sábado, 26 de dezembro de 2015

A Catedral de São Paulo, o artífice Daniele Amato Pascale e o Jardim São Luiz/SP

Italianos Fazendo São Paulo

Há sempre algo a ser revelado nos recônditos da história, antes da mesma representar algo histórico. Precisa-se antes de tudo muito trabalho de abnegados que trabalham incessantemente antes de um fato histórico representar algo de relevância.

A SEDE RELIGIOSA DE SÃO PAULO

A nova Sé começou a ser projetada quando em 7 de junho de 1908 o Papa Pio X por decreto elevou a Diocese de São Paulo a categoria de Arcebispado e o primeiro bispo  local Dom Duarte Leopoldo e Silva foi promovido a Arcebispo Metropolitano. Em 25 de janeiro de 1912 foi anunciada a demolição da antiga Catedral da Sé para ser construída outra na metrópole paulistana. Foi convocado em 1913 para essa grande missão o professor da Escola Politécnica de São Paulo, Maximilian Emil Hehl.










Destes longos 50 anos da construção até as comemorações do 4º Centenário, onde a comissão dos festejos esteve a cargo de Ciccillo Matarazzo (Francisco Antônio Paulo Matarazzo Sobrinho) que comandou um grande “staff” para que os festejos fossem cobertos de glória para a cidade de São Paulo, naquele longínquo 25 de janeiro de 1954.




Houve muito trabalho realizado na Catedral, inaugurada pelo arcebispo Dom Carmelo de Vasconcellos Motta. Muitas pedras vinham da Europa até eclodir a 2ª Grande Guerra, que dificultou a importação sendo então extraída material da pedreira de Ribeirão Pires, em São Paulo. As torres só viriam a ser completadas em 1967.









Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo

Retrocedamos um pouco na história e veremos alunos do Liceu de Artes e Ofícios trabalhando com grande entusiasmo e afinco pela Catedral “nova” de São Paulo, a Nova Sé, após ser demolida a antiga onde hoje está o Monumento ao Apóstolo do Brasil e elevado a santo, Padre José de Anchieta[1].


Em 1954, quando a Cidade de São Paulo comemorava o seu 4º Centenário, muitas obras que foram idealizadas com grande criação artística pelo Liceu de Artes e Ofícios, sendo que na Catedral da Sé as portas de quase uma tonelada foram fabricadas e montadas no Liceu a partir de projeto de Anhaia Melo, além de muitas confecções internas como os bancos e púlpitos foram instaladas na grandiosa obra de arquitetura neo-gótica. 


   
Temos diante deste cenário uma escola de primeira oficio técnico, incentivando muitos filhos de imigrantes a buscarem “um caminho na vida”, que então eram encaminhados para o Liceu de Artes e Ofícios, na Avenida Tiradentes, onde hoje temos a Pinacoteca, bem em frente ao monumento em homenagem a Ramos de Azevedo, que mais tarde, com a transferência da Faculdade Politécnica de São Paulo foi também remanejado para as dependências da Cidade Universitária. Este era o ambiente urbano que diuturnamente freqüentava o menino Daniele Amato Pascale.

Daniele Amato Pascale, de família italiana, nasceu em 13 de agosto de 1934, na Vila Mariana, na Rua Humberto Primo, 909, na antiga Avenida Rodrigues Alves, que mais tarde ganhou mais dois nomes, Avenida Ibirapuera e Avenida Vereador José Diniz, até o encontro da Avenida Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro.

Por contingências do deslocamento urbano do operariado paulistano a família Pascale resolveu mudar-se para Santo Amaro e deste modo Francisco Pascale e sua esposa Vincenza Amato Pascale deslocou-se com toda família para a região ainda pouco habitada, vindo a residir na Rua Jupi, travessa da Avenida João Dias em 1942.

ITÁLIA: Santa Maria de Castellabate

De Santa Maria de Castellabate*, no sul da Itália, da terra de antepassados que vieram “fare la América”, estavam seus avós Daniele Pascalle e Maria Angela Trombetta Pascale, por parte de pai, e Gustable Amato e Clorinda Sauzano Amato, avós de Daniele por parte de mãe, que tiveram o registro imigratório a partir de Carmila Amato e Vicenza Piccirilo Amato, seus bisavós, que aportaram em Santos em 1912, começando deste modo a saga da família no Brasil.




(REFERÊNCIAS WIKIPEDIA)

(* O nome deriva do Castelo de Sant'Angelo, construído pelo abade Costabile Gentilcore em um local estratégico. Após sua morte, a fortaleza foi chamada pela população local pelo nome de seu criador, dando origem ao nome da vila de acordo com esta linha etimológica: "Castrum abbatis" ou  "Castelo do Abade” e deste derivou-se para "Castellabate".)

 Lungomare Pepi


Palazzo Perrotti e torre Pagliarola

Pela efervescência da Cidade de São Paulo em franco desenvolvimento, a família enveredou-se para o ramo da construção civil fazendo parte dos profissionais que edificaram a Nova Catedral da Sé de São Paulo.

Enquanto isso os filhos de seu Francesco e dona Vicenza eram encaminhados para as escolas públicas existentes: Tulia, mais tarde seguiu o caminho religioso se tornou Irmã Missionária do Jesus Crucificado. Tinha ainda outra moça de nome Maria, depois Assumpta e os meninos que seguiram pelo ramo técnico sendo que José tornou-se engenheiro civil e Daniele foi para a afamada Escola Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Em 1949 fez parte do corpo técnico que confeccionou as portas, bancos e púlpitos, confessionários da Catedral de estilo gótico da Sé de São Paulo. Ao todo havia nesta turma de marceneiros, aproximadamente 40 jovens entre marceneiros e entalhadores que trabalharam incessantemente de 1949 a 1954, ano de “fundação da nova” Sé paulistana. Evidentemente que caixilhos e outras peças de ferro ou aço não estavam no campo especifico de confecção em madeira e foram fabricadas por outras equipes de estudantes.

 Bisavós de Daniele Amato Pascale: Vicencia Piccirillo Amato e Carmeno Amato.

FRANCESCO PASCALE E VINCENZA AMATO PASCALE


A família teve participação efetiva na obra da Catedral, sendo que seu avô Gustable foi um dos colaboradores da montagem do Monumento representativo da primeira travessia do Atlântico, obra do italiano Ottone Zorlini, que foi erigido na Avenida De Pinedo em 1929, no bairro da Capela do Socorro, contratado pelo Circollo Italiano que na época não mediu esforços para tal empreitada. 






MONUMENTO AOS HERÓIS DA TRAVESSIA DO ATLÂNTICO: 3ª MONTAGEM NO ATUAL PARQUE DA BARRAGEM NA CAPELA DO SOCORRO


Gustable ainda fez parte do grupo de empreiteiros da torre da Igreja da Saúde, em São Paulo, seguido dos familiares Arthuro Amato e Rafael como edificadores da Catedral.

Em 1952 a família adquiriu um terreno amplo na Rua 3, atual Rua Osvaldo Pires de Souza, no Bairro do Jardim São Luiz, da Companhia Paulistana de Terrenos.À época este incipiente bairro de operários pertencia ao 30º subdistrito de Santo Amaro.

Em 1955 Daniele Amato Pascale mudou-se para o Bairro do Jardim São Luiz, casando-se em 10 de setembro do mesmo ano com a senhora Maria de Lourdes Barbosa tendo aumentado a família Pascale com os filhos, Francisco, Rosana, Márcia, Rosely e Luciana.
Daniele Amato Pascale

Os seus sogros Sabino e Temedia Barbosa também adquiriram terrenos no antigo local onde foi construído Feirão Coberto pelo então prefeito de São Paulo, Faria Lima, hoje Praça José Fernandes Camisa Nova, no Jardim São Luiz. Esta área foi desapropriada com indenizações irrisórias para os proprietários, somado aos Pascale estava "Chico" Furukawa, nipônico que já havia construído sua residência no local.


CASA DOS FURUKAWA ONDE HOJE É A PRAÇA JOSÉ FERNANDES CAMISA NOVA


PRAÇA JOSÉ FERNANDES CAMISA NOVA (atualmente)

Adquirindo experiência neste ramo de marcenaria Daniele Amato Pascale, já com formação adquirida foi trabalhar  na região do Brooklin na Zeller Decorações, tendo á frente o suíço Teodoro e seu filho Adriano Zeller, onde permaneceu até o ano de 1990.

Deste modo mais um “oriundi” faz parte do desenvolvimento de São Paulo e que dignifica o lema “honra e trabalho” do grande industrial, o Conde Francesco Matarazzo, filho também de Santa Maria de Castellabate, Itália para “fare São Paulo”.


Vide também:

BAIRRO JARDIM SÃO LUIZ, São Paulo/SP


A “Fundação Santos Dumont” e os restos mortais de Bartolomeu Lourenço de Gusmão
http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2013/07/a-fundacao-santos-dumont-e-os-restos.html







[1] Em 10 de agosto de 1736 o Papa Clemente XII declarou o Padre Anchieta como Venerável.João Paulo II beatificou-o em 22 de junho de 1980. O Papa Francisco assinou em 3 de abril  de 2014 o decreto que proclama santo o jesuíta espanhol José de Anchieta. A assinatura ocorreu durante uma reunião entre o pontífice e o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação das Causas dos Santos, responsável por todos os processos de beatificação e canonização existentes na Santa Sé. Em 24 de abril de 2015 um ano após ter sido declarado santo pelo papa Francisco, São José de Anchieta recebeu o título de padroeiro secundário do Brasil, sendo o padroeiro oficial do país ao lado de Nossa Senhora Aparecida.

domingo, 20 de dezembro de 2015

A ARQUITETURA DO GRUPO ESCOLAR PAULO EIRÓ EM SANTO AMARO/SP

Monumento é Documento

Com a queda do regime monárquico no Brasil surge o advento republicano, com pretensões estampadas na nova bandeira: “Ordem e progresso”, tornando-se o símbolo a ser seguido somado ao ideal vindo da Revolução Francesa e embasada nos princípios do positivismo de Augusto Comte.

Na República (comumente denominada de “Velha”) foram construídas 126 conjuntos de escolas públicas pelo Governo do Estado de São Paulo, compreendida entre 1890 e 1930 que foram idealizadas como uma arquitetura típica com certa uniformidade de  significados culturais, históricos e arquitetônicos.

Essas novas estruturas educacionais expressavam toda pujança que requeria da República, nascida com os ideais reformuladores, uma nova ordem com a característica da inovação de políticas públicas educacionais reconhecidas como responsabilidade do Estado em promover ensino básico para os filhos da Pátria Livre. Este ensino básico era conhecido popularmente como curso primário, abrangendo também a qualificação do professores que deveria ser preparado em uma escola Modelo para o ofício da função.

ARQUITETURA ESCOLAR: ECLÉTICA

Às políticas das edificações públicas estavam voltadas para a estruturação de programa pedagógico por todo o interior e capital do Estado de São Paulo[1].

O ecletismo na arquitetura foi largamente usado para identificar aquele momento que se ansiava pelo progresso, tanto em obras públicas com de propriedade privada com uma fachada acrescida com platibanda de ornamento dando ao frontispício ares de mudança, mesmo enraizada num passado, buscava o futuro.

A qualidade do conjunto arquitetônico era simples, geralmente seguindo um mesmo conceito de aproximadamente uma dúzia de salas bem arejadas procurando introduzir a ventilação natural em todos os cômodos que fechavam um amplo pátio e onde estavam as atividades lúdicas das crianças.

Neste momento histórico o uso da alvenaria de tijolos, em substituição ao adobe colonial, era largamente usado seguindo um estilo padrão clássico de construção da época e as variações em muitos municípios mudavam bem pouco sendo que no interior de São Paulo pela facilidade de terrenos amplos optou-se em se fazer construções escolares de um único pavimento térreo, enquanto que na Capital paulista optou-se por uma construção arrojada com dois pavimentos, característica própria o engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo e Ricardo Severo, seu sócio.

OS ARQUITETOS E SUA OBRA

No interior de São Paulo muitas construções escolares seguiram o estilo arquitetônico com predominância do Ecletismo. Muitos projetos foram de autoria de José Van Humbeeck, funcionário da extinta Diretoria de Obras Públicas do Governo do Estado de São Paulo, prevendo a separação das alas masculina e feminina, bem comum na época, tendo em muitos casos a colaboração de Manuel Sabater. Estas construções fizeram parte de projeto disseminado por vários municípios do interior do Estado de São Paulo, seguindo uma planta básica com alguma alteração de fachadas.

O GRUPO ESCOLAR PAULO EIRÓ E SEU VALOR HISTÓRICO DEMOLIDO

Grupo Escolar Paulo Eiró foi instalado no Município de Santo Amaro em 12 de novembro de 1910. A construção de seu edifício foi elaborada pelo governo do Estado de São Paulo, em terreno da prefeitura, como era praxe no interior paulista a cessão de terrenos municipais com intuito de construções públicas.












No Anuário do Ensino do Estado de São Paulo consta que em 1913 a escola Paulo Eirpo funcionava em dois períodos, com nove (9) classes e com a capacidade de 240 alunos, tendo 314 matrículas, havendo uma freqüência média de 184 alunos.

Nesta referida data era seu diretor complementarista[2] o professor Ismael dos Passos Brasiliense.

No mesmo Anuário em 1915 e escola recebeu 391 matriculas, tendo uma freqüência média de 205 alunos, sendo o mesmo diretor do ano de 1913. Com a incorporação do Município em 1935, pelo Decreto 6983, o governo de São Paulo incorpora a administração sendo que a escola passa a competência estadual da capital. 

O programa pedagógico aproveitava deste modo todo este potencial para introduzir os conceitos de um novo modelo educacional que vinha a ser implantado.

O ensino primário correspondia ao curso preliminar e o curso complementar sendo obrigatório para crianças entre 7 a 12 anos. O curso preliminar era então orientado por professores normalistas, sendo ofertado em escolas preliminares ou nas auxiliares intermédias e provisórias, estas últimas regidas por regulamentos do tempo do império (de 1869 e 1887)

Havia também a preocupação de ofertar curso complementar que estava voltado aos alunos habilitados no ensino preliminar, preenchendo a lacuna entre o ensino preliminar e o secundário; para tanto, ofertava-se um cabedal de conhecimento introdutório.

Na década de 1970 o prédio que ficava na antiga Rua Campos Sales, (atual Avenida Mário Lopes Leão) foi demolido, pois estava sem manutenção preventiva por muito tempo, sendo edificada outra escola na Rua Padre José Maria, 210, próximo ao atual Terminal de ônibus de Santo Amaro, com o Ensino Fundamental I e II.



A maioria dos demais edifícios construídos no advento da República, pelo alto valor histórico na evolução educacional do Estado de São Paulo, foram tombados pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT).



O antigo local da escola que tanto orgulho representou para Santo Amaro atualmente é parte da Praça Salim Farah Maluf e onde era a fachada característica do Grupo Escolar Paulo Eiró há na atualidade o Centro de Cidadania das Mulheres de Santo Amaro.






Local onde estava o prédio do "Grupo Escolar Paulo Eiró", hoje Praça Salim Farah Maluf 


Novos tempos, antigas imagens, muitas histórias!


Toda e quaisquer críticas da crônica desse momento histórico são aceitas para edificar de maneira justa todo contexto descrito.



Vide a “evolução” educacional no Brasil em:

AS “ESCOLAS” DAS COLÔNIAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS NA AMÉRICA

A Estruturação da Escola no Brasil após a Independência



A IDEIA DA RACIONALIZAÇÃO DO ENSINO PÚBLICO E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR NA REPÚBLICA DO BRASIL




BIBLIOGRAFIA

São Paulo (Estado). Directoria Geral da Instrucção Publica. Annuario do Ensino do Estado de São Paulo. São Paulo: Typ. Siqueira, 1913.

São Paulo (Estado). Directoria Geral da Instrucção Publica. Annuario do Ensino do Estado de São Paulo. São Paulo: Typ. Augusto Siqueira & C., 1915.

BACHELARD, Gaston, A Poética do Espaço. 1a . Ed., São Paulo: Martins Fontes, 1989.


CORRÊA, Maria Elizabeth Peirão; NEVES, Helia Maria Vendramini e MELLO, Mirela Geiger de. Arquitetura escolar paulista: 1890-1920. São Paulo: FDE-Diretoria de Obras e Serviços, 1991.

A Importância da Função Pedagógica do Diretor Escolar: Eliezer de Jesus Vieira




[1] A história da educação – e da humanidade - não acontece fora do espaço. “A memória não registra a duração concreta, é pelo espaço, é no espaço que encontramos esses belos fósseis de duração concretados por longo tempo...” (BACHELARD, 1975).

[2] O Estado tinha dificuldades com a falta de professores e de recursos financeiros, os reformadores da instrução indicaram como paliativo ao problema as escolas complementares. O governo republicano paulista atribuiu às escolas complementares a incumbência de diplomar professores. O Projeto de Lei n. 61 de 1895, conformando a Lei n. 374, de 3 de setembro de 1895, previu em seu artigo 1º, parágrafo único: “Os alunos que concluírem o curso complementar e tiverem um ano de prática de ensino, cursado nas escolas modelo do Estado, poderão, na forma da lei, ser nomeados professores preliminares com as mesmas vantagens concedidas aos diplomados pela Escola Normal”.
INDIVÍDUOS DA AÇÃO CIVILIZATÓRIA NAS ESCOLAS NORMAIS PAULISTAS (1896-1913)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A IDEIA DA RACIONALIZAÇÃO DO ENSINO PÚBLICO E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR NA REPÚBLICA DO BRASIL

Um ensino de qualidade: Uma Utopia ou realidade?

Vimos nestes últimos meses de 2015 debates acalorados a respeito da reorganização escolar pretendida pelas autoridades do Estado de São Paulo querendo implantar uma estrutura por faixa etária dos níveis fundamental I e II, e médio focando um planejamento voltado para as realidades atuais. Isto causou impasse ainda não resolvido e as escolas do Estado foram ocupadas, debatendo essa condição polêmica no seio da sociedade, de melhoria ou não no currículo, segmento de cada ciclo. Só o tempo poderá nos fornecer os resultados esperados de ambas às partes. Mas o que dizer do longínquo ano da reestruturação escolar do que era a escola do Império e uma nova postura com o advento da nova República que nascia no Brasil.

A IDEALIZAÇÃO DOS GRUPOS ESCOLARES

Um projeto civilizador foi idealizado no advento da República com a necessidade política e social de gerir a educação popular, mas estruturada para o controle e ordem social onde a sociedade estava voltada às perspectivas da Nação instaurada a partir de 1889. Era necessária uma reformulação das escolas precárias do Império onde se ministrava as operações básicas em aritmética, somada a condição de saber escrever.
Precisava-se criar um novo modelo didático-pedagógico com várias classes e vários professores com o método intuitivo, sendo necessário inserir a mulher no processo educacional.
Deste modo cria-se os “grupos escolares” como um projeto político de reforma social para difundir a educação popular, reformas implementadas a partir de 1890 com edifícios sendo edificados com a divisão em classes com regência de professor capazes.
Os grupos escolares receberam inicialmente a denominação de escolas centrais ou escolas graduadas, considerando grupos homogêneos por faixa etária com conteúdos pedagógicos para cada grau correspondente com aproveitamento pelo rendimento no nível de cada grau.
A escola graduada de ensino primário compreendia múltiplas salas de aula, com várias classes de alunos e professores que aparece a partir da década de 1890. 

A CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL

Era necessária ainda no conceito dos métodos de concepção moderna a criação da Escola-Modelo consolidada por Caetano de Campos para a prática de ensino e experimentação de alunos e mestres da Escola Normal, que foi considerada a base da reforma da instrução pública, um modelo a ser seguido pelas escolas públicas de São Paulo, sendo primeiramente instalada em prédio da Igreja do Carmo e inaugurada em 16 de junho de 1890.
Com a criação dos grupos escolares pela Lei nº 169, de 07 de agosto de 1893 começava um novo advento de aparelhar com equipamentos os 30 distritos do Estado, inclusive edificando prédios condizentes com salas amplas, pátios, museus escolares, bibliotecas e mobílias. Fica assim patente que o edifício-escola é idealizado com a racionalização de custos e de controle, organizando uma escolarização de massa organizando-se em uma escola primária unificada com a racionalização e padronização do ensino. A reunião de escolas em um mesmo edifício deu ênfase na criação das escolas reunidas, mas que funcionavam com independência como nas escolas isoladas, mas tendo o princípio da divisão do trabalho onde cada professor seria responsável por uma matéria, o que não ocorria nas isoladas em que um professor ministrava várias matérias. Tudo quanto fosse relativo ao regimento prescrito em legislação estava subordinado a Diretoria Geral da Instrução Pública que mantinha a fiscalização através de inspetores de ensino. Deste modo, no campo da educação, começou-se a abertura para atrair a participação feminina no final do século 19 uma das primeiras profissionalizações, o magistério público instituído em 1892, sendo uma atribuição e inserção social.

Conceito paralelo abortado pelo Estado

Neste mesmo período nascia também a ideia libertária de uma escola independente do modelo do Estado, ligada a conceitos anarquistas introduzidos no Brasil por imigrantes, que despontava como postura transformadora da sociedade, mas que foi reprimido por forças do poder do Estado e mesmo sendo integrada por algum tempo como paradigma de um novo pensar educacional, não passou de um sonho de poucos visionários que se viram reprimidos pela República dos Estados Unidos do Brasil advinda dos quartéis.
Mas este é outro capítulo que merece uma reflexão na busca do conhecimento.


SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de Civilização: a Implantação da Escola Primária Graduada no Estado de São Paulo (1890-1910). São Paulo: Editora UNESP, 1998.

HILSDORF, Maria Lucia Spedo. História da Educação Brasileira: Leituras. São Paulo: Pioneira Thonsom, 2005.

O Destino da Escola Modelo do Carmo, matriz da Escola Normal



A Estrutura Administrativo-Burocrática da Instrução Pública Paulista Instituída no Final da Década de 1890  http://sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe7/pdf/07-%20HISTORIA%20DAS%20INSTITUICOES%20E%20PRATICAS%20EDUCATIVAS/A%20ESTRUTURA%20ADMINISTRATIVO-BUROCRATICA%20DA%20INSTRUCAO%20PUBLICA.pdf (Acesso em 18-12-2015)


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Estruturação da Escola no Brasil após a Independência

O REINO SEM EDUCAÇÃO

Preocupado com o baixo nível da corporação militar no Brasil Dom João 6º começa a exercer sua influência reinante  partir de sua vinda em 1808, nomeando professores para adquirir aprendizagem de interesse do Reino, enviando à Inglaterra  alguns educadores para estudar um novo método para a implantação no seio das forças armadas. Logo que deixou o Brasil em 1821, passando para seu filho o comando sucessório, que logo em seguida programa o Império do Brasil em 1822, reconhecido com Nação somente em 1825 pelas potências internacionais.

A CRIAÇÃO DO NOVO IMPÉRIO E A "NOVA" ESCOLA! 

A normatização para o reconhecimento da classe do docente teve início somente em 1827, após a Lei Geral de Ensino.

Através da normatização do Estatuto iniciou o processo de reestruturação e hierarquização relacionado ao corpo docente através de Ato Adicional de 1834 repassando as responsabilidades para as províncias na parte administrativa no ensino primário e secundário e a formação do corpo docente, geralmente formado por homens.

As disciplinas correntes eram a aritmética e a escrita além de virtudes da moral cristã, e algum conhecimento geral básico.

O incentivo aos professores por intermédio do governo para a educação era pouco ou nulo, sendo a maior preocupação os custos despendidos per capita na Instituição Primária e Secundária.
A partir de 1859 houve uma reformulação acrescentando ao currículo de então a caligrafia, pedagogia, geometria básica, desenho, história do Brasil, música e canto.

Os professores desenvolveram novas formas de metodologia e pedagogia, substituindo o castigo corporal pela “lição de coisas”[1].

Foram criados “inspetores paroquiais” para controlar todo corpo docente onde havia uma interferência do Império, que constituiu um novo corpo de docente, treinado e orientado pelo poder do Estado.
O quadro educacional brasileiro era ineficiente, com métodos antiquados, instalações precárias quando não, inexistentes com altos índices de analfabetismo, pois a maioria da população estava no campo e grande parte da mão de obra era escrava, portanto desprovida da condição educacional.

Com pouca estrutura os manuais adotados nas escolas do Brasil vinham da França. O livro foi um dos principais elementos na composição do material escolar empregado por professores e manuseado pelos alunos, distribuídos na Província, que fazia a entrega sem análise de conteúdo e da concepção metodológica, com distribuição gratuita aos professores pelo Império, com limitações de publicações, onde os pais dos alunos tinham a responsabilidade da aquisição, exceto comprovada carência absoluta, sendo então recebido o auxílio de “socorro instrucional”.

CRIAÇÃO DAS ESCOLAS DE PRIMEIRAS LETRAS EM TODAS AS CIDADES, VILAS E LUGARES MAIS POPULOSOS DO IMPÉRIO


Art. 1º Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos, haverá as escolas de primeiras letras que forem necessárias.

Art. 2º Os Presidentes das províncias, em Conselho e com audiência das respectivas Câmaras, enquanto não estiverem em exercício os Conselhos Gerais, marcarão o número e localidades das escolas, podendo extinguir as que existem em lugares pouco populosos e remover os Professores delas para as que se criarem, onde mais aproveitem, dando conta a Assembléia Geral para final resolução.

Art. 4º As escolas serão do ensino mútuo nas capitais das províncias; e serão também nas cidades, vilas e lugares populosos delas, em que for possível estabelecerem-se.

Art. 5º Para as escolas do ensino mútuo se aplicarão os edifícios, que couberem com a suficiência nos lugares delas, arranjando-se com os utensílios necessários à custa da Fazenda Pública e os Professores que não tiverem a necessária instrução deste ensino, irão instruir-se em curto prazo e à custa dos seus ordenados nas escolas das capitais.

Art. 11. Haverá escolas de meninas nas cidades e vilas mais populosas, em que os Presidentes em Conselho, julgarem necessário este estabelecimento.

OS PRIMEIROS LIVROS DIDÁTICOS

O precursor do livro didático no sistema educacional brasileiro foi Abílio César Borges, nascido em Salvador, Bahia, em 1824, tornando-se educador ao fundar o Ginásio Baiano, em 1858. Por esse educandário passaram muitos “ilustres personalidades” que fizeram parte da história do Brasil. (como exemplo, Castro Alves e Rui Barbosa).  Em 1871 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde instalou o Colégio Abílio que se destacou abolindo os castigos físicos e se tornando “modelo” para as demais Instituições Escolares do Império. Estes livros didáticos fizeram parte da educação básica nas primeiras Letras na Escola Primária no Brasil do século 19, antes do advento da República.

Vide também:

AS “ESCOLAS” DAS COLÔNIAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS NA AMÉRICA


Referências:

Lei de15 de outubro de 1827.  Manda criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LIM/LIM-15-10-1827.htm
 

Método intuitivo e lições de coisas por Ferdinand Buisson http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S2236-34592013000100013&script=sci_arttext



[1] O objetivo da “lição de coisas” é de ensinar aos alunos antes de tudo a observar as coisas, depois as nomear; e, enfim, as comparar.