domingo, 13 de janeiro de 2013

JESUÍTAS: OS HOMENS DE PRETO CHEGAM AO BRASIL

Da ESPADA à CRUZ

El Rey, Dom João III, houve por bem formar Governos Gerais e enviou Tomé de Souza como primeiro governador geral ao Brasil, formando esquadra onde estariam alguns religiosos para o bem espiritual e conhecimento do evangelho aos gentios (autóctones). O padre Manuel da Nóbrega da Companhia de Jesus, estudioso de Coimbra foi escolhido como superior religioso para tal mister. A nau partiu de Lisboa a 1º de fevereiro de 1549, com seis religiosos da Companhia de Jesus (Societas Jesu o Societas Iesu, S.J. o S.I.):
A. M. D. G=Ad Majorem Dei Gloriam: Para maior glória de Deus.

Lema da Companhia de Jesus 

Padre Manuel da Nóbrega, padre Leonardo Nunes, padre João de Azpilcueta Navarro, o padre Antonio Pires, além dos irmãos Vicente Rodrigues e Diogo Jácome. Desembarcaram na Bahia em 29 de março de 1549. 

Um ano após esta primeira leva de missionários vieram outro quatro sacerdotes a saber: Salvador Rodrigues, Francisco Pires, Manuel de Paiva e Afonso Braz.

Uma terceira leva veio em 8 de maio de 1553, com supervisão do antigo reitor de Coimbra, Padre Luis Da Grã, que no Brasil responderia como segundo provincial. Estavam juntamente com o segundo governador nomeado Dom Duarte da Costa. Seguiram-no dois padres, Brás Lourenço e Ambrósio Pires que tiveram ainda a companhia de quatro irmãos: Gregório Serrão, João Gonçalves, Antonio Bláques e José de Anchieta, o mais novo de todos eles. Chegaram à Bahia na armada de Duarte de Góis, em 13 de julho de 1553, numa viagem de mais de dois meses!

ANCHIETA, O IRMÃO JOSEPHI, FOI ORDENADO SACERDOTE EM 1566

José de Anchieta nasceu em San Cristóbal de la Laguna, Tenerife, no Arquipélago da  Ilhas Canárias, terras de Espanha, em 19 de março de 1534, filho do escrivão real Dom Juan de Anchieta, natural de Biscaia, ao norte da Espanha, e Mência Díaz de Clavijo y Llarena, natural das Canárias. Parente, por linhagem paterna, de uma família de nobres dos Loyolas; a mesma do fundador da Companhia de Jesus, Íñigo López de Loyola, (Ignácio de Loyola, 1491-1556) pertencia a estirpe basca dos rígidos soldados da Península Ibérica. Transfere-se para Coimbra para estudar no Real Colégio das Artes ingressando na Companhia de Jesus em Coimbra, em 1551. 

Tinha facilidade de domínio da prosa e verso, sendo parte da criadora dramaturgia que o impulsionou na vida, além de ser versado em latim para o que lhe competia a compreensão dos estudos da filosofia cristã. José de Anchieta veio ao Brasil em 1553, com apenas 19 anos de idade, chegando a Casa da Bahia e logo depois transferido para a Capitania de São Vicente. Após sua ordenação ocorrida em junho de 1566, foi nomeado superior em 1567, cargo que manteve até 1577.  

Nestas terras passou ao domínio da língua gentílica através de ocupação da conversão destes naturais.


OS AMIGOS DO PASSADO, SUBJUGADOS NO PRESENTE, SEM FUTURO, CAÇADOS EM “ALTA MIRA” APONTADA PELO INIMIGO INVASOR NO "BELO MONTE PASCOAL"!
 
Esteve com o terceiro governador geral do Brasil, Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá no ano de 1565[1], quando vencendo os franceses, fizeram-se os assentos da cidade onde se tornou a Capitania Real do Rio de Janeiro e mais tarde sede (1763) do Governo Geral, em substituição a Salvador.
 
Anchieta subiu muitas vezes ao planalto pelos caminhos de Paranapiacaba, em São Paulo, num caminho próprio de seus trajetos do litoral. Os provinciais dessa época tinham sido Manuel da Nóbrega (1549-1559), passando depois por Luis Da Grã (1559-1571) e Inácio Tolosa (1572-1577), sendo então Anchieta nomeado como provincial após sua última profissão de fé para os administradores, reconhecida em 8 de abril de 1577, sendo a sede (SÉ) na Bahia, percorria de Itamaracá a Itanhaém em barco a vela. 

SANTO ANDRÉ DA BORDA DO CAMPO

Em citação do Padre Manuel da Nóbrega em Cartas do Brasil e mais Escritos temos a referência seguinte:
ATA DA SESSÃO DA CÂMARA DE SANTO ANDRÉ, 1555 (DOCUMENTO MAIS ANTIGO DA CÃMARA)

“E do mar dez léguas pouco mais ou menos, duas léguas de uma povoação de João Ramalho, que se chama Piratinim, (Santo André da Borda do Campo) onde Martim Afonso de Souza primeiro povoou, ajuntamos todos que Nosso Senhor quer trazer à sua Igreja e aqueles que sua palavra e evangelho engendram pela pregação. E estes de todos deixam seus costumes e se vão extremando dos outros, e, muita esperança temos de serem verdadeiros filhos da Igreja; e vai-se fazendo uma formosa povoação, e os filhos deste são os que se doutrinam do Colégio de São Vicente”. 

Em 8 de abril de 1553 realiza-se a primeira eleição no Planalto dos Piratininguara[2] com a instalação da Câmara de vereadores de Santo André da Borda do Campo, (sem algo que possa posiciona-la na atual cidade de mesmo nome) a Vila do Capitão Mor  João Ramalho.


JOÃO RAMALHO - OBRA DE BENEDITO CALIXTO

O padre Luiz Gonçalves da Câmara, provincial dos jesuítas em Portugal, recebe carta do provincial do Brasil, Manuel da Nóbrega, datada de 31 de agosto de 1553:

“Neste Campo está João Ramalho, o mais antigo homem que está nesta terra. Tem muitos filhos e mui aparentados em todo este sertão, E o mais velho deles levo agora comigo ao sertão por mais autorizar nosso ministério. João Ramalho é muito conhecido e venerado entre os gentios e tem filhas casadas com os principais homens desta Capitânia, e todos estes filhos e filhas são de uma índia, filha dos maiores e mais principais desta terra”.

O REAL COLÉGIO DE SÃO PAULO

A instalação do Real Colégio de São Paulo concretizou-se com a celebração da primeira missa em 25 de janeiro de 1554 pelo padre Manuel Paiva. O jovem José de Anchieta deixou registrado em seu diário: 

"Para sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distancia de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da grande aspereza do caminho, ao nosso Padre (Manuel da Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmo-nos para esta povoação de índios que se chama Piratininga. Isto por muitas razões: primeiro, por causa dos mantimentos; depois, porque se fazia nos portugueses menos fruto do que se devia... Por isso, alguns irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa em uma casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, e por isso dedicamos ao mesmo nome a esta Casa."(negrito ref. Blog)

 Tratava-se de "uma pobre casinha feita de barro e paus, e coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha e a dispensa", conforme citação do “padre” José de Anchieta, local este que serviu como a primeira estrutura catequética dos índios da Capitania de São Vicente.  

Os superiores deveriam escrever ao Superior Geral da Ordem, Ignácio de Loyola, em Roma, a cada quatro meses com informações dos trabalhos missionários. As cartas escritas por José de Anchieta em sua maior parte foram escritas em espanhol e latim, tendo o hábito de redigir com duplicatas. Aquela que deveria ser postada como correspondência em junho de 1554, referindo-se missa e a  instalação do Real Colégio de São Paulo foi desencaminhada por algum motivo, mas que felizmente Anchieta faz nova referência ao fato na carta datada de 1º de setembro de 1554, esta que é tomada como “certidão de batismo” da cidade de São Paulo. 

O Padre José de Anchieta fez o serviço que lhe competia como provincial até a vinda de seu substituto, Pero Rodrigues, em agosto de 1594, sendo feito Superior da Ordem, e despedindo-se com seu passamento em 9 de junho de 1597, na aldeia de Iriritiba ou Reritiba, no Espírito Santo. Foi nomeado “Apóstolo do Brasil” pelo administrador apostólico do Rio de Janeiro, Bartolomeu Simões Pereira.

CONSIDERAÇÕES

As cartas de José de Anchieta encontram-se em sua quase totalidade no Arquivo da Companhia de Jesus, em Roma. 
A Companhia de Jesus sofreu supressão através de papa Clemente XIV, em 1773, sendo a Ordem restaurada no pontificado de Pio VII, em 1814. A beatificação de Anchieta teve inicio em 1624 através de comissão encomendada por Urbano VIII, mas a campanha já havia sido iniciada na Capitania da Bahia em 1617. Foi beatificado pelo papa João Paulo II em 22 de junho de 1980, talvez o processo religioso mais longo da história feito pelo Vaticano!

Em 1622, na cidade do Rio de Janeiro, várias senhoras da cidade de São Paulo, entre elas Suzana Dias e Leonor Leme, que o conhecerem, depuseram em seu favor, no seu processo de beatificação. Leonor Leme, matriarca da família Leme paulista, uma das depoentes, disse que "assistiu ela à primeira missa celebrada em São Vicente pelo Padre José de Anchieta, em1567, e que ele se confessou depois muitas vezes".

"Todos o tinham por santo publicamente!" (Leonor Leme)






Referências:

Revista do Arquivo Municipal, Antologia, 202. São Paulo, 2004

VIOTTI, Hélio Abranches, S.J. Pesquisa e Organização. “Cartas-Correspondência Ativa e Passiva do Pe. Joseph de Anchieta”. São Paulo: Edições Loyola, 1984

Exposição "Os Empreendedores: de Anchieta aos novos tempos" com edição  “Minhas Cartas”, por José de Anchieta: Material dos arquivos históricos da Companhia de Jesus, no Vaticano, trazidas por iniciativa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em conjunto com o “Pateo do Collegio” em comemoração aos 450 anos da cidade de  São Paulo.
 
MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da, Memórias para a História da Capitania de São Vicente. São Paulo e Rio: Weisflog Irmãos, 1920(Terceira edição) 

Padre Manoel da Nóbrega, Cartas do Brasil (1549-1560). Opera Omnia. Edição do Padre Serafim Leite, Coimbra, 1955.

LEITE, Serafim, S.I. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro.Instituto Nacional do Livro. Livraria Portugalia, Lisboa.. 1945- Tomo VI

ECHANIZ, Ignácio, S.J. Paixão e Glória História da Companhia de Jesus em Corpo e Alma.Tomo I-Primavera(1529-1581). São Paulo: Edições Loyola

BARBOSA, Maria de Fátima Medeiros. As Letras e a Cruz-Pedagogia da Fé e ESt´ttica Religiosa na Experiência Missionária de José de Anchieta, S.I.(1534-1597). Roma: Editrace Pontificia Università Gregoriana, 2066.

SOUTHEY, Robert. Tradução Luís Joaquim de Oliveira e Castro. História do Brasil. São Paulo: Edições Melhoramentos, 5ª Edição

 





[1] Estácio de Sá, com ajuda do Governador Mem de Sá e de tropas da Capitânia de São Vicente aportou no dia 28 de fevereiro, com sua esquadra entre um penhasco de granito (Pão de Açúcar) situado à entrada da baía de Guanabara e o morro Cara de Cão, atual São João. Após forte combate contra tropas francesas, no dia 1º de março de 1565, fundou oficialmente a cidade São Sebastião do Rio de Janeiro, em lembrança ao Rei Dom Sebastião I de Portugal, neto de Dom João III, da dinastia de Avis, escolhendo o santo de mesmo nome para padroeiro, comemorado em 20 de janeiro.
[2] Piratininguara significa em tupi-guarani: “o morador de Piratininga” ( piratininga + guara). É uma palavra indígena que definia, até 1560, o morador dos Campos de Piratininga, atual cidade de São Paulo. "Piratininga", segundo Silveira Bueno, é vocábulo tupi que significa "peixe seco". (pirá, peixe e tininga, seco).

sábado, 5 de janeiro de 2013

Os azulejos portugueses da Igreja dos Remédios e a Biblioteca Municipal de Santo Amaro

ENIGMA - OS AZULEJOS DA ANTIGA IGREJA DOS REMÉDIOS

A palavra azulejo tem origem no árabe azzelij (ou al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco), que significa “pequena pedra polida” usada para designar o mosaico bizantino do Oriente Próximo, ficando relacionada com a palavra azul onde grande parte da produção portuguesa era desta cor. A representação árabe esta ligada a geometria, não se representando figuras nas artes, este detalhe não era essencial na Península Ibérica.
 Azulejos no frontispício da Igreja Matriz de Cambra, Vouzela, Portugal 
 (ref.-http://pt.wikipedia.org/wiki/Cambra)

No ano de 1498, o Rei de Portugal Dom Manuel I viajando para a Espanha fica impressionado com a exuberância dos interiores mouros, com a proliferação cromática nos revestimentos das paredes. Com o desejo de edificar a sua residência à semelhança dos edifícios visitados nas cidades de Espanha, faz com que o azulejo hispano-mourisco tenha sua primeira aparição em Portugal. O Palácio Nacional de Sintra, residência do rei, é um dos melhores e mais originais exemplos desse azulejo “importado” das oficinas de Sevilha em 1503, que à época já forneciam para outras regiões, como o sul de Itália.

TRADICIONAIS MODELOS DE AZULEJOS PORTUGUESES

Sendo o Azulejo um fenômeno urbano a cidade de Lisboa foi o maior mercado de azulejaria de interiores e de fachada. No século XVII, a azulejaria artística viria afirmar-se como arte da identidade da cultura portuguesa. 

O Azulejo português tornou-se parte da arquitetura. Na mesma época, a Igreja e a Nobreza passam a se interessar por esse estilo arquitetônico para o revestimento de igrejas, conventos, casas de campo e palácios, azulejos figurativos com nítida idéia de afirmação política e social, ostentação dos novos-ricos e, mais tarde, pela classe média.
Igreja de São Martinho Revestimento a azulejo estampilhado oitocentista, Argoncilhe.PORTUGAL 
(ref.- http://pt.wikipedia.org/wiki/Azulejo)

Além de um padrão de cor o azulejo precisou ter um padrão dimensional, sendo que a partir do século 16, em Portugal, passou a ter uma medida quadrada variável entre 13,5 e 14,5 cm, como consequência do aumento de produção pelo maior número de encomendas. Essa situação perdurou até o século 19. O emprego de uma só cor, azul, sobre com fundo branco permitia uma maior concentração na pintura, facilitando em muito a produção.

Nas igrejas o azulejo passa a revestir paredes, tetos e abóbadas, frontispício, enfim, todas as superfícies são azulejadas. Com a corte portuguesa refugiando-se no Brasil, após a invasão francesa em Portugal no final de 1807, o emprego do azulejo teve um desenvolvimento através de mestres e artesãos vindos na esquadra da comitiva, desenvolvendo a aplicação do azulejo como revestimento de fachadas de edifícios.



As primeiras fachadas azulejadas no Brasil tiveram azulejos portugueses e depois começou a surgir à influência inglesa, francesa, dos países baixos e espanhola. Talvez por alta demanda de produção do azulejo em Portugal foi que sucedeu a procura brasileira, até porque as primeiras fachadas principais brasileiras totalmente revestidas com azulejos lusitanos foram feitas por encomendas, sobretudo de imigrantes portugueses, recorrendo à produção das fábricas portuguesas.

Azulejos produzidos por novos métodos de produção semi-industriais e industriais (denominada de “estampilhagem”, pela impressão em um molde onde se abriram letras, desenhos, figuras, para estampar) provocaram mudanças nas fachadas revestidas, reconhecendo-se a estética dos exteriores da arquitetura urbana.

A IGREJA DOS REMÉDIOS

Em São Paulo, na Capital, a igreja dos Remédios[1], possuía em seu frontispício azulejos portugueses, e a mesma estava situada na Praça João Mendes, no antigo Largo da Cadeia. Era refúgio de escravos perseguidos e, nos últimos tempos do Império, tornou-se reduto preferido dos abolicionistas. Em 1942 foi iniciada sua demolição para o alargamento da praça, conhecida antigamente também por referência à igreja como Largo dos Remédios.
 Praça João Mendes, antigo Largo de São Gonçalo, 1862.  Igreja de Nsa  Sra dos Remédios demolida em 1943e pátio da cadeia. No lugar da igreja está  o Fórum João Mendes. Militão Augusto de Azevedo
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e Pátio da Cadeia - 1862. Benedito Calixto

 A Praça João Mendes, durante a gestão do nomeado interventor do Estado Adhemar de Barros, foi nomeado para assumir a prefeitura da Capital paulista de 1938 a 1945, o engenheiro civil e arquiteto Francisco Prestes Maia, passando a cidade por uma completa transformação.
Praça João Mendes em 1936 e o prédio onde funcionou a Assembleia Legislativa do Estado até 1937. Também abrigou a Cadeia Pública, transferida para a avenida Tiradentes depois da inauguração da Casa de Correção
CADEIA E SALA DA CAMARA 1862.Militão Augusto de Azevedo
Paço Municipal, Fórum e Cadeia de São Paulo (1862), 1918, óleo 50x64,5 cm, BENEDITO CALIXTO -Acervo do Museu Paulista

Foram demolidos prédios das repartições administrativas do Estado e transferidas para outras áreas por um novo modelo de zoneamento urbano. (na atualidade ocorre esta mesma configuração de espaço da Nova Luz!) 
ASSEMBLEIA PROVINCIAL EM 1887 
Nestas circunstâncias foi também demolida a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, entre outras construções locais. No lugar da igreja está atualmente o Fórum João Mendes.

Praça João Mendes, com herma vista à direita, em 1914, ao fundo a igreja,  Nossa Senhora dos Remédios (demolida)

 
HERMA EM HOMENAGEM A JOÃO MENDES DE ALMEIDA-AUTOR WILLIAM ZADIC


OS AZULEJOS DO SAGUÃO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL PREFEITO PRESTES MAIA

A Biblioteca Municipal Prefeito Prestes Maia, antiga Presidente Kennedy, recebeu o nome do presidente americano por ter recebido verba do programa dos Estados Unidos da América conhecido como “Aliança para o Progresso”, subsídio para fomentar o desenvolvimento econômico da América Latina. 

No segundo mandato de Prestes Maia assumido de 1961 a 1965, na transição conturbada do governo João Goulart e o regime de exceção, foi quando se inaugurou em 4 de abril de 1965, a Biblioteca de Santo Amaro, localizada na Avenida João Dias, nº 822, Santo Amaro, São Paulo.

A referida biblioteca foi inaugurada pela esposa do prefeito, Maria Prestes Maia, recebendo o nome de Biblioteca Presidente Kennedy. Foi o senador Robert Kennedy, irmão Presidente americano, assassinado em 1963, no Texas, em visita ao Brasil, que descerrou a placa comemorativa com os seguintes dizeres: 

A JOHN F. KENNEDY PELOS SEUS ESFORÇOS EM FAVOR DA EDUCAÇÃO E CULTURA DA HUMANIDADE.


Através do prefeito da cidade de São Paulo, Prestes Maia e do secretário da Educação Carlos Rizzini, em setembro de 1963 começaram as obras, finalizadas em dezoito meses.
O prédio de sete andares, com 7 mil metros quadrados de área construída, com dependências temáticas, abriga também o acervo com mais de 12 mil livros além de comendas e documentos, além da mobília do prefeito Prestes Maia.


A Biblioteca Municipal teve seu nome alterado para Biblioteca Prefeito Prestes Maia pelo decreto 46.434, de 6 outubro de 2005,  pela criação do Sistema Municipal de Bibliotecas.



A “NOVA” BIBLIOTECA MUNICIPAL PREFEITO PRESTES MAIA

 

Após a apresentação do projeto ocorrido nas dependências da Biblioteca Prefeito Prestes Maia em 2 de dezembro de 2010 foi entregue a reforma “parcial” equipamento municipal situado à Avenida João Dias, 822, em 27 de dezembro de 2012, às 10:30 horas. Toda obra foi orçada em R$ 6.208.467,80 e empreitada ficou a cargo da Construtora Progredior. Houve algumas intervenções de peso estrutural como a inauguração do Teatro Leopoldo Froes, além de outras setoriais como sala de acervo em Braille, acervo temático, laboratórios multimídias, e o que dá o nome ao equipamento todo, que é o acervo pessoal do Prefeito Prestes Maia. Deixa-se registrado que no 1º andar foi construído deck de arquitetura moderna com jardins e espelhos d’água. 

Entretanto a obra ocasionou infiltrações de água no térreo, em sala ampla, onde há acervo catalogado de assuntos correlatos. Urge conter estas infiltrações com impermeabilização estanque definitiva a cargo da engenharia civil contratada, para não ocasionar dissabores futuros. 

A Biblioteca de Santo Amaro demorou 18 meses para ser construída no século 20, sendo iniciada em setembro de 1963 e entregue em 4 de abril de 1965. Para a reforma do século 21 foi apresentada a reforma em 2 de dezembro de 2010 e entregue em 27 de dezembro de 2012, ou seja, 24 meses para ser reformada!


RELAÇÃO DA IGREJA DOS REMÉDIOS COM A BIBLIOTECA DE SANTO AMARO

SAGUÃO DA BIBLIOTECA, AO FUNDO VÊ-SE OS AZULEJOS

Há na Biblioteca Prefeito Prestes Maia algumas peças da azulejaria portuguesa, fragmento(s) do que um dia fizeram parte da Igreja dos Remédios, que estava situada na Praça João Mendes. Estão instalados no saguão da entrada principal da citada biblioteca sobre a escadaria de acesso ao nível do terreno.

AZULEJOS ORIGINÁRIOS DA ANTIGA IGREJA DOS REMÉDIOS, CONSTRUÍDA NO SÉC. XVII E QUE, EM 1825, SOFREU UMA REFORMA, SENDO, ENTÃO, NA FACHADA COBERTA DESSE MATERIAL. A IGREJA FOI DEMOLIDA PARA DAR LUGAR À PRAÇA JOÃO MENDES. (Restaurado em 1973-A.L. GAGNI)

Por motivos inerentes a pesquisa do fato descrito e buscando pistas que possam fornecer subsídios investigativos, paira a dúvida quanto a este modelo de readequação do espaço urbano e da demolição completa da Igreja dos Remédios e sua consequência na década de 1940. 
PRAÇA JOÃO MENDES, durante a gestão do prefeito nomeado Prestes Maia (1938-1945), passou por uma total transformação.

Qual foi seu impacto na população naquele momento, e, se este modelo de “readequação da cidade” já era um fato consumado nos planos urbanos e foi colocado como prioridade naquele momento para criar nova ótica que buscava um modelo “ideal” de ocupação do espaço. 

Havia, naquele momento, um projeto de arquitetura e da planificação urbana elaborada em busca de novo modelo para a parte central de São Paulo e as construções “antigas” estavam obstruindo esse novo perfil de cidade? 

Há algo que nos prende a atenção em dois momentos:

A demolição da Igreja dos Remédios ocorreu na primeira gestão municipal de Prestes Maia, de 1938 a 1945.

A construção da Biblioteca Municipal Presidente Kennedy, ocorreu na segunda gestão municipal de Prestes Maia, de 1961 a 1965.

Há nisso alguma relação dos fatos ou mera coincidência. Onde foram colocadas outras partes da demolição da Igreja dos Remédios, inclusive seu acervo religioso?

Por que um fragmento da Igreja dos Remédios, ou seja, os azulejos fazem parte do espaço da Biblioteca Municipal Prefeito Prestes Maia?

Onde ficaram estas peças (azulejos) durante estas duas décadas, entre a demolição da Igreja dos Remédios e a construção da Biblioteca Municipal de Santo Amaro? Em algum depósito de “obras da prefeitura” com catalogação de acervo? 

Enigmas do “produto da cidade” a serem decifrados com pesquisa de documentos produzidos pelo poder do Estado e pela Igreja!

Referências:
MOREIRA,  Francisco Adail Martins. Festas Litúrgicas de Jesus e Maria. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

DOMINGUES, Ana Margarida Portela - A ornamentação cerâmica na arquitetura do Romantismo em Portugal. Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, 2009, 2 volumes.

LYNCH, Kevin. Tradução: Maria Cristina Tavares Afonso. A Imagem da Cidade. Lisboa/Portugal,: Edições 70, 1982.

SELIGMANN SILVA, M. Walter Benjamin: o Estado de Exceção entre o político e o estético in: Cadernos Benjaminianos, Volume 1 - Número 1 - Junho/2009.

Fotos de Militão Augusto de Azevedo, da Exposição ocorrida na Casa da Imagem, (antiga Casa nº1) no Pátio do Colégio, centro da capital à Rua Roberto Simonsen, 136-B.  Mostra A Cidade Desaparecida de Militão Augusto de Azevedo”, fotos entre os anos de 1862 e 1887. Curadoria: Henrique Siqueira e Monica Caldiron,ocorrida no período de 22 de setembro a 24 de novembro de 2012.


[1] No Cambuci, surgiu à Rua Tenente Azevedo, nº 182, um novo templo dedicado em devoção à Mãe de Deus, a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, que se transferiu para novo espaço sagrado projetado e construído pelo engenheiro Malfati Buchigmani, baseado no estilo colonial franciscano.