quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DA VIDA “PRIVADA”!

Posição “sentido...sentado”!
Sempre achei meio estranho a denominação “vida privada”. Fui verificar essa “vida privada” desde os tempos “áureos” de nossos antepassados, (não consegui imagem nem de Adão e Eva, nem do Neandertal, Australopithecus, enfim coisas privadas das cavernas e do meio do mato...) e acho que a coisa começou "meio privada e depois se tornou pública" com os romanos (os camaradas não tinha esse negócio de pudor não) e o que dava medo antes, hoje a “vida privada” é toda colorida, sendo um recinto de descanso e muitos parecem uma sala de visita, tem gente que consegue até ler e muitas vezes em devaneio conseguem até tirar uma soneca profunda!
Passarei umas imagens desde o mundo antigo, aonde dominavam os romanos e gregos passando pela Idade Média, coisa de castelos e depois chegaremos a nossos dias, algumas coisas surreais, “casinhas” da roça, mas que por muito tempo foram usadas também nas cidades e o contemporâneo. Espero que não se choquem!
Eu transmito as imagens e vocês fiquem livres para fazerem o som e criarem o “script”, embora faço aqui uma pequena explanação do que é o assunto, as imagens são fortes, portanto quem “sofrer de algum mal é bom nem ver”!!!
LATRINAS
Latrinas romanas: 753 a.C. - 410 d.C. – O papel higiênico não existia. Uma esponja pregada a um pedaço de madeira era comumente utilizada e, depois de seu uso, colocada de volta em um balde com água salgada ou mergulhada num canal de água. e usada muitas vezes por várias pessoas. Dizem que alguns romanos ricos, não querendo usar a esponja, usavam uma pena de avestruz. Acredita-se que o ditado, “pegar o lado errado do bastão”, veio desse período.
Em Roma latrinas públicas eram de uso comum, sendo que as pessoas só tinham que pagar uma pequena quantia para a sua limpeza e manutenção. A urina e as fezes iam parar a um sistema de esgoto público.
O VALOR DA URINA E AS SUAS MÚLTIPLAS UTILIDADES
A urina era reutilizada para atividades industriais. O uso mais comum era para lavar tecidos, lã e couro. A coleta de urina em latrinas públicas era uma atividade que começou entre os pobres e as classes mais baixas. Eles revendiam este líquido para fazer pomadas e detergentes, e obter assim dinheiro livre de impostos.
(Não se espantem porque hoje também pagamos o imposto desse uso “latrinal” que escoam para os rios brasileiros poluídos por nós com toda sujeira produzida e que pagamos pelo tratamento que as concessionárias tipo SABESP, em São Paulo, cobram mas não fazem nenhum tratamento, sendo a coisa depositada nos rios “in natura”)
O PAPEL HIGIÊNICO
Como qualquer grande invenção do homem, esta sofreu inúmeras modificações até os dias atuais. Acredita-se que algo similar ao papel higiênico que usamos hoje tenha sido utilizado na China no século VI.
(Claro, dizem que os chineses inventaram o papel, assim foi fácil dar outro uso, não muito digno ao produto, como no caso nobre da escrita)
Em outros lugares do mundo, os ricos usavam tecidos feitos de lã, renda ou cânhamo, enquanto os menos afortunados utilizavam materiais mais diversos, como trapos de qualquer tecido disponível, folhas de árvores, grama, areia, musgo, neve, sabugo de milho ou palha, cascas de frutas, dependendo do local, das condições climáticas ou dos costumes sociais.
Os gregos apreciavam as formas lisas e redondas das pedras, e também porque eram encontradas em quase todos os lugares.
O início do papel higiênico da maneira como o conhecemos hoje se dá oficialmente com o americano Seth Wheeler, de Albany, Nova York, que obteve diversas patentes. A primeira digna de relevância foi a sua ideia de perfurar os papéis (25 de julho de 1871), em cujos pedidos de permissão já constava a ilustração do rolo perfurado de papel. Em 13 de fevereiro de 1883 foi-lhe concedida a patente que mostrava um rolo com papel perfurado e com um suporte no seu centro, em forma de tubo.
Repetindo o aviso que as imagens são fortes...não se tratando de banheiros, onde se banha, mas de latrinas, onde se...bom vejam vocês mesmos!
Vamos as imagens recolhidas dessa nossa “evolução privada”...dos tempos antigos até nossos dias...”preparem” a pipoca e “preparem-se” para grandes emoções!!!

Créditos imagens: Pinterest

Deliciem-se com as várias formas e usos postadas abaixo:










































quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Colônia Brasil da cachaça, aguardente, pinga, caninha!!!

*Coisas iguais e com diferenças

No conceito popular, cachaça é sinônimo de aguardente e cachaceiro, não se trata do produtor da bebida, mas sim do viciado na bebida. Antes porem cachaça era a escuma da garapa fermentada. O caldo de cana era colocado para ferver e tirar as impurezas das moendas. Esse produto advindo da primeira escuma era denominado cachaça, que era colocado em um cocho e se tornava bebida de mulas, cavalos, cabras, bois, porcos e outros animais. 

Numa segunda caldeira há ainda parte da escuma ainda advinda das impurezas das moendas que eram guardadas em potes até se azedar e que eram ingeridas como bebida, podendo se embriagar com ela e disto chamou-se também cachaça, um produto natural da fermentação do açúcar proveniente da cana triturada nas moendas dos engenhos introduzidos na colônia com o alvará de Dom João III, rei de Portugal, em 29 de março de 1549. 

Se serviam da bebida abundante na colônia que fornecia açúcar por várias partes do Mundo, através de Portugal, Holanda e Inglaterra, que assumiam o controle marítimo e o cartel da mercadoria apreciada do açúcar, grosseiro da rapadura, um tipo mascavo. A colônia ainda sem muitos recursos se fartava com a bebida, embora para se entreterem do marasmo da Colônia usavam o caulim, bebida fermentada pelos índios de raízes do mato e milho por eles cultivados resultando o caulim, preparado pelas mulheres indígenas.

A de se destacar parte de uma crônica de Frei Vicente do Salvador onde diz em uma parte: “ Vinho? De açúcar se faz mui suave e, para quem o quer rijo, com o deixar ferver dois dias, embebeda como o de uvas.”

A cana de açúcar, gramínea proveniente da Ilha da Madeira, foi introduzida por Martim Afonso de Souza, em sua Capitania de São Vicente, como relatado por Frei Gaspar de Madre de Deus, em Memórias para a História da Capitania de S. Vicente, editado em Lisboa, em 1797:

“Mandando vir da Ilha da Madeira a planta das canas doces. Para que os lavradores as pudessem moer, fabricou quase no meio da sobredita ilha (S. Vicente), um engenho d’água, com capela dedicada a S. Jorge, qual foi o primeiro que houve no Brasil; dele saíram canas para as outras capitanias brasileiras”. Foi daí que se espalhou para o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba.

Embora com toda essa expansão os engenhos não produziam, à época aguardente, sendo que a mesma se popularizou na segunda metade do século 17, pois faltava o alambique para a bebida destilada, sendo mencionado em 1648 em inventário “um alambique de cobre que pesou uma arroba” avaliado em 15$600, e pertencia a Rafael de Oliveira, e funcionava no sítio do Jaraguá. (Arquivo do Estado de São Paulo, Inventários Processados de 1578 a 1700, 27 volumes).

Assim, no começo a cachaça era uma bebida fermentada, passando para a aguardente, bebida destilada a partir de 1650 a 1700. Em 1699 uma Carta Régia “concede faculdade para lançarem as câmaras desta Capitânia um leve imposto nas bebidas, cujo imposto das Tavernas é o que se chama Avença”. (Documentos interessantes para a História e costumes de S. Paulo, de A. de Toledo Piza, publicado pelo Arquivo do Estado de São Paulo.)

Começa então a espalharem engenhos e engenhocas pelo sertão afora a revelia do fisco que interessa taxar o açúcar, o melado e a aguardente e não quer prejuízo aos direitos reais.

Em 1661 a regente Luísa de Gusmão liberou a produção da cachaça no Brasil para intensificar o consumo fora da Colônia, mas ao comércio local, era vedado, embora a repressão fosse nula, contando até com a participação das autoridades que eram os principais contrabandistas. Não conseguindo conter o contrabando a proibição foi revogada, em 1695. Deste modo a cachaça, à época também chamada de aguardente da terra e jeritiba, subiu a produção e em uma década, passou a ter quase 700 pipas ao ano(1)!

Hoje é um produto de exportação da República do Brasil!


Nota:

1) No tempo do descobrimento do Brasil, Portugal era governado por Dom Manuel I, sendo estabelecido que um “almude”, de origem árabe, medida usada para líquidos, especialmente vinho, equivalia a 16,8 litros. A pipa por sua vez era uma medida européia equivalente a meio tonel, que equivalia a 840 litros. Sendo uma pipa equivalente a 420 litros (25 almudes)

*Breviário de como foi o consumo da bebida, sem se ater ao modelo de produção, onde há catedráticos de renome com todo esse levantamento historiográfico!


Referência:


Revista do Arquivo Histórico, volume 71. Out 1944

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A CASA DA ÓPERA, O PRIMEIRO TEATRO DE SÃO PAULO E PAULO EIRÓ

O trajeto de vida do poeta de Santo Amaro



Nome: Paulo Francisco Emílio de Salles
Pseudônimo: Paulo Eiró
Nascimento 15 de abril de 1836
Escola Normal de São Paulo: 1852 a 1855
Em 1854 assume a escola de Francisco Antonio das Chagas, seu pai, na Rua Direita, hoje Capitão Tiago Luz, Santo Amaro.
29 de junho de 1854 encena 3 peças: Traficante de Escravos,Chegamos tarde..., e Terça Feira de Entrudo.
Faculdade de Direito do Largo São Francisco em 1859
Seminário episcopal, Bairro da Luz (1859)
Seminário de Mariana, Minas Gerais (dizem que nunca chegou lá!)
Volta a Chácara paterna em 1860
Passamento: 27 de junho de 1871
Local Hospício dos Alienados de maio de 1866 A 1871
Peça Sangue Limpo escrito em 1861: obra teatral encenada no teatro Casa da Ópera que chegou até nossos dias (de 8 supostamente existentes)




O teatro Casa da Ópera da encenação da peça Sangue Limpo, situava-se à Rua da Casa de Fundição atual Rua Floriano Peixoto, no centro de São Paulo.

Largo da Sé, 1860, à esq. Rua da Fundição, atual Rua Floriano Peixoto, com parte do Solar da Marquesa de Santos; no centro, a Igreja de São Pedro
Rua Floriano Peixoto, ex Fundição, 1910. À direita, parte igreja São Pedro da Pedra, demolida neste ano. Ao fundo, o Solar da Marquesa antiga Rua do Carmo, hoje Roberto Simonsen.

Rua Floriano Peixoto, ao fundo, na atualidade

No século XVIII, quando dom Luís Antonio de Sousa Botelho e Mourão, o Morgado de Mateus, era governador general da Capitania de São Paulo (1765 a 1775), surgiria aquele que é considerado o primeiro teatro oficial de São Paulo.

Bernardo José Maria Lorena e Silveira, em 1793 mandou reformar a antiga Casa de Fundição, onde se cunhava o ouro para registrar o pagamento do “quinto real” e o espaço foi transformado na Casa da Ópera, com capacidade para 350 pessoas. Não pense, porém em espetáculos líricos. A palavra ópera era usada genericamente para apresentações teatrais e os teatros eram comumente chamados de Casa da Ópera.

A Casa da Ópera do Pátio do Colégio (local aproximado de onde estava instalada a Caixa Econômica Estadual) tinha uma construção rudimentar para uma casa de espetáculos, com três portas no rés do chão e três janelas no primeiro andar. Trazia no interior, à altura do saguão, duas escadas, que davam uma para o camarim governamental e outra aos 28 camarotes, divididos em três ordens. Na platéia havia bancos simples. A iluminação era feita por velas de cera e candeeiros de azeite doce.

Foi na Casa da Ópera, do Largo do Colégio, que Dom Pedro I, ao proclamar a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, foi aclamado pelo povo, rei do Brasil. Com a inauguração do Teatro São José, em 1864, e outras casas de diversão em São Paulo, a Casa da Ópera entrou em decadência, sendo decretado por volta de 1870, que seria demolido o seu prédio. No seu lugar, em 1881, foi lançada a pedra fundamental do prédio da Tesouraria da Fazenda.

Auguste de Saint-Hilaire, que visitou São Paulo em 1819, assistiu a uma apresentação naquele teatro e o descreveu como uma casa pequena, de um único andar, baixa, estreita, sem nenhum ornamento arquitetônico, pintada de vermelho, com três largas janelas de postigos negros. Entrava-se num vestíbulo estreito por aonde se vai aos camarotes e à plateia. A sala, muito bonita e com três ordens de camarotes, era iluminada por um lustre central e velas colocadas entre os camarotes.
Quando Saint-Hilaire chegou, a plateia já estava ocupada. Somente homens sentados em bancos. No começo do século XIX as mulheres só saiam de casa para ir à igreja ou visitar parentes, e mesmo assim acompanhadas da família. O francês reparou que os atores eram todos operários mulatos e as atrizes eram mulheres públicas, cujo talento era proporcional à sua moralidade. Pareciam fantoches.

As cadeiras eram um problema à parte, pois ao terminar a sessão, saíam todos ao mesmo tempo carregando suas cadeiras e era um tumulto. Os mais apressados, normalmente estudantes, que estavam na plateia chegavam a escalar os camarotes em vez de sair normalmente pelos corredores. Em 1854 a companhia dramática chegou a publicar uma nota no jornal Correio Paulistano dizendo que nos dias posteriores aos de espetáculo “achar-se-ha aberto o theatro das 11 horas da manhã ás 3 da tarde, a fim de quem quizer mandar procurar suas cadeiras.” Pois era assim, quem quisesse sentar-se que trouxesse sua cadeira de casa.

A pequena casa da Ópera, que já era conhecido como Teatro da Ópera, teve seus momentos de glória. Na histórica noite de sete de setembro de 1822, D. Pedro I, então Príncipe Regente do Brasil foi aclamado com gritos de “Viva o rei do Brasil” e o espetáculo daquela noite teve declamação de poemas e até a execução do Hino da Independência, composição de D. Pedro e por ele mesmo executado. É claro que Domitila de Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos, estava presente. Seu romance com D. Pedro estava apenas começando.

No período de 1830 a 1835 os estudantes da Academia de Direito alugaram o teatro, através da Sociedade Acadêmica, constituída para este fim.
Após o encerramento do contrato com os estudantes, o teatro passou por várias administrações e até mudou de nome, passando a ser conhecido por Teatro São Paulo.
No final da década de 1860 o casarão estava em péssimas condições e em 27 de junho de 1870 o presidente da Província aprova o contrato para demolição do velho teatro.


Pátio da Sé delimitava-se o Pátio da Sé, de um lado pela atual Rua Floriano Peixoto, de outro, pela Rua Venceslau Brás. A Rua Floriano Peixoto teve o nome primitivo de Rua da Fundição, pois abrigava os fundos da Casa da Fundição dos Reais Quintos de São Paulo, que tinha entrada pelo Pátio do Colégio. A instituição começou a funcionar no local em 1730. Fechada e reerguida em 1751, manteve-se em atividade até 1762, foi abolida e, depois reaberta, para ser desativada definitivamente em 1818. A troca de nome da rua, homenagem ao presidente da República Floriano Peixoto, deu-se a 1º de agosto de 1907.
Rua Tabatinguera, em 1862,à direita o Quartel do 2º Batalhão de Guardas, sendo antes o Hospício dos Alienados nele faleceu o poeta Paulo Eiró, no ano de 1871 aos 35 anos de idade.
Antigo Hospício dos Alienados e depois quartel da Guarda Cívica. 1904

Hospício dos Alienados na atualidade

O dia 2 de dezembro de 1861 começou com paradas militares, missa na Igreja da Sé e à noite no teatro São Paulo, localizado no Pátio do Colégio, foi encenado a peça Sangue Limpo com a presença dos figurões do Governo, estudantes, e quase todos os moradores de São Paulo. Apesar da emoção presente em Paulo Eiró as críticas dos jornais não foram favoráveis e ao lê-las com decepção, novamente retornaram suas crises que por fim o levou ao Hospital dos Alienados em 1871.


Em Santo Amaro, São Paulo, sua memória continua presente em nome de rua e no teatro!


Vide complemento:
O Poeta Paulo Eiró e a cidade de Tatuí, São Paulo.

Cartas de Datas (terrenos) em Santo Amaro e outras providências:

 “Teatro Municipal de Santo Amaro Paulo Eiró”: Reinauguração 2015

Bibliografia:
Schmidt, Afonso. O Romance de Paulo Eiró. São Paulo: Editora Clube do Livro, 1959.
Consalves, José. Paulo Eiró - notícia bibliográfica, IN: Sangue Limpo, 1949.
Paes, José Paulo. Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, 1968. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Brumadinho e a merda da “Vale” enriquecida com a miséria que espalha pelo Brasil afora!

Até quando?  

A Vale do Rio Doce, que acabou com o doce do vale de Bento Rodrigues e agora em Brumadinho,  tornou-se apenas Vale, pois vale muito dinheiro, e exporta a maioria do mineiro “in natura” para o exterior, mas tem que beneficiar isso, ou seja de uma montanha onde extraem algum minério importante, por exemplo o minério de ferro, 60% é o que vai se tornar ferro e os outros 40% são resíduos, ou seja a “merda” que o exterior não quer e é chamado de rejeito, de coisa rejeitada. Então o Brasil fica com essa “merda”, que não serve para nada em barragens de contenção, pois essa lama é lixo é ninguém sabe o que fazer com essa p.....! Quando a coisa estoura é "merda" para todo lado, acaba com tudo que é vida existente!!!

Carlos Drumond de Andrade sabia que o minério de ferro um dia acabaria com Itabira, vou mais longe: vai acabar com Minas Gerais!!!

Confidência do Itabirano

Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

Coisas que nunca procuramos saber...do Brasil
*O minério de ferro: 2º PRODUTO MAIS EXPORTADO (vide percentual abaixo)

Maior comprador: China
Preço médio/tonelada: US$ 50,00
Exportação: 90%
Valor de exportação em 2018: US$20 bilhões
Total exportado em 2018: 390 milhões de toneladas
Danos em Brumadinho: US$ 500 milhões
Valor assumido por seguradoras: US$ 100 milhões
Estados de maior concentração: Pará(49%) e Minas(37%)

Percentuais de exportações brasileiras em 2017

*Dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Soja (US$ 13,3 bilhões e participação de 15%) e Farelo de soja (US$ 2,25 bilhões e participação de 2,6%)

Minério de ferro (US$ 8,69 bilhões e participação de 9,9%)

Petróleo (US$ 7,23 bilhões e participação de 8,2%)


Açúcar de cana (US$ 3,2 bilhões e participação de 3,7%)

domingo, 30 de dezembro de 2018

As Crianças da rua amiga (RUA 25): Jardim São Luiz/São Paulo

(História publicada em 09/04/2008 no site da Secretaria da Cultura)
Mergulhando no tempo, recordando as lembranças da meninice vigorosa, aventurada a todo tipo de brincadeiras sadias, foram as primeiras fórmulas de nosso amadurecimento, do saber compartilhar com todos, o pouco que cada um possuía de melhor, e que saía do aprendizado de cada lar: respeito, virtude para formação do caráter, lição primordial de nossos pais, rudes, simples, homens e mulheres unidos pelos laços da família, nossos primeiros e melhores educadores.
A rua era nosso recreio, éramos unidos, uma verdadeira tropa de frente, buscando iniciativas nas investidas de cada projeto novo de ideais mirabolantes e, assim, acontecia tudo ao mesmo tempo. Não era virtual, era real, e as mais fascinantes brincadeiras iam saindo de idéias das “crianças da rua amiga”.
De repente, uma tábua, com três rolimãs, às vezes quatro “rodas alemãs”, conseguidas com muito sacrifício em alguma oficina, tornando-se os mais fantásticos carros de corrida de ladeiras intermináveis, deixando para trás uma poeira de satisfação, que o mais atrasado engolia sem muito prazer. Eram verdadeiras máquinas de fórmula 1 a deslizar em bandos de disputas concorridas, às vezes esfolando o calcanhar em freadas bruscas.
Na época de ventos fortes, que coincidiam com as férias do meio de ano, outro divertimento aparecia nos céus, que ficava colorido com os papagaios, quadrados, raias, pipas e outros tantos sinônimos, evoluindo, desenhando no céu azul toda a felicidade da gurizada. As rabiolas eram feitas de tiras de pano velho de algum lençol roto. A linha era 24 Corrente, que diziam não quebrar, mas quebrava, ou um cordonê, um barbante fino a deslizar numa carretilha. Os pipas eram verdadeiras obras de arte a enfeitar num colorido diferente o descampado, pois fiação elétrica era coisa rara, poucos tinham em suas residências energia eletrificada, era tudo na lamparina.
Não se sabia ao certo quem determinava a ordem das brincadeiras, mas acreditávamos que Deus a transmitia em sonho para cada garoto, ou garota. Assim, a rua enchia de alegria, gritaria, disputas sadias. Começava com o zumbido de pião na cela a “ducar”, furando o pião adversário, que errou sua manobra. Ao lançar o pião na cela (pequeno círculo no chão batido de terra), saía um som vibrante, um zumbido, que depois era recolhido, suspenso na fieira ou na palma da mão, como um troféu.
Campeonatos eletrizantes de futebol de botão mudavam o comportamento, deixando-nos ansiosos por ver nosso time batendo adversários imaginários, onde os grandes vencedores éramos nós mesmos, com nossa felicidade.
Um casal muito simpático, dona Etelvina e seu Batista, como tantos outros patrícios que vieram de Lisboa, Portugal, espreitavam nossas algazarras por entre as frestas do portão. Ela, governanta, ele, fiscal de alfândega, o furador de lingüiças, que procurava contrabando no Porto, nos embutidos caseiros feitos em Portugal, e que vieram no tempo da guerra, pela dificuldade da Europa, tentar a sorte no Brasil e se fixaram primeiramente em Pinheiros e depois conseguiram a “casita” no bairro Jardim São Luiz, em Santo Amaro.
- Ouve lá meninos, não me furem a calçada! - dizia dona Etelvina, ralhando conosco, em tom materno, carinhoso.
Ficavam a espreitar nossa marotagem em sua calçada, ao jogar as burcas (bolinhas coloridas de vidro) nas biroscas, quatro buracos em forma de L. Primeiro, a “arriscança”, depois, a “matança” dos oponentes. Ou então se jogava em triângulos eqüiláteros, desenhados no chão, não tão perfeitos na geometria, a tentar tirar as burcas “celadas” e fazer a “rapela”, que era como falávamos quando se ganhava as burcas dos outros meninos.
Já as meninas brincavam com suas amarelinhas, pulando de encontro ao objetivo, que era o céu, ou então jogavam cinco pedrinhas escolhidas nos montes de pedregulho das construções, pedra lavada de rio, não havia pedra britada, e que sentadas no chão eram lançadas e recolhidas na palma da mão, na “casa do um”, na “casa do dois”, na “casa do três” e, por último, a do quatro, e ali aparecia a campeã toda sorridente.
Havia aquelas que pulavam corda como ninguém. Com um bater constante no chão de terra, duas vigorosas braçadas davam a ordem:
- Fogo, foguinho! - e pulava-se até a exaustão ou demolir no chão com as canelas avermelhadas por alguma chibatada. Por vezes unidas aos meninos, corriam de uma queimada, uma bola de meia, com duas turmas que se digladiavam, separadas por uma risca no chão. E um pega-pega constante, contando até dez e um desembestar em fuga:
– Esteja preso! Esteja solto!
Muitas gargalhadas e zoeiras, como um bando de pardais nas árvores, descansando em suas copas, após nos refugiarmos depois da refrega do “bate-latas” e sermos encontrados no esconderijo. Por vezes aparecia uma rara bolinha de tênis que era judiada por porretes de madeira por duplas separadas por certa distância com objetivo de derrubar as forquilhas da cela defendida com garra pelo detentor dos tacos.
Muitos Pelés e Garrinchas apareciam nos improvisados campinhos do “Arranca Toco”, do Ranulfo, Maracananzinho, e o bem concorrido Campinho do Edson, onde atualmente está a caixa d’água da Sabesp, do bairro Jardim São Luiz. Todos eram bem próximos, pois para crianças não existem distâncias, separações. Éramos todos iguais com nossos sonhos.
Nós capinávamos a vegetação para formar com o roçado nosso campinho de tantas pelejas fascinantes. Construíamos as traves, que de tão “bem” feitas às vezes tinham o cipó que as amarrava desprendido e precipitavam na cabeça de um bom goleiro. Os dedões eram tipicamente sem unha, por tantos entreveros, e o calçado, quando existia, era algum Bamba ou os modernos Kichutes, os primeiros tênis industrializados de lona que vieram substituir as alpargatas de solado de corda trançada e pano. Estes tênis ficavam rotos de tantas batalhas inesquecíveis que calçavam esses atletas anônimos, que mais tarde eram substituídos pelas “chancas”(chuteiras), ou modernamente falando, chuteiras, com cravos fixados por pregos que rasgava toda a meia.
Esses garotos depois se tornaram no futebol de várzea próximos à Ponte João Dias, grandes oponentes, fazendo das manhãs domingueiras encontros de esquadras bem formadas e nomes sugestivos: Vasquinho, Vermelhinho, Esporte São Luiz, Brasília, Grêmio, Portuguesinha, Vila das Belezas, Martinica, Mirim Brasil, Internacional, Benfica, Continental, Estrela do Norte, Rubi, Onze Garotos, Maninhos, Noroeste, Bonsucesso, Macotec, Sete de Setembro, Boca Livre, Bragança e outros tantos celeiros de craques, que colocavam em prática as diabruras aprendidas por todos os recantos, pelas crianças da rua amiga, que existiram em tantos cantos de São Paulo.
Estes feitos de muitas crianças brasileiras, de muitos lugares semelhantes, de poucos recursos na época, que sem dúvida, foram construídos (e nem sabíamos o que era construtivismo) em muitas periferias ao redor da cidade de São Paulo. Essas crianças assim exerciam atividade lúdica sadia, em grupos ordenados e foram felizes ao seu modo.