segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Memes e a História do passado “passada” a limpo

Como rever e reaver as tradições locais?

Interagir com o espaço ocupado, não pertencendo ao mesmo e não vivendo ali, quem chega de outro lugar sente o "cheiro" do pertencimento de outros que possuem identidade com o local. A resposta a isso, de estar, permanecer no “lugar” deve ser entendido como aceitação. Esse “estrangeiro” tem que ter receptividade dos habituados com a dinâmica e deste modo começa a interessar-se em agir pelo bem comum e até comprometer-se com uma cultura desconhecida, mas que aos poucos vai assimilando e se integrando ao meio.
 
Esta “aceitação” nunca é imediata, leva tempo para amadurecer, as pessoas estudam o comportamento nos primeiros contatos. Não pertencemos somente porque nascemos em determinado espaço, mas porque participamos deste espaço. Evidente que laços iniciais da terra natal, nosso primeiro habitat, deixam marcas, mas não determinam que se faça parte do “lado de cá do rio”, nem do “lado de lá do rio”, estamos “dentro do rio” e somos complemento uns dos outros. 

Na história precisa-se desarmar de tudo e a observação deve ser desprendida, sem prévios conceitos de nossas convicções e penetrar no universo dos outros, a alteridade, aceitação das diferenças, mesmo que ela pareça estranha a nossa ótica.

Quando resolvemos catalogar a história do pertencimento, orientação de uma identidade reconhecida pelo movimento social depara-se com modos de observação para registro como a iconografia captada em um momento histórico qualquer em determinado espaço registrado por um observador existencialista, o “andarilho” em busca das reminiscências sem o interesse de reconhecimento financeiro, mas um registro por um ideal de preservação histórica onde cada momento tem o seu cuidado.

Unindo os elementos, iconografia, historiografia e depoimentos, cria-se a dimensão que completa os “autos de um processo” que resulta no objetivo de formar a identidade procurada por cada geração que se liga a toda construção histórica de cada indivíduo, refletindo em cada momento contemporâneo, fazendo a evolução de valores do pertencimento que une um grupo em determinado espaço e tempo, almejando formar um elo de igualdade, respeitando e aceitando a alteridade. 

A história tem que ser imparcial, não tem amigo nem inimigo, não pactua jamais com interesses de políticas escusas, e por isso fascina sempre.

As informações de cultura são transmitidas entre as pessoas envolvidas em determinada atividade, que vai sendo transformada no tempo, pode ser na própria linguagem, nas representações artísticas de toda ordem.
Há sempre transformações atingindo outros patamares com outras gerações que preservam ou não determinados estrutura de compreensão de certa atividade cultural. Nada é estático, há transformações ao longo do tempo, e por vezes altera-se até o local de origem da atividade específica.

Há coisas que desaparecem e outras que surgem com novas roupagens, estes são os “memes”, as informações transmitidas de gerações a gerações que conservam ou extinguem por vários motivos.

O que permanece como tradições em Santo Amaro desde tempos de nossos antepassados e o que desapareceu por completo, sendo apenas lembranças de uma história passada? 

Como reativar as festas religiosas ou seculares nos momentos atuais? 

Eis o grande desafio de tudo que representou uma identidade local.



4ª Caminhada Cultural pela Revitalização do Centro Histórico de Santo Amaro: Evento realizado em 16 de agosto de 2015

O SEXTO SENTIDO: MEMÓRIA
O PODER "PODE" DOCUMENTAR E AGIR!
Nova significação: UM MERCADO (não matadouro!) ANTES E CASA CULTURAL DEPOIS
DIREITA VOLVER: A EMPRESA YORK E SUAS REMINISCÊNCIAS EM SANTO AMARO: EM QUE SE TRANSFORMARÁ?
CONSCIÊNCIA COLETIVA: MITO; TRADIÇÃO; FICÇÃO; HÁBITOS...

CONSTRUIR; RECONSTRUIR; DESCONSTRUIR..........
O ESPAÇO E SUA SIGNIFICAÇÃO SOCIAL E HISTÓRICA: Local da Escola Paulo Eiró; o que fostes e o que és?
O CASO DE UMA CASA: EX-PAÇO NO MESMO ESPAÇO PRESERVADO
CONGELAMENTO DA IMAGEM: O PRESENTE É O PASSADO MAIS RECENTE!
A importância religiosa e seu maior simbolo determinante do eixo histórico de Santo Amaro: CATEDRAL DE SANTO AMARO

UMA OBRA, UM SENTIDO, UM AUTOR (JÚLIO GUERRA): CONHECIMENTO TÁCITO
 TRANSFORMAÇÕES DAS INTERFERÊNCIAS HUMANAS
OBSERVAÇÃO EXISTENCIALISTA: O QUE PODE SER MUDADO?
Quando e como acontece as mutações que se funde a outros elementos recriando outra imagem diferente de duas (ou mais) culturas? 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CATEDRAL DE SANTO AMARO/SP E A RESTAURADORA ANA LÚCIA DA SILVA SANTOS

Primeiras Intervenções na Catedral

A Catedral de Santo Amaro oficializada como tal desde 1989 por decreto do Vaticano que a desmembrou da Arquidiocese de São Paulo, está em fase de detalhes de acabamento que demandam prévios estudos que devem ser respeitados em todo o contexto da arte de restauro.

O edifício em conjunto com o denominado Eixo Histórico de Santo Amaro foi tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo-CONPRESP, no ano de 2002. Numa primeira etapa logicamente houve estudo do estado detalhado da construção que teve uma grande intervenção de construção em 1924, quando uma comissão foi constituída para dar a forma do atual frontispício, nave e presbitério da atual Catedral.

Jornal “Polyanthéa”, em 01 de novembro de 1924, as obras da Matriz de Santo Amaro: Número Consagrado as Festas da Inauguração da Nova Matriz, dando por completado os esforços de uma comissão que “representa o maior monumento de nossa terra, estão concentrados os sentimentos mais íntimos e puros da população”. 

Uma análise detalhada das condições do prédio, no primeiro decênio do século 21,  dava o diagnóstico de uma estrutura frágil e deteriorada por infestação de insetos nocivos em todo o madeiramento comprometendo o telhado que poderia inclusive desabar. 

As primeiras prospecções na Catedral feitas por engenharia civil, diagnosticavam a urgência da troca do telhado e todo o seu vigamento comprometido. Isso foi providenciado com as técnicas da atualidade sendo as antigas estruturas trocadas por vigas de aço carbono e nova cobertura.


A reforma coube a participação efetiva da Associação dos Amigos da Catedral, presidida pelo bispo Dom Fernando Antonio Figueiredo, arrecadando verba necessária para esta etapa de restauração, doada por empresários da região, fato concretizado a partir de 2009.
Deste modo, depois de árduo trabalho, chegou ao atual estágio que é o restauro da arte pictórica da Catedral de Santo Amaro. O recurso maior que promoveu todo incentivo da restauração da Catedral de Santo Amaro é proveniente da Lei 8.313/91 conhecida por Lei Rouanet[1].
Logo foi providenciada a restauração do forro da nave e molduras da Matriz que antes teve o processo de “escaneamento”, além de ser fotografado, tudo em alta resolução, para copiar as obras pintadas no forro antigo.

Novo estágio em 2015: Restauro Artístico e Decorativo

Houve uma primeira etapa de decapagem (escarificação) para remover antigas camadas existentes em toda a superfície. Houve fissuras em certos pontos que necessitaram de uma intervenção mais delicada e até penetração em camadas pictóricas na arte mural para extrair uma salinidade proveniente da estrutura da camada do reboco.


O desafio maior em uma obra de restauro, preservando as características mais fiéis possíveis do original, sem modificação do objeto estudado, conservando-o o mais próximo possível da arte mural elaborada pelo autor com os recursos do momento atual com a mínima intervenção possível.

Por vezes antes de quaisquer início de trabalho requer-se uma preparação de superfície  que se inicia com um pincel seco e macio extraindo toda as impurezas fixadas na obra resultado de seu tempo de exposição, sendo, às vezes necessárias intervenções por meio de solventes para extrair resíduos incrustados(sujidade) na obra e isto demanda tempo de preparação antes do intervenção no painel mural.

As técnicas de pintura foram sendo elaboradas e reveladas à população de Santo Amaro pelo esforço paciente e continuo de grandes profissionais, tendo participação efetiva da restauradora, a artista plástica Ana Lúcia da Silva Santos, que com destreza dos grandes mestres do restauro deixa a obra “aparecer” para ser contemplado pelo público, além de outras interferências de outros profissionais exímios mestres da arquitetura.


A artista plástica Ana Lúcia da Silva Santos que é a responsável pelas obras da Catedral é uma paulistana genuína que ousou enfrentar o desafio de revelar o que antes se manteve escondido por longos anos. Estas obras pictóricas internas da Catedral estavam, há muito, encobertas por um manto de uma pintura opaca em todo o interior das naves laterais e central e do presbitério que hoje podem ser observadas para deleite e orgulho santamarense.

Tendo cursado a Fundação Armando Alvares Penteado,FAAP, trabalha com arte por mais de uma década, ministrando essa experiência e seus conhecimentos acadêmicos em escolas de São Paulo tanto na obra artística quanto a decorativa.

A textura tem todo um preparo inicial de conservação para bens culturais usando verniz de proteção para o esmalte com a textura necessária usada na têmpera da obra definindo a exatidão das cores que mostra os traços do artista e ainda reflete todo o contexto histórico temporal.

Anteriormente trabalhou em vários projetos da empresa “Croma, Arquitetura e Restauro Ltda”, e dentre tantos projetos há de destacarem-se os serviços de conservação e restauro de pinturas murais, artísticas e/ou decorativas em:

Mosteiro da Luz, sito à Avenida Tiradentes, 678,SP

Teatro Paulo Eiró, sito à Avenida Adolfo Pinheiro, 765, Bairro de Santo Amaro, SP

Capela do Colégio São José, sito à Rua Dom Bosco, 466, Cidade de Batatais, SP

Faculdade de Medicina da Univ. São Paulo, Museu. Av. Dr. Arnaldo, 455,SP

Edifício Martinelli, Sindicato dos Bancários, 1º, 2º subsolo. R.São Bento, 405, SP

Catedral do Carmo, Cidade de Santo André, SP

Palacete Conde de Sarzedas, sito à Rua Conde de Sarzedas, 325, Bairro Liberdade, SP-MUSEU DA JUSTIÇA, São Paulo.

Paróquia Imaculado Coração de Maria, sito à Rua Jaquaribe, 735, Santa Cecília, SP

Em cada uma destas obras há uma especificidade que se devem levar em consideração as técnicas empregadas por cada artista em determinado tempo e espaço, sendo estudada cada intervenção que requer do restaurador conhecimentos diversificados no momento contemporâneo e ser medido com precisão “pari-passu” em cada intervenção que se propõe realizar.

Este é o grande desafio do restauro da Catedral de Santo Amaro, sobre os auspícios de árduo trabalho que está sendo elaborado pela artista plástica Ana Lúcia da Silva Santos para que se recupere este marco mais importante da região com orientação do pároco Rogério Cataldo Bhering que muito tem contribuído para reavivar a Matriz do Largo 13 de Maio.


Espera-se a crítica da crônica para construir o histórico mais próximo da fidelidade deste marco histórico de Santo Amaro/SP.




[1] Lei Rouanet: Autoriza que seja abatido do Imposto de Renda devido por Pessoas Jurídicas e Físicas 100% dos valores investidos no patrocínio à produção de obras limitado a 4% do Imposto de Renda devido por Pessoa Jurídica e a 6% do Imposto de Renda devido por Pessoa Física.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A Pintura Artística na Paróquia São Luiz Gonzaga: Frei Lázaro Aparecido Diogo

PATRIMÔNIO SACRO NA PERIFERIA DE SÃO PAULO

No início do ano de 2004 a Paróquia São Luiz Gonzaga estava em fase de término na sua construção civil, mas na arquitetura necessitava complementos de acabamento.
Suas amplas paredes necessitariam de uma representação artística que desse o sentido religioso e fosse condizente com toda parte litúrgica e mostrasse uma obra sem excessos, necessitando que fosse elaborado um projeto de estrutura artística às mesmas.

Era necessário contratar um artista que completasse uma ideia que transmitisse algo que fornecesse consistência a parte interna, uma construção reta, sem excessos. Apareciam sete vãos nas laterais onde seriam as aberturas das janelas restando no fundo próximo ao presbitério um espaço suficiente para ser completado como mural religioso, de ambos os lados.

ESPAÇO SAGRADO

Toda a simbologia completada pelo serviço do culto (liturgia) tem a representação de um mistério que se celebra, e deste aproximar pelo “religare” do homem com Deus, quando se apresenta as oferendas do pão na patena e o vinho no cálice que é a participação do banquete na mesa que é o altar, morte e vida, o derradeiro momento da paixão de Jesus Cristo e sua Ressurreição.

 A eucaristia está ligada em participar do banquete e se aproximar da ceia oferecida por Deus, onde se manifesta o Sagrado, a transubstanciação do pão em corpo e vinho em sangue elevado aos céus pelo sacerdote. O envio por vezes incensado como para alcançar o Divino nas necessidades humanas.

 Este espaço sagrado deveria ter representação iconográfica sagrada, onde a mente do artista já define toda a estética deste cenário, de um momento sublimado pela paleta e pincéis que darão forma aos momentos em todo seu trabalho.

A ARTE E O ARTISTA

Padre Edmundo da Mata conheceu o Frei Lázaro Aparecido Diogo, pintor e músico no Colégio Jesus, Maria, José, no bairro de Santo Amaro e sabendo de seus dotes artísticos em pintura sacra o convidou para idealizar um arrojado empreendimento: pintar os painéis da Paróquia São Luiz Gonzaga e sua sacristia. Não se resumem a vida em algumas linhas por vezes algumas laudas, pois a individualidade de cada ser é maior pelos feitos apresentados.

O padre artista nasceu na cidade de Andradas, no sul de Minas Gerais em 11 de março de 1954.

No ano de 2004 começava um árduo trabalho de preparação para a obra, com andaimes sendo montados, o preparo das paredes para receber a pintura a óleo em painéis de aproximados 6 metros de altura, onde possui como auxiliar o piauiense Bento Alves. Nos espaços vazios das laterais e da parede frontal do presbitério foi construída uma segunda parede saliente as estruturas originais feitas de alvenaria que receberiam os painéis de três passagens bíblicas do novo testamento.

A formação estudantil de Frei Lázaro começou na cidade de Andradas, em Minas Gerais, e mais tarde ingressou no seminário dos capuchinos de Ouro Fino. Com aprofundamento acadêmico resolveu seguir estudando Filosofia e Teologia no Seminário de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, onde seu professor no Instituto Teológico Franciscano fora Dom Fernando Antonio Figueiredo, que era bispo de Teófilo Otoni. Somou a este dom a formação em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, bacharelando-se em Artes na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, em 1993, com bolsa de estudo financiada por entidade da Alemanha.

Devido ao trabalho constante não possui uma igreja para ministrar os ofícios religiosos, mas sempre que possível exercia seu sacerdócio pleno oficializando o culto religioso onde era convidado. Quando se formou a Diocese de Santo Amaro em 1989 escolhendo Dom Fernando Antonio Figueiredo como primeiro bispo de Santo Amaro, Frei Lázaro veio junto e se fixou em Santo Amaro, São Paulo.

Formar os traços dar a dimensão física das imagens, fazer o esboço com croqui, deslizando o carvão pela superfície plana, formando as proporções ideais da imagem requer sempre uma paciência e experiência que forma e forja o artista que desde pequeno enveredava pelo campo do desenho, esboçando imagens sacras familiares em seu tempo de criança em sua terra natal.

Antes desse desafio apresentado pela Paróquia São Luiz Gonzaga, já havia tido outras experiências como a Catedral de Caratinga, Igreja da Padroeira Nossa Senhora Aparecida de Uberlândia, ambas em Minas Gerais, vindo a apresentar sua obra em São Paulo, na Igreja de Santo Antônio de Lausane Paulista, entre outras obras, somando a isso muitas honrarias recebidas em nome da arte sacra que criou.

A pintura a óleo é sua técnica mais utilizada nas igrejas, e onde possui larga experiência profissional, com preparação do “primer” de absorção de superfície, exigindo “planicidade” perfeita para depois receber a pintura definitiva.

As pinturas dos painéis fixos da Paróquia São Luiz Gonzaga foram aos poucos tomando forma, por vezes do trabalho pouco se via das alegorias impedidas por algum entrave dos andaimes, mas pelas frestas aparecia delineada a grandeza da obra. 


Do lado esquerdo de quem entra no templo está representada a passagem da Anunciação à Virgem Maria. Do lado direito tem-se a representação de outro anjo que também anunciaria a Ressurreição de Jesus. 

Na parte frontal há a representação do Jesus elevado no Trono Divino com apóstolos estupefatos, seis personagens bíblicos de cada lado a olhar ao alto o momento da sublimação de Pentecoste. Há ainda várias passagens de imagens menores que representam as passagens terrenas de Jesus e vários anjos em posição de oração.

Na capela tem-se o momento da Transfiguração com Jesus assumindo seu poder Divino.

Na sala de acesso a sacristia, onde estão todos os paramentos, alfaias, livros litúrgicos e outras simbologias cristãs, aparece outro painel de beleza plástica de igual importância as demais escritas, que representa Maria com o filho Jesus ao colo, ladeados por dois anjos postados de cada lado.

Depois desta obra completada, a paróquia recebeu a tonalidade da arte sacra, dando ares de soberania como lugar sagrado. Mais tarde o Frei Lázaro recebeu a incumbência de produzir as estações da via Sacra, que está representado em 14 quadros colocados ao longo das paredes laterais, e que assumem toda a plenitude artística deste momento doloroso da paixão de Cristo, mas que foi representado com a singeleza pelo artista, Frei Lázaro.




A paróquia São Luiz Gonzaga deste modo tem um acervo representativo do Patrimônio Sacro paulistano e que é engrandecido pela fé religiosa do povo jardinense que tem a primazia em possuir esta riqueza de alto valor artístico.
A OBRA EM SUA PLENITUDE



Aguarda-se a crítica da crônica para complemento e/ou alterações necessárias do texto.

Depoimento de Frei Lázaro Aparecido Diogo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A galinha e o Ovo de Colombo: Uma grande viagem

"A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado".- Marc Bloch

Pelos estudos de arqueologia e história parece ter havido uma simbiose entre o predador homem com a domesticação da ave-galinha por volta de 8 mil anos. Provinda do sul da Ásia, de onde é nativo o galo-banquiva, do Vale do Rio Indo, espalhou-se pelo globo. 

O homem domesticou os primeiros galos-banquivas na Índia, cerca de 3.200 a.C. A Mesopotâmia teve contato com a galinha por volta de 1950 a.C. estava na rotas de comércio do Golfo Pérsico e atingiu a cidade do Ur,(Mesopotâmia, atual Iraque) local bíblico de Abraão(Gênesis 11:31)

Também pela Rota da Seda, a China popularizou essa ave por volta de 1500 a.C. e no Egito já era conhecida por volta de 1450 a.C. quando já reinava a 18ª Dinastia (entre 1550 a.C. e 1295 a.C.). A Pérsia (atual Irã) espalhou a ave ao redor da região por volta de 550 a.C. espalhando-se para o atual Cazaquistão e a Ásia Menor (Turquia). 

Os fenícios também foram propagadores levando-a a Grécia onde foram estampadas em moedas e cerâmicas coríntias por volta de 700 a.C. e sendo mencionada pelo poeta Theognis de Megera em 600 a.C. e ainda Cícero cita rinhas de galos e o comportamento destes por volta de 250 a.C. Por volta do ano 50 d.C. de Roma a ave espalhou-se pelo Império, embora alguns estudiosos propaguem que no ano 100 a.C. a galinha fora introduzida por alguns recantos da Europa atingindo a Grã-Bretanha. 

Uma lei romana, a Lex Faunia de 162 a.C., faz referência de como criar e produzir frangos castrados e como tratar galinhas poedeiras. 

Na cidade de Maresha, (ou Marissa, região da Idumeia), aproximados 60 quilômetros de Jerusalém, fez parte das conquistas gregas de Alexandre, O Grande, antes da Era Cristã, local onde concentraram escavações arqueológicas e que encontraram esqueletos de galinhas datadas (carbono 14) de 245 a 140 a.C., considerando que por volta dessa época a ave começou a ser sistematicamente produzida, pois há sítios escavados que foram encontrados restos de aves. 
Galináceas ao redor do mundo-CRÉDITO:Poultry of the World, por L. Prang & Co.

Com o advento das grandes navegações a galinha sai do Oriente e Europa e atinge ilhas do Pacífico por volta do ano de 1200 d.C., sendo que podem ter existido rotas para atingir outras regiões. Cristóvão Colombo em sua segundo viagem para a América, em 1493, transporta para a Ilha de São Domingos 200 galinhas, iniciando sua criação no Novo Continente. Pedro Álvares Cabral trouxe a galinha em sua expedição pelo Brasil em 1500 e consta até de ter assustado os nativos, a ponto de não quererem nela tocar. Nas expedições exploradoras comandada por Martim Afonso de Souza, ela chega no sudeste com a fundação da Capitânia de São Vicente, fundada em 1532.

Um Rei no Brasil e o mito do apetite por frangos

Dom João assumiu o trono após sua mãe, D. Maria I perder as faculdades mentais sendo reconhecido oficialmente como regente em 1792 e príncipe regente em 13 de julho de 1799. Com a morte da rainha, em 20 de fevereiro de 1816, o regente assumiu o trono com o título de D. João VI sendo aclamado rei em 6 de fevereiro de 1818.

Entre 25 e 27 de novembro de 1807, quase 15 mil pessoas preparam-se para embarcarem em 14 navios da esquadra real e outros mercantes: a família real, a nobreza e o alto funcionalismo civil e militar da Corte foram forçados pelo exército francês de Napoleão a abandonar a Europa. 

Em 28 de novembro de 1807 a corte portuguesa deixa Portugal e desembarcam em 22 de janeiro de 1808 em Salvador e em 28 de janeiro assina a abertura dos portos. Em 7 de março de 1808 D. João e a comitiva sai da Bahia e aporta no Largo do Paço, hoje Praça Quinze, em 8 de março de 1808 no Rio de Janeiro com a família Real Portuguesa com seu séquito

Em 16 de fevereiro de 1815 o Brasil e elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. Com a Revolução Liberal do Porto de 1820 apressa-se a partida de D. João VI de volta a Portugal em 26 de abril de 1821. Dizem que D.João VI se fartava de comer e que no estômago de Dom João VI cabiam três frangos e quatro mangas a cada refeição. Se isto é uma calunia histórica pode ter sido colaborada por quem queriam denegrir a administração de um rei estrangeiro governando na América e perpetuado após  a República. 

Nada ainda foi comprovado de ser D.João VI um devorador contumaz de frango assado, mas faz isso parte de um folclore que apresenta o frango como algo comum na alimentação brasileira, prato que geralmente faz parte do cotidiano até os dias atuais por ter custo baixo.

Uma receita de Portugal: CABIDELA

Um prato muito comum no Brasil, antes de se proibir a comercialização de sangue pela vigilância sanitária, (o sangue precisa ser certificado com o animal sendo abatido em frigorífico) foi a galinha ao molho pardo, também conhecido em algumas regiões como galinha de gabidela, que é preparado com os miúdos e a carne envolvidos por molho a base de sangue diluído com vinagre. O termo cabidela, provavelmente se originou da língua portuguesa que chama de “cabos” as extremidades do animal, como pescoço, pernas, asa e podem ser feito com outros vários animais como cabrito, porco, pato ou proveniente de animais de caça selvagem. Parece que as receitas com sangue são preparadas em Portugal desde o Achamento do Brasil, nas regiões de Trás-os-Montes, Alto D’Ouro, no Minho, Alentejo, Beira Alta, e outros cada qual com sua peculiaridade.

Deste modo se perpetua por toda parte os conceitos gastronômicos variados que satisfaz todos os povos!

Referências:  






Como o frango chegou ao forno:  O ESTADO DE SÃO PAULO, 25 DE JULHO DE 2015 http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,como-o-frango-chegou-ao-forno--imp-,1731785

O frango de dona Leopolda: O ESTADO DE SÃO PAULO, 24 A 30 DE ABRIL DE 2014 https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=+o+frango+de+dona+leopolda

Receita infalível para curar ressaca: O ESTADO DE SÃO PAULO, 19 A 25 DE FEVEREIRO DE 2015 http://blogs.estadao.com.br/paladar/galinhada-receita-infalivel-para-curar-a-ressaca/

Lello Universal, Porto: Artes Gráficas.


Gomes, Laurentino. “1808”. São Paulo: Planeta, 2007

sábado, 1 de agosto de 2015

Santo Amaro e o Coronel Júlio Marcondes Salgado na Revolução de 32

Pesquisa e produção de explosivos: Cenário dos Fatos

Ao iniciar-se a Revolução Constitucionalista em 1932, em São Paulo houve mobilização efetiva para a preparação de munição. Evidente que existiam limitações de produção no início do conflito, mas São Paulo possuía um parque industrial significativo e a Federação das Indústrias de São Paulo presidida por Roberto Simonsen, era de grande importância na preparação bélica de retaguarda. Nisso estava incluso a fabricação de capacetes de aço, bombas de fumaça, barracas de campanha, telefones e artigos de couro para transporte de equipamentos, fabricação de produtos químicos destinados à fabricação de explosivos, reparação de aviões, hélices, construção de porta bombas, enfim uma gama enorme de produtos industrializados sobe a égide da FIESP. 


Das indústrias mobilizadas no esforço de guerra há de se citar, entre tantas, a Fábrica Nacional de Cartuchos e Munições das Indústrias Matarazzo, tendo como diretor Giannicola Matarazzo e ainda a colaboração de Nadir Dias de Figueiredo, Ribeiro Couto, Heitor Bertacin entre tantos. Na preparação bélica de retaguarda estava também a Escola Politécnica com seu Laboratório de Ensaio de Materiais (mais tarde intitulado Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo) com preparação ativa de material bélico. 


O manuseio de explosivo requeria cuidado extremo e muitos estudantes e professores voluntários arriscaram suas vidas manipulando explosivos de alto risco sendo que muitos engenheiros foram vitimas fatais em explosões repentinas. A pólvora para granadas, projéteis, de explosão, bombas para uso em aviões foram fabricadas pela Escola Politécnica. 

As primeiras granadas foram arquitetadas pelo desenhista Hans Schlueter e por Aldo Bardella que se encarregou da fundição em sua fábrica, que eram semelhantes às inglesas, mas existia a dificuldade da substituição do detonador, pois não havia tempo hábil para fabricar espoletas com anel periférico de fulminato (de mercúrio) conforme a inglesa e assim se adaptou pequenas espoletas de caça produzidas na Fábrica Nacional de Cartuchos e Munições das Indústrias Matarazzo.


As primeiras experiências com granadas foram realizadas no Campo de Marte, geralmente no horário noturno para despertar menos atenção. Outra arma desenvolvida foi o morteiro tipo Stokes, apelidado de Marcelino, em homenagem ao major José Marcelino da Fonseca, que morreu junto com o coronel Júlio Marcondes Salgado em testes Indianópolis (Congonhas, na época um descampado) com a referida arma no município de Santo Amaro em 23 de julho de 1932.



Deplorável ocorrência em Santo Amaro[1]: matéria A GAZETA, de 23 de julho de 1932

Sofremos essa manhã, uma grande perda, que não arrefecerá de certo o nosso ânimo combativo, mas que indubitavelmente causará às tropas e aos civis profundo pesar.
Essa perda foi a do bravo comandante da Força Pública de São Paulo, o brilhante oficial coronel Júlio Marcondes Salgado.
O ilustre militar, não caiu vitimado pelos adversários, mas por um desastre estúpido.
Hoje cedo o general Bertholdo Klinger, acompanhado de seus oficiais, tenente Saraiva e Pedro Celestino Filho e coronel Julio Marcondes Salgado, dirigiram-se a Santo Amaro afim de assistirem à experiências de um novo tipo de morteiro.
Quando ali chegaram várias experiências já tinham sido feitas com êxito. Prosseguiam os trabalhos normalmente quando uma das granadas, em vez de projetada para fora do tubo onde fora lançada, explodindo dentro dele. Com a explosão, voaram estilhaços para todos os pontos e um deles apanhou o coronel Marcondes Salgado no pescoço, seccionando-lhe a carótida. O bravo comandante da Força Pública caiu morto instantaneamente.
O general Klinger recebeu um estilhaço no braço, ferindo-se ligeiramente.
Feridos foram também, levemente, alguns oficiais do Exército e da polícia. Dos civis, presentes, parece que todos saíram ilesos.
A triste cena causou profunda impressão em todos os assistentes.
Foram tomadas pelo Governo, imediatamente providências, não só para os funerais do distinto oficial, como para que as operações de guerra não sentissem, com o seu falecimento inesperado, a mínima perturbação.
São Paulo ficou privado do concurso de uma das figuras militares mais representativas, mas nem por isso sofrerá, no seu poderio militar e na capacidade de ação da sua Força Pública diminuição alguma.


OUTROS FERIDOS

Ficaram feridos levemente, o tenente coronel Salvador Moya e um sargento; o capitão da Força Pública, José Marcelino da Fonseca recebeu ferimentos de certa gravidade.




Nota:
A homenagem derradeira ocorreu pelo Decreto 5602, de 23 de junho de 1932, quando Júlio Marcondes Salgado recebeu a patente de general da Força Pública de São Paulo.

Referências:

Tudo por São Paulo 1932

A GAZETA, 9 DE JULHO DE 1957, página 10 -Edição Comemorativa Retrospectiva da Epopéia de 32

A Escola Politécnica na Revolução de 1932 - Parte I – A Politécnica em armas
A Escola Politécnica na Revolução de 1932 - Parte II – A Fabricação dos Explosivos
A Escola Politécnica na Revolução de 1932 - Parte III – Os Morteiros

Os Empresários Ciccillo Matarazzo e Giulio Pignatari

Revista do Arquivo Municipal- volume 137; out/Nov/dez 1950, p. 87 a 108

Quartin, Yone. O Mackenzie e a Revolução de 32. São Paulo: EDICON, 1995



[1] A GAZETA, 9 DE JULHO DE 1957, página 10 -Edição Comemorativa Retrospectiva da Epopéia de 32 (reprodução do fato ocorrido, em publicação jornalística A GAZETA, de 23 de julho de 1932)