segunda-feira, 30 de abril de 2012

Que coisa entendeis por nação...

O rei e o presidente: "Farinha do mesmo saco"

O Estado é a síntese da opressão, pois os seus mandos estão atrelados aos desmandos do poder. Para que serve o rei, senão para ser servido pelo servo? Para que serve um presidente senão ter um séquito de ministros ao seu redor, vivendo à custa do poder? Dizem que o rei foi destronado para ser instituído Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ledo engano, foi troca de cetro simplesmente. Substituíram ao rei por outro poder mais eficaz no combate interno das fronteiras. Antes o rei tinha preocupação que seu feudo fosse tomado por forças externas, no hodierno o grande inimigo é o seu povo cansado de ser expurgado. Qual diferença há na exploração? Nenhuma! Qual a diferença das regalias do poder? Nenhuma! Ambos, o déspota esclarecido, quer estar atento aos movimentos que podem fazê-lo perder sua coroa, e o governante presidencial tem o receio de ser deposto por algum impedimento articulado por uma camarilha interessada em governar com outras regalias.
Há nisso tudo a manobra da massa disforme que não se organizam como as forças que defendem ambos, o rei e o presidente. Qual governo vive o homem contemporâneo? Na mesma condição que vivia o servo: sustentar o poder! Não há governos eficazes em nenhuma parte do mundo,  quando não há participação popular, estes governos não se sustentam por si só, precisam da manobra para criar dificuldades para destas mostrarem ao povo que são defendidos pelo Estado em seus direitos nos tribunais. O dever do Estado,  e manter a ordem, agindo pela força do direito das leis instituídas por regras que são favoráveis ao poder, e por ser por ele instituído diz-se Estado de Direito.
A LEI "CEGA" A JUSTIÇA

Mas de quem é o direito? Quando este mesmo povo é acuado por leis arbitrárias e exige do Estado mudanças, condições mínimas de subsistência, o séquito institui o Estado de Sítio e dizem promover a revolução protegido por forças militares, chamando o povo que o sustenta de insubordinado e aplicam a lei por ele instituída cerceando o povo da liberdade, Igualdade e Fraternidade, meras palavras de dicionário, enchendo as masmorras com estes inimigos do Estado. A Revolução Francesa, a Comuna de Paris e a Primavera dos Povos, foram se esvaziando até os depostos do passado assumirem novamente com outra roupagem, seus antigos postos de poder, e os mesmos reis assumiram os governos que hoje regem o mundo.
O AMIGO DO MEU AMIGO PODE SER MEU INIMIGO, VIGIAI-O!!!

As revoluções com participação popular, foram submetidas a aceitarem a “nova ordem”, pela mesma “velha ordem” dos hoplitas, aquelas que foram patrocinadas pelos impérios dos quartéis. O sangue derramado que manchou muitas bandeiras foram em vão! O poder é mentirosamente falso.
Todos os governos querem a submissão dos governados, independente de suas ideologias, eles querem a luxúria dos palácios.
Todos os povos falaram desta opressão, do rei e do Estado moderno semelhante em todos os lugares da Terra, usaram de sua condição humana para expressar a indignação dos governantes do Estado:
1)      Frase da filósofa Ayn Rand, fugitiva da revolução russa, pronunciada em 1920, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920, mostrando a visão das atrocidades do poder:
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem nada produz; quando comprovaque o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".

2)      A revolta por serem, por muito tempo, vilipendiados e extorquidos pela fidalguia reinante, escutava a tentativa de um ministro italiano em persuadir aos colonos de não saírem para a América, em diálogo com o colono que responde:
“Que coisa entendeis por nação senhor ministro?
É a massa dos infelizes?
Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos os animais, mas não comemos a carne...
Apesar disso, vós nos aconselheis a não abandonar a nossa pátria!
Mas é pátria a terra que não se consegue viver do próprio trabalho?

Deixaram em trovas suas indignações aos governantes que se achavam donos até da liberdade:

"Nós, italianos trabalhadores,
Alegres, partimos para o Brasil,
e vós que ficais, da Itália senhores
Trabalhai empunhando a enxada
Se quereis comer"

3)      "OS DIAS DA COMUNA"
Bertold Brecht

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Consideramos que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos tomá-lo
Considerando que ele nos aquecerá

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que o que o governo nos promete
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.

Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!
      4)     Samīħ al-Qāsim, poeta e escritor druso-israelense
      Talvez!


Talvez eu perca – se assim o desejas  - o meu salário;
Talvez venda as minhas roupas e meu colchão;
Talvez trabalhe como lixeiro ou como pedreiro;
Talvez procure grãos no estrume;

Talvez fique nu e faminto,
mas não comerciarei!

E até a última pulsação das minhas veias,
hei de resistir.

Talvez tire de mim o último torrão de minha terra;
Talvez botes na cadeia minha juventude.

Talvez roubes a herança dos meus avós:
os móveis, os talheres e as vasilhas.

Talvez queimes meus poemas e meus livros;

Talvez jogues meu corpo aos cães;
Talvez sumas no terror com nossa aldeia,

mas não transigirei!

E até a última pulsação das minhas veias,
hei de resistir!

Talvez apagues todas as luzes da minha noite;

Talvez afaste o amor de minha mãe;
Talvez deturpes a minha história;

Talvez coloques máscaras para enganar os meus amigos;

Talvez ergas ao redor de mim muros e muros,
mas não transigirei.

Oh, inimigo do sol!
E até a última pulsação de minhas veias,

hei de resistir!



5)      A América ganhou o vício da velha Europa, daqueles destronados ávidos por uma nova coroa, mantiveram a mesma estrutura de tornar escrava uma terra “sem males”. Hoje a América é tão corrupta quanto o resto dos impérios!
Vergonha de ser honesto.
Rui Barbosa
De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

A VIDA DO BOXEADOR “JACK O TERRÍVEL” OU JOAQUÍN MARÍN Y UMAÑES

SANTO AMARO E O PUGILISMO
Santo Amaro, em São Paulo, possui uma história que muitas vezes se confunde realidade e mito. Os mitos parecem nascer após expirar a vida e então construir algo irreal: “-me um ídolo morto e te darei um mito”. Outros escreveram sua história, mas foram esquecidos pelos registros historiográficos.
Joaquín Marín nasceu a 15 de fevereiro de 1903, em Sevilha, ma Espanha, onde foi campeão nacional e chegou a disputar o título europeu, na década de 20, segundo o professor Waldemar Zumbano, conhecedor da história do pugilismo. Wademar Zumbano[1], que lutou em São Paulo a mesma época que “Jack”, afirmava que ele se apresentava “com técnica e franqueza, tão leal como firme”. No Brasil fez muitas lutas, especialmente em São Paulo, Santos e Rio, e perdeu poucas. Era conhecido por alguns particulares: costumava quebrar garrafas no queixo, fazendo-o sem se cortar.

Rua Amaro André,  travessa da Rua Barão do Rio Branco, antiga Aurora, em Santo Amaro. Ao fundo vê-se o antigo "armazém" que resiste ao tempo, do senhor Nilo Placona Filho, conhecido por Lico Boeninha. 

Vê-se a esquerda resquício da antiga Plásticos Dias-depois York - Terreno a venda para empreendimentos imobiliários.

A família de Joaquín Marín y Umañes residia à Rua Amaro André, 149, uma travessa da Rua Barão do Rio Branco, antiga Aurora, em Santo Amaro próximo a Plásticos Dias, (depois York). Joaquín Marín, na década de 1930 subiu aos rinques para defender a nobre arte, com o nome de "Jack, O Terrible".

O próprio lutador confirmava ter sido “um dos primeiros boxeadores da América Latina, tendo desenvolvido o esporte nos Estados Unidos, aos 15 anos. Lutou até aos 30 anos, passando pelo México, Argentina, Chile e Uruguai. Lembrava ter feito mais de 100 lutas e perdido sempre que enfrentava “gente mais pesada”. (sua massa era de 66 quilos, estando na classificação atual entre meio médio)
OS MAIORES CAMPEÕES PROFISSIONAIS APRESENTAVAM-SE AO MUNDO
Os contemporâneos de boxe lembram que “Jack” sempre gostou de manter-se “independente”, em relação a sua vida particular. (...)

Joaquín Marín preferia recordar-se de fatos pitorescos de sua carreira. Conta que ainda pugilista foi pedir em casamento a filha de conservadora família de imigrantes alemães de Santo Amaro. Belmira Helfenstein, com quem se casou e tiveram os filhos: Maria do Carmo (conhecida por Zuca), Yvonne, Marina e José Maria. De início a sogra não gostava de sua atividade no boxe, exigindo: “Trate de arrumar um emprego, pois minha filha não come socos!”

Enquanto isso, a população de Santo Amaro ainda estava influenciada pelo desempenho do Padre José Maria, que conseguiu quase que sozinho a nave central da igreja Matriz, em 1924.
SANTO AMARO: Rua Pe. José Maria com Rua Barão do Rio Branco em 1960
O coronel Isaias Branco de Araujo, prefeito à época do Município de Santo Amaro, deu o nome do padre José Maria a rua frontal ao frontispício da Igreja Matriz de Santo Amaro. Foi certamente pelo espírito religioso que Joaquín Marín e Belmira deram nome do padre ao filho nascido em 6 de maio de 1932.

Na década de 1920 era anunciadas lutas no “Centro Pugilístico Manoel Lacerda Franco” · onde a emoção estava a cargo de grandes pugilistas da época. Na noite de 24 de novembro de 1929 era cartaz o confronto entre Caetano e Huber. Os árbitros mais cotados à época eram Amadeu da Silveira Saraiva, pioneiro da aviação em São Paulo[2], Armando Silva e Moacyr Barbosa Ferraz que estavam à frente dos grandes espetáculos. Na mesma época se apresentava outros pugilistas em São Paulo: Klausner, Haki, Ítalo, Bellini, Antonio Portugal, Zanini, Estevan, Buttori, Peter Johnson.
ERA O AUGE DA "NOBRE ARTE" E APARECIAM AS ACADEMIAS DE PUGILISMO
Em 04 de Novembro de 1936 nascia a Federação Paulista de Boxe fundada, pelos Clubes Espéria, Palestra Itália (SE. Palmeiras), Associação Atlética Guarani, Clube de Regatas Tietê e São Paulo Boxing Clube que dava base aos pugilistas profissionais e amadores brasileiros disputarem títulos oficiais nacionais e internacionais.

Fontes:
Almanach Esportivo, 1929(com fotografias de Miguel Falletti, da "Gazeta")

Folha da Manhã, 25 de novembro de 1929

O Estado de São Paulo, 14 de junho de 1981

Oliveira, Taciano de  e Rosa, D. de Miranda : O Pugilismo. Imprensa Methodista, S. Paulo, 1924.

Zumbano, Waldemar : O Box ao Alcance de Todos. Editora Brasiliense Ltda., S. Paulo, 1951

H. Manteucci: Luzes do Ringue. Hemus, S. Paulo, 1988.


PROJETO DE LEI Nº 101, DE 2004: Dá o nome de "Professor Waldemar Zumbano" à Sala da Secretaria dos Cursos do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, no bairro do Ibirapuera, São Paulo.

Documentário "Quebrando a Cara", de Ugo Georgetti , 1983.

Duarte, Orlando. A História dos Esportes. Editora Senac, SP, 2004.









[1] O maior boxeador brasileiro de todos os tempos, Eder “Zumbano” Jofre, nasceu em uma família de pugilistas: tanto por parte do pai, Kid Jofre (Aristides Pratt Jofre, chegou ao Brasil em 1928, oriundo de Buenos Aires, Argentina ) como por parte da mãe Angelina Zumbano, da família dos pugilistas Waldemar Zumbano, Ralph Zumbano e Antonio Zumbano (Zumbanão) Waldemar Zumbano foi técnico da equipe brasileira de boxe para os Jogos Pan-Americanos de 63. O Ginásio do Pacaembu  criado em 1940 “assistiu” lutas de brasileiros de nível internacional, como Atílio Lofredo e Antônio Zumbano. Zumbanão foi o primeiro grande astro do boxe brasileiro, ficando absoluto de 1936 a 1950, realizando cerca de 140 lutas, ganhando muitas  por nocaute.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Belo Antonio de Santo Amaro

NEM TUDO É PROGRESSO!
Em 24 de maio de 1961, foi inaugurado no canteiro central do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, um abrigo para paradas de transporte coletivo. A cidade como um todo estava se transformando, afinal estávamos em uma época expansionista do mercado automobilístico, havia interesse de modernidade dos grandes centros urbanos, abolindo os bondes pelos ônibus automotores movidos a combustível líquido. Vínhamos de um governo com ideais de modernidade idealizando o slogan “50 anos em 5”, de JK,  misturado à turbulência dos quartéis atentos as atitudes governistas, preparando o modelo que ainda se reflete com atitudes repressivas do Estado atual. O momento parecia delicado, mas Santo Amaro estava também remodelando sua mais importante referência: O Largo 13 de Maio.

Á época era o subprefeito em exercício, em Santo Amaro, o engenheiro Silvio Cariani que era assessorado por Joviano Dias Pinto, que fiscalizou o empreendimento projetado e idealizado pelo engenheiro José Victor Oliva. (há homônimo de empresário do ramo da comunicação e haras)

Em matéria do jornal Gazeta de Santo Amaro, de 05 de janeiro de 1961, no seu número 37, era estampada o titulo: “OBRA ARROJADA NO LARGO 13 DE MAIO”, onde no subtítulo “ABRIGO DE BONDES” descrevia:

“A localização do abrigo de bondes foi determinada para o centro do Largo 13 de Maio, por ser este seu ponto, e, ao mesmo tempo, para deixar livres duas vias de trânsito. O projeto deste abrigo é dos mais arrojados e não tem notícia de que, ao menos no Brasil, tenha sido construído outro nos mesmos moldes. As colunas centrais, em forma de Y, servirão de sustentação às duas lajes que abrigarão os passageiros e, ao mesmo tempo, tornarão desnecessárias colunas laterais. Os bondes passarão ao lado das colunas centrais. Como se vê, a fisionomia de nossa praça principal será radicalmente modificada.”

Na mesma matéria dava-se ênfase também na implantação dos coletivos urbanos com o subtítulo: “ABRIGO DE ÔNIBUS”, descrevia:

“O abrigo de ônibus, que esta quase concluído, foi localizado junto À Igreja Matriz, por ser este o outro ponto morto do largo. O estacionamento de veículos para o recebimento de passageiros, não prejudicará o livre tráfego naquele local. As obras do Largo 13 de Maio estarão prontas até março. Assim a Sub-Prefeitura oferece uma útil contribuição às comemorações do IV Centenário de Santo Amaro”.

Todo este arrojo parecia que não resolvia a locomoção, havia um obstáculo no centro de Santo Amaro, que obstruía o livre trânsito, congestionava o local mais ainda. Remanejaram os taxis, os trilhos das linhas dos bondes permaneciam as mesmas, onde saindo do Largo São Sebastião (atualmente Bonneville) tinha seu maior fluxo de passageiros na parada oposta ao novo empreendimento “arrojado em forma de Y” e todos começaram a desviar do local exceto os coletivos obrigados a confluírem para a parte central do Largo 13 de Maio.

Nesta época foi lançado o filme “O Belo Antonio” [1] com o artista italiano Marcelo Mastroianni que interpretava um homem esbelto chamado Antonio. Mesmo amado por todas as mulheres, casado com Bárbara, (Claudia Cardinale) jovem rica, seduzida pelos seus dotes fisionômicos, mas que “não funcionava” nas suas funções orgânicas. Na década de 1960, virou moda chamarem o que era grande, imponente, bonito, de Belo Antonio, porque apesar de todos os adjetivos positivos, não funcionava para a finalidade a que foi determinado. O Simca Chambord, carro lançado em 1958, no Brasil, recebeu a alcunha de Belo Antônio, por ser bonito, mas que não funcionava a contento. Não demorou muito para um novo batismo acontecer, fazendo parte do folclore santamarense, pela sapiência do povo; incluiu-se na lista das coisas sem função mais um Belo Antonio: a parada central de coletivos do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro.

Durou pouco, demoliram sem muita pompa política e sem dizer adeus. Agora embargaram a obra do metrô linha cinco Lilás, de Santo Amaro à Chácara Klabin. Aguardemos os fatos, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém e gato escaldado tem medo d’água fria, por causa de um superfaturamento, esperamos não receber um “novo” Belo Antonio.





[1] O Belo Antônio (Il Bell'Antonio). Produção italo-francesa de 1960. Direção de Mauro Bolognini, adaptado ao cinema do romance de mesmo nome de Vitaliano Brancati.

A Arqueologia em Santo Amaro

HISTORIOGRAFIA E ARQUEOLOGIA EM SANTO AMARO

A arqueologia dedica-se ao estudo de épocas várias para abordar as sociedades desde grupos aborígenes somados ao contato com a colonização européia vindas na imigração. Disto resulta a aproximação com historiadores onde a fonte material une-se em somatórias interdisciplinares.

Os objetos e edificações contam o que muitas vezes não foram escritas e até contradizem a versão oficial do poder que quer teimosamente oficializar suas intenções de controle.
A conexão entre outros continentes trouxeram diversidades de louças, vidros, metais. As edificações destacam o modelo anterior e sua técnica construtiva.

Restos de fogueiras, pedras lascadas, cerâmica, gravuras rupestres trazem informações de um passado anterior ao sistema colonial, que formam pistas para a etnografia.

O material recolhido revela as camadas civilizatórias vestígios da ocupação de grupos com suas características abordadas em fragmentos, definida pelas profundidades das camadas, sendo que, cada uma corresponde a um período determinado, parte deste material e classificado com anotações definidas e são enviados a laboratórios específicos para datações com métodos de quantidade de carbono, presente nos corpos orgânicos, como ossos, madeira, carvão, sementes, encontrados nos sítios de ocupação.

Analisar, decodificar e desmistificar para tornar a história legível no presente numa reconstrução da identidade. Essa memória e tradições e o comprometimento revelam aspectos culturais da localidade.

Santo Amaro revela seu passado
Santo Amaro, devido a expansão das linhas metroviárias de São Paulo, faz parte de toda uma estrutura através da Linha 5, Lilás, que até o presente, une uma distância de 8,4 quilômetros entre Capão Redondo ao Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, e esta sendo ampliada com mais 11,7 quilômetros até atingir o outro extremo da região sul da capital na Chácara Klabin.
Desta expansão resultaram procedimentos técnicos para catalogar as áreas físicas onde foram providenciados estudos históricos e arqueológicos, havendo participação nas indicações de determinados pontos onde se requeria apurar mais detalhadamente por se tratar de locais onde poderia indicar maior presença de mudanças por interferências humanas. Nestas escavações foram encontrados sedimentos em que as camadas anunciavam a presença do homem, através de focos de fogueiras, cerâmicas, vidros e louças importadas em um determinado estágio, caracterizando uma mudança de ações, onde o fogo e a cerâmica era presença marcante, anunciava culturas controlando essa técnica rústica e artesanal, sem demérito, anunciava um modelo próprio de interação do bugre e do caipira abandonados a própria sorte em sua existência. Já a presença dos vidros e louças, técnicas mais complexas, deslocou-se juntamente com a imigração maciça européia, incluindo até muitas vezes porcelanas da China, trazidas em bagagens.  Fragmento de um modelo muito usual no século 19 como telhas meias-canas apresentam um modelo onde o homem fixa-se no local com características sedentárias e transformando as choupanas em construções de taipas de pilão, ou adobe, trabalhando o barro para construção de suas moradias, sendo a palha e o sapé substituídos nas coberturas. Há fragmentos de material cozido de alvenaria, muitas vezes fabricadas por uma olaria local com seus fornos, sendo que a vasta vegetação fornecia o carvão necessário que providenciava o combustível para o cozimento. Por vezes, anterior a este processo, os tijolos eram fabricados pelos próprios moradores, que misturavam ao barro um capim macerado e que era deixado ao sol para que o mesmo pegasse consistência.

Há de se destacar também que houve transformações de um modelo usualmente caracterizado em determinada época, aproveitando os recursos locais disponíveis. No século 20 aparecem transformações deste modelo anterior, começando a predominar o uso do concreto.
Deste momento a arqueologia deparou-se com sapatas numa profundidade aproximada de 1,50 metros e que por estar no centro do Largo 13 de Maio, parecia sem sentido haver uma construção arrojada com técnica moderna. Foram identificadas como fazendo parte de um projeto recente, do início da década de 1960, sendo um abrigo em uma tentativa de melhorias no sistema de locomoção concentrar os coletivos urbanos para uma fluidez racional em Santo Amaro.
As bases faziam parte deste abrigo, onde circulariam os bondes, (onde foram encontrados também trilhos soterrados) e ônibus simultaneamente, mas onde bondes já estavam em fase de substituição.
Estas sapatas (bases de sustentação do abrigo) “descobertas” nas escavações faziam parte de uma construção “moderna”, para receberem os coletivos urbanos. Este abrigo foi chamado pela população de Belo Antonio!
Enfim todo este material foi recolhido para fazer parte de estudos futuros destas interferências humanas e que foi possível observar e analisar com rigores científicos embasados por profissionais contratados pelo Metrô.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Transporte sobre trilhos em Santo Amaro e a Malha Viária

UM COMPLEXO “COMPLEXO”: Transporte de "Massa" em São Paulo

Atualmente com a expansão da linha 5 do metrô[1] (As construtoras Camargo Corrêa, Mendes Jr, Heleno&Fonseca, Carioca, OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão e Consben estipularam na licitação para a construção da linha Lilás de 14 lotes disputados entre empreiteiras, e com custo estimado em R$ 8 bilhões)  sendo ampliada para ligar a região de Moema, onde haverá uma estação vizinha a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, indo para a região do Jabaquara (Santa Cruz) cruzando o lado sul da região antiga da cidade de Santo Amaro, terminando em estação da Chácara Klabin, perfazendo 11,7 quilometros de extensão.
Avenida Rodrigues Alves-INDIANÓPOLIS
Avenida Ibirapuera-MOEMA

MUDANÇAS DO "PROGRESSO"

Muitos outros revolucionários empreendimentos já foram cotados nesta importante região paulista sendo a primeiro através dos trens a vapor Krauss, de tecnologia alemã, que circulou por a antiga Avenida Rodrigues Alves, e começou suas atividades em 1886 por iniciativa de Alberto Kuhlmann[2], qe providenciou caução de 5:000$000, para construir a Cia. Carris de Ferro de Santo Amaro de1886 a 1900, quando adquirida pela The São Paulo Tramway Light and Power Co. Ltd. pelo preço de 155:000$000, sendo a escritura lavrada em definitivo em dezembro de 1902. Até 1910, esta linha circulou entre a Liberdade e Santo Amaro, com aproximadamente 19 quilômetros de extensão, teve importância para a região, pois transportava a produção agrícola de Santo Amaro para abastecimento da cidade de São Paulo, além dos sitiantes “botinas amarelas”.

Em 1914 esta linha a vapor foi substituída pela eletrificação, sendo desativada completamente dando origem a novos investimentos no sistema de transporte por trilhos da Light and Power canadense, controladora desde então dos tramway, mudou-se a bitola antiga dos vapores Krauss de 1,00 metro, (consta ter sido 1,05 metros) chamada de métrica, para as de 1,435 metros, considerada bitola padrão, onde receberiam os primeiros bondes da empresa americana de bondes da J. G. Brill, na Filadélfia, Estados Unidos, embora prevalecesse uma mistura de fornecedores como os bondes elétricos da United Electric Co., em Preston, Inglaterra, que em  1918 passou a denominar-se English Electric, Canadian Car Company entre tantas. Atualmente uma gama enorme de multinacionais que assinam vultosos contratos de fornecimento de equipamentos fazem as vezes destas antigas empresas do passado para a construção do metrô paulistano, pois sucumbiram empresas nacionais como COBRASMA E MAFERSA, mataram-nas no nascedouro, num aborto de interesses financeiros.
Hoje, depois do término do transporte urbano sobre trilhos percorrido pelos bondes em Santo Amaro até 27 de março de 1968, onde findou este meio de transporte em São Paulo, engolido pelo sistema do transporte de coletivos urbanos de motores a explosão de combustível a diesel ou gasolina, controlado a partir de 1947 pela Companhia. Municipal de Transportes Coletivos - CMTC de São Paulo. (Que inclusive passou a controlar os bondes)
Atualmente os ônibus fazem parte de um monopólio fortíssimo na mão de poucos empresários, queimando óleo diesel dispensando a energia elétrica, como meio de energia limpa, que foi dispensado nos ônibus elétricos, restanto poucos na capital paulista.

No hodierno vemos novamente os trilhos “chegarem” como novidade para as gerações atuais, que não conhecem este lado da historiografia, que seus idealizadores insistem em soterrarem. O Brasil infelizmente adquiriu ao longo de sua história do transporte a tecnologia estrangeira, por vezes obsoletas ou em estágio de adaptação para melhorias futuras em seus países de origem, sem questionar padronização de equipamentos haja vista que em muitas localidades houve dificuldades inclusive normalizar ao menos a largura entre trilhos havendo baldeações que atrasavam muitas viagens. Descer de uma linha com 0,76 metros para entrar em outra de largura de 1,00 metro, dentro da capital usavam a bitola 1,435 metros nos bondes. Hoje, poucos falam, mas São Paulo adquiriu truques[3]para linhas ferroviárias, com a bitola (largura) internacional, ou seja, os trilhos precisam estar com as medidas de 1,668 metros,(bitola ibérica, para acolher trens usados da Espanha, que circulam na Linha CPTM, da zona sul) enquanto as anteriores foram de bitola 1,435 metros!   

Em 2012 apareceram determinados grupos políticos anunciando intervenção para discutir Plano Diretor de São Paulo, pedindo urgência, mas que questão discute estes senhores atrasados nas suas reivindicações? Unicamente desejosos de abarcarem para si todos os holofotes da mídia dizendo-se preocupados com o expansionismo desordenado de Santo Amaro. Por que discutem agora? Porque é um ano típico de políticos reivindicarem causas para si e dizerem-se interessadíssimos com o sistema de transporte urbano em São Paulo, especificamente na zona sul, questionando a sua malha viária tardiamente, quando o expansionismo imobilário já se concretizou, acarretando um fluxo maior para a região de Santo Amaro. Desafia-se entre vários egrégios representantes do povo nas assembléias, em suas Câmaras, quem use o sistema coletivo existente normalmente para locomoção, e não para inaugurações eventuais.
Aguardamos novas alternativas que melhorem o sistema ferroviário de São Paulo sucateado ao longo de meio século quando se optou pelo sistema rodoviário, salvando a economia européia do pós-guerra.





[1] Linha 5 recebe R$ 1 ,1 bilhão (Jornal da Tarde, 21 de abril de 2010)
Dinheiro veio de instituições financeiras internacionais e será usado na expansão
Em pouco mais de um mês, a Linha 5-Lilás do Metrô de São Paulo recebeu US$ 1,13 bilhão de empréstimos de instituições financeiras para obras de expansão. A linha liga hoje o Capão Redondo ao Largo Treze, em Santo Amaro, zona sul. O prolongamento prevê ampliação do ramal até a Chácara Klabin, interligando com a Linha2-Verde e a Linha 1-Azul, na Estação Santa Cruz, até 2013.

Ontem, o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) aprovou financiamento de US$ 650,4 milhões. No dia 10 de março o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já havia anunciado a aprovação de um outro empréstimo, no valor de US$ 481 milhões.

As verbas serão usadas, segundo o governo estadual, para a compra de 26 novos trens e para a implantação de um novo sistema de sinalização no ramal, que deverá proporcionar a diminuição da espera nas estações. Os novos trens deverão funcionar também no sistema driveless, sem condutor.

Nas estações, o projeto é implantar portas de plataforma, que abrem simultaneamente com as portas das composições nos embarques e desembarques.

[2] Georg Albrecht Hermann Kuhlmann, nascido na Alemanha e naturalizado brasileiro, formou-se engenheiro na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Em 1879 vem para São Paulo, onde de 1883 a 1886 construiu a Ferrovia de Santo Amaro.
[3] Truque (inglês: truck) é formado de um conjunto geralmente de quatro rodas fundidas de alta resistência a compressão, sapatas de freio, rolamentos, molas, eixos, cilindros de freio, barras estabilizadoras e outroos acessórios complementares, que sustenta a estrutura dos veículos ferroviários.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cartas de Datas (terrenos) em Santo Amaro e outras providências

Petição do professor Francisco Antonio das Chagas, pai de Paulo Francisco Emílio de Salles, o poeta Paulo Eiró 

As datas eram porções de terrenos, lotes pequenos da Vila de São Paulo eram pedidos e dados aos moradores pelos oficiais da Câmara, que deveriam providenciar o registro deste imóvel.

Até julho de 1583 não havia Livro de Registros em São Paulo e tudo era feito em Livro de Atas da Câmara, depois desta data os registros passaram a ser feitos em livro próprio.

O Arquivo Municipal de São Paulo, nas Revistas do Arquivo Municipal publicaram-se as Atas de Santo Amaro e os Registros Gerais da Câmara, inclusive Cartas Régias, onde se podem encontrar cartas de datas, em meio a tantas variadas disposições especificas de São Paulo.

Santo Amaro era um vasto latifúndio de interesses nos seus 640 km2. Podemos sentir isso logo no inicio da colonização local através de “homens bons” requerendo parte de um quinhão enorme do Caminho de Virapoera:

Requisições de terras do século 16 em Santo Amaro

Baltazar Gonçalves e Belchior Carneiro – 12/12/1598- Com muitos filhos. Pedem chãos no caminho do Virapoiera. Recebem 20 braças cada um.

Pedro Nunes, Manoel Fernandes e Fernão Marques- 18/12/1598- Filhos de conquistadores antigos. Terras no caminho de Burapoera a começar com João Fernandes, genro de André Mendes. Pedem 50, recebem 20 braças cada um.

André de Escudeiros e Jaques Felix- 18/12/1598- Vizinhos a muitos anos. Terras na Vila de Burapuera, partindo com Nuno Vaz Pinto, ao longo do caminho, até Maria Ribeiro. André recebe 20 braças e Jaques 10.

João Homem da Costa- 30/11/1618- Morador da vila, casado com filha e neta de conquistador. Recebe 20 braças de sobejos onde se achar. (Petição feita por Manoel Homem da Costa)

Baltazar de Godoi, o moço, Belchior de Godoy e Mariana de Lara, viúva- 17/3/1640- filhos e netos de povoadores. Chãos partido do lugar onde Paulo do Amaral fez uma .... caminho do Virapoeira. Dão 10 braças para cada um.

Francisco Gonçalves- 17-3-1640- Casado com filha e neta de povoadores. Chãos partindo com João de Godoi, na rua nova que se fez indo p/ o Virapoeira.

Amaro Alvres e Antonio Alvres- 7/4/1640- Filhos e netos de povoadores pedem chãos partindo com João Paes no caminho de Santo Amaro.( talvez Alvres refere-se a Alvares, nota do autor do blog)

O Professor Francisco Antonio das Chagas e a petição de data para instituiçaõ de escola

Anterior a Lei da Terra datada de 1850, requeria junto a Câmara de Santo Amaro, uma data (terreno) por providência do professor Francisco Antonio das Chagas, pai de Paulo Francisco Emílio de Salles, o poeta santamarense Paulo Eiró.

Francisco Antonio das Chagas assumiu o controle municipal quando da instituição da cidade de Santo Amaro em 1832, sendo que a primeira sessão foi em 6 de maio de 1833. Sua petição, Para instituir uma escola, evidentemente é anterior ao fato citado, portanto quando Santo Amaro possuía as atribuições de Vila.

A primeira sessão Cidade de Santo Amaro ocorreu em 6 de maio de 1833 presidindo a edilidade o Professor Francisco Antonio das Chagas, nos quais fora nomeados os senhores Borba, para fiscal e suplente para a freguesia de Itapecerica. O senhor Antônio Pires de Albuquerque para Fiscal, e suplente Anselmo Godoi. Para procurador nomeou-se Amaro Antonio da Guerra e para procurador Job Antonio de Moraes. Para coletor de rendas nacionais o senhor Jose da Silva de Carvalho

Assinou a presente ata os senhores Francisco Antonio das Chagas, Manuel Joaquim do Rosário, José Fernandes Moreira, Antonio Bento de Andrade e Bento Francisco de Moraes.

Ainda nesse dia foi iniciada a distribuição de datas (terrenos) no perímetro urbano, cabendo a primeira data a Manoel José Simões Guimarães. Em 4 de março de 1835 foi eleito o prefeito municipal de Santo Amaro, o capitão Manoel José de Moraes.

Requeria uma data (terreno) o professor Francisco Antonio das Chagas em 1831, para instituição de uma escola. Segue documentação desta petição.
Carta de data de terras passada a Francisco Antonio das Chagas, na Freguesia de Santo Amaro

A câmara municipal da imperial cidade de São Paulo faz saber aos que a presente Carta de Data de terras virem, que em sessão de 11 de julho próximo passado, lhe foram apresentado o requerimento e informação de teor segue.  Excelentíssimo senhores presidente, e membros da Câmara Municipal. Diz Francisco Antonio das Chagas, atual professor de primeiras letras da freguesia de Santo Amaro, que ali reside em casa própria, porém sendo esta tão acanhada, que apenas tem 32 palmos de frente, não tem em toda ela as comodidades necessárias à sua família, ainda mais se achando ocupada com a sua aula uma pequena sala da mesma casa, que igualmente não dá o agasalho preciso aos seus alunos; portanto se vê o suplicante na urgente necessidade de construir outra morada com as comodidades indispensáveis, para que pede a vossas senhorias se dignem conceder-lhe por carta de data, em um terreno devoluto existente na extremidade da rua denominada direita, dez braças de frente ao pátio do cavalheiro, e o competente de fundo, e receberá mercê. Excelentíssimo senhores o terreno pedido pelo suplicante é devoluto.

Santo Amaro, 04 de julho de 1831

Joseph Antonio das Chagas, Fiscal

Em conseqüência do que deu o despacho seguinte:

A câmara, resolve, que se proceda a vistoria, arruamento na forma do artigo 5º das posturas, e deliberamento  de 20 de abril do não próximo passado

São Paulo, 11 de julho de 1831 França. Azevedo.

E procedendo-se a mencionada vistoria, e ao arruamento e alinhamento, foi tudo presente a da câmara, que mandou passar carta da data com as dimensões, e confrontações seguintes; tem o terreno nove braças de frente, e quarenta de fundo, de um lado confina com a rua direita, e de outro com o terreno hoje concedido a Antonio Bento de Andrade pelo que se manda passar a presente Carta de  data para servir de Título ao doutor Francisco Antonio das Chagas, a quem se concede todo o  terreno compreendido na  referida  demarcação para que logre para sempre para si e seus sucessores sem prejuízo de terceiros com as obrigações do costume de edificar, e beneficiar a terra em questão, podendo fazer nela tudo quanto lhe aprouver, e devendo fechar o dito terreno na forma do artigo 19 das Posturas, pena de se haver por devoluto, uma vez que não cumpra para o futuro com as referidas condições, e esta será registrada no Livro competente, e leva o selo desta Câmara. Paço do mesmo em São Paulo 13 de agosto de 1831.

Joseph Xavier de Azevedo Marques, secretario interino a escreveu.

Lugar do selo da Câmara.

Joseph Manoel de França

Joaquim Antonio Alves Alvim, Francisco Garcia Ferreira, Antonio Joaquim Xavier da Costa, Joquim Floriano de Godoi,  Joseph M. da Silva. Por despacho da Câmara de 13 de agosto de 1831. Joseph Xavier de Azevedo Marques número 264. Lugar do selo da causa pública Pagamento 80 réis de selo. São Paulo 20 de agosto de 1831. Godoi, Brito, Conferente Azevedo(Cartas de Datas, volume 181, página 23)

Esta carta consta também dos papeis avulsos, 1831, assim com a conta da vistoria que é a seguinte:
Conta

Pagamento o secretário em Santo Amaro

Auto e camo                                   $375

Rasa                                                $162            $537

pagamento  o arruador

de alinhar 58 braças a 20                                   1$160

Pagamento o secretário da cidade

Rasa                                                  $066

Feitio e registro da Carta                2$400

Selo da data pagamento                    $080         2$546

                                                          Tudo          4$243

Referências:

PROJETO COMPARTILHAR. Coordenação: Bartyra Sette e Regina Moraes Junqueira

Carta de data de terras passada a Francisco Antonio das Chagas: Extraído de folhas 5 do Livro Cartas de Datas de Terra (1831 a 1832)

Caldeira, João Netto. Álbum de Santo Amaro. São Paulo: Ed. Bentivegna  & Netto., 1935