há referência direta a “Três altares colados e dois no depósito, sendo os dois da Matriz Velha. Trinta de quatro palmas, sendo vinte e seis de diversas côres e oito pequenas”. Que significará a palavra “colados”? De todos os modos já poderíamos deduzir, através deste recenseamento, que provavelmente os “dois da Matriz Velha” são os que, ora restaurados, nos ocupam nestas reflexões, já se achando em depósito em 1911, e, portanto, não mais no recinto da igreja.

Fato é que o mistério dos dois altares de Santo Amaro talvez tenha sido desvendado ao encontrarmos, no Arquivo da Cúria o “Provimento de Visita” de D. Duarte Leopoldo e Silva, à Paróquia de Santo Amaro em 1909. Nele, depois de introdução à sua visitação, o arcebispo, de maneira contundente e crítica, se refere ao estado da igreja e seus altares e devoções, narrando em seu item 5 que: “ O Altar-mór, todo de estuque ou de tijolos (...), sem estilo, sem arte e sem gosto, exige reforma completa. Será mais conveniente substituí-lo pelo primitivo, todo de talha, que ainda se encontra em todas as suas peças, bem que desarmado...” (Documento enviado ao Arcebispo, 22/04/1910.)”

(Amaral, 2005)

ALTARES

Outro detalhe importante recolher imagens e fazer a relação das duas cidades, São Paulo e Santo Amaro, que após 1935 passou a integrar o território da Metrópole paulista, são as obras expostas no Museu de Arte Sacra, onde se destacam os dois retábulos de Santo Amaro que embora mantenham semelhanças são originalmente distintos nas talhas, havendo nisso citação de Germain Bazin das obras reunidas pelo arcebispo dom Duarte Leopoldo e Silva:

“A matriz, reconstruída, de Santo Amaro, nos mostra hoje dois altares laterais do estilo João V, fitomorfo, sem uso de rocaille. Mas são apenas fragmentos, mal remontados; um deles foi dotado de um ornamento rococó enquadrando a tribuna, que deve proceder de outro altar; quanto ao outro, foi remontado ao contrário das volutas que coroam os piedroits.” (Bazin, 1956,p.304).

No Catalogo do Museu de Arte Sacra de São Paulo há a citação do retábulo em ficha de tombo número 1282, página 203, com foto em preto e branco na página 253, que no catálogo foi revelada com negativo invertido, descreve:

“Colunas e arcadas de altar, madeira policromada, século XVIII, com as dimensões de 2880 mm de altura por 2230 mm de largura. Trabalho completo de talha barroca, com desenhos esculpidos de anjos, querubins, galos, pelicanos, conchóides, folhagens e flores, além de capitéis esculpidos nas colunas e arcos emoldurados. As peças estão repintadas e o ouro recoberto com tintas de várias cores e purpurina, mas apresentam riquíssimo trabalho de escultura em madeira, com requintados detalhes. Acompanham essas talhas duas mesas de altar, da mesma época, com pintura marmorizada. Procedentes da Matriz de Santo Amaro.”

“Os dois retábulos da matriz de Santo Amaro são encimados por arcos com volutas e folhas de acanto, de inspiração floral e vegetal, com cornija e friso ainda trabalhado com ornatos em estilo maneirista, mesmo sendo eles altares existentes por volta de 1732 (AMARAL, 2005, P.22-27). Quando vistos por Germain Bazin na década de 50, certamente por meio de fotografias de Germano Graeser, ficou ele atento às remontagens que sofrera. Agora restaurados e expostos no MAS-SP pode-se notar a beleza simbólica pelas flores e no colorido que nos foi devolvido pelo trabalho precioso do restaurador Julio Moraes.”(Tirapeli, Retábulos Paulistas, p.278.Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano)

“Os altares da matriz de Santo Amaro: Sabe-se que havia em Santo Amaro em inícios do século XX, três altares “velhos” ou antigos: o da Capela N.Sra. do Rosário, com tabernáculo, o altar de N.S. do Bom Conselho, e outro “de igual formato” e que “está desarmado”; além de haver um “grande e majestoso altar-mor de madeira” desarmado (e que já fora igualmente mencionado por D. Duarte no relatório de sua visita).

“Matriz, velho e espaçoso templo, reformado na frente com uma bela torre de solidíssima construção, alicerce de pedra de cantaria, e todo mais de tijolos. A igreja possui três altares como atesta o Pe. Luiz Ignácio Tacques Bittencourt (*17-01-1853 / + 03-01-1900)  sendo o altar-mór de recente construção, de tijolos e cimento com três degraus. ...

No corpo da Igreja existe a velha capela de Nossa Senhora “do Rosário cuja imagem ocupa o nicho do centro; ao lado do Evangelho a imagem de S.Pedro e ao lado da Epístola a imagem de S. Miguel. O altar é de madeira e tem um tabernáculo antigo. No corpo da Igreja ainda e ao lado da Epístola acha-se o altar de N. Senhora do Bom Conselho. ...Este altar é antigo, mas todo pintado de novo; de igual formato existe na Matriz outro altar que está desarmado. Também desarmado existe um grande majestoso altar-mór de madeira” (Relatório enviado ao Arcebispo, 1909, pp. 56-57).



Logo, farto material para explicar a “remontagem”, ou reconstrução destes dois retábulos ocorrida nem se sabe quando, além dos elementos compositivos de todos estes altares, que foram dispersos ou extraviados. Foram exatamente estas montagens mutiladas que causaram espécie a Germain Bazin.



Assim, talvez peças destes altares e do altar-mór tenham servido para a montagem das composições extravagantes e pouco harmoniosas em especial da parte superior deste segundo retábulo, como dissemos, com a justaposição de fragmentos de talha em ritmos verticais, e não de forma concêntrica como seria de esperar. Reserva que também fazemos agora ao outro retábulo.



O trabalho solicitado pelo Museu de Arte Sacra a Júlio Moraes se configura mais como restauro e “reconstrução sensível” destes retábulos com as peças encontradas do que possibilidade de uma real reconstituição dos altares, já que a esta altura parece impossível devolver a eles sua integridade original.



Desta forma, além da tentativa de análise estilística, com os dados da reforma de meados do século XIX, daquela “lastimável” de 1903 e anos seguintes, assim como com os relatórios da visita de D. Duarte em 1909, da descrição do vigário de 1909 igualmente, e com o inventário de imagens e noticias de retábulos, de 1911, podemos ter ideia dos bens patrimoniais em talha existentes na Paróquia de Santo Amaro (assim como de seu acervo em imaginária, e de telas, cujo paradeiro ignoramos) - nesta tentativa de contribuir para desvendar um pouco este intrincado quebra-cabeças.” (Amaral, 2005)


OBSERVAÇÕES:

RETÁBULO: É uma peça entalhada de pedra ou madeira(TALHA) que fica atrás da tribuna, do altar, da mesa; parte posterior do altar, onde se colocam as imagens dos santos. O retábulo passou a ser usado no Renascimento em forma de mármore e pedra, na Itália, e madeira, na Espanha. No Brasil, foram feitos retábulos de pedra, mas com a vinda dos jesuítas começou-se a construir de madeira, com um nicho central e mais tarde foram produzidos com vários nichos à medida que as imagens aumentavam nas igrejas. A arte sacra brasileira possui o conceito jesuítico ou renascentista do final do século 16 e início do século 17. Quatro modelos podem ser apresentados:

1) Estrutura linear – forma de painel – e os seus ornamentos têm características maneiristas, ou seja, com motivos geométricos. Possui relevo baixo e acanhado porque ainda não se tem muita técnica.

2) É comum à utilização de elementos fitomorfos, como folhas de acanto, e proporcionará o início do uso de elementos da natureza brasileira. Suas linhas de composição são inspiradas nos túmulos romanos do século 15.

3) No topo, apresenta um painel ladeado por caprichosas volutas. Suas colunas são decoradas, sendo 2/3 do fuste em caneluras e o terço restante decorado com elementos fitomorfos, encimados por capitel (coríntio) e base com as mesmas características da decoração.

4) Tem função plateresca, ou seja: possuem aspectos que lembram trabalhos em prata, feitos em baixo-relevo.


TIPOS DE RETÁBULOS: Lúcio Costa:

a) PROTOBARROCO: Lembra um grande móvel. Possui uma fachada arquitetônica retangular e um entalhamento entre frontão e colunas, fuste, capitel e canelura. As formas são côncavas e convexas, com pinturas (painel) substituídas por esculturas. Pode-se encontrar exemplos desse tipo na Catedral da Sé em Salvador, juntos também com os de “transição”.

b) BARROCO FRANCISCANO: Colunas torsas (parafuso) revertidas de folhas de acanto, cachos de uvas, cabeças de anjos e cantoneiras. Suas colunas servem de suporte para os arcos. Entre uma coluna e outra há um pilar lembrando portadas românicas. Possui camarim, onde ficam as imagens. Verifica-se, também, a azulejaria.

c) BARROCO DIVERSO: Colunas torsas. Entre uma coluna e outra se pode notar o nicho com dossel, esculturas e anjos. É mais escultórico e trabalhado, com policromia e atlantes na cantoneira.

d) ROCOCÓ: Possui dois momentos: o primeiro, com colunas torsas; e um segundo com caneluras ou com guirlandas. Fundo branco ou azul, tons pastéis. Esculturas ainda arqueadas e com maior leveza. Desaparecem os elementos zoomorfos, ficando apenas os antropomorfos.

e) NEOCLÁSSICO: Pouco escultórico, mais suavizado e com retilineidade. Técnicas escariolli que significa a imitação do mármore a partir da madeira.

*Este desenho feito por Miguelzinho Dutra carece de estudo mais detalhado para abalizar como fato real, pois mesmo sabendo da existência de campanários nas igrejas antigas, não temos essa confirmação na historiografia da Matriz de Santo Amaro, ou seja, da existência desta arquitetura anterior a construção atual e se a mesma representação artística pertenceu à Vila de Santo Amaro.


Bibliografia:

AMARAL, Aracy. Limites de um processo de restauro-Os dois retábulos da Matriz de Santo Amaro. In Altares Paulistas-Resgate de um Barroco. São Paulo, Museu de Arte Sacra de São Paulo, 2005.

BAZIN, Germain. A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1983.

TIRAPELI, Percival(org.). Arte Sacra Colonial- Barroco Memória Viva. São Paulo:Ed. UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 2001.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó. São Paulo:Ed. UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 2003.

Tirapeli, Percival. Retábulos Paulistas. Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Ibero-Americano.


MUSEU DE ARTE SACRA DE SÃO PAULO: Avenida Tiradentes, 676 - 01102-000 - Luz
(Metrô Tiradentes) São Paulo - SP

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Museu da Aeronáutica de São Paulo

Um sonho que virou pesadelo!

JOSÉ RIBEIRO DE BARROS, BRIGADEIRO FARIA LIMA E AMADEU SARAIVA
O sonho das Velhas Águias foi truncado há mais de meio século, quando abnegados da área da aviação propuseram a construção do Museu da Aeronáutica, em prédio próprio, incentivado por nomes como José Ribeiro de Barros, Amadeu Saraiva, Ada Rogato, aviadora reconhecida como "Pioneira das Américas", que tem seu "Cessna 140-A" como peça integrante do museu da TAM, em São Carlos, São Paulo, e tantos outros aviadores, que abraçaram a causa onde o primeiro “objeto concreto” a ser parte integrante do acervo seria o avião JAHU, que cruzou o Atlântico em 1929, pelo comandante João Ribeiro de Barros, sem suporte naval e amerissou no Brasil em grande epopeia.
Cessna 140-A

O hidroavião "JAHU" ficou em determinado tempo nas dependências atrás do Museu do Ipiranga, e seria necessário dar-lhe um local para ser apreciado para as futuras gerações, onde no país dois ilustres brasileiros deram ao mundo os grandes épicos do mais pesado que o ar, desde o “Padre voador” Bartolomeu de Gusmão ao Pai da Aviação, Santos Dumont. Pensou-se em erigir um Museu com a grandeza destes feitos e comportaria um acervo destas “máquinas voadoras”. Primeiro pensou-se em fazê-lo nas dependências do terreno do Museu do Ipiranga, mas com a aproximação dos festejos do 4º Centenário da Fundação de São Paulo em 1954, ousou-se criar um projeto de grande magnitude para que fosse assentado um “prédio moderno” tanto quanto se apresentava ser no momento a grandeza do Estado de São Paulo.
O projeto foi apresentado, mas devido à urgência de atrair para o local o empreendimento de tamanha envergadura, foi usado preliminarmente (e definitivamente) as dependências da Oca, projeto de Oscar Niemeyer, em todo o conjunto arquitetônico do Parque do Ibirapuera. As festividades foram magnânimas e o museu parecia ser uma realidade a se concretizar, pois até a pedra fundamental foi lançada com comparecimento de grandes personalidades. Passou-se o tempo, e nada de ser idealizado o Museu da Aeronáutica.
JAHU

Mais tarde foi desalojado do prédio ocupado do Ibirapuera e o acervo foi desmembrado, podendo-se afirmar que o hidroavião Savóia Marchetti, o tão conhecido JAHU, anteriormente ao feito da travessia do Atlântico pelo comandante João Ribeiro de Barros, fôra batizado de Alcíone, evocação ao nome como “ave que vive no mar”, de fabricação italiana, está na atualidade no “Museu Asas de um Sonho”, da TAM, em São Carlos, recuperado das intempéries de insetos e outras pragas, uma peça única construído de madeira naval, e o museu tão decantado como um sonho “voou como uma ave para sempre” e jamais foi construído, tudo ficou somente no papel!!!

Museu de Aeronáutica de São Paulo, Revista de Engenharia MACKENZIE, de 1954. (tópicos)

A ideia da construção de um Museu de Aeronáutica para São Paulo surgiu como evolução da necessidade de abrigar-se condignamente o “Jaú” que se encontra num barracão nos fundos do Museu do Ipiranga.

Houve vários estudos e projetos anteriores, cada um seguindo um determinado programa.

Designado pelo senhor Diretor da Diretoria dos Aeroportos, Engenheiro Frederico Abranches Brotero, da qual o autor do projeto é funcionário, para colaborar com a comissão organizadora sob a presidência do Engenheiro Romeu Corsini, coube a ele a tarefa de, ampliando os programas até então adotados, reprojetar e fiscalizar a construção do referido Museu.

Sempre sujeito às condições de custo módico, procurou o autor dar ao projeto um programa mínimo, compatível com as suas finalidades múltiplas: histórica, cultural e educativa.

O conceito atual de Museu é essencialmente dinâmico, humano e social – é o de uma escola onde se expõe, se ensina e se descobrem ou se despertam vocações. O Museu estático do passado era apenas o lugar onde se guardavam objetos históricos, tendo a parte didática pequena importância.

O Museu de Aeronáutica de São Paulo será um edifício destinado a reunir todo material histórico relativo aos brasileiros que se dedicaram às atividades aeronáuticas, não só como inventores e pesquisadores, mas também como pilotos, pioneiros, patrocinadores, etc. Representando a concretização de um desejo de Alberto Santos Dumont, o Museu não será apenas um panteon no qual se cultuará a memória de todos aqueles que se imortalizaram na conquista do espaço; será também um centro de difusão e de cultura sobre a aviação. Será uma escola viva e palpitante, sempre atualizada, instruindo, ilustrando, descobrindo vocações e despertando o interesse da mocidade pela aviação em todos os seus aspectos.

Além de servir de abrigo ao “Jaú” guardará também reproduções fiéis dos aparelhos de Santos Dumont e de outros aeronautas brasileiros, além de um sequencia de modelos que darão uma síntese sobre a evolução das máquinas de voo.

Haverá uma oficina para reparos de peças de manutenção do próprio Museu, servindo-se também para aulas práticas.

O projeto foi idealizado para ser, tanto quanto possível, funcional, econômico e realizável.

O projeto inicialmente foi concebido para ser feito em concreto armado. Devido, porém ao custo excessivo deste material, foi escolhido o aço como substituto, devendo o concreto aparecer onde houver realmente vantagem deste material sobre aquele. Assim é que, sem prejuízo para a forma arquitetônica, todas as estruturas serão em aço, aproximando-se quanto possível da forma de “cascas”. As coberturas serão em chapas corrugadas de alumínio. Grandes painéis de vidro completarão o conjunto.

O presente projeto deveria ser construído em terrenos do Museu do Ipiranga. Em entendimentos com as autoridades municipais e com a comissão do 4º Centenário, ficou assentada a sua construção em um recanto do Parque do Ibirapuera, onde, em Outubro p.p., (1954) o Sr. Governador do Estado, Dr. Lucas Nogueira Garcez, lançou a pedra fundamental.

Sem outra pretensão que não a de servimos nosso querido estado bandeirante e também porque estamos nos esforçando para concretizar um desejo de Santos Dumont, o de ver seu pequeno panteon construído em São Paulo, aqui deixa o autor a sua modesta contribuição e o veemente apelo a todos que desejarem colabora na execução do nosso programa.


Referências:

Revista de Engenharia MACKENZIE, ANO 38, Nº 22, janeiro/ fevereiro de 1954. Museu de Aeronáutica de São Paulo. Matéria de Diógenes Vieira Negrão (Eng. Civil e Arquiteto)


ÍNDICE DE TEXTOS SOBRE O MONUMENTO AOS HERÓIS DA TRAVESSIA DO ATLÂNTICO: DESMISTIFICAÇÃO http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2010/12/indice-de-textos-sobre-o-monumento-aos.html

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A “Fundação Santos Dumont” e os restos mortais de Bartolomeu Lourenço de Gusmão

Ato Contraditório: há ou não despojos na Cripta da Sé de São Paulo?


Não há como recuperar toda a história, mas nos deparamos com certas circunstâncias que nos fazem vagar pelo instante contemporâneo. Na Cripta da Catedral de São Paulo, estão os restos mortais de alguns ilustres homens da historiografia da Cidade de São Paulo e de bispos que foram responsáveis de organizar a diocese que se tornou referência nacional para a estrutura eclesiástica.

Breve relato sobre o padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão

Entre estes ilustres está na cripta da Sé de São Paulo o padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão que nasceu na Vila paulista de Santos em 1685, seguindo ainda muito jovem para a carreira eclesiástica. Na Bahia, completou o curso de Humanidades e se filiou à Companhia de Jesus. Foi um estudioso de vários campos científicos como astronomia, mecânica, física, química de onde retirou as bases cientificas de sua invenção Foi criador de um objeto que alçava voo movido por ar quente que foi apresentada a d. João V e à Casa Real. O aeróstato, balão enchido de ar aquecido, ascendeu em 8 de agosto de 1709, indo pousar no pátio da Casa da Índia, no Terreiro do Paço, em Portugal, após duas tentativas anteriores. Deste modo era apresentado o engenho do “mais leve que o ar” idealizado pelo Padre Voador, que, no entanto, nele não voou[1], mas teve publicação dos desenhos no periódico Wienerische Diarium de 1709, dando deste modo o crédito inventivo a Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

Este invento ficou conhecido como Passarola, por ter aparência de pássaro e também chamada de Balão de São João, em alusão ao rei. Faleceu em 1724 e foi sepultado na Igreja de San Roman, em Toledo, Espanha.
 
Restos Mortais de Bartolomeu Lourenço de Gusmão

O Brasil interessou-se na década de 1960 que os restos mortais de Bartolomeu Lourenço de Gusmão fossem transladados para São Paulo e não foi medidos esforços de uma comissão para a referida empreitada a cargo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e Fundação Santos Dumont, mas houve dificuldades em encontrar os restos mortais do Padre Voador! 

Seus restos mortais só retornariam ao Brasil em 1966. Foram guardados no Museu de Aeronáutica, localizado no Parque do Ibirapuera, depois em uma igreja em Cotia, então no Mosteiro de São Bento, na capital paulista, e por fim na cripta da Catedral da Sé, onde divide o subterrâneo com bispos de São Paulo, os despojos do índio Tibiriçá (o defensor da cidade) e os ossos do Padre Feijó (o tutor da Pátria). Ali, no mês de agosto, a FAB comparece para missa solene em homenagem ao Pai da Aeroestação”. (O ESTADO DE SÃO PAULO, 06 de novembro de 2010)

O que realmente foi descoberto sobre os restos mortais do padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão, pela comitiva enviada para esta finalidade em 1965?

“Sábado passado, dia 6, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em sessão presidida pelo acadêmico Aureliano Leite, o veterano aviador, comandante Amadeu da Silveira Saraiva, depois de brilhante improviso, incisivo discurso bem concatenado e erudito, entregou oficialmente ao sodalício duas lascas de mármore das lápides das antigas sepulturas de Alexandre e Bartolomeu de Gusmão. Trouxe-as da Espanha, depois de se inteirar definitivamente que os ossos, os restos mortais de Bartolomeu de Gusmão não poderão jamais ser encontrados, pois foram jogados em uma urna em que a enorme promiscuidade os desindentificou. Dessa forma, não será possível haver como era desejo da Prefeitura Municipal de Santos e da Fundação Santos Dumont, transladar o corpo do “padre voador”, o homem que fez um balão alçar-se no espaço, no velho salão do Palácio das Índias, em Lisboa, perante o rei de Portugal e o núncio apostólico que seria mais tarde Sua Santidade o Papa Inocêncio XIII”. (O Dia, São Paulo, 10 de fevereiro de 1965)

O Estado de São Paulo, em 7 de fevereiro de 1965 completava ainda com a seguinte colocação ao traslado dos restos mortais do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão:
 
-Impossível a transladação

É impossível a transladação para o Brasil das cinzas Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o padre-voador, inventor dos aeróstatos e de seu irmão, Alexandre Gusmão, o notável diplomata do século XVIII, a cujo crédito se deve o Tratado de Madrid, fixador de nossas fronteiras. Esta informação anunciada oficialmente na sessão de ontem do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que, juntamente com a Fundação Santos Dumont e com a Câmara Municipal de Santos, se interessa pela transladação dos restos daqueles dois ilustres santistas.

-Esclarecimento

Presidindo a sessão o Dr. Aureliano Leite, antes de dar a palavra ao Sr. Amadeu Saraiva, que esteve há pouco na Espanha e em Portugal, credenciado para promover tal transladação, esclareceu que ele e o prof. Tito Lívio Ferreira já tinham verificado a impossibilidade no tocante a Alexandre de Gusmão, a qual fora comprovada pelo vice-presidente da Fundação Santos Dumont.
Quanto a missão cometida ao Sr. Amadeu Saraiva falou também o presidente da FSD, Sr. Ribeiro de Barros.

-Diligências

Com a palavra, o Sr. Amadeu Saraiva começou por narrar o que fizera em Toledo. Disse da dificuldade que teve de encontrar a igreja de San Roman onde está sepultado o padre-voador, falecido naquela cidade, então capital, em 1724. Estivera em viagem àquele templo em 1954 e agora quase não o conheceu, uma vez que está passando por restauração que visa repô-lo no seu primitivo estado. Verificou também que as cinzas de Bartolomeu de Gusmão, que jaziam em uma urna em um dos altares, assinalada por um placa, foram reunidas as de mais de duzentas pessoas, e colocadas todas sob a nave central da igreja. Impossível, pois, separá-las, como lhe declarou o cardeal de Toledo e primaz da Espanha, em audiência que lhe concedeu. Diante disso, com autorização das autoridades eclesiásticas, trouxe para os museus do Instituto Histórico e da Fundação Santos Dumont, pedaços do mármore da igreja de San Roman, como símbolo dos restos do padre-voador. No templo, porém, a placa alusiva será mantida, dela constando as datas e os locais de nascimento e morte do padre santista.

Em Lisboa, conseguiu primeiramente o Sr. Amadeu Saraiva localizar e obter uma certidão de óbito de Alexandre de Gusmão, com o que se dissipara as dúvidas sobre a data de sua morte-30 de dezembro de 1753-pois a certidão consta que foi enterrado em 31. Pela certidão, verifica-se que o notável diplomata que foi secretário de D. João V, morreu de um “estupor” pelo que não pode receber os sacramentos. Foi enterrado no Convento de Nossa Senhora dos Remédios.

Epitáfio no átrio da igreja de San Roman em Toledo, Espanha:

Neste templo de São Roman mártir repousam os
restos de Dom Bartolomeu Lourenço de Gusmão
presbítero português nascido na cidade de Santos- Brasil -
no ano de 1685, primeiro inventor do aeróstato.
Faleceu nesta capital a 19 de novembro de 1724.
            A cidade de Toledo dedica-lhe esta lembrança.



Existe interesse do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, em requer a urna dos restos mortais repousadas na Arquidiocese de São Paulo dos irmãos Gusmão como citado em O Estado de São Paulo, em 7 de fevereiro de 1965, no titulo da matéria jornalística “Ventos na contramão”:

“... poucos se deram conta da presença do Padre Voador na missa realizada na cripta em meio a colunas, arestas, balaustradas e esculturas de São Jerônimo e Jó. Mais do que a extrema discrição, incomoda a alguns santistas, em especial a Paulo Monteiro, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, a insistência da Arquidiocese de São Paulo em manter a urna do padre em subsolo da capital”.

Fica a indagação sobre o que há nos despojos do padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão, depois deste processo investigativo do momento de translado feito por dignas instituições que promoveram tal empreitada. 

O que há de fato depositado na Cripta da Arquidiocese de São Paulo do padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão?

Referências:
O Dia, São Paulo, 10 de fevereiro de 1965
O Estado de São Paulo, 7 de fevereiro de 1965
O Estado de São Paulo, 4 de abril de 1965
O ESTADO DE SÃO PAULO, 06 de novembro de 2010

Complementos:


[1] Balão de ar quente “Montgolfières”: O feito de um balão tripulado coube aos irmãos Joseph Michel Montgolfier e Jaques Étienme Montgolfier que construíram o balão exibido-o publicamente em 5 de junho de 1783, na comuna de Annonay, na França, que se ergueu do chão 300 metros, durante cerca de 10 minutos voando uma distância de aproximadamente 3 quilômetros. Foi apresentado ao Rei Luís XVI e a Rainha Maria Antonieta, no dia 19 de setembro de 1783, onde os “pilotos” Pilatre de Rozier e François Laurent voaram por 25 minutos percorrendo aproximadamente 9 quilômetros. O invento dos irmãos Montgolfier, parece ter sido cópia do invento de Bartolomeu de Gusmão, que ao ir para a Espanha deixou seus planos inventivos com seu irmão Alexandre de Guasmão, notório diplomata servindo a Corte portuguesa, em 1715 como secretário da Embaixada portuguesa, na corte de Luís XV, em  Paris e de relevantes préstimos no Tratado de Madrid, assinado em 13 de janeiro de 1750, entre Portugal e Espanha, mantinha estreitas relações de amizade em Paris com o cientista José de Barros amigo pessoal dos Montgolfier.